O mundo, caro leitor, caminha para um futuro assustador, no
qual estaremos entregues à nossa sorte, abandonados perante os caprichos do
destino. Imaginem o que um tribunal do Reino Unido teve o desplante de fazer:
condenou a Uber a pagar salário mínimo e férias aos seus motoristas.
Que horror. Como é que, em pleno século XXI, um tribunal
comete a barbárie de atacar, com tamanha violência, uma empresa que trabalha de
forma séria para garantir a sua sobrevivência. Mas esta canalhice não se fica
por aqui: o tribunal, não contente com o grau de violência do seu ataque, foi
mais longe, e determinou que o tempo de trabalho fosse contado atendendo ao
tempo em que o motorista está disponível na aplicação, e não através da soma
das durações das viagens. Sim, senhor, que bonito exemplo, senhor tribunal.
Quer dizer, uma empresazinha avaliada em mais de 40 mil
milhões de euros esforça-se para ganhar a vida e vem um tribunal inventar
regras tão século XX. Uma empresa “trendy”, com uma aplicação móvel toda “fancy”
e carros todos “cosy”, voltada para o futuro, ainda tem de lidar com regras tão
do passado.
Como é óbvio, a Uber quer recorrer. Estou a torcer para que
consiga ser bem sucedida. E para mostrar como estou a torcer, vou tentar ajudar
a Uber, propondo algumas ideias por cuja implementação a empresa deve lutar. Por
um futuro melhor!
Horário
Para não dizerem que estamos a ser tendenciosos, o tempo de
trabalho deve ser contado tendo em conta um qualquer factor externo. Por exemplo,
o tempo de rotação de um planeta. Assim à sorte, Neptuno, que demora 16 horas a
girar sobre si mesmo. A sério, foi mesmo à sorte. O horário deve ser tão
flexível quanto possível. Ser flexível é ser capaz de dobrar. Logo, o horário deverá,
por princípio, ter horas a dobrar. Mas ser flexível é, também, ser capaz de
dobrar sem partir. Logo, o trabalhador deve dobrar as horas sem partir para
férias. E deve estar contactável 24 horas por dia. Tipo James Bond, mas sem as
mulheres bonitas e as armas sofisticadas.
Remuneração
O trabalhador tem direito a uma remuneração digna e deve
receber tudo até ao último cêntimo. No entanto, e como as empresas modernas se
preocupam com os seus trabalhadores, o trabalhador irá receber numa conta bancária
que só a empresa controla e que será gerida por um grupo de gestores espectaculares.
Desta forma, os trabalhadores não gastarão o dinheiro em coisas inúteis, como
em jantaradas, alojamento ou água canalizada.
Aumentos salariais
Os aumentos serão alinhados, não só, com a inflação, mas
também com a Bolsa de Tóquio, o casino Bellagio, em Las Vegas, o valor de
mercado do ouro, dos diamantes e do passe do Cristiano Ronaldo. Mesmo que todos
estes indicadores apontem para um aumento, este só acontecerá se a empresa
tiver crescido, no ano anterior, 15000%, de forma a evitar problemas de
tesouraria que coloquem o futuro da empresa em risco. Nenhum trabalhador quer
que a empresa feche…
Negociações
Os trabalhadores poderão, em qualquer momento, negociar com
a administração da empresa que os emprega. Porém, para garantir que transmitirão
a mensagem da melhor maneira, a empresa contratará um assessor de comunicação. Este
irá convencer os trabalhadores de que terão mais benefícios, por exemplo, ao emitirem
um comunicado a dizer que estimam as qualidades pessoais e profissionais dos
administradores, do que a fazerem coisas sem qualquer sentido, como pedir melhores
condições de trabalho.
Greve
Os trabalhadores têm direito à greve. Já as manifestações,
como dão cabo do trânsito (e a Uber preocupa-se, particularmente, com a questão
do trânsito), deverão ser realizadas no “Manifestódromo”, um recinto que será
construído pelas empresas, nas Ilhas Phi Phi (Tailândia), para garantir todas
as condições necessárias a uma manifestação como deve ser.
Baixa
Quando um trabalhador estiver doente, receberá o salário na
íntegra. Mas, como a doença poderá diminuí-lo das suas faculdades mentais, o
dinheiro será gerido por um “gestor de desgraças”, que comprará medicamentos,
mantinhas, bolachas e chá, entre outros bens, e que fará companhia ao doente,
enquanto este vê o futebol ou a novela da noite. O dinheiro que sobrar, no fim
da baixa, ficará guardado pela empresa, durante 30 anos, porque o trabalhador
poderá ter uma recaída.
Despedimento
Sempre que uma empresa quiser despedir trabalhadores, os
trabalhadores poderão lutar pelo seu posto de trabalho. Nomeadamente, num concurso
televisivo, tipo “Jogos sem Fronteiras”. Ganham todos: o trabalhador pode
safar-se do despedimento; a empresa consegue uma boa fonte de rendimento, ao
vender os direitos televisivos.
Eu sei, eu sei, estas ideias são utópicas. Mas eu não
desisto de lutar por um mundo melhor, por um mundo em que uma empresa modesta,
como a Uber, pode trabalhar sem ser incomodada. Não desistamos, camaradas, até
porque o nosso camarada Donald Trump pode vencer as eleições.