O aumento
significativo do custo do arrendamento em Portugal, sobretudo nos grandes
centros urbanos, e a quantidade de pessoas que viram “La Casa de Papel”, são
dois dados independentes, para um observador desatento. Para mim, que acompanho
a actualidade com o mesmo interesse com que uma velhinha adorável acompanha os
programas da Fátima Lopes, uma coisa é directamente dependente da outra.
Toda a gente diz que
vê “La Casa de Papel” porque a história é viciante, porque o plano do assalto é
genial, porque não consegue viver sem ouvir o “Bella Ciao” ou porque dois
amigos viciados na série ameaçaram entrar no campo da agressão a quem não
começasse a ver também. Tudo treta. A malta anda é a estudar para fazer um
grande assalto à Casa da Moeda. Uma vez realizado o assalto, os seus executantes
não vão comprar ferraris. Nem um avião. Nem uma ilha no Pacífico.
Vão guardar o
dinheiro para pagar rendas.
Num futuro não muito
distante, algum recém-milionário vai ligar para um potencial arrendador e ter
um diálogo semelhante a este:
– Boa tarde. Gostaria
de saber o preço daquele apartamento de 16m² que fica numa cave e que não
tem casa-de-banho.
– Por mês, são dez
mil e quinhentos euros, dois frangos do campo e um dia de trabalho escravo.
– Excelente. Posso
trocar o dia de trabalho escravo por mais dois mil euros de renda?
– Negócio fechado. Eu
com esses dois mil euros contrato dois escravos e ainda sobra dinheiro.
– Pronto. Pago já 240
meses, só para garantir vaga.
Não digo, com isto,
que ter uma ilha no Pacífico não seja uma ideia agradável. Mas poder ter uma
casa não é menos agradável, e da forma que está o mercado imobiliário, assaltar
a Casa da Moeda nem parece assim tão arriscado, comparado com dormir na rua.
Para além de permitir
que sobre algum dinheiro para comer, depois de pagar a renda, assaltar um banco
pode ajudar a desenvolver outras competências que serão muito úteis, no futuro,
tais como a ocultação de identidade.
Imaginemos que um
recém-milionário deseja residir no centro da cidade. Nesse caso, ou anda
distraído ou é palerma, uma vez que toda a gente sabe que o centro da cidade é
para turistas bué modernos que usam o Airbnb. De forma a contornar este
obstáculo, o recém-milionário pode mudar semanalmente de identidade e alugar
sempre a mesma casa.
Se o senhorio
começar a desconfiar do facto de os sucessivos arrendatários serem muito
parecidos, o recém-milionário pode utilizar a desculpa de que são todos primos
e que vão passando a palavra entre eles, acerca do conforto das instalações e
sobre o facto de até terem espaço suficiente para uma pessoa se deitar.
Claro que nem todos
poderão assaltar a Casa da Moeda e, nesse caso, alternativas terão que ser
estudadas. Uma delas é aderir à escravatura. Em vez de ter que trabalhar para
terceiros, de forma a receber dinheiro para pagar uma renda exorbitante, o
arrendatário vende o seu trabalho (e a própria existência) ao arrendador. Tudo bem
que deixará de ter vida e vontade própria, mas nem tudo é mau: terá um caixote
de 2x2 metros, confortavelmente instalado numa garagem, onde poderá dormir
quentinho.
Outra hipótese é criarmos
um programa de televisão, em sinal codificado, no qual as pessoas entram num
labirinto e se matam por um T3 com varanda. Depois, vendemos os direitos de
transmissão para apoiar a habitação social.
Não faltará muito
tempo para que nos apareça um político a dizer que é preciso mudar o paradigma:
ter dinheiro para uma casa é coisa do passado. E que até há vantagens nisso:
quanto maior o número de pessoas a viver na rua, mais seguras ficam as ruas.