quinta-feira, 30 de junho de 2016

Facebook: avisos muito sérios

Estão novamente na moda os avisos legais no Facebook. Refiro-mo àqueles textos que as pessoas copiam e colam nos seus murais, avisando que, a partir do dia “x”, ninguém pode aceder indevidamente aos seus conteúdos nem copiá-los. Estes avisos vão surgindo, de longe a longe, e quando aparecem tornam-se quase virais. São como a gripe: sazonais e contagiosos. E aborrecidos.

Eu acho lindo, fofo, quase poético, que as pessoas acreditem que um texto publicado num mural possa impedir que alguém aceda à informação colocada online. Esta ideia de um texto fazer lei pode ser pretexto para criarmos uma linha de t-shirts a dizer “Declaro que sou o primeiro a ser atendido” ou “Declaro que aquele lugar de estacionamento é meu”.

No Facebook, as pessoas mostram tudo: a namorada, o namorado, a família e os amigos, o cão, o gato e o piriquito. Mostram o piriquito do piriquito. Este último exemplo parece ordinário. Mostram os passeios e as férias, as borbulhas (nas fotografias em grande plano), a semi-nudez (nas fotografias na praia), a barriga e aquele dente chumbado (mesmo assim, um sorriso fica sempre bem).

Apesar de mostrarem isto tudo, a privacidade é assunto sério! Expor-se no Facebook e querer privacidade é a mesma coisa que ter consulta com o nutricionista numa barraca do Festival da Francesinha.

Uma vez que me preocupo com a gestão que os meus leitores fazem das redes sociais, proponho o próximo aviso legal a colocar no Facebook.

“A partir do dia ‘x’, o Facebook vai mudar a sua política de privacidade, deixando toda a informação publicada nesta rede social à mercê de pessoas coscuvilheiras sem escrúpulos. Sim, porque há pessoas coscuvilheiras com escrúpulos, que são aquelas que coscuvilham mas arranjam sempre uma excelente justificação para isso. Eu não autorizo que, a partir do dia ‘x’, as pessoas visitem o meu perfil sem consulta prévia do meu advogado e sem o pagamento de uma caução de 2376€ (valor que será acrescido de IVA). Esta caução será retida por mim caso algum comentário depreciativo/constrangedor seja feito a uma publicação minha. Para além disso, eu não autorizo que me identifiquem em publicações que publicitem a inauguração de bares, a ocorrência de festividades diversas ou de encontros gastronómicos. Por cada publicação que diga que este mês terá cinco Sextas, cinco Sábados e cinco Domingos, e que isso não acontece há 800 anos, eu peço uma indemnização por publicidade enganosa, uma vez que isso é tão banal que acontece em qualquer mês de 31 dias em que o dia 1 calhe à Sexta-feira. É tão verdade que isso acontece já neste mês de Julho. Acrescento que processarei, ao abrigo do artigo 5.º do Código dos Avisos Legais no Facebook, qualquer pessoa que partilhe vídeos cujo título comece por “Você não vai acreditar no que..”, porque isso não são vídeos, são vírus. Declaro, também, que quem partilhar publicações supostamente noticiosas, de sites que não são de nenhum entidade que exerça jornalismo, será punido com a obrigação de me comprar o jornal, todos os dias, durante um ano. Devido à nova política de produtividade do Facebook, dedicada às pessoas que consultam esta rede social no trabalho, todos os que publicarem fotografias na praia, irritando, dessa forma, quem está a trabalhar, serão obrigados a contar todos os grãos de areia da referida praia, até voltarem a poder publicar no Facebook. Eu denunciarei quem publicar fotografias na praia, de maneira a fazer respeitar esta nova norma. Ao mesmo tempo, exigirei junto do Facebook que quem fizer publicações de ódio seja obrigado a cantar, vestido de Winnie the Pooh, o tema “Imagine”, do John Lennon, num estádio de futebol cheio. Sem mais a acrescentar, termino declarando que o meu mural será, a partir do dia ‘x’, um espaço totalmente privado, o qual eu acredito ter perfeitamente controlado, com a publicação de um simples texto sem qualquer valor legal, mas ao qual muitos dos membros da minha rede terão acesso. Como sempre tiveram e como sempre terão.”

Com isto, espero ter ajudado. E gostava que se criasse uma corrente de partilha deste texto. Mesmo que não tenha valor legal, pode ajudar a tornar o Facebook um lugar mais aconselhável. Para a referida partilha, proponho a “hashtag” #avisoquaselegal.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Teoria dos panados infinitos

Às vezes, escrevemos textos sem nenhum tipo de conteúdo relevante e que são meros exercícios para passar o tempo. Isto só não acontece a Miguel Sousa Tavares, que até quando envia uma SMS a avisar alguém de que vai chegar atrasado exprime pensamentos relevantíssimos para a nossa vida em sociedade. Mas o Universo só admite uma vaga para Miguel Sousa Tavares. E está preenchida.

