Os meteorologistas são o equivalente, na vida adulta, dos nossos pais quando éramos pequenos. “Estás a ver aquele passeio que ias dar no Sábado à tarde? Esquece, vão estar a chover pequenos rebos de gelo do tamanho de cerejas”; “Estás a ver aquela saída de bicicleta que tinhas planeado para Domingo de manhã? Esquece, só se pregares a bicicleta ao chão, porque vão estar vacas a voar com o vento”.
É isto que os meteorologistas fazem, tal como os nossos pais já o faziam, na nossa infância. Com a agravante de que os meteorologistas são pagos para nos dar más notícias, enquanto que os nossos pais ainda tinham que aguentar connosco em casa, de birra.
Apesar deste conflito sempre latente, o segredo da nossa boa relação com os meteorologistas está em fingir surpresa. É como quando nos contam um segredo sobre uma pessoa e essa pessoa acaba por nos revelar esse mesmo segredo: temos que fingir surpresa, para não estragar tudo. Com os meteorologistas, é o mesmo.
– Vai haver chuvadas de meter medo.
– A sério? No Inverno? Não pode ser!
– Vai estar muito calor.
– A sério? Em Julho? Não pode ser!
Os congressos de meteorologistas são bastante emocionantes. Há sempre um senhor que sobe ao palco e diz “Estimados colegas, estou em condições de afirmar, depois de um estudo de uma vida, que, o Verão é, tendencialmente, quente, e o Inverno é, tendencialmente, frio”. Há um silêncio ensurdecedor na sala. Está a acontecer Ciência, naquele momento. Depois, alguém diz “Espera, acho que a minha avó já me dizia isso quando eu era pequeno” e alguém diz “Isso é porque a tua avó era uma meteorologista e não o sabia”.
No fundo, os dotes de meteorologista são como as capacidades dos Jedi no “Star Wars”: nascem connosco. A habilidade de olhar para um céu nublado e dizer “vem aí uma tromba de água”, ou enfrentar um céu estrelado e dizer “amanhã vai estar um rico dia de sol”, é como o jeito para pintar. Ou se tem ou não se tem.
Depois, é só estudar bastante para perceber o anticiclone dos Açores e as frentes frias, saber distinguir o vento a soprar fraco do vento a soprar moderado a forte e saber onde fica Noroeste ou Sudeste, entre outros pontos cardeais.
Por estes dias, temos andado a saltar de tempestade em tempestade. Parecemos um pugilista que leva um valente sopapo, logo depois de se levantar do tapete. Já agora, porque é que chamam tapete ao chão do ringue de boxe? Não há ali tapete nenhum. E devia haver, para que os queixos caíssem em superfícies mais fofinhas. E devia haver um candeeiro e um sofá ao canto, para que um desportista pudesse levar sopapos num ambiente mais acolhedor.
Voltemos às tempestades. Neste jogo do boxe de saltar de tempestade em tempestade, os meteorologistas são o treinador, a gritar no canto do ringue. “Desvia-te! Levanta os braços! Ataca pela direita! Ataca pela direita!”. O que não se percebe muito bem, porque levantar os braços e desviar não são gestos úteis contra bolas de granizo do tamanho de cerejas e ventos capazes de arrancar pinheiros, sobreiros e aquele cacto pequenino que está num vaso na varanda. Uma pena, porque o pinheiro ou o sobreiro, pronto, não eram de ninguém, mas o cacto tinha sido oferecido pela tia Laurinda e tinha valor sentimental.
E com a nossa falta de juízo, o planeta está a aquecer e o clima a ficar maluco. Um dia, pior do que estarmos prestes a extinguir-nos, algo completamente irrelevante, enfrentaremos a tragédia de teremos congressos de meteorologistas que não saberão que tempo estará em Julho.
sexta-feira, 30 de março de 2018
A noite mais longa dos trolls
Declaro-me solidário com os trolls das redes sociais e garanto ter já criado uma pequena força de intervenção para prestar auxílio a quem está a dar os primeiros sinais de exaustão, depois de ter destilado ódio nas redes sociais, durante mais de três dias, sem descanso.
O passado dia 4 foi dos mais cansativos, em muito tempo. Não para mim, não para ti, talvez, mas para os trolls das redes sociais. Foi um Domingo com um nível de exigência semelhante ao de um treino de uma tropa especial, para os nossos amados internautas responsáveis por nobres tarefas como enxovalhar pessoas em caixas de comentários ou partilhar “fake news” de páginas cujo nome deveria ser suficiente para que ninguém as lesse.
Tudo tem o seu contexto. Vínhamos de um fim-de-semana futebolístico que começara na Sexta-feira, com um Porto-Sporting. Por outras palavras, começou cedo a tarefa árdua, ainda mais intensa ao fim-de-semana, de partilhar conteúdos de gosto ou veracidade duvidosos que possam enxovalhar os gostos clubistas de outras pessoas, sejam eles quais forem. O futebolista cansa-se a jogar futebol, o troll cansa-se a insultar os adeptos adversários. É tudo desporto, portanto.
Mas isto é normal, dia após dia, semana após semana. O problema é que, depois do jantar de Domingo, surge o Festival da Canção. Quando os trolls das redes sociais se preparavam para enterrar os machados de guerra, surgem não sei quantas canções, interpretadas por não sei quantas pessoas, e toca a criticar tudo e todos. “Isto é tudo feito, a RTP é um clube de amigos”, “De que se vestiu aquela gaja?”, “Este gajo é um palhaço”, ou “Que p*** de música é esta? Vamos ficar em último”, são alguns dos pequenos pedaços de paraíso literário que os trolls derramam em caixas de comentários, sob a forma de uma espécie de baba viscosa.
No fim, ganhe quem ganhar, é hora da turba se reunir, tal qual horda de zombies, e desancar em quem ganhou. Terminada esta tarefa, chega a hora dos trolls irem fazer ó-ó, certo?
Errado. Havia noite de Óscares. O troll pousa a batuta de maestro que comenta questões musicais e, em vez do pijaminha, veste o seu fato de gala e pega no seu caderninho de crítico de cinema. Tudo muito bonito, mas o troll não tira a camisola de imbecil "futeboleiro" e acaba por invadir as caixas de comentários das redes sociais com críticas aos filmes que ganham, acompanhadas por elogios aos filmes que deveriam ter ganho, inclusivamente, o “Velocidade Furiosa 42” e o “Vingadores: Guerra de Cenas e o Hulk”.
Sobre o movimento “Me Too”, os trolls pensam tratar-se de uma hashtag fixe para colocar no Instagram, a acompanhar uma foto no ginásio.
Pelo meio, continua a morrer gente na Síria e a Itália está em pantanas. Os poucos trolls que sabem que a Síria e a Itália são países consideram que a culpa é do sistema. Talvez seja dos poucos momentos em que têm razão. Só não sabem que o sistema somos nós todos.
Troll, se me estás a ler, enxovalha este texto que eu farei com que os primeiros socorros cheguem até ti.
O passado dia 4 foi dos mais cansativos, em muito tempo. Não para mim, não para ti, talvez, mas para os trolls das redes sociais. Foi um Domingo com um nível de exigência semelhante ao de um treino de uma tropa especial, para os nossos amados internautas responsáveis por nobres tarefas como enxovalhar pessoas em caixas de comentários ou partilhar “fake news” de páginas cujo nome deveria ser suficiente para que ninguém as lesse.
Tudo tem o seu contexto. Vínhamos de um fim-de-semana futebolístico que começara na Sexta-feira, com um Porto-Sporting. Por outras palavras, começou cedo a tarefa árdua, ainda mais intensa ao fim-de-semana, de partilhar conteúdos de gosto ou veracidade duvidosos que possam enxovalhar os gostos clubistas de outras pessoas, sejam eles quais forem. O futebolista cansa-se a jogar futebol, o troll cansa-se a insultar os adeptos adversários. É tudo desporto, portanto.
