No passado dia 3 de
Dezembro, fez 25 anos que foi enviada a primeira SMS. Na altura, o engenheiro
britânico Neil Papworth enviou, através de um computador (os telemóveis não tinham
teclados com letras), a mensagem “Merry Christmas” (“Feliz Natal”) para o
telemóvel de um funcionário da empresa que estava a testar o sistema.
Se pudesse, este
funcionário teria respondido o mesmo. Ou, então, “Hoje vamos ver a bola em casa
do Peter” (fim de mensagem), “Aparece” (fim de mensagem), “Traz cerveja” (fim
de mensagem), “Afinal não é preciso cerveja” (fim de mensagem), “No fim, jogamos
um póquer” (fim de mensagem), “Afinal não vamos jogar póquer” (fim de mensagem),
“O Louis tem que ir para casa cedo, senão a mulher dele tripa” (fim de
mensagem), “Já sabes como é” (fim de mensagem), “Golo do Chelsea” (fim de
mensagem), “Então, não vens?” (fim de mensagem).
Terão sido as
pinturas rupestres as primeiras SMS? Será que, alguma vez, um ser humano terá escrito, na parede de uma gruta “Encontrei
mamutes no vale” (fim de mensagem)? Será que outro ser humano terá respondido “Não
te aproximes, um deles atacou-me” (fim de mensagem), “Ia-me dando uma valente
bordoada”, “LOL” (fim de mensagem)?
Quando surgiram, as
mensagens escritas eram uma espécie de tecnologia futurista vinda de outro
planeta. Com aqueles telemóveis do tamanho de um sapato, podíamos escrevinhar
uns textos curtos e enviá-los a outra pessoa. Pagava-se para se fazer isto. O que
representa alguma justiça: quando os seres humanos comunicavam por sinais de
fumo, não havia lenha infinita para fazer fogueiras. Custava apanhá-la. Com esta necessidade de gerir a lenha, os sinais de fumo foram sendo usados com critério.
O mesmo
que existia nos primórdios das SMS: valia tudo para poupar caracteres. Era possível,
naqueles tempos, receber uma mensagem a dizer “E s fsses p o crlh?” (fim de
mensagem). Uma vez que eu era, e calculo que o meu leitor também, uma pessoa de
bem, ficaria incrédulo com tal impropério, e responderia “Pk?” (fim de
mensagem). Certamente que a resposta seria “Dscp, enganei-m no nr” (fim de
mensagem).
Pumba, meia dúzia de
cêntimos à vida, a mandar a pessoa errada para o “crlh”. Bons tempos.
Hoje, vale tudo. Temos
tantos meios de conversação que nem sabemos qual usar. Dizemos coisas a mais. Não
só, perdemos o poder de síntese, como, pior, não sabemos seleccionar a
informação essencial. “Hoje não vou poder ir ao jogo.” (fim de mensagem), “Tenho
dores no joelho” (fim de mensagem), “Já na semana passada me doeu” (fim de
mensagem), “Mas também tenho umas cenas para tratar” (fim de mensagem), “Nada
de especial” (fim de mensagem), “Acabei com a minha namorada” (fim de mensagem),
“E o nosso planeta foi invadido por extra-terrestres” (fim de mensagem), “Está
a dar na televisão” (fim de mensagem), “Vamos ser todos aniquilados” (fim de
mensagem), “Calha bem, porque tinha que pagar agora o seguro do carro” (fim de
mensagem), “LOL” (fim de mensagem).
Felizmente, os
nossos pais e avós mantêm o poder de síntese à antiga: continuam a gerir os
caracteres das SMS como se fossem diamantes. Não porque elas sejam caras, mas
porque detestam comunicar desta forma e ter que escrevinhar nestes aparelhos. Às
vezes, são demasiado telegráficos. “A que horas vens jan8” (fim de mensagem) ou
“Tens bacalhau do almoço no mi37” (fim de mensagem) são mensagens que, infelizmente,
foram enviadas antes de estarem escritas mas que, felizmente, aprendemos a
descodificar com o tempo.
Mas o maior feito no
mundo dos SMS é o dos bêbados: enviar uma mensagem escrita com excesso de
álcool no sangue é mais difícil do que aprender Islandês, para não referir como
pode ser perigoso. É incrível como, sempre que bebemos em demasia, alguém mexe
nas definições do nosso telemóvel, às escondidas, e depois as letras que
queremos introduzir não são aquelas que realmente introduzimos. Alguém devia
investigar isso, porque só mexem no telemóvel quando bebemos.
E é curioso que, muitas
vezes, um bêbado fica com uma enorme vontade de enviar duas ou três mensagens a
uma pessoa (ou mais?), de cariz geralmente emocional-sexual, mensagem essa cuja
autoria poderá ser, no dia seguinte, negada até à exaustão.
“Achas mesmo que eu
te mandava isso? Alguém pegou no meu telemóvel e enviou uma SMS para um número
da lista, à sorte. Eu nunca te diria uma coisa dessas” (fim de mensagem), “Mas
já que estamos a falar, desejo-te um Feliz Natal” (fim de mensagem), “Isto se
não nos virmos antes” (fim de mensagem), “Queres ir tomar um café?” (fim de
mensagem).