terça-feira, 4 de outubro de 2016

Um Uber nunca será um táxi

Esta polémica entre táxi e Uber não me diz muito. Nem me dou ao trabalho de escolher um lado. Desde que se proteja a integridade física, o dinheiro e a possibilidade de o utente dar uma volta muito maior do que a necessária, caso queira conhecer a cidade, por mim, tudo bem. Nem vou escolher, porque se escolher Uber ainda levo na tromba. E isso não fica muito em caminho.

(Repara como faço um bom uso dos sentidos literal e figurado da palavra “caminho”.)

Para além disso, tinha que instalar o Uber e o meu telemóvel não tem espaço para mais aplicações. Entre os resultados da bola e meia dúzia de jogos divertidos, não sobra grande coisa.

O que quero frisar, com este texto, é que ainda não vi ninguém referir um ponto importantíssimo, nesta questão: a componente de experiência de andar de táxi não é fácil de medir. Por experiência, refiro-me às coisas que podem acontecer num táxi e que dificilmente poderão acontecer num Uber. Coisas essas que tornam a experiência do táxi infinitamente mais divertida.

Requisição do serviço
O Uber é chamado através de uma “app”, onde está toda a informação necessária ao motorista. O táxi é chamado através de um telefonema e quem está do lado de lá nem sempre compreende bem o Português. Ou qualquer língua ou linguagem humana. Às vezes, quem atende o telefone urra uma série de coisas, até perceber onde fica a rua aonde queremos que o táxi vá ter. Enquanto fazemos figura de urso, a berrar o nome do local, no meio da rua, também fazemos um esforço por comunicar com outro ser humano. E isso é sempre bonito. Cria laços.

Motorista
O motorista do Uber é uma pessoa com uma certa urbanidade e boa compreensão da tecnologia. É uma espécie de andróide com óculos de velhinha, conta de Instagram e “reviews” de passageiros chóninhas.  O motorista de táxi pode ser muita coisa. Pode ser um tipo que cospe enquanto conduz (janela aberta opcional), ou um tipo que nos pergunta se vamos ter bom tempo (sabermos se vem ou não é opcional). Pode ser um tipo que nos fala daquela vez que lhe apontaram uma faca e ele teve que resolver tudo à chapada. É o Clint Eastwood ao volante de um Gran Torino. O motorista do Uber, em compensação, fala-nos daquela vez em que o primo Gonçalo ficou sem a câmara Polaroid, numa rua manhosa.

Música
O motorista de táxi ouve rádios locais. Ouve discos pedidos. Uma cassetezinha de Julio Iglesias. Em dia de futebol, ouve relato e enxovalha o árbitro. Tudo coisas com identidade. O motorista do Uber tem uma playlist de Spotify com o nome “Relax”, com uma selecção dos dez melhores violinistas da Islândia. Se pedirmos uma música mais animada, ele ainda começa a chorar.

Destinos
Se quiseres ir beber um copo ao bar onde tudo acontece, o taxista liga para o dono para te reservar mesa. Se for uma discoteca com critério rigoroso de porta, ele faz um telefonema e vais para a zona VIP. O motorista do Uber leva-te a uma sessão de cinema independente da Mongólia, em casa do primo Gonçalo. Sem pipocas. Se quiseres petiscar à uma da manhã, o taxista sabe onde te levar a comer, por exemplo, iscas de bacalhau. Se pedires o mesmo ao motorista do Uber, ele saca-te de um “tupperware” com panados de tofu.

Já sei, já sei: vão dizer-me que o Uber é mais barato. Mas, por todas as razões que enunciei, o preço do táxi acaba por ser justo. Digo isto porque gosto de iscas de bacalhau. E porque não quero levar na tromba.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Teremos "apps" de conversação suficientes?

A Google vai lançar o “Allo”, uma aplicação móvel de mensagens. E isso é espectacular! É que um sistema de mapas detalhados de todo o Mundo, que nos permite chegar a qualquer lado, é coisa pouca. Um carro que anda sozinho é uma invenção perfeitamente banal, qualquer chafarica inventa coisas dessas. Um sistema para levar Internet grátis a todo o lado é coisa para se fazer em qualquer loja de reparações de electrodomésticos.

Agora, uma aplicação móvel de mensagens é algo que apenas uma empresa capaz de mudar o Mundo pode fazer. É que nunca ninguém tinha pensado em fazer aplicações que permitam que as pessoas comuniquem. Pronto, há o Messenger. Mas não há mais nada. OK, há o WhatsApp. E o Skype. E o Viber. Mas nada mais. Tudo bem, há o FaceTime. E o Hangouts. Mas são poucos. E há o Kik, também. E o Yahoo Messenger. E o We Chat. Mas o Allo vem mudar tudo. Porque… permite… mandar mensagens! Isso, sim, é completamente inovador!

Mais uns meses e teremos mais aplicações de conversação instaladas no telemóvel do que pessoas com quem comunicar. No médio prazo, teremos que ter mais do que um telemóvel, para podermos ter memória RAM suficiente para termos tudo instalado.

- Liguei-te no FaceTime?

- A sério? É que eu estava a ligar-te no WhatsApp.

- E eu a pensar que não tinhas atendido porque estavas no Skype.

- Nabo, eu tinha-te avisado no Messenger que não ia estar no Skype.

Convidar uma mulher para uma conversação pode tornar-se arriscado.

- Alinhas num Hangout?

- Alinho num quê? Pensas que eu sou dessas? Seu ordinário!

Um dia, teremos que ter um pequeno robô para trabalhar como “assistente pessoal para a área das aplicações de conversação”.

- Tens duas chamadas não atendidas e oito mensagens por ler. Uma das chamadas é da tua avó.

- Não tenho nenhum chamada.

- Ligou pelo Skype.

- A minha avó tem Skype?!

- Parece que aprendeu num fórum no Tapatalk.

- A minha avó tem Tapatalk?

- Diz que se cansou de falar, à janela, com a vizinha do lado.

Apesar de haver múltiplas plataformas para falar com as pessoas, há um lado perigoso: começam a ser tantas que não sabemos como encontrar alguém. Podemos estar em seis plataformas, mas a pessoa com quem queremos falar encontra-se numa sétima. O Allo, por exemplo. Quando criamos uma conta no Allo, essa pessoa cansa-se e regressa ao WhatsApp. Que entretanto tínhamos deixado.

O número de aplicações de conversação usadas poderá conferir algum estatuto social. Imagina o nível que teria o Manel, a ligar ao Silva, através do Messenger. E depois através do WhatsApp. E do Viber. E depois a não conseguir ligar pelo Skype, por suposta falta de rede. O que seria estranho, uma vez que o Silva não tinha falta de rede. E estava sentado na mesma mesa.

Pode tornar-se mais difícil encontrar a aplicação certa para falar com uma pessoa do que encontrar uma maneira sensata de dizer ao vizinho do lado que tocámos à campainha dele às cinco da manhã porque não estávamos a conseguir abrir a porta, com a bebedeira. Sobretudo se o nosso vizinho não tiver e-mail.

Imagina um homem que tenta arranjar forma de falar com uma mulher que lhe foi apresentada há dias.

- Eh pá, se tivesse o Facebook dela. Ou o WhatsApp. Quem me dera ter um Hangout com ela. Bastava-me um Skypezinho… Olha, nem que fosse o mIRC!

Perdido nestes pensamentos, o homem acaba por ter uma ideia luminosa, capaz de mudar a sua sorte. No início, ainda duvida. Parece bom de mais para ser verdade. E parece incrivelmente revolucionário. De qualquer forma, decide avançar.