Mas isto é normal, dia após dia, semana após semana. O problema é que, depois do jantar de Domingo, surge o Festival da Canção. Quando os trolls das redes sociais se preparavam para enterrar os machados de guerra, surgem não sei quantas canções, interpretadas por não sei quantas pessoas, e toca a criticar tudo e todos. “Isto é tudo feito, a RTP é um clube de amigos”, “De que se vestiu aquela gaja?”, “Este gajo é um palhaço”, ou “Que p*** de música é esta? Vamos ficar em último”, são alguns dos pequenos pedaços de paraíso literário que os trolls derramam em caixas de comentários, sob a forma de uma espécie de baba viscosa.
No fim, ganhe quem ganhar, é hora da turba se reunir, tal qual horda de zombies, e desancar em quem ganhou. Terminada esta tarefa, chega a hora dos trolls irem fazer ó-ó, certo?
Errado. Havia noite de Óscares. O troll pousa a batuta de maestro que comenta questões musicais e, em vez do pijaminha, veste o seu fato de gala e pega no seu caderninho de crítico de cinema. Tudo muito bonito, mas o troll não tira a camisola de imbecil "futeboleiro" e acaba por invadir as caixas de comentários das redes sociais com críticas aos filmes que ganham, acompanhadas por elogios aos filmes que deveriam ter ganho, inclusivamente, o “Velocidade Furiosa 42” e o “Vingadores: Guerra de Cenas e o Hulk”.
Sobre o movimento “Me Too”, os trolls pensam tratar-se de uma hashtag fixe para colocar no Instagram, a acompanhar uma foto no ginásio.
Pelo meio, continua a morrer gente na Síria e a Itália está em pantanas. Os poucos trolls que sabem que a Síria e a Itália são países consideram que a culpa é do sistema. Talvez seja dos poucos momentos em que têm razão. Só não sabem que o sistema somos nós todos.
Troll, se me estás a ler, enxovalha este texto que eu farei com que os primeiros socorros cheguem até ti.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Todos os meses, Carnaval
O meu Carnaval preferido foi um em que me mascarei de Batman. A minha mãe, grande especialista na costura, confeccionou-me um fato, de raiz. Ficou espectacular em 98%: as orelhas do capuz do Cavaleiro Negro ficam sempre direitinhas, as do meu fato caíam. Em 2% do meu fato, eu parecia um coelhinho. Ou seja, 2% do fato de um vigilante que aterroriza os criminosos de Gotham City parecia as orelhas de um animal fofinho.
Tirando isso, foi espectacular.
Analisando friamente esta festa, estou em condições de afirmar que o mal do Carnaval é ser no Inverno. Ainda por cima, numa Terça-feira. Está frio e, muitas vezes, chove. Calha à semana, uma pessoa pode ter coisas combinadas. E nem toda a gente tem seis dias de tolerância de ponto, a começar na Quarta-feira anterior.
Para mim, o Carnaval devia ser dividido: pegava-se nas 24 horas e dividia-se por doze períodos de duas horas. A lei passaria a conceder-nos o direito de andarmos mascarados duas horas em cada mês.
Isto poderia fazer com que, certa vez, alguém fosse trabalhar mascarado.
– Fernando, tenho aqui um desafio para si. – Diria a directora.
– Vamos a isso. – Responderia o Fernando, mascarado de palhaço.
– Pensei em si para dirigir todo o departamento de produção.
– Eh pá, que orgulho. – Responderia o Fernando, enquanto tocava uma buzinha que traria acoplada ao ombro.
– A direcção considera que a sua respeitabilidade será um trunfo, para liderar uma equipa de quase 100 pessoas.
– Estarei à altura, chefe. – Responderia o Fernando, enquanto atiraria uma tarte à sua própria cara.
– A sua capacidade de aguentar a pressão também foi uma qualidade determinante.
– Compreendo, chefe. – Diria o Fernando, enquanto cairia propositadamente da cadeira.
Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um professor poderia dar uma aula mascarado.
– Hoje vamos falar sobre alguns princípios de macroeconomia. – Diria o professor, vestido de urso.
– Professor, quer almoçar connosco na cantina? É salmão. Assim escusa de ir apanhá-los a subir o rio. – Diria uma aluna.
– Vamos também abordar alguns princípios de finanças públicas. – Diria o professor.
– Não era melhor a aula ser no exterior? Se o professor precisar de coçar as costas, pode roçar-se numa árvore. – Sugeriria a mesma aluna.
Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado depositar dinheiro ao banco.
– Gostaria de levantar todo o dinheiro da minha conta. – Diria o cliente, mascarado de assaltante.
– Só o da sua conta? – Perguntaria a funcionária do banco, assustada.
– Sim, sim. Estou a gozar as minhas duas horas de Carnaval.
– Peço desculpa, mas assim que entrou e tirou a senha, chamei a polícia.
– Não acha que, se fosse um assalto, eu não tiraria senha?
– Sei lá, ainda há pessoas civilizadas! – Responderia a funcionária, irritada.
– Que barraca! Agora vou ter que responder a perguntas.
Nisto, entraria um polícia.
– Vai ter que me acompanhar à esquadra.
– Mas estas são as minhas duas horas de Carnaval.
– Também as minhas, estava a brincar consigo. – Responderia o polícia.
– Ei, que alívio. Pensei que me tinha metido em chatices.
– Estava a brincar. Sou mesmo polícia. Pode acompanhar-me?
Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado à farmácia.
– Tem alguma coisa para a prisão de ventre? Estou tão entupido que já nem consigo voar. – Diria um homem vestido de Super-Homem.
Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um tipo poderia ir ao hospital mascarado de zombie. Soaria um alarme, a cidade seria evacuada e isolada em menos de uma hora. O homem acabaria por ficar sem saber o que fazer.
– Será que há greve?
Tirando isso, foi espectacular.
Analisando friamente esta festa, estou em condições de afirmar que o mal do Carnaval é ser no Inverno. Ainda por cima, numa Terça-feira. Está frio e, muitas vezes, chove. Calha à semana, uma pessoa pode ter coisas combinadas. E nem toda a gente tem seis dias de tolerância de ponto, a começar na Quarta-feira anterior.
Para mim, o Carnaval devia ser dividido: pegava-se nas 24 horas e dividia-se por doze períodos de duas horas. A lei passaria a conceder-nos o direito de andarmos mascarados duas horas em cada mês.
– Fernando, tenho aqui um desafio para si. – Diria a directora.
– Vamos a isso. – Responderia o Fernando, mascarado de palhaço.
– Pensei em si para dirigir todo o departamento de produção.
– Eh pá, que orgulho. – Responderia o Fernando, enquanto tocava uma buzinha que traria acoplada ao ombro.
– A direcção considera que a sua respeitabilidade será um trunfo, para liderar uma equipa de quase 100 pessoas.
– Estarei à altura, chefe. – Responderia o Fernando, enquanto atiraria uma tarte à sua própria cara.
– A sua capacidade de aguentar a pressão também foi uma qualidade determinante.
– Compreendo, chefe. – Diria o Fernando, enquanto cairia propositadamente da cadeira.
Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um professor poderia dar uma aula mascarado.
– Hoje vamos falar sobre alguns princípios de macroeconomia. – Diria o professor, vestido de urso.
– Professor, quer almoçar connosco na cantina? É salmão. Assim escusa de ir apanhá-los a subir o rio. – Diria uma aluna.
– Vamos também abordar alguns princípios de finanças públicas. – Diria o professor.
– Não era melhor a aula ser no exterior? Se o professor precisar de coçar as costas, pode roçar-se numa árvore. – Sugeriria a mesma aluna.
Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado depositar dinheiro ao banco.
– Gostaria de levantar todo o dinheiro da minha conta. – Diria o cliente, mascarado de assaltante.
– Só o da sua conta? – Perguntaria a funcionária do banco, assustada.
– Sim, sim. Estou a gozar as minhas duas horas de Carnaval.
– Peço desculpa, mas assim que entrou e tirou a senha, chamei a polícia.
– Não acha que, se fosse um assalto, eu não tiraria senha?
– Sei lá, ainda há pessoas civilizadas! – Responderia a funcionária, irritada.
