O problema está na escala: estas pessoas, por narcisismo, ou
só por estupidez, tiram selfies com o telemóvel encostado à cara. Resultado:
temos uma foto de uma cabeça em ponto grande. Eu chamo-lhe “híper-selfie”. É apostar
as fichas todas na cabeça.
“Olha o Taj Mahal lá atras! Ou uma torre de um castelo de
um parque de diversões. Não sei, só vejo uma cabeça…” É isto: supostamente, há
uma cena lá atrás. Mas só vemos uma cabeça.
Grande.
“Olha a Torre Eiffel lá atrás! Ou uma antena de uma estação
de rádio. Não sei, só vejo uma cabeça…” Desiste de interpretar. É só uma
cabeça, mesmo.
Grande.
Não há um grande problema com isto. Há três: não dá para ver
a paisagem; se a pessoa for feia, o teu feed do Facebook fica a parecer aqueles
cartazes a dizer “Procura-se”; se a pessoa for bonita, acabarás por te cansar
da beleza.
Outro mal que prolifera no Facebook: pessoas que comunicam
através de indirectas. Supostamente, têm um problema com alguém mas, em vez de
lho dizer directamente, publicam aquelas frases mesquinhas, do género “Se você
fala mal de mim, é porque não merece meu carinho”, ou “A você, que fala mal de
mim, digo: veja meu sorriso enquanto o ignoro”, ou ainda “Não enxergo quem me
quer mal: estou acima de todos eles”.
Este comportamento não tem um grande problema. Tem dois:
pode calhar que quem lhe queira mal não “enxergue” as suas publicações, por ter
accionado essa opção; nós, que não temos nada a ver com o assunto, temos que
ter esses posts no nosso feed. Quiçá, intercalados com cabeças gigantes.
Mais coisas: pessoas que se vangloriam de feitos não
passíveis de vanglória. Um exemplo: pés na praia. É fixe ir à praia, e tudo,
mas há milhares de pessoas na praia, todos os dias. A vaidade com que pessoas
publicam fotografias de pés na praia não é proporcional ao grau de dificuldade
de ir à praia. Toda a gente consegue ir à praia. Fotografar pés não tem um
grande problema. Tem dois: a praia é bonita, os pés nem por isso; há povo que
desdenha o corte de unhas.
Acontece o mesmo com bilhetes para concertos. Uma coisa é ir
a um concerto e até tirar um fotografia gira. Compro. Outra, completamente
diferente, é fotografar um bilhete. Eu só aceito que alguém fotografe um
bilhete se, quando for ao talho, fotografar a senha. Em termos de mérito para o
portador, a diferença entre um bilhete para um concerto e a senha do talho é o
preço: o bilhete paga-se e a senha do talho é de borla. Ainda assim, o preço do
bilhete para o concerto não faz de ti uma pessoa capaz de comprar um jacto
privado: faz de ti alguém que, caso fotografe esse bilhete, será, só, fatela.
Só mais um mal. Prometo. Este é mais raro, mais ainda me
aparece: perfis de Facebook de casal. O perfil de casal levanta questões
filosóficas complexas. Vamos imaginar um senhor de Braga que casa com uma
senhora de Guimarães. Porque eles se amam muito, ou porque acham que gastam
mais internet se tiverem dois perfis, fazem um perfil conjunto. Fofo, adorável.
Agora imaginem que surge uma publicação de apoio ao Sporting
de Braga. Não podem pôr “gosto”, porque metade do perfil conjunto é a favor,
metade é contra. Vamos imaginar que ele é de esquerda e ela é de direita. Querem
fazer uma publicação de teor político. Não dá, cada corrente de pensamento só
têm 50% dos deputados daquele perfil conjunto. Surge um debate sobre a
despenalização da eutanásia: ele é a favor, ela é contra. Mais uma vez, a
assembleia fica num empate. Surge um pedido de amizade: é uma amiga dela, que
ele não conhece. Porém, a amiga é gira. Ele torna-se liberal e conclui que, se
alguém está no Facebook, é porque não se preocupa muito com a privacidade. Pedido
aceite.
Agora imaginem a bomba atómica: um perfil conjunto publica
uma “híper-selfie”, com um bilhete para um concerto e com a legenda “Ignoro
você, que me quer mal, porque estou ocupado a ser feliz”.
O Facebook entraria em colapso.