O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser
apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”.
Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio,
laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma
pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com
quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.
Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições
autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que
se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito
tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter
sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a
comunhão de bens pode ser uma óptima solução.
Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco
fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego:
muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a
que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse
vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e
não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma
vez. Exemplifico.
Precisa-se vendedor
porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente
mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de
trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores
comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu:
se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos
candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque
os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e
serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.
Precisa-se de
funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de
limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro,
mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas
púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos
anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda
a gente.
Precisa-se de
canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando
a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização
podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem
solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure
trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar
trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do
pipelining das empresas.
Precisa-se de
construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à
chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas
necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil”
seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém
com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções
arquitectónicas”?
Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos
jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu
jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções,
todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns
exemplos.
- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills”
ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.
- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador
de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos
colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.
- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas
capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.
- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.