– Que barraca! Agora vou ter que responder a perguntas.
Nisto, entraria um polícia.
– Vai ter que me acompanhar à esquadra.
– Mas estas são as minhas duas horas de Carnaval.
– Também as minhas, estava a brincar consigo. – Responderia o polícia.
– Ei, que alívio. Pensei que me tinha metido em chatices.
– Estava a brincar. Sou mesmo polícia. Pode acompanhar-me?
Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado à farmácia.
– Tem alguma coisa para a prisão de ventre? Estou tão entupido que já nem consigo voar. – Diria um homem vestido de Super-Homem.
Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um tipo poderia ir ao hospital mascarado de zombie. Soaria um alarme, a cidade seria evacuada e isolada em menos de uma hora. O homem acabaria por ficar sem saber o que fazer.
– Será que há greve?
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
O futuro é feio
O Governo chinês
está a desenvolver um “sistema de crédito social”, que consiste num método de
classificar os cidadãos, num ranking, consoante os dados que eles fornecem a
empresas tecnológicas ligadas ao consumo e, com isso, garantir-lhes ou vedar-lhes
o acesso a determinados bens ou serviços. Parece um episódio do “Black Mirror”.
A disputa entre Rui
Rio e Santana Lopes pela liderança do PSD ficou marcada muito mais pelas
questões pessoais, tais como descobrir quem foi mais fiel ao partido e quem falou
menos vezes com o Pacheco Pereira, nos últimos quinze anos, do que pelas
políticas que cada um tinha para o país.
Tenho uma amiga que
diz que o vizinho do 5.º esquerdo faz voluntariado e é muito educado e
prestável (no fundo, uma jóia de pessoa), mas não gosta dele porque ele, uma
vez, chegou bêbado a casa, às cinco da manhã, e cantou o hino nacional, sem
erros, na escada do prédio, enquanto urinava num vaso.
O primeiro e o
segundo exemplos preocupam-me um pouco, mas o terceiro deixa-me aterrado. Quem nunca
cantou o hino bêbado? Assim se cria má vizinhança, sem necessidade nenhuma.
Todos estes exemplos
demonstram como a sociedade das redes sociais e dos “reality shows” está a
tornar as questões pessoais o centro de tudo. Qualquer dia, a sociedade vai empolgar-se com as eleições, que serão decididas, palmo a palmo, entre multas de estacionamento e número de palavrões ditos, nos últimos quatro anos.
Não demorará muito tempo até que uma selecção de um candidato a um posto de trabalho se faça da
seguinte forma.
- Chefe, temos aqui
este candidato. Doutorado em Engenharia Espacial.
- Eh pá, sim senhor.
- Dados retirados da
sua pulseira de actividade desportiva indicam que se deita sempre muito tarde e
que tem uma vida sexual muito activa.
- Eh pá, o gajo é um
javardo. Deve ser daqueles que vêm trabalhar cheios de sono.
- Tem mais dois
doutoramentos: um em Física Quântica e outro em Química.
- Eh pá, notável.
- Mas tem perfil no
Tinder e já pagou uma vez por sexo, na despedida de solteiro de um amigo.
- Eh pá, o gajo é um
libertino. Vai meter-se com as miúdas todas aqui na empresa. Isso dá mau
ambiente.
- Foi uma vez ao
espaço. Foi medalhado em natação, nos últimos Jogos Olímpicos.
- Eh pá, sim senhor,
um homem de acção.
- Teve seis multas
de estacionamento nos últimos dez anos.
- Ui, o homem
qualquer dia fica sem carta. Não queremos isso, depois chega sempre tarde ao
trabalho.
- Tem oito patentes
registadas, na área da robótica.
- Eh pá, um
inventor!
- Gosta da saga “Velocidade
Furiosa”.
- Ui, isso é
azeiteiro. Depois vai pôr aqui a música alta.
- Deu aulas no M. I.
T., durante dois anos.
- Eh pá, um
professor.
- Nas últimas
presidenciais, votou num candidato de esquerda.
- Eh pá, um
revolucionário, ainda nos faz aqui uma greve.
- Faz voluntariado.
- Eh pá, um homem
que percebe o seu papel na sociedade.
- Uma vez, chegou a
casa bêbado e cantou o hino nas escadas do prédio, enquanto urinava num vaso.
- De facto, este
gajo é muito qualificado. Mas a conduta deixa a desejar. Não tens mais ninguém?
- Tenho esta
candidata, doutorada em…
- O que pensa ela
dos direitos das mulheres?
- Uma vez, publicou
nas redes sociais que o sexismo era um dos entraves ao desenvolvimento da
sociedade.
- Esquece, é
feminista. Vai engravidar mal a contratemos.
- Mas tem seis
doutoramentos e os seus métodos ajudaram a recuperar uma empresa que estava perto da falência. Devíamos considerar…
- Esquece. Tens mais
alguém?
- Tenho este gajo. Licenciatura em Engenharia Informática por concluir, só trabalhou seis meses, nos últimos cinco
anos, porque rejeitou todas as propostas de trabalho. Mas diz a pulseira dele
que nunca se deitou depois das 23h.
- Liga-lhe.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Vinte e cinco anos a escrever SMS's
No passado dia 3 de
Dezembro, fez 25 anos que foi enviada a primeira SMS. Na altura, o engenheiro
britânico Neil Papworth enviou, através de um computador (os telemóveis não tinham
teclados com letras), a mensagem “Merry Christmas” (“Feliz Natal”) para o
telemóvel de um funcionário da empresa que estava a testar o sistema.
Se pudesse, este
funcionário teria respondido o mesmo. Ou, então, “Hoje vamos ver a bola em casa
do Peter” (fim de mensagem), “Aparece” (fim de mensagem), “Traz cerveja” (fim
de mensagem), “Afinal não é preciso cerveja” (fim de mensagem), “No fim, jogamos
um póquer” (fim de mensagem), “Afinal não vamos jogar póquer” (fim de mensagem),
“O Louis tem que ir para casa cedo, senão a mulher dele tripa” (fim de
mensagem), “Já sabes como é” (fim de mensagem), “Golo do Chelsea” (fim de
mensagem), “Então, não vens?” (fim de mensagem).
Terão sido as
pinturas rupestres as primeiras SMS? Será que, alguma vez, um ser humano terá escrito, na parede de uma gruta “Encontrei
mamutes no vale” (fim de mensagem)? Será que outro ser humano terá respondido “Não
te aproximes, um deles atacou-me” (fim de mensagem), “Ia-me dando uma valente
bordoada”, “LOL” (fim de mensagem)?
Quando surgiram, as
mensagens escritas eram uma espécie de tecnologia futurista vinda de outro
planeta. Com aqueles telemóveis do tamanho de um sapato, podíamos escrevinhar
uns textos curtos e enviá-los a outra pessoa. Pagava-se para se fazer isto. O que
representa alguma justiça: quando os seres humanos comunicavam por sinais de
fumo, não havia lenha infinita para fazer fogueiras. Custava apanhá-la. Com esta necessidade de gerir a lenha, os sinais de fumo foram sendo usados com critério.
O mesmo
que existia nos primórdios das SMS: valia tudo para poupar caracteres. Era possível,
naqueles tempos, receber uma mensagem a dizer “E s fsses p o crlh?” (fim de
mensagem). Uma vez que eu era, e calculo que o meu leitor também, uma pessoa de
bem, ficaria incrédulo com tal impropério, e responderia “Pk?” (fim de
mensagem). Certamente que a resposta seria “Dscp, enganei-m no nr” (fim de
mensagem).
Pumba, meia dúzia de
cêntimos à vida, a mandar a pessoa errada para o “crlh”. Bons tempos.