Levanta-se, anda três metros e cumprimenta-a.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Alguns tipos de convidados de casamento

Seja qual for a proveniência dos noivos, um casamento tem sempre alguns tipos de convidados que podemos encontrar em qualquer outra festa semelhante. Elencar todos os tipos seria impossível, mais difícil do que elencar todas as espécies de pássaros, mas vou tentar apresentar algumas das aves menos raras dos casamentos.

Decadente – Geralmente, homem. Começa o casamento em óptimo estado, mas a primeira gota de álcool vai iniciar uma vertiginosa descida ao fundo do pântano. Vai tentar seduzir todas as convidadas (até aquela tia solteira de 62 anos) e vai acabar a festa a cantar, desafinado e fora de tempo, o tema “Depois de Ti Mais Nada”, para uma das empregadas de mesa.

Sentimental – Geralmente, mulher. Chora quando chega a noiva, quando se trocam alianças, quando um pombo faz cocó no chapéu da tia Esmeralda, quando se tira a fotografia de grupo, quando felicita os noivos pela 6.ª vez, quando se queima com a sopa (perdão, “creme de legumes”) e quando ouve o Decadente a cantar, desafinado e forma de tempo, o tema “Depois de Ti Mais Nada”, pensando que é para si, quando, na verdade, é para uma das empregadas de mesa.

Sobrevivente – Geralmente, homem. Temendo um desastre nuclear ou uma obra na quinta, que o impeça de sair durante três dias, este convidado come 26 rissóis, 34 camarões, 12 panados, uma chamuça (estavam demasiado picantes), 15 croquetes, 19 pedaços de broa com outras tantas rodelas de chouriço, um prato de sopa (perdão, “creme de legumes”), dois pratos de bacalhau, um de tornedó, doces diversos, fruta, não, que faz mal, bolo da noiva, não, que é muito doce, queijos, e depois de ter engordado 3 Kg num dia, acaba a festa a comer bifanas e caldo verde.

Cronista Social – Geralmente, mulher. Critica tudo. O vestido da noiva, o fato do padrinho do noivo, o chapéu da tia Esmeralda, a celulite (?!) daquela convidada muito bonita que está a arrasar corações, a comida, a decoração, a nódoa na camisa do Decadente (neste caso, a crítica até se pode aceitar) e a música. Está ali por obrigação. Festas a sério são em Paris. Sabe-o sem ter ido a nenhuma.

O tio de todos nós – Como o nome indica, é homem. O bigode é opcional. É a estrela entre os convidados. Tem piada, brinca com a família “do lado de lá” (toda a gente sabe que, em alguns casamentos, existe uma barreira invisível entre família/amigos do noivo e família/amigos da noiva; nos casamentos mais à antiga, pessoal dos dois lados até anda à chapada), faz brindes, dança com todas as mulheres (com a noiva, três vezes, e também com aquela velhota que quase deslocou a bacia a dançar kizomba). O tio de todos nós tem participação em tudo. Ou seja, está, para o casamento, como a Isabel dos Santos, para a economia portuguesa.

Mártir – Geralmente, homem. Não chega ao fim da cerimónia, por “cansaço” (na verdade, é por excesso de álcool, mas a desculpa é sempre o cansaço). Se chegar ao fim do casamento, é “ligado à máquina”, num canto qualquer.

Big Ben – Geralmente, a mãe da noiva. Está sempre a stressar. “Temos que ir para a igreja”, “Temos que tirar a fotografia”, “Temos que ir para a quinta”, “Temos que cortar a álcool àquele convidado que está a tirar a camisa”, “Temos que ir para as mesas”, “Tem que vir o bacalhau”, “Temos que dizer àquele convidado que não pode tirar as calças”, “Temos que abrir o bolo da noiva”… Depois do casamento, os noivos vão de lua-de-mel, enquanto que a mãe da noiva vai de férias, porque começou a stressar um mês antes da cerimónia e está exausta.

Trovador – Pode ser homem ou mulher. Canta, de forma épica, os feitos do noivo quando era criança. O falar e o andar cedo, as traquinices, aquele infeliz cocó no sofá, a ida para a escola, as vezes em que os professores fizeram queixa dele, aquela vez em que ele colou à carteira os cadernos de um colega de turma, aquela vez em que ele ficou, injustamente, com as culpas pelo carro do vizinho ter aparecido com os pneus furados… Se o trovador for um amigo do noivo, é melhor não o deixar beber, senão ele vai contar histórias comprometedoras. Caso ele já tenha começado a beber, matá-lo é a única solução.

As Spice Girls – Grupo de amigas histéricas da noiva. Não aguentam a emoção de ver a amiga casar. Ficam tão histéricas que, se pudessem, casavam no dia seguinte. Nem que fosse com um desconhecido.

Os Power Rangers – Grupo de amigos malucos do noivo. Sabem todos os podres do noivo. Sabem o que aconteceu na despedida de solteiro. Estão felizes, mas já estão a pensar em maneiras de tirar o amigo de casa, à Sexta-feira à noite.

Corcundas de Notre-Dame – Homem ou mulher. Trata-se do convidado que não tem educação nem se sabe comportar em sociedade. Fica horrível em roupa de gala. É como se o corpo dele entortasse, para protestar por causa da roupa. A única altura em que a roupa lhe fica bem é quando cai a primeira nódoa.

Feliz – Homem ou mulher. Sempre terminou e sempre terminará os casamentos com a frase “Correu tudo bem”.

sábado, 17 de setembro de 2016

Pessoas que só comem maçã

O que mais admiro na Apple é o facto de ter mudado, várias vezes, a forma como utilizamos a tecnologia. Fizeram-nos com os computadores, fizeram-no com os leitores de música, fizeram-no com os telemóveis e ainda criaram um objecto que, a princípio, parecia ridículo, mas que muita gente usa, nos dias de hoje: o tablet. Também admiro que, à pala da vontade de ter um iPhone, muitos burgessos se tenham tornado burgessos 2.0, com acesso à net e conta de e-mail. Foi como se a Apple tivesse reinventado o fogo e muitos burgessos tivessem saído da caverna para o Facebook.

À custa deste potencial disruptivo, a Apple conseguiu um estatuto que poucas empresas têm: tem uma legião de fãs de tal forma fiéis que, o que quer que se lhes apresente, eles elogiam. Se um verdadeiro fã da Apple tiver que cortar um braço para defender a sua dama, a única preocupação que ele terá será pousar o telefone, para que este não caia ao chão com o braço cortado.

Enquanto que o utilizador comum de telefone (mesmo o utilizador comum de Apple) tem o seu telefone e não quer saber se mais alguém tem um igual, o utilizador fanático da Apple tenta vender um Apple a todos os outros utilizadores, como se fosse um tipo das televendas. Ainda assim, prefiro os tipos das televendas, porque me falam de ficar com abdominais espectaculares e de tupperwares com lâminas que cortam frutos e legumes. O “vendedor” Apple, mais aborrecido, fala-me de hardware e de iOS X.

Na apresentação do iPhone 7, Phil Schiller, vice-presidente para a área do marketing da empresa, anunciou que este era o melhor iPhone alguma vez feito. Isto é, claramente, um golpe de génio, digno de um especialista em marketing, porque toda a gente esperava que uma das empresas mais valiosas do Mundo, depois de um ano de um intensivo processo de investigação e desenvolvimento, apresentasse um produto igual ao do ano anterior, mas com um nome e um aspecto diferente. Nada disso, Phil Schiller causou o espanto ao anunciar que o melhor telefone da Apple era, curiosamente, o mais recente.

