Se as lojas de brinquedos vendem brinquedos, a Loja do
Cidadão deveria vender cidadãos. Não, não estou a falar de tráfico de seres
humanos. Para isso, bastam as juventudes partidárias, que pegam em jovens
imberbes inconscientes e formam-nos, até eles se tornarem barbudos inconscientes
detentores de cargos públicos, com direito a assessor e ajudas de custo.
O que eu pretendia era que a Loja do Cidadão, para além de
nos permitir fazer o Cartão do Cidadão, tratar de papelada, pagar contas e
conhecer uma vasta gama de odores oriundos do corpo humano, vendesse pessoas
artificiais. Não, não estou a falar da Maria Leal. Falo de algo que parecesse
humano, mas não fosse. Não, não estou a falar do cabelo do
Donald Trump. Refiro-me a robôs humanóides.
Poderíamos, em qualquer situação, e sem sair do lugar,
encomendar um cidadão artificial, através de uma app. Era tipo Uber, mas sem
nos arriscarmos a levar na tromba de um taxista que estivesse a passar. Para que
serviria esse cidadão? Pois bem, para tarefas várias.
Viajar ao lado de um passageiro chato
Estás a viajar de comboio e ao teu lado está uma senhora
adorável que já te mostrou as fotografias dos filhos e do neto, trocou três
vezes os nomes deles, falou-te do canário amarelo que canta em Dó sustenido,
disse seis vezes que “isto é uma vida” e quatro que “ele dá chuva para amanhã”.
Já te perguntou três vezes qual o teu nome, disseste nomes diferentes em todas
elas e ela respondeu sempre que tinha um sobrinho com esse nome. Estás farto de
a aturar e só querias ler o teu livro. Requisitas um cidadão artificial para a
estação seguinte. Ele entra no comboio, vai para o teu lugar e tu para o dele. Três
estações depois, ele atira-se à linha, mas como é um robô, pode ser reparado.
Passar a ferro
Chegas a casa e tens uma dúvida existencial profunda: será
que o número de escalões do IRS é adequado para que se garanta uma maior
equidade fiscal? Sem resposta a esta dúvida, avanças para outra: ver um
episódio da tua série do momento ou passar a ferro? Fácil: encomendas um
cidadão artificial para passar a ferro e tu vais ver a série. Importante: não
deixar que o cidadão artificial passe a ferro na mesma divisão da casa em que
vês a série, senão, um dia, chegas a casa e ele está a ver a série, enquanto enche
o teu sofá de migalhas de batatas fritas e já depois de ter fumado dois cigarros lá dentro.
Ir às compras
Não te apetece andar de carrinho, de um lado para o outro, e
passar pela secção dos lacticínios, pela das massas, pelo talho e pela
peixaria, por aquele senhor gordo que ocupa mais espaço do que o carrinho,
por aquele puto que está a colar ranhos na fruta, por aquela senhora que já
tirou a carta de ligeiros, mas não de carrinhos de supermercado. Só tens que
mandar um cidadão artificial. Mas cuidado, especifica que não queres um
vegetariano. Senão vais passar uma semana a mandar tofu e soja para o bucho.
Jogar à bola
Quem já jogou à bola com amigos, sabe como é dramático
faltar um jogador. Até se pode realizar o jogo, mas jogar contra uma equipa que
tem um jogador a menos é como roubar fruta no quintal de uns velhotes: nem dá
pica, nem te podes gabar dos teus feitos. O cidadão artificial requisitado para
ser o jogador que faltasse seria como o FIFA: daria para regular o grau de
dificuldade. Ou seria possível, também, pô-lo à baliza o jogo todo sem que ele
se queixasse. Com tempo, poderia vir a substituir definitivamente aquele que é, notoriamente, o pior jogador do grupo (há sempre alguém assim).
Ir ao cinema
Uma das minhas convenções sociais preferidas, depois da
obrigatoriedade de dizer alguma coisa, quando alguém espirra, é que não se pode
ir ao cinema sozinho. A não ser que se pretenda praticar a chafurdice de cariz
sexual (e mesmo assim, o cinema pode não ser o local ideal, porque ficar com
pipocas na virilha deve ser desagradável), numa sala de cinema é suposto estar-se hora
e meia/duas horas, em silêncio, a olhar para um ecrã. Ao lado, é igual estar
uma pessoa amiga ou uma réplica da Estátua da Liberdade (com os dois braços
para baixo, senão o pessoal da fila de trás não vê). Mas se,
surpreendentemente, precisasses de companhia para ir ver aquele filme
independente produzido na Mongólia e que retrata a colheita de arroz no Vietname,
requisitavas um cidadão artificial. E poderias escolher um que não gostasse de
pipocas, para não teres que as dividir.
És obsessivo-compulsivo, mas estás com preguiça
Contratas um cidadão artificial e ele organiza os teus
livros por ordem alfabética, a tua roupa por cores, as tuas plantas por espécie,
a tua despensa por tipo de produto e data de validade e os filmes que tens no
computador por género. Só não organiza os filmes de pornografia porque estão
num disco externo escondido.
Fazem-te a pergunta mais irritante
de sempre que, como toda a gente sabe, é: “E de resto?”
Dizes “Espera um bocadinho” e requisitas um cidadão
artificial. Activa-lo para a função “E de resto?” (todas as unidades virão
preparadas para essa função) e o cidadão conta, à pessoa que te fez a pergunta,
a história do Universo, com todos os detalhes matemáticos, físicos e químicos que
marcaram a sua evolução, sem esquecer as diversas civilizações e dinastias que
a História costuma destacar. Falará, também, um pouco de Filosofia, para dar
conta das principais correntes do pensamento humano, e terminará com breves
apontamentos de Economia, tão úteis para entendermos o mundo em que vivemos. Depois
desta compilação de oito horas, a pessoa que te perguntou “E de resto?” nunca
mais cometerá essa atrocidade.