Existe uma piada antiga em que uma tia escreve uma carta a
um sobrinho e termina-a dizendo que era para lhe ter mandado cinco contos, mas
já tinha fechado o envelope. Lembrei-me dela porque quero começar por sugerir
ao leitor uma boa desculpa para não ler este texto: pode dizer, nos comentários,
que era para tê-lo lido, mas ficou sem internet. Esta forma de começar o texto
é estranha, mas prometo que fará sentido.
Não sou especialista em coisa nenhuma, senão numa tão
específica como detestável área do saber: arranjar desculpas para não comparecer
em convívios. Esta área implica muita arte e sabedoria, uma vez que não nos é
permitido recusar um convite com um simples “não me apetece”. Da mesma forma
que os médicos dizem “prognóstico reservado” em vez de “isto está f*d*d*”, que
os políticos dizem “vamos tomar medidas complementares” em vez de “vamos ver se
conseguimos, em cima do joelho, resolver a c*g*d* que para aqui fizemos”, e que
os empresários dizem “reestruturar” em vez de “despedir”, nós temos que dizer
que “não podemos ir”, em vez de “achas mesmo que eu quero ir???”.
São convenções sociais bonitas e que não quero, de forma
nenhuma, contestar. Quando temos um amigo chato, ou com hálito duvidoso, não
lhe referimos isso directamente. Podemos é ouvi-lo menos vezes, caso seja
chato, ou com uma maior distância de segurança, caso cheire mal da boca, mas
nunca o ostracizamos. Assim como quando sobra um rissol, é sempre o gordo que
deve comê-lo, sem que isso seja referido explicitamente. Eu sei disto porque,
muitas vezes, me convidam a desempenhar esse papel, como se fosse apenas por
cortesia, sem explicitar que é por causa de uma convenção social que determina
que os gordos rapem os restos.
O grande problema é que nós, enquanto sociedade, ainda não
aprendemos a lidar com o facto de um amigo nosso não estar com vontade de
aceitar um convite para ver um jogo de futebol, para ir a uma jantarada ou para
estar presente numa mostra de documentários sobre as colheitas de trigo na
Birmânia. Ou com o facto de ele ter outros planos para a sua noite.
Daí terem surgido as desculpas para não comparecer em convívios:
aquela arte de dizer “não posso” em vez de “não me apetece”. Só que há um
problema sério com as desculpas: da mesma forma que o uso indevido de
antibióticos fortalece as bactérias, o uso indevido de desculpas torna o nosso
interlocutor mais atento à falta de criatividade para inventar uma desculpa.
Todos aqueles que, como eu, sofrem de quedas acentuadas de sociabilidade
e que não querem, por vezes, mais do que estar sossegadinhos sem terem que ouvir outros seres
humanos, necessitam de boas e consistentes desculpas. “Já tenho compromissos”, “Estou
cansado” ou “Tenho que fazer uma entrega de uma grande quantia, em numerário,
que me foi emprestada por um mafioso de Leste” são desculpas que toda a gente
já usou e que, por isso mesmo, perderam a sua eficácia.
É por isso que aqui publico alguns exemplos de desculpas,
bem como os diálogos que estas podem gerar. É importante, não só, ser criativo,
a inventar a desculpa, como ter capacidade de improviso, quando a nossa
justificação for colocada à prova por um amigo mais desconfiado.
Cenário A
- Tenho que tirar um dente do siso.
- Às dez da noite?
- Não, às quatro da tarde, mas como vai doer, já estou a
reservar a noite para ficar maldisposto.
- Mas este é o oitavo dente do siso que tiras!
(Isto é um aviso para pessoas que repetem desculpas.)
- Não, ainda é o mesmo, só que dividi a extracção em oito sessões.
Dói menos a tirar o dente e a pagar ao dentista.
Cenário B
- Fui mordido pela mosca do sono.
- Na Europa?!
- Sim, tenho um vizinho que faz criação.
- Mas tu não estás com sono.
- Isso é porque as moscas são raçadas de lesma. O efeito
demora a aparecer. Logo nem me vou aguentar.
Cenário C
- O meu castor está doente.
- Desde quando é que tens um castor?
- Desde que me fartei de ir ao Ikea. Agora, pego no Motinha,
damos uma volta pelo bosque e, em 40 minutos, tenho uma mesa-de-cabeceira.
(Aqui, ao sugerir o nome do castor, estamos a direccionar a
atenção do nosso interlocutor para outro assunto, o que é essencial para o
sucesso de uma desculpa.)
- O teu castor chama-se Motinha?
- Sim, é diminutivo de “motosserra”. Se o visses a cortar um
pinheiro percebias o nome.
Cenário D
- Tenho que levar o carro ao mecânico.
- Num Sábado à noite?
- Não, na Segunda de manhã, mas tenho que levar o carro para
lá com antecedência, senão perco a vez. Uma vez, esperei tanto na fila que,
quando chegou a minha vez, o melhor já era desfazer-me do carro.
Cenário E
- Tenho que tratar do IRS.
- Estamos em Outubro.
- Eu trato todos os meses. Achas que ia chegar a Abril e
andar com papelada velha? Eu sou alérgico ao ácaro do papel velho, não posso
conservar grandes quantidades.
- Nunca me disseste que eras alérgico ao ácaro do papel.
- Isso é porque eu trato do IRS o ano todo, nem chego a ter
crises alérgicas.
Cenário F
- Tenho um casamento.
- Numa Terça-feira?
- Não, num Sábado do próximo mês. Mas vou comprar os sapatos
agora, para me habituar a eles. Senão, nas fotografias do casamento, fico com
cara de quem tem bolhas nos pés.
Cenário G
- Tenho jogo de xadrez.
- Tu não jogas xadrez.
- Tenho um jogo para ver. É uma final importante.
- Não podes acompanhar pelo telemóvel?
- Isso dá no futebol, que é um jogo sem movimento e sem
emoção nenhuma. No xadrez, temos que acompanhar cada movimento.
Cenário H
- Tenho um encontro com a Scarlett Johansson.
- Desculpa lá, mas nessa desculpa não caio.
- OK, OK, é mentira. Eu não tenho um encontro com a Scarlett
Johansson. Vou só ter com ela para lhe entregar umas roupas que ela deixou na
minha casa.
Estes são apenas alguns exemplos, mas um bom mentiroso está
em constante aprendizagem. O mais importante, na área das desculpas para não
comparecer em convívios, é conservar um registo de desculpas usadas, de forma a
evitar repetições num curto intervalo ou para que, mais tarde, se possam reciclar
desculpas velhas. É o trabalho de uma vida.