Este texto também se poderia chamar "Uma aventura no cinema". Até seria mais divertido, porque pressuporia uma aventura retratada em filme. Por exemplo: uns gajos mauzões têm carros bué
rápidos e andam em corridas e aos tiros uns aos outros. Esperem, estão aqui a
dizer-me que já existe um filme desses, com sete (!!!) sequelas, e que todos são um
sucesso: cada um é igual ao anterior e as pessoas aguardam com grande
expectativa por cada novo título. Bolas, cheguei tarde. Mas a existência de oito
filmes dentro do mesmo universo de carros e tiros leva-me a questionar o que
esperam os espectadores que aconteça de novo, de cada vez que sai um filme. Que
os carros fiquem sem gasolina? Que suba o preço dos combustíveis?
"Uma aventura no cinema" pode significar um conjunto de peripécias vividas na própria sala de cinema. A
primeira questão, assim que chegamos ao nosso lugar, tem a ver com espaço. Há um
tipo de espectador que traz, para além de uma panóplia de casacos, bolsas e edredons,
acessórios que vão da mesa de campismo, para refeições, ao guarda-sol, para
filmes com muita luminosidade. Precisam de um lugar para se sentar e de seis
para arrumos.
Outra das questões que implicam algum jogo político tem a
ver com os braços e as pernas. Passo a explicar. Os bancos do cinema têm apoio
de braços. Ora, das primeiras relações de força que se estabelecem numa sala de
cinema é a luta pelo apoio de braço. É possível, com recurso à diplomacia, que
duas pessoas pousem os braços no mesmo apoio, em momentos diferentes, mas, caso calhe ao nosso lado uma
pessoa mais intransigente, podemos perder a batalha. No cruzar de pernas,
também há alguma adaptação, que implica gerir aquele cantinho que nos calhou,
em colaboração com um desconhecido. Cruzamos uma perna ou outra, consoante o espaço que fica livre. Tem
a sua arte e dali podem sair grandes líderes do nosso tempo. Ou então, apenas
pessoas que sabem comportar-se em público.
Assim que começam os trailers de outros filmes, surgem os
primeiros comentários que dizem “Este deve ser fixe, temos que vir ver”. O que
me leva a pensar se terá existido, na história do cinema, algum filme que, no
trailer, pareça mau. Uma vez que o trailer consiste numa selecção cuidada de
algumas das partes mais interessantes de um filme, posso concluir que o grande
problema dos maus filmes poderá estar no resto do filme, todo ele verdadeiramente desinteressante.
Pelo filme adentro, começam os comentários na sala. Uns,
mais especializados, de pessoas que consideram pertinente comentar com o
espectador do lado a fotografia, os cenários, os efeitos especiais ou a banda
sonora. Outros, não menos especializados, porém mais acessíveis ao grande
público, afloram temas como a intensidade de uma cena de sexo ou as mamas de
determinada actriz.
Há, no meio disto tudo, o espectador mais distraído que
entrou na sala errada e que, aos quinze minutos de filme, pergunta se demora
muito a aparecer o Batman.
Nos casos em que a história do filme é mais complexa, há
espectadores que se perdem pelo caminho. Entre estes, há os que têm vergonha de
perguntar o que raio está a acontecer e os que, de forma até bem audível,
desatam a procurar, de todas as maneiras, até ligando para um amigo, em plena sala,
uma explicação para os acontecimentos do filme.
A pensar nestes casos, proponho a criação da função de
explicador do filme, que seria um funcionário do cinema que, a qualquer momento,
poderia retirar o espectador da sala, explicar-lhe o que está a acontecer,
repreendê-lo, caso a dúvida do espectador revelasse desatenção durante o filme, e recolocá-lo no seu lugar, contando-lhe
o que aconteceu entretanto.
Mas o maior problema não é nenhum destes anteriormente
referidos. É o caso das pessoas que mastigam pipocas de boca aberta. Aliás,
isto é extensível ao mundo: o problema está nas pessoas que mastigam de boca
aberta, em qualquer situação da vida. Já estive numa sessão de cinema em que um
espectador fazia tanto barulho a mastigar que até uma personagem do filme se
virou para a plateia e perguntou se era possível fazerem menos barulho, que
estávamos numa cena com grande dramaticidade.
Por causa dos comentários estúpidos, das pessoas que fazem perguntas,
das pessoas que mastigam de boca aberta e das pessoas com demasiados odores
corporais (ou com excesso de perfume), proponho também que se reserve uma fila
de lugares que terá o nome de “Fila do Entulho”. A qualquer momento, poderíamos
solicitar a paragem do filme, chamar um provedor do espectador, explicar por que os
nossos “vizinhos” nos estavam a incomodar,
e pedir que estes fossem deslocados para uma fila de pessoas que se poderiam
incomodar mutuamente, sem interferirem na experiência de cinema dos demais.
Era isso ou esperar que o Batman aparecesse e as levasse
dali para fora.



