Se eu fosse milionário, dedicava-me a melhorar o Mundo. Não estou
a falar de acabar com o Correio da Manhã, porque logo apareceria outro jornal
parecido só para fazer manchetes a dizer mal de mim. E a minha mãe ia ficar
triste com isso.
Não estou a falar de realizar acções de solidariedade, de investir
na Ciência e na Cultura porque, para isso, já existem os nossos bons políticos,
cheios de humanismo e de sentido de dever, verdadeiramente comprometidos com o
progresso das sociedades, ou com um qualquer amigo que lhes pagou os cartazes
da campanha eleitoral. Nem eu queria tirar o trabalho a estes bons políticos,
porque esta malta, assim que põe os pezinhos nas juventudes partidárias, nunca
mais aprende a fazer outra coisa. Tirar-lhes o trabalho seria criar mais
desemprego de longa duração.
Eu tentava melhorar o Mundo dando espaço mediático àqueles
que não o têm. Não, não estou a falar de criar um fórum, no qual pessoas
desinteressantes debitariam lugares-comuns por telefone, porque as televisões
já descobriram esse filão há imenso tempo. Tenho tanta vontade de ouvir mais um
indignado com tudo e todos a gritar ao telefone, em directo na televisão, como
de ouvir o Marques Mendes a ler um livro do Gustavo Santos em voz alta. Anda a
Apple a investir rios de dinheiro em reconhecimento facial e ainda não temos um
telemóvel que se bloqueie quando lhe ditam baboseiras.
Se eu fosse milionário, percoreria o Mundo e daria espaço às
pessoas que não são suficientemente perfeitas para estarem no Instagram. Como toda
a gente sabe, só não são perfeitos os seres humanos que não estão nesta rede
social. Para quando um tipo com uma proeminente barriga, vestido com uma
camisola do Benfica, a assar costelinha enquanto bebe uma mini? É que, segundo
o Instagram, todos os gajos que se deixam fotografar numa refeição estão em
troncu nu, a mostrar os seus perfeitos abdominais, enquanto botam abaixo uma
malga de pudim de aveia.
Para quando, no Instagram, um fato-de-treino tipicamente
anos 90, com cores tão garridas que permitem que um tipo seja localizado a
partir da Estação Espacial Internacional, e tão largo que permite transportar a
água, as luvas, a bola medicinal e a toalha para o treino no bolso que não traz
o smartphone? É que, de acordo com o Instagram, a roupa de treino é tão justa
que, ao primeiro agachamento, tanto podem alojar-se os ombros junto à anca,
como os testículos junto a um rim.
Para quando fotografias de pessoas a ler os “A República” de
Platão ou a revista “Time”, só para mostrar que há quem não ache que “ONU” seja o
nome de um restaurante de sushi? Aliás, de acordo com o Instagram, 87% da
população mundial é japonesa, ou tem ascendência daquela nacionalidade, não por
causa da expressão facial ou da linguagem, mas por saber distinguir, com margem
de erro nula, sushi de sashimi. Nós, que não sabemos, somos uma espécie de
tripo aborígene da Mongólia, que usa fogo para afugentar os ursos.
Para quando uma mulher com um bocadinho de barriga e sem
mamas e glúteos em forma de melancia? Daqui a 200 anos, os seres humanos
olharão para o Instagram e dedicar-se-ão a investigar que mutação genética
retirou a celulite da nossa espécie. Com um Instagram de gente normal, como
aquele que gostaria de implementar, poderiam concluir que as mulheres sem rabo
tinham sobrevivido à extinção, na era geológica da granola e do “crossfit”.
Animais fofos: outra tendência. E que tal um Instagram só
com cães rafeiros? E gatos velhotes, daqueles que nos olham como se lhes
devêssemos dinheiro ou se tivessem que ir renovar o Cartão do Cidadão? De acordo
com o Instagram, estamos a desencadear uma selecção de animais domésticos que
parecem saídos de uma série qualquer do canal Panda. O Farrusco, que é um cão
velhote, meio gordito e sem amaciador no pêlo, perdeu o seu espaço mediático. Sem
perceber porquê, mas isso talvez seja por ser um cão demasiado velho para mexer
em smartphones.
Porque não arquitectura ultra-realista? Toda a gente
fotografa bem janelas e varandas, piscinas e jardins. E uma sanita? Ninguém fotografa
com estilo uma sanita. Em que é que uma sanita é menos merecedora de espaço
mediático do que uma piscina? Experimentem sofrer um desarranjo intestinal num
dia de inverno e quero ver junto de qual destas querem estar.
No Instagram, toda a gente come saladas ou comida gourmet. E
percebe-se: no dia em que alguém publicar uma fotografia de arroz de cabidela
ou de cozido à portuguesa, terá o Instituto de Medicina Legal à perna.
Já agora: no Instagram, todas as pessoas são felizes. Se eu
fosse milionário, as duas ou três pessoas que, em toda a Humanidade, são
infelizes, teriam o seu espaço, caso o pretendessem. Mesmo que não soubessem o
que é sashimi.