O iPhone 7 tem melhor processador, mais memória, melhor ecrã, melhor câmara e um revolucionário programa de lavagem de roupa a 60º. Esperem, há aqui uma característica que não sei se faz parte. Já sei: acho que não tem mais memória.

Eu gostaria de fazer uma espécie de experiência social, que consistiria em fazer um lançamento fictício de um iPhone e testar a reacção dos fanáticos. Seria, mais ou menos, assim.

Apple – “O processador é igual ao do ano passado. Para além disso, tirámos a agenda e a calculadora. O telefone traz um bloco de notas e um ábaco, para quem quiser fazer contas.”
Fanáticos – “É bom, porque nos obriga a racionalizar os recursos de processamento e a desenvolver a memória e o cálculo mental.”

Apple – “O telefone não tem memória. Os utilizadores terão que ter um MacBook para armazenar tudo.”
Fanáticos – “É bom, assim o telefone nunca fica lento. E eu já tinha que comprar um MacBook e já…”

Apple – “O telefone não terá câmara incorporada. Terá seis tipos de câmara, vendidas separadamente, que poderão ser ligadas ao aparelho através da entrada lightning.”
Fanáticos – “É bom, porque quem não gostar de fotografia não tem que andar com câmara no telefone. E quem quiser câmara, também pode escolher uma ao seu gosto.”

Apple – “A navegação na net será mais lenta.”
Fanáticos – “É bom, porque poupas tráfego de dados.”

Apple – “O ecrã terá menos resolução.”
Fanáticos – “É bom, porque assim valorizas mais o conteúdo do vídeo e menos o aspecto.”

Apple – “O telefone só pode ser carregado com o cabo de alimentação que vem de origem, mais nenhum funciona. Não vale a pena pedir um a um amigo que tenha um igual.”
Fanáticos – “É bom, porque assim não corres o risco de ligar um cabo danificado. Só te ajuda a manter o telefone em segurança.”

Apple – “Apesar de ser pior do que o anterior, o telefone vai custar 800 paus.”
Fanáticos – “Justifica, o design é excelente.”

Os fanáticos da Apple são como membros de uma claque de futebol. Só que enquanto o tipo da claque te atira pedras, o fanático da Apple apaga-te da cloud.

domingo, 11 de setembro de 2016

Sabes o que é um "wellness advisor"?

No ginásio que frequento, há funcionários com uma função cujo nome considero bastante interessante: “wellness advisor”. Traduzindo, "conselheiro de bem-estar". Basicamente, a função do “wellness advisor” é contribuir para um maior bem-estar. Da conta bancária do ginásio. Peço desculpa, posso ter-me precipitado. A função do “wellness advisor” é contribuir para um maior bem-estar das pessoas. Das pessoas que contribuem para o bem-estar da conta bancaria do ginásio. Numa empresa sem qualquer tipo de classe, poderia ser um “comercial”. Mas, justiça seja feita ao meu ginásio, a pinta da casa não admite comerciais. Só “wellness advisors”.

Dir-me-ão: o teu ginásio é todo moderno. De facto, é, mas não nestas coisas: estou em condições de afirmar que quem introduziu o “wellness advising” em Portugal não foi o meu ginásio. Foi a dona Rosalinda Pedrouços, natural de Godinhaços, que escreveu, em 1952, o livro “Conselhos para o Bem-Estar e Mezinhas Diversas”. Mãe de cinco filhos, avó de doze netos, esta senhora está para o “Wellness Advising” como o Einstein para a Física, Steve Jobs para a electrónica de consumo, ou Gustavo Santos para as cenas da vida, em geral.

Fiquemos com alguns dos conselhos mais emblemáticos desta adorável senhora.

"De finais de Agosto a finais de Maio, leva um casaquinho, se saíres à noite"
"O meu Armando estava sempre doente e nem era por andar pelo meio do milho, com a Joaquina, porque o Manel também andava. Não era com a Joaquina, era com outra moça. Mas levava sempre o casaquinho e nunca estava doente."

"Não andes ao sol sem chapéu"
"Uma vez, o meu marido andou a tarde toda ao sol, no campo, sem chapéu. Ficou tão atarantado das ideias que, a caminho de casa, apalpou a nossa vizinha a pensar que era eu. E nós nem somos parecidas."

"O mar e o ar do mar fazem bem aos ossos"
"Passeia junta ao mar e molha os pés, que os ossos ficam mais rijos. Só tem cuidado com o f**** da p*** do peixe-aranha."

"Deitar cedo e cedo erguer…"
"O meu Jorge gosta tanto de se deitar cedo que, quando vai à tasca à noite, no caminho de volta já nem chega a casa e fica a dormir na rua, no chão. Só não percebo porque é que vomita sempre que faz isso."

"O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia"
"O meu Joaquim gosta tanto do pequeno-almoço que toma três. Ao segundo já mete bagaço na cevada, ao terceiro come bacalhau frito."

"Come fruta"
"O meu Manel sempre foi muito forte. Come seis maçãs por dia. E quatro bananas. E uma garrafa de vinho, para enrijecer. Porque o vinho, ao fim e ao cabo, é uva."

"Come sopa"
"O meu Manel come a sopa toda. Deita-lhe muito vinho, mas isso é só porque lhe custa a digerir a cenoura."

"Não comas muitos fritos"
"O meu Tone comia muitos fritos, andava a engordar. Passou a comer a sopa com vinho que o Manel come e agora está com problemas de fígado. É porque é o moço é frágil."

"Não durmas ao fim de comer, que te faz mal à digestão"
"O meu marido às vezes, adormece ao fim do almoço e depois fica mal disposto. Mesmo que tenha comido pouco. Na última vez em que isso aconteceu, só tinha comido um frango e meio e bebido uma garrafa de vinho."

"Não durmas de janela aberta, nem no Verão"
"Podem entrar mosquitos. No quarto da minha Esmeralda até chegou a entrar um moço cá da vila com quem ela andava a namoriscar."

"Pratica desporto"
"O meu Joaquim pediu a pai para o deixar jogar à bola no clube da terra. O pai, orgulhoso, perguntou-lhe se ele gostava de exercício físico e o rapaz respondeu que sim. O pai pôs-lhe logo uma enxada na mão."

domingo, 31 de julho de 2016

IKEA: um dia, alguém vai para lá viver

Noutro dia, fui ao IKEA. Jantar. A primeira impressão foi esta: os móveis são razoáveis, as almôndegas são óptimas.

Tudo o que eu julgava saber estava errado. Não sobre almôndegas, porque toda a gente sabe que as almôndegas são um animal herbívoro, que vive em regiões de baixa vegetação. Da mesma forma que o cão é um parente do lobo e que o gato é um parente do leão, a almôndega é parente do hambúrguer. Só que o hambúrguer rasteja, enquanto que a almôndega rebola. A característica que eu considero mais engraçada nas almôndegas é que, embora apenas o macho tenha testículos, tanto o macho como a fêmea parecem testículos.

Mas, voltando ao tema, tudo o que eu julgava saber estava errado. O IKEA é um restaurante bom com mobiliário razoável. Ou muitos restaurantes que eu conheço começam a vender mesas-de-cabeceira ou vão ter sérios problemas. No restaurante do IKEA, tudo tem bom aspecto: as entradas, os pratos, as sobremesas, aquele candeeiro a 16,99€.

