O aparecimento da televisão por cabo, em Portugal, no início
do século XXI, permitiu, entre outras coisas, que o acto de ver animais a
copular freneticamente deixasse de ser exclusivo de quem assistia aos
documentários sobre vida animal. Na caixinha mágica, onde podíamos ver o babuíno
ou o pavão nos seus rituais de acasalamento, passámos a poder ver a senhorita
que, tendo ido buscar o seu carro à oficina, e tendo-se esquecido da carteira,
aproveitou para se envolver sexualmente com um profissional da reparação
automóvel. Quem diz isto diz o profissional de entrega de um determinado tipo
de comida italiana que faz uma relaxante pausa num difícil dia de trabalho,
desenvolvendo actividades de cariz sexual com uma cliente possuidora de seios
proeminentes. Foram anos de glória, sobretudo para quem estava na sua
adolescência. Ávidos de narrativas capazes de exprimir a complexidade do ser
humano, de mamas grandes e de sexo desenfreado, milhares, para não dizer
milhões, de adolescentes encontraram o que acreditavam ser o sentido da vida.
Porém, depois da revolução, veio a banalização. A facilidade
de encontrar conteúdos deste nível de romantismo, espontaneidade e penetração,
em qualquer esquina da Internet, veio retirar-lhes a vertente de fruto
proibido.
Logo vieram os “reality shows”, para que fosse possível
espreitar para uma casa cheia de pessoas desinteressantes. Banalizado o sexo, o
ideal era banalizar a privacidade e a falta de cultura geral. Uma fórmula inaflível,
portanto. A possibilidade de assistir, em directo, ao envolvimento emocional e
sexual de outros seres humanos foi demasiado boa para resistir. Só que também
isto se banalizou. O número de programas aumentou, o número de concorrentes
capazes de articular duas frases desceu drasticamente, e o tédio aumentou de
novo.
Mas a indústria da televisão não dorme, e descobriu qual era
o novo fruto proibido: a comida. Numa era em que não se pode comer açúcar,
glúten, sal e nada que não seja verde, que não seja uma espécie de farelo ou que
não pareça massa de tapar buracos na parede, mostrar a confecção de comida saborosa
aos seres humanos é apelar aos seus instintos mais reprimidos. É impossível não
resultar.
Antigamente, os programas de culinária eram transmitidos à
hora do almoço, não só, para nos abrir o apetite, mas também para encherem
chouriços (não literalmente) naquele período entre o programa da manhã e o
telejornal da uma da tarde. Actualmente, os programas da manhã estão demasiado
ocupados, durante esse período, a contar a bonita história da pessoa a quem
partiram o pára-brisas com um piano de cauda, ou da pessoa a quem nasceu um
bonsai no ombro direito. É isto ou promover concursos telefónicos que envolvem números,
rodas, tômbolas e pessoas a cuspir fogo, e nos quais se pode ganhar muito
dinheiro.
E ainda bem, porque se os programas de culinária colonizaram
o resto do horário televisivo, é urgente preencher aquele tempinho antes do
telejornal da uma da tarde.
Viveremos tempo suficiente para que os canais eróticos sejam
livres e os de culinária sejam pagos. Viveremos tempo suficiente para que as
pessoas estejam a ver programas de culinária e, surpreendidos por alguém que
chega a casa, mudem para a pornografia.
- O que estás a ver, querido?
(Mudança rápida de canal.)
- Eeeeh, um filme.
- De que é?
- É esta senhora de mamas grandes que decidiu saltar para
cima daquele canalizador.
- Parece giro. Faz pausa, venho já ver.
- (Merda, agora que ia ver como é que aquele carpaccio ia
ficar…) OK, querida.
Viveremos tempo suficiente para que os adolescentes se
esgueirem pela porta do quarto, durante a noite, para verem meia horinha de 24
Kitchen. Só o tempo de o Rudolph confeccionar uma tão deliciosa, quanto
proibida, tarte de maçã.
Viveremos tempo suficiente para vermos maior facilidade em
legalizar uma loja de venda de drogas do que um restaurante que venda arroz de
cabidela.
Viveremos tempo suficiente para que a comida saborosa e com
bom aspecto seja matéria do canal História.
Viveremos tempo suficiente para que os governantes sejam
escolhidos num programa em que o Gordon Ramsay os insulta aos berros, enquanto
cozinham risoto e vieiras.
Tendo em conta alguns resultados de eleições recentes, até
pode nem ser má ideia. O que é perdermos as liberdades e fomentarmos o ódio
entre pessoas, em comparação com um naco de porco preto, em redução de vinho, com puré de maçã?