Hoje, vale tudo. Temos
tantos meios de conversação que nem sabemos qual usar. Dizemos coisas a mais. Não
só, perdemos o poder de síntese, como, pior, não sabemos seleccionar a
informação essencial. “Hoje não vou poder ir ao jogo.” (fim de mensagem), “Tenho
dores no joelho” (fim de mensagem), “Já na semana passada me doeu” (fim de
mensagem), “Mas também tenho umas cenas para tratar” (fim de mensagem), “Nada
de especial” (fim de mensagem), “Acabei com a minha namorada” (fim de mensagem),
“E o nosso planeta foi invadido por extra-terrestres” (fim de mensagem), “Está
a dar na televisão” (fim de mensagem), “Vamos ser todos aniquilados” (fim de
mensagem), “Calha bem, porque tinha que pagar agora o seguro do carro” (fim de
mensagem), “LOL” (fim de mensagem).
Felizmente, os
nossos pais e avós mantêm o poder de síntese à antiga: continuam a gerir os
caracteres das SMS como se fossem diamantes. Não porque elas sejam caras, mas
porque detestam comunicar desta forma e ter que escrevinhar nestes aparelhos. Às
vezes, são demasiado telegráficos. “A que horas vens jan8” (fim de mensagem) ou
“Tens bacalhau do almoço no mi37” (fim de mensagem) são mensagens que, infelizmente,
foram enviadas antes de estarem escritas mas que, felizmente, aprendemos a
descodificar com o tempo.
Mas o maior feito no
mundo dos SMS é o dos bêbados: enviar uma mensagem escrita com excesso de
álcool no sangue é mais difícil do que aprender Islandês, para não referir como
pode ser perigoso. É incrível como, sempre que bebemos em demasia, alguém mexe
nas definições do nosso telemóvel, às escondidas, e depois as letras que
queremos introduzir não são aquelas que realmente introduzimos. Alguém devia
investigar isso, porque só mexem no telemóvel quando bebemos.
E é curioso que, muitas
vezes, um bêbado fica com uma enorme vontade de enviar duas ou três mensagens a
uma pessoa (ou mais?), de cariz geralmente emocional-sexual, mensagem essa cuja
autoria poderá ser, no dia seguinte, negada até à exaustão.
“Achas mesmo que eu
te mandava isso? Alguém pegou no meu telemóvel e enviou uma SMS para um número
da lista, à sorte. Eu nunca te diria uma coisa dessas” (fim de mensagem), “Mas
já que estamos a falar, desejo-te um Feliz Natal” (fim de mensagem), “Isto se
não nos virmos antes” (fim de mensagem), “Queres ir tomar um café?” (fim de
mensagem).
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Problemas na sala de cinema
Este texto também se poderia chamar "Uma aventura no cinema". Até seria mais divertido, porque pressuporia uma aventura retratada em filme. Por exemplo: uns gajos mauzões têm carros bué
rápidos e andam em corridas e aos tiros uns aos outros. Esperem, estão aqui a
dizer-me que já existe um filme desses, com sete (!!!) sequelas, e que todos são um
sucesso: cada um é igual ao anterior e as pessoas aguardam com grande
expectativa por cada novo título. Bolas, cheguei tarde. Mas a existência de oito
filmes dentro do mesmo universo de carros e tiros leva-me a questionar o que
esperam os espectadores que aconteça de novo, de cada vez que sai um filme. Que
os carros fiquem sem gasolina? Que suba o preço dos combustíveis?
"Uma aventura no cinema" pode significar um conjunto de peripécias vividas na própria sala de cinema. A
primeira questão, assim que chegamos ao nosso lugar, tem a ver com espaço. Há um
tipo de espectador que traz, para além de uma panóplia de casacos, bolsas e edredons,
acessórios que vão da mesa de campismo, para refeições, ao guarda-sol, para
filmes com muita luminosidade. Precisam de um lugar para se sentar e de seis
para arrumos.
Outra das questões que implicam algum jogo político tem a
ver com os braços e as pernas. Passo a explicar. Os bancos do cinema têm apoio
de braços. Ora, das primeiras relações de força que se estabelecem numa sala de
cinema é a luta pelo apoio de braço. É possível, com recurso à diplomacia, que
duas pessoas pousem os braços no mesmo apoio, em momentos diferentes, mas, caso calhe ao nosso lado uma
pessoa mais intransigente, podemos perder a batalha. No cruzar de pernas,
também há alguma adaptação, que implica gerir aquele cantinho que nos calhou,
em colaboração com um desconhecido. Cruzamos uma perna ou outra, consoante o espaço que fica livre. Tem
a sua arte e dali podem sair grandes líderes do nosso tempo. Ou então, apenas
pessoas que sabem comportar-se em público.
Assim que começam os trailers de outros filmes, surgem os
primeiros comentários que dizem “Este deve ser fixe, temos que vir ver”. O que
me leva a pensar se terá existido, na história do cinema, algum filme que, no
trailer, pareça mau. Uma vez que o trailer consiste numa selecção cuidada de
algumas das partes mais interessantes de um filme, posso concluir que o grande
problema dos maus filmes poderá estar no resto do filme, todo ele verdadeiramente desinteressante.
Pelo filme adentro, começam os comentários na sala. Uns,
mais especializados, de pessoas que consideram pertinente comentar com o
espectador do lado a fotografia, os cenários, os efeitos especiais ou a banda
sonora. Outros, não menos especializados, porém mais acessíveis ao grande
público, afloram temas como a intensidade de uma cena de sexo ou as mamas de
determinada actriz.
Há, no meio disto tudo, o espectador mais distraído que
entrou na sala errada e que, aos quinze minutos de filme, pergunta se demora
muito a aparecer o Batman.
Nos casos em que a história do filme é mais complexa, há
espectadores que se perdem pelo caminho. Entre estes, há os que têm vergonha de
perguntar o que raio está a acontecer e os que, de forma até bem audível,
desatam a procurar, de todas as maneiras, até ligando para um amigo, em plena sala,
uma explicação para os acontecimentos do filme.
A pensar nestes casos, proponho a criação da função de
explicador do filme, que seria um funcionário do cinema que, a qualquer momento,
poderia retirar o espectador da sala, explicar-lhe o que está a acontecer,
repreendê-lo, caso a dúvida do espectador revelasse desatenção durante o filme, e recolocá-lo no seu lugar, contando-lhe
o que aconteceu entretanto.
Mas o maior problema não é nenhum destes anteriormente
referidos. É o caso das pessoas que mastigam pipocas de boca aberta. Aliás,
isto é extensível ao mundo: o problema está nas pessoas que mastigam de boca
aberta, em qualquer situação da vida. Já estive numa sessão de cinema em que um
espectador fazia tanto barulho a mastigar que até uma personagem do filme se
virou para a plateia e perguntou se era possível fazerem menos barulho, que
estávamos numa cena com grande dramaticidade.
Por causa dos comentários estúpidos, das pessoas que fazem perguntas,
das pessoas que mastigam de boca aberta e das pessoas com demasiados odores
corporais (ou com excesso de perfume), proponho também que se reserve uma fila
de lugares que terá o nome de “Fila do Entulho”. A qualquer momento, poderíamos
solicitar a paragem do filme, chamar um provedor do espectador, explicar por que os
nossos “vizinhos” nos estavam a incomodar,
e pedir que estes fossem deslocados para uma fila de pessoas que se poderiam
incomodar mutuamente, sem interferirem na experiência de cinema dos demais.
Era isso ou esperar que o Batman aparecesse e as levasse
dali para fora.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
E se pudesses mudar a história do filme?
“Mosaic” é o nome de uma série de Steven Soderbergh, na
qual os espectadores poderão escolher, através de uma aplicação, como se
desenrola a história. São sete horas e meia de ficção, distribuídas por blocos
que se sucedem consoante as escolhas de cada espectador.
Podia dar para alterar o telejornal. Quando aparecesse mais uma
notícia sobre uma tragédia ou sobre uma imbecilidade ou ilegalidade de um
político, podíamos escolher substituir a notícia por um passarinho a cantar. Ou
por um gatinho a brincar com um novelo de lã. Ou por uma moça voluptuosa a
saltar à corda. Ou pelo Jorge Jesus a dizer poemas de Herberto Hélder. Há certos
momentos dos nossos noticiários em que até vídeos do A.G.I.R. marchavam.