Outras vezes, escrevemos textos que nos irão definir, para o resto da nossa existência. Este é um desses textos. Numa primeira análise, poderá parecer um texto irrelevante. Numa segunda, também, mas a verdade é que este texto é mesmo importante. Para que não digam que as homenagens só são feitas depois do seu alvo ter desaparecido, vou fazer uma sentida e mais do que merecida homenagem, enquanto eles ainda estão cá.

Falo dos panados.

O panado é uma instituição como há poucas, na nossa sociedade. Este petisco tem implicações sociais, matemáticas, filosóficas e até místicas na nossa existência. Serve este texto para explicitar algumas dessas implicações.

Comecemos pela parte matemática: não que seja impossível, mas é altamente improvável que alguém coma só um panado. Primeiro, porque sabe sempre bem comer mais um panado. Segundo, porque sabe sempre bem comer mais dois panados. E por aí fora. A maioria de nós está condenada a ter, com os panados, a mesma relação que a banca portuguesa tem com os processos de recapitalização com dinheiro público: “só mais um, amanhã ganho juízo”.

Já a questão filosófica dos panados remete-nos para o paradoxo de Zenão. Segundo este filósofo grego da Antiguidade, o que se move alcança sempre o seu ponto médio, antes de atingir o ponto final. Mas também atinge sempre um outro ponto médio, antes de atingir o ponto médio referido anteriormente. E assim sucessivamente. Zenão queria, com isto, dizer que o que se move nunca chegará ao ponto final, porque o espaço que tem para percorrer pode, sempre, ser dividido por dois. No fundo, o infinitamente pequeno parece ser infinitamente grande.

O mesmo acontece com os panados: podes sempre dividir um panado em dois. Ou em vários. Um panado é infinitos panados. Pelo que, comer infinitos panados é infinitamente mais fácil do que comer um só panado. E ainda que tenhas enfardado seis panados, o sétimo pode ser facilmente dividido em dois. Ou em infinitos. O importante a reter é isto: cabe sempre mais um panado no estômago.

Outro aspecto que, no meu entender, importa relevar dos panados é a semelhança que o ciclo de existência de um panado tem com o ciclo de vida do ser humano. Quando é acabado de fritar, o panado está cheio de força, como um ser humano na sua juventude. Mas o excesso de panados quentes pode provocar enjoo. No fundo, como aturar, em demasia, seres humanos jovens.

O verdadeiro encanto do panado surge algumas horas depois da fritura. O mesmo acontece com os seres humanos: depois dos 30 anos, o ser humano é uma espécie de panado da refeição anterior, já sem a mesma vitalidade, mas com um paladar muito mais apurado. E menos enjoativo. Com a tirania do passar do tempo, o panado vai-se degradando. Os seres humanos também.

Há mesmo quem acredite, e este é o lado mais místico do panado, que existe uma espécie de “Fada dos Panados”, que aparece durante a noite e melhora os panados. Esta entidade é uma espécie de Fada dos Dentinhos, mas muito mais útil. Se os Maias tivessem panados, certamente fariam enormes festas, com sacrifícios humanos e tudo, em honra da Fada dos Panados.

Não há uma boa festa sem panados. Um lanche comemorativo de qualquer coisa, um piquenique, uma excursão à praia, promovida pela Junta de Freguesia, ou uma ida à Final da Taça de Portugal, sem panados, são como um concerto da Adele sem sexo, drogas e rock’n’roll. Calma: enquanto escrevo, dizem-me que os concertos da Adele não têm sexo, drogas e rock’n’roll. Então, o que é que o pessoal vai lá fazer?

Voltando à vertente social do panado, afirmo que a Assembleia-Geral das Nações Unidas até é fixe, mas contraponho que onde acho que existiria uma verdadeira sintonia entre seres humanos de diversas proveniências seria numa mesa gigante, em que os representantes de diversos países colocassem os seus tupperwares e partilhassem os panados. O panado induz o sentimento de festa e de concórdia. Um tupperware cheio de panados do dia anterior poderia ter resolvido vários conflitos históricos. E alguns menos históricos, como daquela vez em que o Sr. Horácio andou à chapada com o Sr. Alípio por causa de um muro e uns terrenos.

No fundo, o panado une os seres humanos. Com esta imagem bonita, terna, “colesterólica”, remato esta homenagem ao panado. Com um lamento apenas: ao contrário do que acontece com os panados, este texto nunca melhorará com o tempo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Preferes cães ou gatos?

