A Google vai lançar o
“Allo”, uma aplicação móvel de mensagens. E isso é espectacular! É que um
sistema de mapas detalhados de todo o Mundo, que nos permite chegar a qualquer
lado, é coisa pouca. Um carro que anda sozinho é uma invenção perfeitamente banal,
qualquer chafarica inventa coisas dessas. Um sistema para levar Internet grátis
a todo o lado é coisa para se fazer em qualquer loja de reparações de
electrodomésticos.
Agora, uma aplicação
móvel de mensagens é algo que apenas uma empresa capaz de mudar o Mundo pode
fazer. É que nunca ninguém tinha pensado em fazer aplicações que permitam que
as pessoas comuniquem. Pronto, há o Messenger. Mas não há mais nada. OK, há o
WhatsApp. E o Skype. E o Viber. Mas nada mais. Tudo bem, há o FaceTime. E o
Hangouts. Mas são poucos. E há o Kik, também. E o Yahoo Messenger. E o We Chat.
Mas o Allo vem mudar tudo. Porque… permite… mandar mensagens! Isso, sim, é
completamente inovador!
Mais uns meses e
teremos mais aplicações de conversação instaladas no telemóvel do que pessoas
com quem comunicar. No médio prazo, teremos que ter mais do que um telemóvel,
para podermos ter memória RAM suficiente para termos tudo instalado.
- Liguei-te no
FaceTime?
- A sério? É que eu
estava a ligar-te no WhatsApp.
- E eu a pensar que
não tinhas atendido porque estavas no Skype.
- Nabo, eu tinha-te
avisado no Messenger que não ia estar no Skype.
Convidar uma mulher
para uma conversação pode tornar-se arriscado.
- Alinhas num Hangout?
- Alinho num quê?
Pensas que eu sou dessas? Seu ordinário!
Um dia, teremos que
ter um pequeno robô para trabalhar como “assistente pessoal para a área das
aplicações de conversação”.
- Tens duas chamadas
não atendidas e oito mensagens por ler. Uma das chamadas é da tua avó.
- Não tenho nenhum
chamada.
- Ligou pelo Skype.
- A minha avó tem
Skype?!
- Parece que aprendeu
num fórum no Tapatalk.
- A minha avó tem
Tapatalk?
- Diz que se cansou de
falar, à janela, com a vizinha do lado.
Apesar de haver
múltiplas plataformas para falar com as pessoas, há um lado perigoso: começam a
ser tantas que não sabemos como encontrar alguém. Podemos estar em seis
plataformas, mas a pessoa com quem queremos falar encontra-se numa sétima. O
Allo, por exemplo. Quando criamos uma conta no Allo, essa pessoa cansa-se e
regressa ao WhatsApp. Que entretanto tínhamos deixado.
O número de aplicações
de conversação usadas poderá conferir algum estatuto social. Imagina o nível
que teria o Manel, a ligar ao Silva, através do Messenger. E depois através do
WhatsApp. E do Viber. E depois a não conseguir ligar pelo Skype, por suposta
falta de rede. O que seria estranho, uma vez que o Silva não tinha falta de rede.
E estava sentado na mesma mesa.
Pode tornar-se mais
difícil encontrar a aplicação certa para falar com uma pessoa do que encontrar
uma maneira sensata de dizer ao vizinho do lado que tocámos à campainha dele às
cinco da manhã porque não estávamos a conseguir abrir a porta, com a bebedeira.
Sobretudo se o nosso vizinho não tiver e-mail.
Imagina um homem que
tenta arranjar forma de falar com uma mulher que lhe foi apresentada há dias.
- Eh pá, se tivesse o
Facebook dela. Ou o WhatsApp. Quem me dera ter um Hangout com ela. Bastava-me
um Skypezinho… Olha, nem que fosse o mIRC!
Perdido nestes
pensamentos, o homem acaba por ter uma ideia luminosa, capaz de mudar a sua
sorte. No início, ainda duvida. Parece bom de mais para ser verdade. E parece
incrivelmente revolucionário. De qualquer forma, decide avançar.
Levanta-se, anda três
metros e cumprimenta-a.