Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei
uma gata ainda bebé que vivia na rua. Uma vez que sobrevivi à experiência, não
tendo a pequena felina me cravado os dentes na jugular, ou porque não quis, ou
porque ainda não arranjou forma, resolvi fazer um balanço da experiência.
Dizer que cães e gatos são diferentes é tão inútil como
dizer que um boi é diferente de um camelo. Embora, no Norte, “boi” e “camelo”
sejam nomes usados para apelidar, com precisão, um tipo específico de
indivíduos que nos surgem no caminho, ao longo da vida.
Não serve, portanto, este texto para entrar na estúpida
discussão sobre se são os cães melhores do que os gatos, ou vice-versa, porque
isso é tão estúpido como discutir se é mais divertido tocar à campainha e fugir
ou arremessar balões de água do quarto andar.
No capítulo da higiene, os gatos são a prova de que a
reencarnação existe. Pousamos o gato na caixa de areia e ele sabe, porque
aprendeu noutra vida, para que serve a areia e como apagar vestígios do que lá faz.
É mais rápido um gato a aprender a fazer as necessidades na areia do que alguns
seres humanos a aprender, não só, para que serve um piaçaba, como qual a forma
de dizer e escrever “piaçaba”.
Com um gato, temos que estudar, não só, o mundo dos felinos,
como também Física Quântica. “O meu gato cabe ali dentro?”, “Passa naquela
frincha?”, “A minha casa tinha aquele sítio onde ele está escondido?”, “Será
que ele chega ali?” ou “Será que, durante as últimas seis horas, ele esteve num
universo paralelo, a dizer poemas em Latim a um conjunto de iguanas gigantes”
são algumas das questões essenciais de quem tem um gato há pouco tempo. Geralmente,
a resposta é sim: o gato cabe ali, passa ali, salta assim tão alto e disse
poemas em Latim, num universo paralelo, enquanto caminhava por cima de um
cordão de uma sapatilha, atrás de um ratinho de brincar.
Diz-se que uma preguiça dorme cerca de 80% da sua vida. O que
não se diz é que um gato dorme mais do que 80% das preguiças. Mas, enquanto
dorme, monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está
a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de
hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução
nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas
no noticiário, como a independência da Catalunha ou a reunião do Eurogrupo. Claro,
que, no meio disto, ele mantém as prioridades: isto da Catalunha é importante,
mas se aquela mosca passar perto dele vai ter que ser capturada e ingerida. Tudo,
sem abrir muito os olhos: convém recordar que o gato está a dormir.
Sempre que entro em casa, a minha gata vem ter comigo, o que
é um comportamento muito semelhante ao de todos os cães que tive. Só que,
enquanto que os cães revelavam graus de felicidade pela minha chegada que os
levava a destruir parte da casa, embalados pela euforia, a gata circula à minha
volta, revelando só a felicidade necessária para me saudar. Se fossem pessoas,
os gatos eram do jet-set: sorririam só o necessário para a fotografia,
dançariam só o necessário para a fotografia, acenariam só o necessário para a
fotografia. Com uma diferença: os gatos gostam de um caixotinho de areia, o
pessoal do jet-set gosta de um saquinho de pó.
Fazer festas a um gato é como jogar aquele jogo da operação:
se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no operação, era acender uma
lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é o
gato querer matar-te, começando pelas mãos. O dono de
um cão costuma ter baba nas mãos, o dono de um gato tem mãos de quem trabalha diariamente com arame farpado.
O cão olha-te como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", o gato olha-te como se lhe devesses 100 euros. Quando chamas um cão, ele vem porque sente que tem o dever
de vir. Quando chamas um gato, ele vem se considerar que estão reunidas todas
as condições de segurança e de conforto, bem como se existe disposição emocional, humidade relativa do ar e proximidade da Terra em relação a Júpiter para vir.
Às vezes, os gatos recebem mensagens do além e perseguem entidades
que só eles vêem, em corridas quase à velocidade da luz. É curioso que, no meio
dessas corridas, a minha gata nunca passou por cima do teclado do compdfhuioshcvxjki
ndvsojcdnvwe0scvkdn kcvm <cnsdijvnw231i9rh310fh98utador.
Correcção: numa dessas corridas, a gata foi responsável por
um excerto deste texto. Que, num universo paralelo, para onde ela vai, seis
horas por dia, quererá dizer qualquer coisa.