O nível de cagança também é elevado. Há um chef a coordenar as operações, há funcionários sorridentes, há um abajur que se movimenta com um tabuleiro. Ah, peço desculpa, era só uma senhora com muita laca no cabelo à procura de lugar para se sentar.

Uma vez que o empreendedorismo está na moda, deixo algumas sugestões para complementar o principal negócio do IKEA, que é, como toda a gente sabe, a restauração.

Spa e salão de beleza
Escolher cores para móveis e cortinados, e carregar sacos de móveis por montar, dão cabo da mente e do corpo. Há alpinistas que treinam no IKEA, uma vez que, comparado com um ambiente agreste como este, o Everest parece uma ilha paradisíaca do Pacífico. Assim sendo, nada como um espaço onde os clientes pudessem descontrair, depois de uma jornada de compras.

Quartos para dormir
No IKEA já há quartos, mas são para vender. Neste caso, seriam mesmo para dormir. Uma vez que uma visita ao IKEA nunca permite comprar tudo o que se precisa, o ideal seria que os clientes pudessem lá passar o fim-de-semana.

Sex shop
Toda a gente sabe que a escolha de uma “chaise longue” pode provocar um enorme desgaste numa relação. Nada como uma sex shop, onde os casais poderiam apimentar as suas relações, depois de um cansativo dia de compras para casa.

Parque infantil
Escolher a cor dos cortinados é um processo que exige mais concentração do que uma partida de xadrez. Escolher a cor dos cortinados ou um candeeiro para a sala, com uma ou mais crianças aos berros, a pedirem para ir ao Toys’R’Us, é tarefa impossível. Com um parque infantil, as crianças estariam a divertir-se, enquanto a mãe suspirava por aquele roupeiro e o pai suspirava por ir embora.

Sala de projecção de vídeo
Em dias de jogos de futebol importantes, as senhoras poderiam passear à vontade, livres de confusões, pelo IKEA, enquanto que os homens ficariam sossegadinhos a ver futebol num ecrã gigante.

O objectivo do IKEA é que, uma vez dentro da loja, o cliente não consiga sair facilmente. Com estas ideias postas em práticas, não demoraria muito para que alguém se decidisse mudar para lá, de vez. Sempre pouparia tempo a carregar e a montar móveis. E haveria almôndegas todos os dias.

domingo, 24 de julho de 2016

Pokémon Go: como não jogar

Não se fala de outra coisa: Pokémon Go é o jogo do momento. Os órgãos de comunicação social, uma vez terminado o Europeu de futebol e com o Presidente da República quase de férias, ficaram sem assunto. Compreende-se: seja meia dúzia de ataques terroristas, um pouco por toda a Europa, ou a possibilidade de a União Europeia sancionar Portugal por causa do défice excessivo, não há nada de relevante para noticiar. Sendo assim, os jornalistas têm dedicado imenso tempo a falar do que realmente importa: o Pokémon Go.

Uma vez que já se fez uma boa dúzia de guias sobre como jogar, resolvi lançar algo inovador. Eis o guia sobre como não jogar.

Evita locais com elevada criminalidade
Nesses locais, encontras pokémons, mas mais depressa te encontram a ti. Vais à procura do ginásio de pokémons e acabas no matadouro. Quando te puserem as mãos em cima, vais desejar que estivesses dentro de uma pokébola.

Não jogues enquanto estiveres a pilotar aeronaves
Podes fazer um desvio para apanhar aquele Pidgey e ficar sem combustível. Depois, em vez de procurar pokémons, algumas pessoas vão ter que procurar uma caixa negra.

Evita procurar pokémons no gabinete do teu chefe
A não ser que ele te peça ajuda para apanhar aquele Charmander, nunca entres no gabinete do teu chefe para apanhar um pokémon. Podes acabar por ter que ir procurar o Pikachu no centro de emprego.

Não jogues debaixo de água
Não consegues respirar e, pior do que isso, o wi-fi é péssimo.

Não apanhes pokémons durante uma relação sexual
Não deves usar o telemóvel durante uma relação sexual. A não ser que queiras verificar o email, ver vídeos de gatinhos ou atender aquela chamada importante da tua avó.

Não jogues durante a condução de veículos terrestres
Nem é porque podes sofrer um acidente, porque isso é secundário. É só porque podes atropelar um Weedle.

Jogar no comboio também é má ideia
Há dias, um tipo que ia para o Porto teve que sair em Rio Tinto por causa de um Jigglypuff. Teve que esperar até às seis da manhã pelo comboio seguinte. Foi uma seca porque, durante essas horas, o servidor do jogo esteve em baixo.

Não jogues bêbado
Alguns pokémons, como o Eeevee ou o Mankey, têm bom olfacto e vão fugir com o teu bafo.

Cuidado se alguém estiver por perto a jogar Candy Crush
Noutro dia, enquanto um amigo meu jogava o nível 158 do Candy Crush, passou um Bulbasaur que lhe enfardou as gomas todas.

Num funeral, nem pensar
Vais para a cova atrás de um Diglett e levas com umas pazadas de terra em cima.

Não jogues se pilotares uma nave espacial
Acho que os criadores do jogo ainda não colocaram pokémons no espaço.

Numa sala de cinema, nem pensar
Detesto ser incomodado. Noutro dia, estava a meio de um filme qualquer e ouvi uma pokébola a apanhar um pokémon. Fez tanto barulho que até me acordou.

O Pokémon Go deve ser jogado com moderação. Que é o mesmo que dizer: "Faz pausas para comer, dormir e satisfazer necessidades fisiológicas".

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Facebook: avisos muito sérios

Estão novamente na moda os avisos legais no Facebook. Refiro-mo àqueles textos que as pessoas copiam e colam nos seus murais, avisando que, a partir do dia “x”, ninguém pode aceder indevidamente aos seus conteúdos nem copiá-los. Estes avisos vão surgindo, de longe a longe, e quando aparecem tornam-se quase virais. São como a gripe: sazonais e contagiosos. E aborrecidos.

Eu acho lindo, fofo, quase poético, que as pessoas acreditem que um texto publicado num mural possa impedir que alguém aceda à informação colocada online. Esta ideia de um texto fazer lei pode ser pretexto para criarmos uma linha de t-shirts a dizer “Declaro que sou o primeiro a ser atendido” ou “Declaro que aquele lugar de estacionamento é meu”.

No Facebook, as pessoas mostram tudo: a namorada, o namorado, a família e os amigos, o cão, o gato e o piriquito. Mostram o piriquito do piriquito. Este último exemplo parece ordinário. Mostram os passeios e as férias, as borbulhas (nas fotografias em grande plano), a semi-nudez (nas fotografias na praia), a barriga e aquele dente chumbado (mesmo assim, um sorriso fica sempre bem).

Apesar de mostrarem isto tudo, a privacidade é assunto sério! Expor-se no Facebook e querer privacidade é a mesma coisa que ter consulta com o nutricionista numa barraca do Festival da Francesinha.

Uma vez que me preocupo com a gestão que os meus leitores fazem das redes sociais, proponho o próximo aviso legal a colocar no Facebook.

