Há dias, um amigo meu passou por uma situação muito
complicada. “Foi assaltado?”, perguntam vocês. Não, não foi. “Foi atropelado?”,
perguntam vocês, tão chatos que estão hoje, sempre a interromper, sempre a
interromper. Não, não foi atropelado.
O meu amigo teve uma aventura sexual de uma noite e acordou,
no dia seguinte, sem bateria no telemóvel e sem carregador compatível. Segundo o
próprio, estava sozinho numa casa que não conhecia, situada numa rua que não
conhecia, e onde não havia carregador de iPhone. O meu amigo confessou ter-se
sentido completamente isolado no Mundo, sem saber se estava em Braga ou na
Eslováquia, e deu por si perante uma decisão difícil: ir embora e parecer um
insensível ou esperar pela miúda com quem tinha estado, mesmo não podendo
contactar ninguém durante várias horas. Com o sentido de humor que o caracteriza, disse-me que, a
partir daquele dia, iria perguntar sempre a uma miúda se tinha carregador de
iPhone, antes de passar a noite com ela.
A pensar neste caso, e em muitos outros que, infelizmente,
acontecem todos os dias, sem que o Manuel Luís Goucha ou a Júlia Pinheiro dêem
conta disso, ignorando completamente este flagelo, decidi criar um
questionário. Depois de muito ter pensado, e de ter reduzido ao máximo o número
de palavras, decidi dar-lhe o nome de “Questionário que deve anteceder um
encontro sexual de uma noite que implique dormir em casa de uma pessoa estranha”.
É um bom nome, tem algo de poético. Eis algumas das questões-chave.
De que marca é o teu telefone?
Não vale a pena explicar a importância desta pergunta.
Qual a tua opinião sobre o Governo?
Pode, aqui e ali, surgir um tópico sobre política em conversa de circunstância (a quem nunca aconteceu?) e é importante saber o que
podes dizer sobre o Governo sem estragar o ambiente.
Qual o teu grau de preocupação com as questões ambientais?
Podes ir beber um copo de água ou comer uma peça de fruta e
constatas que a pessoa com quem vais passar/passaste a noite não separa o lixo.
Fica logo aquela sensação de repulsa no ar.
Qual a tua posição sobre as políticas relacionadas com a
fiscalidade?
Imagina que, a dada altura, te apetece dizer que “Isto era
taxar os ricos, que só sabem andar aqui a meter pó bucho” e não sabes se os
pais da pessoa com quem vais passar/passaste a noite são magnatas.
Qual é o teu clube de futebol?
Imagina que, na jornada anterior, houve um lance polémico
que dividiu o país a meio, nas discussões sobre arbitragem. É importante saber
se te vais chatear por causa da opinião da pessoa com quem vais passar a noite.
Preferes cereais com leite quente ou com leite frio?
É uma questão que já vários pensadores colocaram e que deve manter-se
na agenda, se queremos uma sociedade mais recomendável. Há pessoas que tomam cereais com leite quente e pessoas que tomam
cereais com leite frio. Mesmo que não comas cereais (é o meu caso), deves ter
uma opinião clara sobre o tema (na minha opinião, aquecer o leite é uma
cobardia para com os cereais e quem o faz deveria ser punido). Não deves passar a noite com uma pessoa que não
partilha a tua opinião sobre este tema.
Tencionas realizar alguma tarefa doméstica amanhã de manhã?
Imagina que te apetece dormir e a pessoa até se quer levantar cedo
e aspirar. Vai dar chatice.
Tens lugar para estacionar? A tua rua é segura?
Ideal para evitar multas e/ou assaltos.
Tens alguma cadeira onde possa colocar a minha roupa?
Imagina que és muito picuinhas e não gostas de deixar a
roupa no chão. Providenciar-te uma cadeira é o mínimo que a pessoa com quem
vais passar a noite pode fazer.
Tens animais em casa?
Há pessoas que não ficam muito à vontade com animais por
perto. Há pessoas, como eu, que adoram animais, mas são alérgicos (no meu caso, ao pêlo
de gato). Aviso já que uma pessoa com o nariz a pingar perde uma boa parte da
sensualidade. Pode nenhuma destas hipóteses se verificar, mas podes querer
apenas precaver-te de que a pessoa com quem vais passar a noite possa ter um
imponente Labrador que, para além de querer dormir contigo, tente ter relações
sexuais com a tua perna. Ou mesmo contigo todo. Pode, ainda, nenhuma destas
hipóteses se verificar e a pessoa com quem vais passar a noite fazer uma
criação de tarântulas ou de cobras e esquecer-se de te dizer que duas delas
desapareceram do terrário, no dia anterior.
Tens TV no quarto?
Importante para quem não dispensa cinco minutos de televisão
antes de dormir.
Estas ou outras perguntas que te pareçam pertinentes devem
estar gravadas no teu telemóvel e, uma vez que podes ficar sem bateria, numa
grelha de Excel impressa, que podes usar nessa e noutras noites. Se isto não é serviço
público, então não sei o que é.