O que mais admiro na Apple é o facto de ter mudado, várias vezes, a forma como utilizamos a tecnologia. Fizeram-nos com os computadores, fizeram-no com os leitores de música, fizeram-no com os telemóveis e ainda criaram um objecto que, a princípio, parecia ridículo, mas que muita gente usa, nos dias de hoje: o tablet. Também admiro que, à pala da vontade de ter um iPhone, muitos burgessos se tenham tornado burgessos 2.0, com acesso à net e conta de e-mail. Foi como se a Apple tivesse reinventado o fogo e muitos burgessos tivessem saído da caverna para o Facebook.
À custa deste potencial disruptivo, a Apple conseguiu um estatuto que poucas empresas têm: tem uma legião de fãs de tal forma fiéis que, o que quer que se lhes apresente, eles elogiam. Se um verdadeiro fã da Apple tiver que cortar um braço para defender a sua dama, a única preocupação que ele terá será pousar o telefone, para que este não caia ao chão com o braço cortado.
Enquanto que o utilizador comum de telefone (mesmo o utilizador comum de Apple) tem o seu telefone e não quer saber se mais alguém tem um igual, o utilizador fanático da Apple tenta vender um Apple a todos os outros utilizadores, como se fosse um tipo das televendas. Ainda assim, prefiro os tipos das televendas, porque me falam de ficar com abdominais espectaculares e de tupperwares com lâminas que cortam frutos e legumes. O “vendedor” Apple, mais aborrecido, fala-me de hardware e de iOS X.
Na apresentação do iPhone 7, Phil Schiller, vice-presidente para a área do marketing da empresa, anunciou que este era o melhor iPhone alguma vez feito. Isto é, claramente, um golpe de génio, digno de um especialista em marketing, porque toda a gente esperava que uma das empresas mais valiosas do Mundo, depois de um ano de um intensivo processo de investigação e desenvolvimento, apresentasse um produto igual ao do ano anterior, mas com um nome e um aspecto diferente. Nada disso, Phil Schiller causou o espanto ao anunciar que o melhor telefone da Apple era, curiosamente, o mais recente.
O iPhone 7 tem melhor processador, mais memória, melhor ecrã, melhor câmara e um revolucionário programa de lavagem de roupa a 60º. Esperem, há aqui uma característica que não sei se faz parte. Já sei: acho que não tem mais memória.
Eu gostaria de fazer uma espécie de experiência social, que consistiria em fazer um lançamento fictício de um iPhone e testar a reacção dos fanáticos. Seria, mais ou menos, assim.
Apple – “O processador é igual ao do ano passado. Para além disso, tirámos a agenda e a calculadora. O telefone traz um bloco de notas e um ábaco, para quem quiser fazer contas.”
Fanáticos – “É bom, porque nos obriga a racionalizar os recursos de processamento e a desenvolver a memória e o cálculo mental.”
Apple – “O telefone não tem memória. Os utilizadores terão que ter um MacBook para armazenar tudo.”
Fanáticos – “É bom, assim o telefone nunca fica lento. E eu já tinha que comprar um MacBook e já…”
Apple – “O telefone não terá câmara incorporada. Terá seis tipos de câmara, vendidas separadamente, que poderão ser ligadas ao aparelho através da entrada lightning.”
Fanáticos – “É bom, porque quem não gostar de fotografia não tem que andar com câmara no telefone. E quem quiser câmara, também pode escolher uma ao seu gosto.”
Apple – “A navegação na net será mais lenta.”
Fanáticos – “É bom, porque poupas tráfego de dados.”
Apple – “O ecrã terá menos resolução.”
Fanáticos – “É bom, porque assim valorizas mais o conteúdo do vídeo e menos o aspecto.”
Apple – “O telefone só pode ser carregado com o cabo de alimentação que vem de origem, mais nenhum funciona. Não vale a pena pedir um a um amigo que tenha um igual.”
Fanáticos – “É bom, porque assim não corres o risco de ligar um cabo danificado. Só te ajuda a manter o telefone em segurança.”
Apple – “Apesar de ser pior do que o anterior, o telefone vai custar 800 paus.”
Fanáticos – “Justifica, o design é excelente.”
Os fanáticos da Apple são como membros de uma claque de futebol. Só que enquanto o tipo da claque te atira pedras, o fanático da Apple apaga-te da cloud.