Por estes dias, andamos entretidos com as grandes questões, aquelas
que nos fazem pensar em nós, enquanto civilização, aquelas que realmente
definem o nosso mundo, tais como “Será que António Costa vai mexer no Governo?”,
“Quem vai despedir hoje Donald Trump?”, “Como evolui a situação na Venezuela?”
ou, mais importante do que todas as anteriores, “Como está o tempo na praia?”.
Sobre esta última, noto que é difícil chegar a um consenso. Existem
diversos grupos de Facebook dedicados ao tema, mas a malta já perde muito tempo
com os grupos de jantares, de compra e venda de cangalho e de conteúdos
eróticos. Para além disso, é difícil utilizar uma linguagem que seja
universalmente compreensível. “Tá bom”, Tá mau”, “Tá assim-assim” ou “Tá top
tipo sunset no rooftop” são expressões que pouco ou nada acrescentam.
Existem sites dedicados à informação sobre o estado do tempo
mas, para além de não termos tempo de nos graduarmos em Meteorologia, numa
manhã de Sábado, existe um problema de escala. O que é “vento fraco a moderado”?
Não consigo estar em paz, com a vida, em geral, se não me disserem a partir de
que ponto o vento abandona a região do “fraco”, para entrar, com toda a
moderação, na região do “moderado”?
Para além disso, estes sites não contêm informações que tem
que ser dadas por quem está na praia, tais como o número de pessoas, em geral,
o número de pessoas ruidosas, em particular, o número de pessoas a praticarem
desportos diversos, que possam resultar, para nós, em boladas na cara ou em
areia na toalha a toda a hora, o cheiro a fritos provindo de tupperwares
abertos, entre outras.
Sendo que, das 24 horas diárias de um canal de TV cabo, 32
são dedicadas ao comentário de futebol, todas as pessoas sabem, hoje em dia, o
que é organização defensiva e organização ofensiva, transição rápida, ataque rápido
e contra-ataque, pressão alta, corredores laterais e corredor central, último
passe, circulação, exercícios de aquecimento, fora-de-jogo, cartões amarelos e
vermelhos, entre outros termos, alguns dos quais oriundos da Física de
partículas. Por isso mesmo, proponho que os comentadores de futebol passem o
dia na praia, acumulando o comentário desportivo com a informação sobre o
estado do tempo. Ganham eles, porque fazem as suas 32 horas diárias de programa
com os pezinhos na areia Ganhamos nós, porque temos, finalmente, quem nos saiba
dizer que tempo está na praia.
Dia muito quente
“O sol está a fazer uma circulação de calor perfeita, não deixando
possibilidade ao vento de fazer o seu jogo e refrescar os banhistas. E o sol não
dá sinais de poder abrandar o ritmo do ataque, tendo o jogo perfeitamente
controlado.”
Dia com sol, mas com nortada
“O vento está a fazer uma transição muito rápida, do Norte
para o Sul, levando consigo areia, toalhas e caranguejos. O jogo está a pedir
uma substituição do tapa-vento, que dá sinais evidentes de desgaste e está
rasgado em três sítios, por um muro de betão que seja capaz de conter esta
toada ofensiva.”
Dia conzento
“As nuvens estão a pressionar tão alto que tapam o sol. O melhor
é fazer exercícios de aquecimento, que está muito frio na praia.”
Dia com sol, mas com mar revolto
“O mar está a carregar com muita força no areal. Só a
permissividade do nadador-salvador tem retardado o cartão amarelo. Há que
proteger o jogo e entradas destas colocam em risco a integridade física do
adversário.”
Muita gente na praia
“Os corredores laterais, assim como o corredor central,
estão bem povoados. A organização defensiva dos banhistas torna quase
impossível a penetração nas zonas mais próximas do mar. Há quem tenha fugido
para locais mais isolados, mas está em clara posição de fora-de-jogo.”
Pouca gente na praia
Para além de termos informação confiável, quando chegássemos
a casa, tínhamos direito à análise do dia de praia. “Foi um dia competitivo,
com o sol e o mar a darem uma boa réplica aos banhistas. Estes acabaram por
vencer com justiça, já que mantiveram um ritmo de jogo elevado até aos últimos
minutos. Nota negativa apenas para o Sr. Martins, que adormeceu ao sol, de
barriga para o ar, e está com um escaldão que merece atenção do departamento
médico. Talvez fique uma semana sem competir.”