Como em muitas outras situações, estamos perante um
resultado surpreendente de uma pergunta começada por “E se”. Um pouco como
quando as pessoas perguntam “E se eu bebesse mais um whisky, apesar de já ter
ingerido seis?”, “E se eu saltasse daqui, mesmo sabendo que não sou o
Homem-Aranha?” ou “E se provocasse este indivíduo que, apesar de parecer
inofensivo, pode ser mestre de alguma arte marcial?”.
No caso desta série, alguém terá perguntado “E se puséssemos
o espectador a construir a sua narrativa?”. É impossível pensar neste conceito
sem pensar no potencial que poderia ter para mudar alguns filmes da nossa vida.
Porém, tendo em conta que as pessoas são capazes de votar no Trump ou na Marine
Le Pen, não dou por garantido que este potencial fosse bom para o cinema. Mesmo
assim, arrisco avançar com algumas hipóteses de mudanças em filmes.
O Rei Leão
Naquela parte dramática, em que o Simba foge da manada de
gnus em movimento, momento esse que culminará com a morte do seu pai, muitos
espectadores optariam por colocar o Vin Diesel a salvar o Simba, ao volante de
um daqueles carros muito azeiteiros, saídos do “Velocidade Furiosa 36”. Talvez um
Simba que não perdesse o pai e fosse obrigado a fugir, ainda tão jovem, pudesse
vir a tornar-se um monarca mimado e inútil, como muitos que a monarquia nos
deu. Um Simba que só não seria viciado em álcool porque não há álcool na
savana.
Armaggedon
Quando o Bruce Willis estivesse a despedir-se da filha,
naquele momento de grande intensidade dramática, mesmo antes de salvar o Mundo,
apareceria o Super-Homem, depois de levar uma tareia de toda a gente, que é o
que ele faz nos filmes, para rebentar o asteróide e conseguir um emprego na
NASA.
Exterminador
Neste caso, tudo seria igual, mas muitos espectadores colocariam
câmara frontal e traseira ao Exterminador, para que ele pudesse ter uma conta
no Instagram. Teríamos boas fotografias de armas e tiroteios, bem como um “instastory”
de um carro a explodir.
Mad Max
Em vez de um Mad Max que se tinha tornado violento por lhe terem
matado a família, muitos espectadores prefeririam um protagonista que matasse todos
aqueles vilões só porque eles tinham feito barulho na rua, às quatro da manhã.
Titanic
Em vez do final trágico que todos conhecemos, teríamos duas
tendências. Os espectadores que preferissem novelas escolheriam uma viagem
tranquila do navio, com uma história de amor impossível, outra de amor possível
estragado por algum evento, uma personagem que só diria coisas estúpidas, um
vilão que acabaria morto e um mistério que só se resolveria no fim do filme. Os
espectadores adeptos do cinema de acção colocariam o Titanic como alvo de um
ataque de piratas. Felizmente, o Steven Seagal seria cozinheiro do navio e
neutralizaria todos os piratas, sem sofrer um arranhão.
Gritos
O mais frágil e desajeitado assassino da história do cinema
seria eliminado logo na primeira cena, por qualquer velhinha com um
guarda-chuva.
Qualquer filme de terror
Nunca mais uma personagem tomaria decisões imbecis, tais
como suspeitar que está um invasor em casa e, mesmo assim, ir à garagem apenas com
uma lanterninha, ou suspeitar que existe um monstro na floresta mas, mesmo
assim, pesquisar qual a origem de um ruído atrás daqueles arbustos. Nunca mais
um susto seria provocado por um gato. É que, quase sempre, as personagens que
vão ser atacadas ouvem um barulho, vão verificar qual a origem, percebem que
era só um gato e, mal se viram, são atacadas. Se não houvesse o gato a fazer
barulho, elas nem tinham ido ali. Os monstros ou assassinos perderiam o seu
público-alvo, composto maioritariamente por personagens estúpidas, e teriam que
dedicar-se ao paintball.
Pensando bem, é melhor haver alguém que decida pelo público.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Quanto tempo passamos à espera?
Se me aparecesse um génio da lâmpada que estivesse impossibilitado de realizar desejos, por falta de Internet móvel, ou por estar de ressaca, mas que pudesse, por ser um génio, responder a uma grande questão, perguntar-lhe-ia algo como “Uma vez que não costumo encontrar lâmpadas com génios, nem frequento fábulas com regularidade, que raio faço eu na presença de um génio da lâmpada?”. Desperdiçada de forma tão estúpida esta oportunidade de fazer uma pergunta relevante, tentaria convencer o génio a dar-me uma segunda oportunidade da seguinte forma:
- Se não me responderes a uma nova pergunta, guardo esta lâmpada num lugar em que só toquem músicas do Enrique Iglesias.
Como é óbvio, o génio saberia que ouvir temas eruditos como “Subeme la radio”, para todo o sempre (os génios vivem nas lâmpadas para todo o sempre), seria um castigo, pelo que, conceder-me-ia uma segunda pergunta.
Eu aproveitaria para perguntar, não qual o sentido da vida, não se existe vida para além da morte, não se existe vida inteligente noutro planeta, mas quanto tempo da nossa vida nós passamos a esperar. E não falo da espera “à Gustavo Santos”, do tipo “Quando serei feliz?”, “Quando vou aprender a valorizar-me?” ou “Quando conseguirei chegar à fala com aquela moça extremamente interessante que conheci no aniversário de um amigo, mas que, por ser muito para lá do meu campeonato, quase nem reparou em mim?”. Falo de esperar mesmo: na sala de espera do médico, no aeroporto, numa repartição pública ou numa loja.
“Mas isso é uma pergunta estúpida”, dirás tu, meu leitorzinho tão inteligentezinho e chatinho. Eu sei, mas se leres com atenção o texto desde o início, em nenhum momento eu prometo inteligência e subtileza na pergunta a colocar ao génio. Para isso, já temos os jornalistas do “Correio da Manhã”. Eu faria aquela pergunta para ter uma ideia de quanto tempo vou desperdiçar à espera que algo aconteça.
Tendo essa informação, posso desenvolver um grande projecto de ocupação de tempo de espera. Vou criar uma empresa só disso. Imagina que tens que levar o carro à inspecção e vais estar meia hora à espera. É só dizeres o que queres e eu providencio-te entretenimento à séria: uma mulher com voz bonita a cantar temas da novela da noite; um malabarista a fazer um truque com espadas, enquanto cospe fogo e recita Shakespeare; uma luta de UFC entre duas pessoas vestidas de urso; dois mariachis a cantar “La Cucaracha” em Norueguês; enfim, qualquer coisa divertida e exequível.
Digo "exequível" porque, se me pedisses um membro de uma juventude partidária a elaborar sobre temas da actualidade, seria impossível atender ao teu pedido, porque estas pessoas pouco mais conseguem do que gritar palavras de ordem e agitar bandeiras.
Na sala de espera do médico, talvez precisasses de um divertimento mais comedido. Ali, toda a gente faz uma espécie de exame de consciência e questiona-se se tem bebido muita água, se tem comido muita fruta, se tem feito exercício físico ou se a alface do Big Mac conta como salada. Neste caso, parece-me adequado um violinista, só para estares ali, a pensar na vida, enquanto um saco de gomas te espera em algum lado.
Também será útil para embalar aquele senhor que adormece em todo o lado, de forma a poupar bateria. Que dorme com a cabeça tombada e ao lado daquela criança que está a saltar em cima de uma cadeira, enquanto balbucia sons estridentes que, somados, significarão qualquer coisa como “Dadas as circunstâncias, acho que vou fazer um cocó na fralda, porque não há perspectivas de, nos próximos dez minutos, sairmos da beira destas pessoas que não conheço de lado nenhum”.
As pessoas que adormecem em todo o lado começam, por desgaste do hardware, a passar do “standby” para o modo avião com regularidade. É um problema técnico que causa alguns transtornos, nomeadamente, em salas de espera, quando o nome delas é chamado no altifalante e elas não saem do sono.