“A partir do dia ‘x’, o Facebook vai mudar a sua política de privacidade, deixando toda a informação publicada nesta rede social à mercê de pessoas coscuvilheiras sem escrúpulos. Sim, porque há pessoas coscuvilheiras com escrúpulos, que são aquelas que coscuvilham mas arranjam sempre uma excelente justificação para isso. Eu não autorizo que, a partir do dia ‘x’, as pessoas visitem o meu perfil sem consulta prévia do meu advogado e sem o pagamento de uma caução de 2376€ (valor que será acrescido de IVA). Esta caução será retida por mim caso algum comentário depreciativo/constrangedor seja feito a uma publicação minha. Para além disso, eu não autorizo que me identifiquem em publicações que publicitem a inauguração de bares, a ocorrência de festividades diversas ou de encontros gastronómicos. Por cada publicação que diga que este mês terá cinco Sextas, cinco Sábados e cinco Domingos, e que isso não acontece há 800 anos, eu peço uma indemnização por publicidade enganosa, uma vez que isso é tão banal que acontece em qualquer mês de 31 dias em que o dia 1 calhe à Sexta-feira. É tão verdade que isso acontece já neste mês de Julho. Acrescento que processarei, ao abrigo do artigo 5.º do Código dos Avisos Legais no Facebook, qualquer pessoa que partilhe vídeos cujo título comece por “Você não vai acreditar no que..”, porque isso não são vídeos, são vírus. Declaro, também, que quem partilhar publicações supostamente noticiosas, de sites que não são de nenhum entidade que exerça jornalismo, será punido com a obrigação de me comprar o jornal, todos os dias, durante um ano. Devido à nova política de produtividade do Facebook, dedicada às pessoas que consultam esta rede social no trabalho, todos os que publicarem fotografias na praia, irritando, dessa forma, quem está a trabalhar, serão obrigados a contar todos os grãos de areia da referida praia, até voltarem a poder publicar no Facebook. Eu denunciarei quem publicar fotografias na praia, de maneira a fazer respeitar esta nova norma. Ao mesmo tempo, exigirei junto do Facebook que quem fizer publicações de ódio seja obrigado a cantar, vestido de Winnie the Pooh, o tema “Imagine”, do John Lennon, num estádio de futebol cheio. Sem mais a acrescentar, termino declarando que o meu mural será, a partir do dia ‘x’, um espaço totalmente privado, o qual eu acredito ter perfeitamente controlado, com a publicação de um simples texto sem qualquer valor legal, mas ao qual muitos dos membros da minha rede terão acesso. Como sempre tiveram e como sempre terão.”

Com isto, espero ter ajudado. E gostava que se criasse uma corrente de partilha deste texto. Mesmo que não tenha valor legal, pode ajudar a tornar o Facebook um lugar mais aconselhável. Para a referida partilha, proponho a “hashtag” #avisoquaselegal.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Teoria dos panados infinitos

Às vezes, escrevemos textos sem nenhum tipo de conteúdo relevante e que são meros exercícios para passar o tempo. Isto só não acontece a Miguel Sousa Tavares, que até quando envia uma SMS a avisar alguém de que vai chegar atrasado exprime pensamentos relevantíssimos para a nossa vida em sociedade. Mas o Universo só admite uma vaga para Miguel Sousa Tavares. E está preenchida.

Outras vezes, escrevemos textos que nos irão definir, para o resto da nossa existência. Este é um desses textos. Numa primeira análise, poderá parecer um texto irrelevante. Numa segunda, também, mas a verdade é que este texto é mesmo importante. Para que não digam que as homenagens só são feitas depois do seu alvo ter desaparecido, vou fazer uma sentida e mais do que merecida homenagem, enquanto eles ainda estão cá.

Falo dos panados.

O panado é uma instituição como há poucas, na nossa sociedade. Este petisco tem implicações sociais, matemáticas, filosóficas e até místicas na nossa existência. Serve este texto para explicitar algumas dessas implicações.

Comecemos pela parte matemática: não que seja impossível, mas é altamente improvável que alguém coma só um panado. Primeiro, porque sabe sempre bem comer mais um panado. Segundo, porque sabe sempre bem comer mais dois panados. E por aí fora. A maioria de nós está condenada a ter, com os panados, a mesma relação que a banca portuguesa tem com os processos de recapitalização com dinheiro público: “só mais um, amanhã ganho juízo”.

Já a questão filosófica dos panados remete-nos para o paradoxo de Zenão. Segundo este filósofo grego da Antiguidade, o que se move alcança sempre o seu ponto médio, antes de atingir o ponto final. Mas também atinge sempre um outro ponto médio, antes de atingir o ponto médio referido anteriormente. E assim sucessivamente. Zenão queria, com isto, dizer que o que se move nunca chegará ao ponto final, porque o espaço que tem para percorrer pode, sempre, ser dividido por dois. No fundo, o infinitamente pequeno parece ser infinitamente grande.

O mesmo acontece com os panados: podes sempre dividir um panado em dois. Ou em vários. Um panado é infinitos panados. Pelo que, comer infinitos panados é infinitamente mais fácil do que comer um só panado. E ainda que tenhas enfardado seis panados, o sétimo pode ser facilmente dividido em dois. Ou em infinitos. O importante a reter é isto: cabe sempre mais um panado no estômago.

Outro aspecto que, no meu entender, importa relevar dos panados é a semelhança que o ciclo de existência de um panado tem com o ciclo de vida do ser humano. Quando é acabado de fritar, o panado está cheio de força, como um ser humano na sua juventude. Mas o excesso de panados quentes pode provocar enjoo. No fundo, como aturar, em demasia, seres humanos jovens.

O verdadeiro encanto do panado surge algumas horas depois da fritura. O mesmo acontece com os seres humanos: depois dos 30 anos, o ser humano é uma espécie de panado da refeição anterior, já sem a mesma vitalidade, mas com um paladar muito mais apurado. E menos enjoativo. Com a tirania do passar do tempo, o panado vai-se degradando. Os seres humanos também.

Há mesmo quem acredite, e este é o lado mais místico do panado, que existe uma espécie de “Fada dos Panados”, que aparece durante a noite e melhora os panados. Esta entidade é uma espécie de Fada dos Dentinhos, mas muito mais útil. Se os Maias tivessem panados, certamente fariam enormes festas, com sacrifícios humanos e tudo, em honra da Fada dos Panados.

Não há uma boa festa sem panados. Um lanche comemorativo de qualquer coisa, um piquenique, uma excursão à praia, promovida pela Junta de Freguesia, ou uma ida à Final da Taça de Portugal, sem panados, são como um concerto da Adele sem sexo, drogas e rock’n’roll. Calma: enquanto escrevo, dizem-me que os concertos da Adele não têm sexo, drogas e rock’n’roll. Então, o que é que o pessoal vai lá fazer?

Voltando à vertente social do panado, afirmo que a Assembleia-Geral das Nações Unidas até é fixe, mas contraponho que onde acho que existiria uma verdadeira sintonia entre seres humanos de diversas proveniências seria numa mesa gigante, em que os representantes de diversos países colocassem os seus tupperwares e partilhassem os panados. O panado induz o sentimento de festa e de concórdia. Um tupperware cheio de panados do dia anterior poderia ter resolvido vários conflitos históricos. E alguns menos históricos, como daquela vez em que o Sr. Horácio andou à chapada com o Sr. Alípio por causa de um muro e uns terrenos.

No fundo, o panado une os seres humanos. Com esta imagem bonita, terna, “colesterólica”, remato esta homenagem ao panado. Com um lamento apenas: ao contrário do que acontece com os panados, este texto nunca melhorará com o tempo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Preferes cães ou gatos?

Às vezes, as pessoas perguntam se somos “dog persons” ou “cat persons”, que é o mesmo que perguntar se preferimos cães ou gatos. A verdade é que, podendo gostar dos dois, tendemos sempre mais para um dos lados. O Scooby-Doo e o Garfield são muito diferentes.

