Antes de elaborar sobre um tema que está no centro do debate
político e, até filosófico, nos nossos dias, solicito ao leitor que aguarde
dois minutos. Durante esse período, não pode fazer coisas que se fazem em dois
minutos. Como abrir outra página. Ou jogar
no telemóvel. Ou limpar o pó, aspirar, mudar a cama, tirar os cortinados para
pô-los a lavar, levar um casaco à lavandaria, pagar as contas do mês e arrumar
aqueles papéis que estão na sua secretária desde 1932.
O tema que está a marcar a actualidade é, como toda a gente
sabe, a incapacidade que o ser humano de hoje tem para esperar. Sim, esperar. Vivemos
num tempo em que o Homo Sapiens Sapiens
se está a transformar em Homo Sapiens Sapiens
Non Esperens.
Antigamente, os seres humanos viviam em pacatos aglomerados,
muitas vezes sem luz eléctrica, e os cerca de 17 minutos por dia que tinham em que não estavam a trabalhar ou a cuidar dos seus 12 filhos, eram passados a contemplar a Natureza, a conversar à luz do candeeiro a óleo ou a assassinar
o vizinho por causa de uns palmos de terreno. Tratavam-se, portanto, de seres
humanos fundamentalmente contemplativos.
Hoje, o ser humano vive em aglomerados cheios de luz, onde
há cada vez menos filhos e cada vez mais aparelhos eléctricos cheios de
potencialidades, que permitem consultar a Internet e, com isso, aprender em
vários campos do conhecimento científico, jogar, ver filmes e séries, ouvir
música ou, num ou noutro raríssimo caso, quase já sem expressão estatística,
ver pornografia.
Com tantos estímulos à sua inteligência, o Homo Sapiens Sapiens perdeu a capacidade
para esperar e, por isso, tem que estar permanentemente a ser estimulado. Vou fazer
uma pequena pausa, para que as mentes mais elaboradas façam um trocadilho
sexual de qualidade fraca a moderada em torno da expressão “ser estimulado”.
[Início de pausa – Fim de pausa]
O ser humano moderno vai a um centro comercial e há fila
para entrar no parque: pega logo no telemóvel para verificar se, nos oito
minutos e meio em que esteve longe do aparelho, aconteceu algo extraordinário. Aparece
um lugar para estacionar mas há alguém à sua frente que vai ficar com o lugar:
o ser humano moderno pensa logo em quatro maneiras de matar essa pessoa, só
para poder estacionar o carro. Entra numa loja e todos os funcionários estão com outros clientes: o ser humano moderno tem uma perda selectiva de memória, que apaga,
fundamentalmente, as memórias relativas às normas de educação, e começa a ser
arrogante e a dissertar sobre a gestão da loja, que passa a precisar, segundo
os seus conhecimentos sobre gestão, de cinquenta funcionários adicionais.
O ser humano moderno vai viajar e tem que esperar no
aeroporto. Felizmente, existem telemóveis com câmara e redes sociais, meios
através dos quais o ser humano moderno passa o tempo a avisar os outros seres
humanos modernos de que vai viajar de avião. O código usado para o efeito é
incrivelmente simples: fotografa um avião. Se quiser ser mais misterioso,
fotografa só a asa. E assim passa o tempo que, caso estivesse livre de ocupação,
poderia levá-lo a iniciar uma série de homicídios na sala de embarque.
O computador demora um bocadinho mais e o ser humano moderno
começa a barafustar, cuspindo assim em dezenas de anos de evolução tecnológica
e esquecendo-se de que, há meio século, um computador ocupava um bairro inteiro,
tinha menos memória do que um dente do siso do seu telemóvel e demorava seis
semanas a calcular o resultado de seis a multiplicar por quatro.
O problema não está só nos seres humanos modernos adultos
que desaprenderam de esperar: as próprias crias dos seres humanos modernos já
são tranquilizadas com o seu ecrã táctil, onde podem sorver conteúdos da net,
ao contrário das crias antigas, que passavam o seu tempo a destruir coisas de
que os adultos precisavam, a olhar para caixinhas de música foleiras ou a
ingerir ranhos.
Estamos a criar bombinhas-relógio. A próxima guerra mundial
não se dará por divergências ideológicas ou por falta de recursos: vai
acontecer porque alguém se vai cansar de esperar.