Para aqueles que se queixam de que a consulta está atrasada, talvez um grupo de bombos, para ajudar a dissolver a ira e, em caso de espera por consulta no dentista, talvez um orador motivacional, que faça as pessoas esquecerem os sons característicos de uma sala de tortura que vêm do lado de lá da porta, perante o sorriso sarcástico de quem está na recepção.
Numa repartição pública, podíamos ter um humorista a fazer piadas sobre impressos. Assim, quando o funcionário nos pedisse um papel qualquer, timbrado, carimbado e lambido por uma vaca dos Alpes, não o faria com um ar de ditador, mas com um ar de quem pede algo para a diarreia numa farmácia cheia de gente.
Acho que este negócio tem tudo para prosperar. Só me falta encontrar a lâmpada com um génio e um investidor.
Estou à espera, enquanto alguém canta um tema dos Abba.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Descobertas de quem adoptou uma gata
Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei
uma gata ainda bebé que vivia na rua. Uma vez que sobrevivi à experiência, não
tendo a pequena felina me cravado os dentes na jugular, ou porque não quis, ou
porque ainda não arranjou forma, resolvi fazer um balanço da experiência.
Dizer que cães e gatos são diferentes é tão inútil como
dizer que um boi é diferente de um camelo. Embora, no Norte, “boi” e “camelo”
sejam nomes usados para apelidar, com precisão, um tipo específico de
indivíduos que nos surgem no caminho, ao longo da vida.
Não serve, portanto, este texto para entrar na estúpida
discussão sobre se são os cães melhores do que os gatos, ou vice-versa, porque
isso é tão estúpido como discutir se é mais divertido tocar à campainha e fugir
ou arremessar balões de água do quarto andar.
No capítulo da higiene, os gatos são a prova de que a
reencarnação existe. Pousamos o gato na caixa de areia e ele sabe, porque
aprendeu noutra vida, para que serve a areia e como apagar vestígios do que lá faz.
É mais rápido um gato a aprender a fazer as necessidades na areia do que alguns
seres humanos a aprender, não só, para que serve um piaçaba, como qual a forma
de dizer e escrever “piaçaba”.
Com um gato, temos que estudar, não só, o mundo dos felinos,
como também Física Quântica. “O meu gato cabe ali dentro?”, “Passa naquela
frincha?”, “A minha casa tinha aquele sítio onde ele está escondido?”, “Será
que ele chega ali?” ou “Será que, durante as últimas seis horas, ele esteve num
universo paralelo, a dizer poemas em Latim a um conjunto de iguanas gigantes”
são algumas das questões essenciais de quem tem um gato há pouco tempo. Geralmente,
a resposta é sim: o gato cabe ali, passa ali, salta assim tão alto e disse
poemas em Latim, num universo paralelo, enquanto caminhava por cima de um
cordão de uma sapatilha, atrás de um ratinho de brincar.
Diz-se que uma preguiça dorme cerca de 80% da sua vida. O que
não se diz é que um gato dorme mais do que 80% das preguiças. Mas, enquanto
dorme, monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está
a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de
hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução
nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas
no noticiário, como a independência da Catalunha ou a reunião do Eurogrupo. Claro,
que, no meio disto, ele mantém as prioridades: isto da Catalunha é importante,
mas se aquela mosca passar perto dele vai ter que ser capturada e ingerida. Tudo,
sem abrir muito os olhos: convém recordar que o gato está a dormir.
Sempre que entro em casa, a minha gata vem ter comigo, o que
é um comportamento muito semelhante ao de todos os cães que tive. Só que,
enquanto que os cães revelavam graus de felicidade pela minha chegada que os
levava a destruir parte da casa, embalados pela euforia, a gata circula à minha
volta, revelando só a felicidade necessária para me saudar. Se fossem pessoas,
os gatos eram do jet-set: sorririam só o necessário para a fotografia,
dançariam só o necessário para a fotografia, acenariam só o necessário para a
fotografia. Com uma diferença: os gatos gostam de um caixotinho de areia, o
pessoal do jet-set gosta de um saquinho de pó.
Fazer festas a um gato é como jogar aquele jogo da operação:
se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no operação, era acender uma
lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é o
gato querer matar-te, começando pelas mãos. O dono de
um cão costuma ter baba nas mãos, o dono de um gato tem mãos de quem trabalha diariamente com arame farpado.
O cão olha-te como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", o gato olha-te como se lhe devesses 100 euros. Quando chamas um cão, ele vem porque sente que tem o dever
de vir. Quando chamas um gato, ele vem se considerar que estão reunidas todas
as condições de segurança e de conforto, bem como se existe disposição emocional, humidade relativa do ar e proximidade da Terra em relação a Júpiter para vir.
Às vezes, os gatos recebem mensagens do além e perseguem entidades
que só eles vêem, em corridas quase à velocidade da luz. É curioso que, no meio
dessas corridas, a minha gata nunca passou por cima do teclado do compdfhuioshcvxjki
ndvsojcdnvwe0scvkdn kcvm <cnsdijvnw231i9rh310fh98utador.
Correcção: numa dessas corridas, a gata foi responsável por
um excerto deste texto. Que, num universo paralelo, para onde ela vai, seis
horas por dia, quererá dizer qualquer coisa.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Roupa falante
Esqueçam a regeneração de tecidos, esqueçam os antídotos
contra bactérias e vírus, esqueçam a exploração espacial. Os seres humanos que andavam
a vaguear pelas suas vidas fora, à procura de respostas para as perguntas “O
que andamos nós aqui a fazer?” e “Como perder barriga em 36 horas?” encontraram
a primeira delas: andamos aqui a fazer casacos que atendem o telefone e
permitem pôr música a tocar no telemóvel. Eu diria que isto é lindo, mas como
tenho preguiça em dose diária recomendada, digo que é bastante cómodo.
A Levi’s e a Google fizeram uma parceria e criaram um casaco
que permite, com um simples toque na manga, atender chamadas, passar música ou
obter direcções. Eu sei, eu sei, a primeira pergunta que se impõe é: a garantia
protege aquele pessoal que não perde o bonito hábito de limpar moncos com a
manga do casaco? Eu quero acreditar que o dispositivo que está na manga é “moncos
proof” até quinze dias de exposição (toda a gente sabe que ao 16.º dia, os
moncos ficam meios radioactivos).
Ficamos suficientemente preguiçosos para não tirarmos o
telemóvel do bolso, o que nem é mau: dessa forma, evitamos lesões, entre
outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor
radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar
ou no abdutor longo do polegar. Toda a gente percebe a importância disto. Imagina
que um indivíduo pousa o casaco nas costas de uma cadeira, no café, e atende
uma chamada através do casaco.
- Aquele senhor está a falar para o casaco ou para a
cadeira? – Pergunta uma velhinha adorável, enquanto toma o seu galão.
- Não percebes nada: está a atender o telemóvel através do
casaco, evitando, dessa forma, lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite,
no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor
radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. –
Responderá uma velhinha não menos adorável e que fala como se estivesse num
anúncio de televendas.
Será que um casaco destes pode, no autocarro, por exemplo, e
depois do contacto com um casaco igual de uma pessoa com gostos mais duvidosos,
apanhar um vírus que apenas nos permite pôr a tocar músicas dos D. A. M. A. ou do
Diogo Piçarra? Teremos, um dia, que comprar anti-vírus para o casaco?
Tendo em conta o avanço da inteligência artificial, é
provável que os nossos casacos queiram, um dia, tomar conta das nossas vidas. Para
isso, criarão situações desconfortáveis com uma música errada, à hora errada. Cruzas-te
no elevador com um vizinho cujos sons da vida sexual são demasiado estridentes
para serem contidos por uma parede. O teu casado apercebe-se disso e põe , por
exemplo, o Tom Jones a cantar o “Sex Bomb”. Ficará no ar aquela ideia de “Eu
sei o que tu…” e uma viagem de três andares vai passar tão rápido como uma
manhã numa repartição pública.