A Pantera Côr-de-Rosa, por seu lado, é diferente de tudo, não só, por causa da cor pouco usual, mas também por se parecer com um cão. Mas sobre a Pantera Côr-de-Rosa dissertarei em tempo oportuno.

Os cães são muito emocionais. A vida deles é um carrossel que, calculo eu, será extremamente cansativo. Os cães vivem tudo no limite. E sem recorrerem a aditivos. Com excepção do Piruças, do sr. Horácio, que, uma vez, lhe apanhou o saco do café e roeu aqueles grãos todos. Passou três dias atrás da cauda.

O cão vive no limite. Sais de casa para ir comprar pão, regressas cinco minutos depois. O cão faz-te tanta festa como se tivesses passado dois anos na guerra. Passas um fim-de-semana fora. Regressas e o cão faz-te tanta festa como se tivesses sido dado como morto, na guerra.

Os cães falam, mas com os olhos. Experimenta comer com um cão a olhar para ti. Ele faz olhos de quem diz: “Não, fica aí, com a tua comidinha. Que te saiba bem. Nem me dás um bocadinho. Era só um bocadinho. Achas que te ia fazer falta? Achas que me ia fazer mal? Era só um bocad…”. Dás-lhe um bocadinho. O cão está tão desejoso de provar o que estás a comer que até te morde os dedos, quando lhe dás um pedaço. Com a gula, ele quase nem mastiga o que lhe deste. Tu pensas que o cão ficou contente. Estás enganado. Ele vai recomeçar o processo, para que lhe dês mais. Alguns, se forem ignorados, usam a bomba atómica da pedinchice: começam a babar-se. Ininterruptamente.

Os cães adoram partilhar o sofá com os donos. Começam por saltar para o sofá, depois, dão quinze voltas, até o sofá ficar com uma covinha na qual o corpo deles assente perfeitamente. Finalmente, deitam-se com um olhar meigo, como quem diz “Eu vou ficar neste cantinho, sem te incomodar”. Passado dez minutos, não tens sítio para estar. O cão foi-se encostando, encostando, até te roubar todo o espaço. Para além deste problema, tens outro: tenta pegar num cão, ou simplesmente desviá-lo, enquanto ele dorme. Parece um penedo. Das duas, uma: ou o corpo do cão tem um sistema qualquer de peso morto que multiplica o seu peso real por 246, ou tem ventosas, como os polvos. Uma vez que ele tenha colonizado o teu espaço no sofá, resta-te ir para a cama.

O momento alto é a ida à rua. Se, por azar, pegares na trela sem ser com o intuito de levar o cão à rua, mas ele estiver a ver, vais ter que o levar. Isto porque o cão vai começar a saltar e a correr, histérico, vai deixar tapetes e sofás fora do sítio, vai correr à tua volta como se fosses uma presa e ele um predador, vai rebolar e só não vai cantar o hino porque nem sabe nem cantar, nem sabe o hino. Qualquer cão reage de forma histérica à trela. Tirando o Piruças, do sr. Horácio, que uma vez roeu um frasco de comprimidos para dormir e acabou por comer alguns. Esteve três dias sem ligar à trela. Depois, acordou.

Os gatos, por seu lado, serão sempre algo selvagens. Podes mimar o teu gato, dar-lhe comida a horas e respeitar o espaço deles. Arranjas um pássaro e ele vai matar o teu pássaro. Pode ficar dias ou semanas a admirar a gaiola. Um dia, vai matá-lo. E nem é para comer. É porque a existência de outros seres vivos irrita o gato. Seja um pássaro, uma mosca ou o Piruças, do sr. Horácio, que quando vê um gato desata a correr atrás dele.

Os gatos, como é sabido (embora ainda não demonstrado pela Ciência), conseguem dobrar o eixo espácio-temporal, bem como contornar as ondas da gravidade. E todas estas capacidades servem para um fim. Caçar? Não. Viajar no tempo? Não. Levitar? Não. Todas estas capacidades servem para que o gato caiba dentro de uma caixa de sapatos. Um gato até pode viver numa herdade, mas, no fim do dia, ele vai querer dormir naquela caixa na qual não cabe deste que tinha seis meses. Na ausência de uma boa caixinha, serve uma gaveta. Ou um saco.

Ao contrário do que se diz, os gatos também festejam o regresso do dono a casa. Mas, como são muito complexos, dividem este regresso em dois tipos: sem sacas de compras ou com sacas de compras. No primeiro caso, o gato aparece, roça-se nas pernas do dono, como se dissesse: “E quê? Tá tudo? Dormi a tarde toda. Arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir”. Quando o dono regressa a casa com sacas, a reacção é diferente. “E quê? Tá tudo? Eeeeeeh, sacas! O que me trouxeste? Deixa-me meter a cabeça em todas as sacas. Só para ver. Hum, nada de especial. Agora arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir…”

Os gatos dividem os sons também em dois tipos. Sons insignificantes, como a voz do dono, o som de uma porta a abrir ou de uma explosão nuclear, não perturbam o sono. Os sons que verdadeiramente importam são os sons quase imperceptíveis. O papel que caiu ao chão e saltitou duas vezes, aquela mosca que voou até à janela e lá pousou ou a aranha a fazer uma teia, são motivos para o gato estar em alerta máximo.

A expressão máxima de satisfação do gato é o ronronar. Também neste aspecto, o gato é mais higiénico que o cão: o cão só sabe expressar satisfação tentando lamber as pessoas. O gato, por seu lado, produz um som propício à meditação. Devia haver uma estação de rádio que emitisse 24 horas por dia o ronronar de um gato. Muito do stress das sociedades modernas seria, assim, dissipado.

A delicadeza é outra das características deste felino doméstico. Se o teu gato resolver dormir um soninho no meio daquelas louças que estão na tua família desde o séc. XV e que davam para pagar a dívida externa de Portugal, deixa-o estar. Ele não vai deitar nada ao chão. Nem deves, em momento algum, fazer algum movimento brusco no sentido de tirar de lá o gato. Não que ele vá fugir e deitar tudo ao chão. É só porque não se deve assustar um animal.

Sendo tão diferentes, cães e gatos caminham para destinos opostos. Uma vez terminado o seu estudo sobre as espécies do planeta, os gatos irão embarcar de volta para o planeta de onde saíram. Os cães permanecerão, até ao fim dos tempos, à espera que os donos regressem a casa e peguem na trela.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pessoas que não sabem o que estão a fazer

Uma das coisas mais divertidas da vida é fazer bolas de sabão. Há algo de libertador, mas também de filosófico, no acto de fazer bolas de sabão. Mas isso não é o que me traz a este texto. Só achei importante partilhar esta opinião.

O que me traz a este texto é outra das coisas mais divertidas da vida, que é a seguinte: pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. O ser humano tem a capacidade de ser corajoso também para isso: saber que há coisas que não pode, não deve, não sabe fazer, mas fazê-las na mesma.

Por exemplo: pessoas a estacionar. Vais na estrada e segue um carro à tua frente. De repente, pára. Olhas para o lado e sabes que aquela carrinha BMW não cabe naquele lugar que, no máximo, dá para um Opel Corsa. “Não, ele não pode estacionar ali”, dizes para ti. Pisca para a direita, luz de marcha atrás. “Ele vai estacionar ali.”

