Há dias, vi um anúncio de um concurso, no qual se
solicitavam propostas para a identidade gráfica de incubadoras municipais de
empresas, sendo a proposta vencedora premiada com … um iPad. Sim, o trabalho de
dezenas (ou centenas?) de criativos será premiado com um iPad. Eu sei que
aquelas pessoas que são incapazes de distinguir um ábaco de um computador
poderão dizer “Eh pá, é um iPad Pro, que tem uma caneta toda gira e que até
pode ser uma ferramenta de trabalho útil a um designer”. A estas alimárias eu responderia:
“Então podemos contratar um carpinteiro e pagar-lhe com um martelo”.
Não interessa revelar qual é a Câmara Municipal que fez isto,
até porque foi a de Guimarães e, como eu sou de Braga, os trolls que estiverem
de serviço, na Internet, nos próximos dias, poderão acusar-me de estar a
fomentar querelas bairristas. O que não corresponde à verdade, uma vez que enunciei
este concurso a título de exemplo. Não é uma novidade, é só mais uma, no imenso
conjunto de iniciativas que tratam os designers como mercadoria.
Quando vi o anúncio, tive o cuidado de confirmar que o
concurso não era promovido por uma empresa que comercializa carne ou
lacticínios. Se fosse, a explicação para este caso poderia estar no facto de o
responsável pelo concurso, afectado pelo cansaço e pelo stress da vida
empresarial, ter confundido os designers com gado bovino. Até se aceitava, porque
o homem andava cansado e confuso, ele fazia um pedido de desculpas, ou era queimado
em público, dependendo de quem analisasse a situação, e a vida seguia.
Mas não. Isto foi objecto de uma decisão consciente (?!). Depois
da vaga de pessoas que acham que “Isto o que era preciso era um Salazar para
pôr ordem”, e das pessoas que acham que os direitos dos animais só farão
sentido quando todos os seres humanos forem felizes, o nosso maior problema é a
malta que diz” “Arranja aí 1,5Kg de bom design e 200g de texto, por favor. Ah,
e 150 de fiambre, que o meu Gonçalinho gosta de uma sande ao lanche.”
Mas isto não vai ficar por aqui. As empresas estão sempre a
reinventar-se e a adaptar-se aos novos desafios. Não faltará muito tempo para
que os anúncios possam ser algo como:
- Cria a identidade gráfica da Câmara Municipal e ganha um
presunto pata negra (não ia haver autarquias a premiar designers com um iPad
Pro e nós a oferecermos presuntos normais, não, nós damos um pata negra!);
- Cria o logótipo da nossa empresa e ganha um voucher com 10%
de desconto num fim-de-semana no melhor hotel do Mónaco;
- Cria o cartaz da nossa festa e ganha um bilhete duplo para
um concerto do A.G.I.R. (éramos para escolher algo que se parecesse mais com música,
mas o nosso contacto só nos arranjou do A.G.I.R.)
- Cria a mascote do nosso evento e ganha um like na tua
página.
Nem faltará muito tempo para que, em sede de Concertação
Social, os representantes das empresas proponham a criação de um zoo de
designers, no qual os empresários possam atirar comida aos criativos, em troca
de trabalho.
Amigos designers, revoltem-se. Proponho uma solução, que
passa por todos os participantes enviarem propostas do mesmo calibre dos
seguintes desenhos (eu sei, sou óptimo a desenhar no Paint, mas garanto que não
fiz isto para promover o meu talento; coloco legenda, porque a minha arte foge
para o abstracto e alguns leitores poderão não compreendê-la).
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| Menino |
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| Menina |
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| Sol |
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| Flor |
Confrontados com tamanha qualidade, os empresários
começariam a pensar em fazer algo que desonraria as suas famílias e colocaria
em causa o futuro das suas empresas: pagar devidamente pelo trabalho dos
designers.



