Há dias, percorrendo a página de Facebook de uma conhecida
revista, notei um estranho padrão, tão indicador dos tempos que vivemos como aquela
estranha forma de comunicar em 140 caracteres: todos os títulos das publicações
tinham a palavra “melhor”. Passo a explicar.
“As melhores lojas de decoração [da cidade x]”, “As melhores
sandes [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de carne [da cidade x]”, “Os
melhores rooftpos [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de petiscos [da
cidade x]”, “As melhores marisqueiras [na cidade x e arredores]” (noto aqui que
houve algum trabalho, porque os jornalistas não se circunscreveram à cidade x,
tendo andado pelos arredores da mesma), “Os melhores pratos com abacate [na
cidade x]” ou “Os melhores sabonetes (juro que é verdade, existe mesmo um
título assim!) [da cidade x]”, foram alguns dos títulos que encontrei.
A primeira nota que tenho, perante este modo de actuação, é que
estamos na presença de indivíduos com conhecimentos suficientemente sólidos
para poderem atestar, sem contraditório, que os locais recomendados são mesmo
os melhores. Por exemplo, no extraordinário trabalho “Os melhores
pequenos-almoços [na cidade x]”, os jornalistas estiveram em estágio, antes de
realizar a reportagem: passaram um mês a tomar o pequeno-almoço com chefes de
cozinha de grandes hotéis, com o Jamie Oliver, com o Gordon Ramsay, com o
Ljubomir Stanisic e, só não tomaram a primeira refeição do dia com o Anthony
Bourdain porque ele apareceu às quatro da tarde, com bafo a Jack Daniel’s.
Só depois deste período de aquisição de conhecimento, os
jornalistas se lançaram numa descoberta pela cidade x, tomando pequenos-almoços
desenfreadamente, à razão de quatro ou cinco por dia, até chegarem a uma lista
com os melhores. Só os melhores, os apenas bons foram votados ao esquecimento.
Na reportagem “Os melhores restaurantes românticos [da
cidade x]”, os jornalistas andaram um mês com o Pedro Chagas Freitas, e o
pessoal que faz aquelas páginas lamechas do Facebook, para registarem onde é
que esta gente janta de forma romântica. Está aqui bem presente o risco da
profissão de jornalista, uma vez que estes profissionais colocaram em causa a
sua sanidade mental, ao conviverem um mês com gente que só sabe dizer frases
feitas do mundo sentimental. Bravo!
No trabalho “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, os
jornalistas tiveram um mês de estágio com especialistas na construção de
telhados e na aplicação de telhas e materiais isolantes, e só depois andaram,
qual Homem-Aranha, pelos telhados da cidade x, até chegarem a uma lista que só tinha
os melhores.
A segunda nota, depois da admiração pela sabedoria destes
jornalistas, vai para a necessidade que as pessoas têm, hoje, de que lhes façam
o trabalho todo. Acabou-se a descoberta, acabou-se o factor-supresa, acabou-se
a hipótese de entrar na rua errada e ser roubado, ou de jantar num tasco asqueroso
e com cheiro a fritos, que ostente, numa das paredes, um certificado de
inspecção sanitária realizada em 1953.
Hoje, a malta quer tudo feito. “Dêem-me a lista já
prontinha, que eu vou visitar esses sítios todos. Mas só dos melhores, porque
eu não me contento com sítios só bons”. Sendo assim, termino com algumas
sugestões à referida revista, para reportagens futuras.
Os melhores carpinteiros [da cidade x]
Está farto daquela mesa que descai? Detesta aquela porta que
range como se lhe estivessem a tirar um dente? Encontre os melhores
profissionais da madeira. Não da Madeira, porque esta revista dedica-se apenas
à cidade x.
Os melhores mecânicos [da cidade x]
Bons sítios para trocar uma válvula que custa dez euros sem pagar 170.
Os melhores sítios para gamar turistas na [da cidade x]
Andámos um mês com os carteiristas de referência desta
cidade e mostramos-lhe tudo.
Os melhores tascos [da cidade x] para ver futebol sem levar
no focinho
Uma lista de lugares onde podes festejar um golo do teu
clube sem que uma cadeira voe na tua direcção.
As melhores casas-de-banho públicas [da cidade x]
Deu-te uma guinada no meio da rua e tens poucos minutos para
encontrar uma casa-de-banho limpinha que te salve de uma cena épica? Aqui ficam
as nossas sugestões para um porto seguro.