Lentamente, com a confiança dos predestinados, o condutor da carrinha BMW começa a tentar estacionar. Tu já percebeste que o carro não cabe, o condutor que segue atrás de ti também, o senhor que está à porta do café também, o gato que está em cima do muro não percebeu, mas isso é porque está atento ao pássaro que pousou ali perto.

O condutor da carrinha BMW não entende por que razão está toda a gente a buzinar. Ele ainda não recorreu ao número de manobras suficientes para um perfeito estacionamento, não carregou no botão que permite encolher o carro, nem no botão que permite dobrar o eixo espácio-temporal. No fim, acaba por abandonar o local, mas só porque já está farto de ouvir carros a buzinar. No fundo, ele sabe que o carro cabia naquele lugar. À vontadinha.

A utilização de computadores é outra área rica em pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Alguém está no computador e aparece-lhe um aviso qualquer. Primeiro passo: fechar o aviso sem o ler. Segundo passo: abrir o painel de controlo. Depois, começar a escolher todas as opções, alterando, aqui e ali, alguns parâmetros. O computador, que sabe mais do que o utilizador, começa a avisar: “A seguinte mudança pode desactivar algumas funcionalidades do computador”, “A seguinte mudança pode provocar mau funcionamento do computador”, “A seguinte mudança pode provocar danos irreversíveis no computador”, “A seguinte mudança pode provocar uma explosão em alguma parte do planeta”. Não há medo: o utilizador vai continuar convicto de que está a resolver o problema. Certeza, só uma: quando levar o computador a arranjar, vai dizer ao técnico que não fez nada.

Também gosto de pessoas que, quando algum aparelho não funciona, abrem-no logo. O caminho é de sentido único: tirar peças, tirar peças, tirar peças. No fim, vão sobrar duas ou três. Ou dez. Mas as pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer nunca desistem. Pelo menos, enquanto houver mais uma peça para tirar.

Outra coisa gira: cartas das Finanças ou de algum organismo público. Alguém recebe uma carta, carregadinha de linguagem técnica. “Depois de analisado o pedido do cidadão X, portador do Cartão do Cidadão n.º Y e do Número de Identificação Fiscal n.º N , a repartição de finanças de Sobreixos de Baixo decidiu indeferir o pedido, por não se verificarem as condições necessárias ao procedimento solicitado. O cidadão em questão deve proceder à imediata regularização da situação. O não cumprimento desta ordem desencadeará o conjunto de penalizações previstas no artigo 27 do código-que-regula-a-situação-em análise.”

O tipo que recebe a carta não faz ideia do que está a acontecer. Não sabe se tem que pagar alguma coisa, se tem que escrever uma carta a alguém, se deve reclamar, fugir do país ou chamar os bombeiros. Mas, confiante, acha que não deve ser nada e usa a carta para acender o fogareiro e assar duas morcelas.

Povo que sabe de construção é outro clássico. Pessoas estudam engenharia durante alguns anos, aprofundam conhecimentos de Matemática, Física, materiais e outros temas. Recorrem aos mais recentes softwares de desenho de estruturas e testam as suas ideias ao pormenor. Tudo isto é completamente destroçado por um gajo que nunca estudou nada sobre o assunto, mas que, curiosamente, percebe imenso do assunto, e que assiste à obra, num café ali perto. “Isto, pra mim, tá mal. Aquilo vai cair. Os pilares não são suficientemente fortes. E o tabuleiro está torto. Em dois sítios.”

Os Ministros das Finanças são, regra geral, pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Mas são muito mais perigosas do que outras do mesmo grupo porque, ao contrário das pessoas que não sabem estacionar, das pessoas que não sabem mexer em computadores, das pessoas que não sabem reparar máquinas, das pessoas que não sabem o que está escrito nas cartas ou que não sabem nada de construção civil, os Ministros das Finanças têm uma extraordinária influência na vida dos outros.

E têm outra característica que os torna únicos: ninguém põe uma pessoa que não percebe de computadores a reparar computadores, ninguém põe um tipo que não percebe de construção a fazer um viaduto, mas todas as instituições financeiras querem alguém que tenha sido Ministro das Finanças. Mesmo que não fizesse a mínima ideia do que estava a fazer, durante o mandato.

Durante a produção deste texto, eu próprio não fazia a mínima ideia do que estava a acontecer. Mas não parei. Só para ser coerente com o que escrevi.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sofremos de excesso de tecnologia

Vivemos numa era em que existe uma “doença” capaz de irritar mais do que um mosquito a passar uma tangente a uma orelha, uma comichão surgida em público, num sítio impróprio do corpo, ou até o Manuel Luís Goucha e a Cristina Ferreira a falarem ao mesmo tempo: falo desse flagelo que é o excesso de tecnologia.

Nos nossos dias, precisamos de ter tudo ligado em rede. Pronto, tudo, tudo, não. Basta o portátil, o telemóvel, o tablet, a tv, o frigorífico, a máquina de lavar roupa, a torradeira e o secador.

E o ar condicionado.

E o esquentador.

Os objectos estão todos ligados em rede, sabem tudo da nossa vida e comunicam nas nossas costas. São uma espécie de vizinha coscuvilheira do 5.º andar.

E nem se pode dizer que a Internet esteja em todo o lado. Não está, por exemplo, na casa do Sr. Fernando. Mas isso foi por causa do mau tempo, que estragou uma ligação qualquer. Neste momento, o Sr. Fernando está aos berros com um operador da linha de apoio ao cliente.

Na nossa vida, todos os objectos têm processadores. Ou seja, tudo obedece a uma rotina. Por outras palavras, os nossos objectos parecem um casamento, a partir do terceiro ano.

Não, não gostava que a televisão fosse a preto-e-branco. Excepto quando aparecem pessoas híper-maquilhadas, capazes de provocar um ataque epiléptico a quem olha para elas. Não, não digo que o “full hd” não devia existir. Bom, se calhar, quando aparece aquela actriz muito gira que não envelheceu muito bem, ou aquelas pessoas que fizeram tantas plásticas que derretem ao sol, viveríamos bem com metade dos pixéis. Não, não gostava que o cinema e a televisão fossem mudos. Excepto nos canais generalistas, ao Domingo à tarde.

Do que eu me queixo é das dificuldades provocadas pelo excesso de tecnologia. Pensemos nas consolas. No tempo do Spectrum, um gajo ligava o jogo, quando andava na primeira classe, e, com sorte, começava a jogar quando seu primeiro filho entrava para a escola. Depois, as consolas evoluíram um bocadinho e, em cinco minutos, estávamos a jogar.

Depois, evoluíram ainda mais e começaram a ligar-se à net. Ora, da mesma maneira que a Internet nos retira produtividade, porque vamos ao Facebook e ao Youtube, as consolas também ficaram menos eficientes, porque perdem imenso tempo na net: ligamos a consola e ela actualiza o software, a nossa conta, os dados do jogo, a previsão do tempo para os próximos dez dias, as farmácias de serviço, a programação da televisão, os dados da bolsa de Tóquio e, entretanto, passaram vinte minutos, é hora de ir buscar o filho à escola e nem uma partida de FIFA jogámos. Ou seja: as consolas já padecem de excesso de tecnologia.

Outro sinal dos tempos que eu adoro: a conectividade dos aparelhos. Antigamente, as televisões tinham botões para mudar de canal. Era uma chatice, porque era preciso remover o rabo do sofá e proceder à troca de canal. Depois, alguém inventou o “pau de canal”: uma espécie de “pau de selfie”, mas sem selfie, que podia ser um toco de vassoura e que era usado para mudar de canal, carregando nos botões da televisão, a partir do sofá. Até que, um dia, foi inventada essa maravilha da preguiça que é o telecomando.