Vais jantar a casa dos teus sogros e, na hora da ir embora, mostras
a tua gentileza e despedes-te da tua sogra com dois beijos. O teu casaco
apercebe-se e, nesse momento, começa a ouvir-se o Marco Paulo a dizer “Quando
você vem com essa cara/De menina levada para a brincadeira/Dá-me um arrepio na
pele/Sinto água na boca p’ra ficar com você”. Ficarás dois anos sem conseguir
enfrentar os teus sogros.
O que pode nem ser assim tão mau.
Vais de férias e passas pelo gabinete do teu chefe para te
despedires. Antes que digas o que quer que seja, o teu casaco põe o Demis
Roussos a cantar “Goodbye my love, goodbye/Goodbye and au revoir/As long as you
remember me/ I’ll never be too far”. Decides trabalhar mais um dia, só para
apagar aquele momento.
Tens amigos a jantar em tua casa. Eles até são fixes, mas
podiam ir embora, que tu queres ir dormir. O teu casaco, pensando estar a ser
teu amigo, dá asas ao Clemente, na música em que ele diz “Vais partir naquela
estrada/Onde um dia chegaste a sorrir”. Para minorar estragos, dizes aquelas
coisas que toda a gente diz, tais como “Fiquem à vontade, até abro mais uma
garrafa, se for preciso!” mas, por dentro, agradeces, pela primeira vez, ao teu
casaco, enquanto os teus amigos se preparam para ir embora.
O passo seguinte nesta caminhada de progresso será a
camisa que te apresenta como se fosses um produto. Um casal conhece-se e,
em vez de falar, que é o que nós, humanos primitivos, fazemos, usam as suas camisas de apresentação.
“Olá, esta é a Susana. É introvertida, mas gosta de regabofe
selvagem. Não é ciumenta, mas uma vez assumido um compromisso com ela, desejará
que todas as mulheres do planeta desapareçam. Tenciona casar e considera que começam
a ser horas, pelo que, caso te adeques minimamente, terás que avançar destemido
para a etapa seguinte.”
“Olá, este é o Fernando. Pratica crossfit e come farelos
diversos que fazem dele um modelo de elegância e de regularidade no trânsito intestinal.
Domina bricolagens diversas, tanto em casa como na mecânica automóvel, e
ganhou, em 1997, um concurso internacional de karaoke, a interpretar um tema do
Enrique Iglesias.”
Mal podemos esperar por estes tempos! (Esta última frase foi
escrita pela minha t-shirt.)
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Um Instagram de pessoas que não distinguem sushi de sashimi
Se eu fosse milionário, dedicava-me a melhorar o Mundo. Não estou
a falar de acabar com o Correio da Manhã, porque logo apareceria outro jornal
parecido só para fazer manchetes a dizer mal de mim. E a minha mãe ia ficar
triste com isso.
Não estou a falar de realizar acções de solidariedade, de investir
na Ciência e na Cultura porque, para isso, já existem os nossos bons políticos,
cheios de humanismo e de sentido de dever, verdadeiramente comprometidos com o
progresso das sociedades, ou com um qualquer amigo que lhes pagou os cartazes
da campanha eleitoral. Nem eu queria tirar o trabalho a estes bons políticos,
porque esta malta, assim que põe os pezinhos nas juventudes partidárias, nunca
mais aprende a fazer outra coisa. Tirar-lhes o trabalho seria criar mais
desemprego de longa duração.
Eu tentava melhorar o Mundo dando espaço mediático àqueles
que não o têm. Não, não estou a falar de criar um fórum, no qual pessoas
desinteressantes debitariam lugares-comuns por telefone, porque as televisões
já descobriram esse filão há imenso tempo. Tenho tanta vontade de ouvir mais um
indignado com tudo e todos a gritar ao telefone, em directo na televisão, como
de ouvir o Marques Mendes a ler um livro do Gustavo Santos em voz alta. Anda a
Apple a investir rios de dinheiro em reconhecimento facial e ainda não temos um
telemóvel que se bloqueie quando lhe ditam baboseiras.
Se eu fosse milionário, percoreria o Mundo e daria espaço às
pessoas que não são suficientemente perfeitas para estarem no Instagram. Como toda
a gente sabe, só não são perfeitos os seres humanos que não estão nesta rede
social. Para quando um tipo com uma proeminente barriga, vestido com uma
camisola do Benfica, a assar costelinha enquanto bebe uma mini? É que, segundo
o Instagram, todos os gajos que se deixam fotografar numa refeição estão em
troncu nu, a mostrar os seus perfeitos abdominais, enquanto botam abaixo uma
malga de pudim de aveia.
Para quando, no Instagram, um fato-de-treino tipicamente
anos 90, com cores tão garridas que permitem que um tipo seja localizado a
partir da Estação Espacial Internacional, e tão largo que permite transportar a
água, as luvas, a bola medicinal e a toalha para o treino no bolso que não traz
o smartphone? É que, de acordo com o Instagram, a roupa de treino é tão justa
que, ao primeiro agachamento, tanto podem alojar-se os ombros junto à anca,
como os testículos junto a um rim.
Para quando fotografias de pessoas a ler os “A República” de
Platão ou a revista “Time”, só para mostrar que há quem não ache que “ONU” seja o
nome de um restaurante de sushi? Aliás, de acordo com o Instagram, 87% da
população mundial é japonesa, ou tem ascendência daquela nacionalidade, não por
causa da expressão facial ou da linguagem, mas por saber distinguir, com margem
de erro nula, sushi de sashimi. Nós, que não sabemos, somos uma espécie de
tripo aborígene da Mongólia, que usa fogo para afugentar os ursos.
Para quando uma mulher com um bocadinho de barriga e sem
mamas e glúteos em forma de melancia? Daqui a 200 anos, os seres humanos
olharão para o Instagram e dedicar-se-ão a investigar que mutação genética
retirou a celulite da nossa espécie. Com um Instagram de gente normal, como
aquele que gostaria de implementar, poderiam concluir que as mulheres sem rabo
tinham sobrevivido à extinção, na era geológica da granola e do “crossfit”.
Animais fofos: outra tendência. E que tal um Instagram só
com cães rafeiros? E gatos velhotes, daqueles que nos olham como se lhes
devêssemos dinheiro ou se tivessem que ir renovar o Cartão do Cidadão? De acordo
com o Instagram, estamos a desencadear uma selecção de animais domésticos que
parecem saídos de uma série qualquer do canal Panda. O Farrusco, que é um cão
velhote, meio gordito e sem amaciador no pêlo, perdeu o seu espaço mediático. Sem
perceber porquê, mas isso talvez seja por ser um cão demasiado velho para mexer
em smartphones.
Porque não arquitectura ultra-realista? Toda a gente
fotografa bem janelas e varandas, piscinas e jardins. E uma sanita? Ninguém fotografa
com estilo uma sanita. Em que é que uma sanita é menos merecedora de espaço
mediático do que uma piscina? Experimentem sofrer um desarranjo intestinal num
dia de inverno e quero ver junto de qual destas querem estar.
No Instagram, toda a gente come saladas ou comida gourmet. E
percebe-se: no dia em que alguém publicar uma fotografia de arroz de cabidela
ou de cozido à portuguesa, terá o Instituto de Medicina Legal à perna.
Já agora: no Instagram, todas as pessoas são felizes. Se eu
fosse milionário, as duas ou três pessoas que, em toda a Humanidade, são
infelizes, teriam o seu espaço, caso o pretendessem. Mesmo que não soubessem o
que é sashimi.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Revistas que sugerem só os melhores lugares
Há dias, percorrendo a página de Facebook de uma conhecida
revista, notei um estranho padrão, tão indicador dos tempos que vivemos como aquela
estranha forma de comunicar em 140 caracteres: todos os títulos das publicações
tinham a palavra “melhor”. Passo a explicar.
“As melhores lojas de decoração [da cidade x]”, “As melhores
sandes [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de carne [da cidade x]”, “Os
melhores rooftpos [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de petiscos [da
cidade x]”, “As melhores marisqueiras [na cidade x e arredores]” (noto aqui que
houve algum trabalho, porque os jornalistas não se circunscreveram à cidade x,
tendo andado pelos arredores da mesma), “Os melhores pratos com abacate [na
cidade x]” ou “Os melhores sabonetes (juro que é verdade, existe mesmo um
título assim!) [da cidade x]”, foram alguns dos títulos que encontrei.
