Esta polémica entre táxi e Uber não me diz muito. Nem me dou
ao trabalho de escolher um lado. Desde que se proteja a integridade física, o
dinheiro e a possibilidade de o utente dar uma volta muito maior do que a
necessária, caso queira conhecer a cidade, por mim, tudo bem. Nem vou escolher,
porque se escolher Uber ainda levo na tromba. E isso não fica muito em caminho.
(Repara como faço um bom uso dos sentidos literal e figurado
da palavra “caminho”.)
Para além disso, tinha que instalar o Uber e o meu telemóvel
não tem espaço para mais aplicações. Entre os resultados da bola e meia dúzia
de jogos divertidos, não sobra grande coisa.
O que quero frisar, com este texto, é que ainda não vi
ninguém referir um ponto importantíssimo, nesta questão: a componente de experiência de andar de táxi não é fácil de medir. Por experiência, refiro-me
às coisas que podem acontecer num táxi e que dificilmente poderão acontecer num
Uber. Coisas essas que tornam a experiência do táxi infinitamente mais
divertida.
Requisição do serviço
O Uber é chamado através de uma “app”, onde está toda a informação
necessária ao motorista. O táxi é chamado através de um telefonema e quem está
do lado de lá nem sempre compreende bem o Português. Ou qualquer língua ou
linguagem humana. Às vezes, quem atende o telefone urra uma série de coisas,
até perceber onde fica a rua aonde queremos que o táxi vá ter. Enquanto fazemos
figura de urso, a berrar o nome do local, no meio da rua, também fazemos um
esforço por comunicar com outro ser humano. E isso é sempre bonito. Cria laços.
Motorista
O motorista do Uber é uma pessoa com uma certa urbanidade e
boa compreensão da tecnologia. É uma espécie de andróide com óculos de velhinha,
conta de Instagram e “reviews” de passageiros chóninhas. O motorista de táxi pode ser muita coisa. Pode
ser um tipo que cospe enquanto conduz (janela aberta opcional), ou um tipo que
nos pergunta se vamos ter bom tempo (sabermos se vem ou não é opcional). Pode ser um
tipo que nos fala daquela vez que lhe apontaram uma faca e ele teve que
resolver tudo à chapada. É o Clint Eastwood ao volante de um Gran Torino. O
motorista do Uber, em compensação, fala-nos daquela vez em que o primo Gonçalo
ficou sem a câmara Polaroid, numa rua manhosa.
Música
O motorista de táxi ouve rádios locais. Ouve discos pedidos.
Uma cassetezinha de Julio Iglesias. Em dia de futebol, ouve relato e enxovalha
o árbitro. Tudo coisas com identidade. O motorista do Uber tem uma playlist de
Spotify com o nome “Relax”, com uma selecção dos dez melhores violinistas da
Islândia. Se pedirmos uma música mais animada, ele ainda começa a chorar.
Destinos
Se quiseres ir beber um copo ao bar onde tudo acontece, o taxista
liga para o dono para te reservar mesa. Se for uma discoteca com critério
rigoroso de porta, ele faz um telefonema e vais para a zona VIP. O motorista do
Uber leva-te a uma sessão de cinema independente da Mongólia, em casa do primo
Gonçalo. Sem pipocas. Se quiseres petiscar à uma da manhã, o taxista sabe onde
te levar a comer, por exemplo, iscas de bacalhau. Se pedires o mesmo ao
motorista do Uber, ele saca-te de um “tupperware” com panados de tofu.
Já sei, já sei: vão dizer-me que o Uber é mais barato. Mas,
por todas as razões que enunciei, o preço do táxi acaba por ser justo. Digo isto
porque gosto de iscas de bacalhau. E porque não quero levar na tromba.