O Mundo podia ter parado aí. Mas o ser humano não é de se deixar ficar e resolveu subir a parada: hoje, já é possível controlar tudo a partir do telemóvel. Até mudar de canal. É tudo muito bonito, mas basta surgir um problema de compatibilidade e, em vez de mudar de canal, estamos a desligar a máquina de lavar louça, a ligar o forno ou a mudar a frequência do pacemaker do vizinho.

Uma pessoa que não consiga mudar de canal com o telemóvel entra, imediatamente, em desespero. Vai ficar sempre com a sensação de que lhe falta qualquer coisa, como um carro sem auto-rádio, um computador sem Internet ou, muito pior, sexo sem preliminares. Ver televisão, nos dias de hoje, sem poder mudar de canal com o telemóvel é como tentar comer esparguete à bolonhesa com uma pinça. Bem, não exageremos: uma pessoa que não consiga mudar de canal com o telemóvel pode ter uma vida normal. Desde que não veja televisão e que procure tratamento médico adequado.

Outro sinal desse flagelo que é o excesso de tecnologia: os carros. Antigamente, mas muito antigamente, andávamos a pé. Depois, passámos a andar a cavalo. Mais tarde, inventaram o carro e revolucionaram a vida dos seres humanos. Tudo muito bem, até que a electrónica invadiu os carros e fez deles meninos mimados, daqueles que reclamam sempre da comida ou que não jogam à bola porque se podem magoar.

O motor do carro pode estar capaz de transportar uma família de gorilas, juntamente com a respectiva bagagem (são gorilas citadinos, logo, portadores de pertences pessoais, como roupa, perfumes e diversos produtos de higiene e beleza) mas, se houver um circuitozinho qualquer que tenha um problema, o carro pára e faz uma birra. Fica ali a amuar e acender luzes no painel. Ninguém o tira dali. Quando se repara o que estava mal, ele volta a andar, como se nada tivesse acontecido.

No fundo, os carros de hoje são namoradas/os chatas/os: por causa de um fusível queimado, já não querem sair.

Há tecnologia a mais nas nossas vidas. Vou publicar esta afirmação no Facebook e espero que façam “Like”. E, já agora, vou publicar este texto, antes que fique sem net. Aí está outra coisa. Para os seres humanos, a net é como o oxigénio: não a vemos, mas não aguentamos muito tempo sem ela.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Diz-me como comes, dir-te-ei quem és

Uma das modas mais recentes é dizer que o futuro da Humanidade vai jogar-se no confronto entre as pessoas que são X e as que são Y, ou no tema T. Até podia ser influência dos filmes, mas não é, claramente, uma vez que, pelos filmes, sabemos que o futuro da Humanidade está em Chuck Norris.

No entanto, de forma a cativar os leitores para um texto que não tem interesse absolutamente nenhum, vou afirmar, destemido, como se fosse um gajo a explicar a um brutamontes do ginásio que, a estacionar, lhe meteu uma porta do carro toda dentro, que o futuro da Humanidade se joga na forma de comer das pessoas.

No que diz respeito à forma de comer, podemos dividir os seres humanos em diversos grupos. Comecemos pelo critério da quantidade.

Buracos negros
Absorvem a matéria toda. As pessoas que enfardam têm pouco tempo livre. Ou porque estão a enfardar, ou porque estão a proceder à evacuação do que enfardam (vulgo, fazer cocó). Só há um momento em que estas pessoas não estão a pensar em comer: o último da sua existência. Isto porque, no penúltimo, ainda pensam “Havia bolo de chocolate…”. Estas pessoas são parecidas com um aspirador, mas há uma pequena diferença: no aspirador, não entra tudo. Quando vão jantar fora, só nas entradas garantem nutrientes que dariam para manter uma pequena tribo, durante uma semana. Depois, ao longo da refeição, vão dilatando, até parecerem uma cobra a digerir um animal de grande porte. Se fosse possível que a pessoa que enfarda e a cobra falassem sobre o inchaço, a cobra diria “Estou inchada porque estou a digerir um porco”, enquanto que a pessoa que enfarda responderia “Eu ainda nem jantei”.

Respiradores
Há pessoas que não se lembram do que comeram ao almoço. Os respiradores não se lembram da última vez que comeram. Conseguem extrair nutrientes do ar, pelo que lhes basta respirar para se alimentarem. Às vezes, estas pessoas apanham uma corrente de ar e ficam enfartadas. Quando eram pequenas e lhes diziam “Se não comes, vem aí o papão”, elas respondiam “Pode ser que ele queira comer esta sopa horrível”. Aquelas a quem diziam “Come, senão vem aí o polícia”, dizem sempre o mesmo, quando param numa “operação stop”: “Senhor agente, não bebi álcool, mas confesso que também não comi a sopa”. Estas pessoas passam quatro minutos à mesa, numa refeição: 15 segundos a comer, o resto do tempo a desarrumar o prato.

Passemos ao critério da rapidez.

Carros de corrida
Estas pessoas são um enorme desperdício de dentes, visto que não mastigam a comida. São tão rápidas a comer que, se comessem peixe acabado de apanhar, como os ursos, o peixe chegava vivo ao estômago. Na Fórmula 1, as equipas mudam 4 pneus em meia dúzia de segundos. As pessoas que comem depressa comem 8 rissóis em 3 pneus e meio.

Necrófagos
Estas pessoas davam bom uso à metade da dentição que as pessoas que comem depressa
podiam dispensar. Demoram tanto a comer que, quando atravessam o Atlântico de avião, pedem a refeição logo depois da partida, para terem tempo de comer tudo. Há quem demore tanto que começa a refeição com amigos e acaba com as moscas que começaram a sobrevoar a comida, entretanto em processo de decomposição. Algumas demoram tanto que, no Ano Novo, metem no micro-ondas a comida que está no prato desde o Natal. Outras há que, quando acabam de comer a fruta, esta já está fora da época. Acho que já perceberam a ideia.

Existe, também, o critério da diversidade.

Camiões do lixo
Comem tudo. Os ossos do frango, as espinhas do peixe, as orelhas do porco, a língua da vaca, as cascas dos tremoços. O estômago destas pessoas tem paredes de lixa, o que permite que a digestão de uma bigorna seja igual à digestão de molotof. O único problema destas pessoas é digerir material radioactivo: faz um pouco de azia. Estas pessoas conseguem comer tantas variedades de comida que estão quase tão bem adaptadas ao meio como as baratas. Quase: para as baratas, a radioactividade é tipo molho agridoce. Os “camiões do lixo” só não digerem materiais de outros planetas porque não têm acesso a eles.

Caçadores de tesouros
Não gostam de carne vermelha, não gostam de carne branca, não gostam de carne verde. Bom, carne verde pressupõe alguma decomposição, pelo que, até se compreende. Não gostam de peixe. Não gostam de respirar. Na maioria dos casos, a sua comida preferida é oriunda de um local recôndito do planeta. Tão recôndito que estas pessoas acabam por morrer sem descobrirem que gostam daquilo. Mas nem é assim tão difícil escolher um sítio para levar estas pessoas a jantar: a não ser que vás ao tal local recôndito, elas não vão querer comer.


Se não fazes parte de nenhum destes grupos, fazes parte do grupo “Pessoas que comem de uma forma que se situa dentro dos padrões de comportamento mais típicos, no que diz respeito, não só, à quantidade de comida ingerida, como também à rapidez da ingestão e à variedade da alimentação”.