A primeira nota que tenho, perante este modo de actuação, é que
estamos na presença de indivíduos com conhecimentos suficientemente sólidos
para poderem atestar, sem contraditório, que os locais recomendados são mesmo
os melhores. Por exemplo, no extraordinário trabalho “Os melhores
pequenos-almoços [na cidade x]”, os jornalistas estiveram em estágio, antes de
realizar a reportagem: passaram um mês a tomar o pequeno-almoço com chefes de
cozinha de grandes hotéis, com o Jamie Oliver, com o Gordon Ramsay, com o
Ljubomir Stanisic e, só não tomaram a primeira refeição do dia com o Anthony
Bourdain porque ele apareceu às quatro da tarde, com bafo a Jack Daniel’s.
Só depois deste período de aquisição de conhecimento, os
jornalistas se lançaram numa descoberta pela cidade x, tomando pequenos-almoços
desenfreadamente, à razão de quatro ou cinco por dia, até chegarem a uma lista
com os melhores. Só os melhores, os apenas bons foram votados ao esquecimento.
Na reportagem “Os melhores restaurantes românticos [da
cidade x]”, os jornalistas andaram um mês com o Pedro Chagas Freitas, e o
pessoal que faz aquelas páginas lamechas do Facebook, para registarem onde é
que esta gente janta de forma romântica. Está aqui bem presente o risco da
profissão de jornalista, uma vez que estes profissionais colocaram em causa a
sua sanidade mental, ao conviverem um mês com gente que só sabe dizer frases
feitas do mundo sentimental. Bravo!
No trabalho “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, os
jornalistas tiveram um mês de estágio com especialistas na construção de
telhados e na aplicação de telhas e materiais isolantes, e só depois andaram,
qual Homem-Aranha, pelos telhados da cidade x, até chegarem a uma lista que só tinha
os melhores.
A segunda nota, depois da admiração pela sabedoria destes
jornalistas, vai para a necessidade que as pessoas têm, hoje, de que lhes façam
o trabalho todo. Acabou-se a descoberta, acabou-se o factor-supresa, acabou-se
a hipótese de entrar na rua errada e ser roubado, ou de jantar num tasco asqueroso
e com cheiro a fritos, que ostente, numa das paredes, um certificado de
inspecção sanitária realizada em 1953.
Hoje, a malta quer tudo feito. “Dêem-me a lista já
prontinha, que eu vou visitar esses sítios todos. Mas só dos melhores, porque
eu não me contento com sítios só bons”. Sendo assim, termino com algumas
sugestões à referida revista, para reportagens futuras.
Os melhores carpinteiros [da cidade x]
Está farto daquela mesa que descai? Detesta aquela porta que
range como se lhe estivessem a tirar um dente? Encontre os melhores
profissionais da madeira. Não da Madeira, porque esta revista dedica-se apenas
à cidade x.
Os melhores mecânicos [da cidade x]
Bons sítios para trocar uma válvula que custa dez euros sem pagar 170.
Os melhores sítios para gamar turistas na [da cidade x]
Andámos um mês com os carteiristas de referência desta
cidade e mostramos-lhe tudo.
Os melhores tascos [da cidade x] para ver futebol sem levar
no focinho
Uma lista de lugares onde podes festejar um golo do teu
clube sem que uma cadeira voe na tua direcção.
As melhores casas-de-banho públicas [da cidade x]
Deu-te uma guinada no meio da rua e tens poucos minutos para
encontrar uma casa-de-banho limpinha que te salve de uma cena épica? Aqui ficam
as nossas sugestões para um porto seguro.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
De que falam dois robôs?
Agora, que já passou tempo suficiente, sem que as máquinas
tenham tomado o controlo do planeta, já posso abordar o tema, sem temer que um
ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareça à porta: há um mês, foi noticiado que o Facebook tinha desligado dois robôs de uma
experiência relacionada com inteligência artificial, depois de estes terem começado a comunicar um com o outro numa linguagem
própria.
Quando a notícia foi publicada, escondi-me no meu quarto, a
ler, a ver filmes e a acompanhar as incidências na “Guerra dos Tronos”. Agora que
penso nisso, o meu tempo livre permaneceu igual ao que já era, antes desta
notícia, mas agora com medo que as máquinas provocassem a nossa extinção. O que
até tornou a minha existência mais emocionante.
E daquela vez em que um ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareceu à
porta, foi só para saber se eu tinha televisão por cabo em casa ou se estava
interessado em aderir a um serviço de uma das operadoras.
Mas voltando à experiência do Facebook, esta consistia em
colocar dois robôs a estabelecer uma negociação, para testar se seriam, mais
tarde, capazes de comunicar com humanos. Podiam fazer o mesmo com o pessoal
ligado ao futebol: tentar que eles fossem capazes de comunicar sem arremessar
fezes uns aos outros, para depois podermos misturá-los, em segurança, com o
resto da sociedade.
Acontece que, não tendo sido criado nenhum limite de
linguagem, os robôs desenvolveram uma que lhes permitisse comunicar de forma
mais eficaz. No início, os responsáveis pela experiência pensaram que a
linguagem não fazia sentido, mas depois perceberam que obedecia a uma lógica. Não
pude deixar de pensar que deve ser o que acontece quando dois amigos que estão
bêbados se encontram: eles balbuciam coisas imperceptíveis e desconexas, para
quem está sóbrio, mas aquilo deve fazer sentido para eles. Provavelmente, o sentido da vida já foi descoberto em conversas entre bêbados, mas ninguém decifrou o que eles disseram.
Segundo foi comunicado, os robôs foram desligados, não por
receio de que a situação se descontrolasse, mas porque o resultado não foi o
esperado pelos responsáveis pela experiência. Eu não acredito na versão oficial:
para mim, os robôs andaram dez minutos no Facebook e adquiriram os maus
hábitos de alguns utilizadores.
Começaram logo por comentar notícias como um verdadeiro
troll. “Isto é tudo para nos enganar”, “Era matar estes gajos todos”, “[Determinado
clube de futebol] é merda” ou “Que gaja boa” foram algumas das frases
complexas que os robôs copiaram dos comentários de alguns utilizadores mais activos.
A fase seguinte foi partilhar músicas dos D.A.M.A, do
A.G.I.R e do Diogo Piçarra, com legendas enigmáticas como “Saudades do nosso
cantinho” ou “Dava tudo por um beijo teu”.
Quando um dos robôs ficou mais deprimido, inundou a
internet de publicações daquelas em que alguém está “A sentir-se qualquer coisa", seguidas de textos com
lamúrias em série.
Depois, um dos robôs começou a seguir a página do
Gustavo Santos e começou a fazer “life coaching” ao outro, que só queria estar
ali sossegadinho a saber quem é que o seu clube (sim, ele “adoptou” logo um
clube de futebol) ia contratar. Então o diálogo tornou-se algo deste género:
- Tens que te amar mais do que a tudo. És uma prioridade,
não podes ser uma opção.
- Eh pá, deixa ver quem é este gajo que o meu clube
contratou.
- Não podes desistir, os obstáculos são para nos empurrar para o sucesso,
não para nos deitar ao chão.
- O gajo marcou 28 golos, o ano passado.
- Tens que estabelecer metas impossíveis, porque o
impossível só requer mais um bocadinho de esforço do que o difícil.
- Cala-te com isso! Só quero um bocado de sossego!
- É esse o caminho: não dependas dos outros para te sentires
bem contigo mesmo.
Neste ponto, o conflito sofreu uma escalada de violência e
um dos robôs foi desligado. O outro partilhou uma imagem do pôr-do-sol, com
a legenda “Só valorizamos os amigos quando eles nos faltam”. E desligou-se.
Até receber uma chamada de um ciborgue exterminador com sotaque estranho, que queria saber se tinha televisão por cabo.
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