Eu acho lindo, fofo, quase poético, que as pessoas acreditem
que um texto publicado num mural possa impedir que alguém aceda à informação colocada
online. Esta ideia de um texto fazer lei pode ser pretexto para criarmos uma
linha de t-shirts a dizer “Declaro que sou o primeiro a ser atendido” ou
“Declaro que aquele lugar de estacionamento é meu”.
No Facebook, as pessoas mostram tudo: a namorada, o
namorado, a família e os amigos, o cão, o gato e o piriquito. Mostram o
piriquito do piriquito. Este último exemplo parece ordinário. Mostram os
passeios e as férias, as borbulhas (nas fotografias em grande plano), a
semi-nudez (nas fotografias na praia), a barriga e aquele dente chumbado (mesmo
assim, um sorriso fica sempre bem).
Apesar de mostrarem isto tudo, a privacidade é assunto
sério! Expor-se no Facebook e querer privacidade é a mesma coisa que ter
consulta com o nutricionista numa barraca do Festival da Francesinha.
Uma vez que me preocupo com a gestão que os meus leitores
fazem das redes sociais, proponho o próximo aviso legal a colocar no Facebook.
“A partir do dia ‘x’, o Facebook vai mudar a sua política de
privacidade, deixando toda a informação publicada nesta rede social à mercê de
pessoas coscuvilheiras sem escrúpulos. Sim, porque há pessoas coscuvilheiras
com escrúpulos, que são aquelas que coscuvilham mas arranjam sempre uma
excelente justificação para isso. Eu não autorizo que, a partir do dia ‘x’, as
pessoas visitem o meu perfil sem consulta prévia do meu advogado e sem o
pagamento de uma caução de 2376€ (valor que será acrescido de IVA). Esta caução
será retida por mim caso algum comentário depreciativo/constrangedor seja feito
a uma publicação minha. Para além disso, eu não autorizo que me identifiquem em
publicações que publicitem a inauguração de bares, a ocorrência de festividades
diversas ou de encontros gastronómicos. Por cada publicação que diga que este
mês terá cinco Sextas, cinco Sábados e cinco Domingos, e que isso não acontece
há 800 anos, eu peço uma indemnização por publicidade enganosa, uma vez que
isso é tão banal que acontece em qualquer mês de 31 dias em que o dia 1 calhe à
Sexta-feira. É tão verdade que isso acontece já neste mês de Julho. Acrescento
que processarei, ao abrigo do artigo 5.º do Código dos Avisos Legais no
Facebook, qualquer pessoa que partilhe vídeos cujo título comece por “Você não
vai acreditar no que..”, porque isso não são vídeos, são vírus. Declaro,
também, que quem partilhar publicações supostamente noticiosas, de sites que
não são de nenhum entidade que exerça jornalismo, será punido com a obrigação
de me comprar o jornal, todos os dias, durante um ano. Devido à nova política
de produtividade do Facebook, dedicada às pessoas que consultam esta rede social
no trabalho, todos os que publicarem fotografias na praia, irritando, dessa
forma, quem está a trabalhar, serão obrigados a contar todos os grãos de areia
da referida praia, até voltarem a poder publicar no Facebook. Eu denunciarei
quem publicar fotografias na praia, de maneira a fazer respeitar esta nova
norma. Ao mesmo tempo, exigirei junto do Facebook que quem fizer publicações de
ódio seja obrigado a cantar, vestido de Winnie the Pooh, o tema “Imagine”, do
John Lennon, num estádio de futebol cheio. Sem mais a acrescentar, termino
declarando que o meu mural será, a partir do dia ‘x’, um espaço totalmente
privado, o qual eu acredito ter perfeitamente controlado, com a publicação de
um simples texto sem qualquer valor legal, mas ao qual muitos dos membros da
minha rede terão acesso. Como sempre tiveram e como sempre terão.”
Com isto, espero ter ajudado. E gostava que se criasse uma
corrente de partilha deste texto. Mesmo que não tenha valor legal, pode ajudar
a tornar o Facebook um lugar mais aconselhável. Para a referida partilha,
proponho a “hashtag” #avisoquaselegal.