Às vezes, as pessoas perguntam se somos “dog persons” ou “cat persons”, que é o mesmo que perguntar se preferimos cães ou gatos. A verdade é que, podendo gostar dos dois, tendemos sempre mais para um dos lados. O Scooby-Doo e o Garfield são muito diferentes.

A Pantera Côr-de-Rosa, por seu lado, é diferente de tudo, não só, por causa da cor pouco usual, mas também por se parecer com um cão. Mas sobre a Pantera Côr-de-Rosa dissertarei em tempo oportuno.

Os cães são muito emocionais. A vida deles é um carrossel que, calculo eu, será extremamente cansativo. Os cães vivem tudo no limite. E sem recorrerem a aditivos. Com excepção do Piruças, do sr. Horácio, que, uma vez, lhe apanhou o saco do café e roeu aqueles grãos todos. Passou três dias atrás da cauda.

O cão vive no limite. Sais de casa para ir comprar pão, regressas cinco minutos depois. O cão faz-te tanta festa como se tivesses passado dois anos na guerra. Passas um fim-de-semana fora. Regressas e o cão faz-te tanta festa como se tivesses sido dado como morto, na guerra.

Os cães falam, mas com os olhos. Experimenta comer com um cão a olhar para ti. Ele faz olhos de quem diz: “Não, fica aí, com a tua comidinha. Que te saiba bem. Nem me dás um bocadinho. Era só um bocadinho. Achas que te ia fazer falta? Achas que me ia fazer mal? Era só um bocad…”. Dás-lhe um bocadinho. O cão está tão desejoso de provar o que estás a comer que até te morde os dedos, quando lhe dás um pedaço. Com a gula, ele quase nem mastiga o que lhe deste. Tu pensas que o cão ficou contente. Estás enganado. Ele vai recomeçar o processo, para que lhe dês mais. Alguns, se forem ignorados, usam a bomba atómica da pedinchice: começam a babar-se. Ininterruptamente.

Os cães adoram partilhar o sofá com os donos. Começam por saltar para o sofá, depois, dão quinze voltas, até o sofá ficar com uma covinha na qual o corpo deles assente perfeitamente. Finalmente, deitam-se com um olhar meigo, como quem diz “Eu vou ficar neste cantinho, sem te incomodar”. Passado dez minutos, não tens sítio para estar. O cão foi-se encostando, encostando, até te roubar todo o espaço. Para além deste problema, tens outro: tenta pegar num cão, ou simplesmente desviá-lo, enquanto ele dorme. Parece um penedo. Das duas, uma: ou o corpo do cão tem um sistema qualquer de peso morto que multiplica o seu peso real por 246, ou tem ventosas, como os polvos. Uma vez que ele tenha colonizado o teu espaço no sofá, resta-te ir para a cama.

O momento alto é a ida à rua. Se, por azar, pegares na trela sem ser com o intuito de levar o cão à rua, mas ele estiver a ver, vais ter que o levar. Isto porque o cão vai começar a saltar e a correr, histérico, vai deixar tapetes e sofás fora do sítio, vai correr à tua volta como se fosses uma presa e ele um predador, vai rebolar e só não vai cantar o hino porque nem sabe nem cantar, nem sabe o hino. Qualquer cão reage de forma histérica à trela. Tirando o Piruças, do sr. Horácio, que uma vez roeu um frasco de comprimidos para dormir e acabou por comer alguns. Esteve três dias sem ligar à trela. Depois, acordou.

Os gatos, por seu lado, serão sempre algo selvagens. Podes mimar o teu gato, dar-lhe comida a horas e respeitar o espaço deles. Arranjas um pássaro e ele vai matar o teu pássaro. Pode ficar dias ou semanas a admirar a gaiola. Um dia, vai matá-lo. E nem é para comer. É porque a existência de outros seres vivos irrita o gato. Seja um pássaro, uma mosca ou o Piruças, do sr. Horácio, que quando vê um gato desata a correr atrás dele.

Os gatos, como é sabido (embora ainda não demonstrado pela Ciência), conseguem dobrar o eixo espácio-temporal, bem como contornar as ondas da gravidade. E todas estas capacidades servem para um fim. Caçar? Não. Viajar no tempo? Não. Levitar? Não. Todas estas capacidades servem para que o gato caiba dentro de uma caixa de sapatos. Um gato até pode viver numa herdade, mas, no fim do dia, ele vai querer dormir naquela caixa na qual não cabe deste que tinha seis meses. Na ausência de uma boa caixinha, serve uma gaveta. Ou um saco.

Ao contrário do que se diz, os gatos também festejam o regresso do dono a casa. Mas, como são muito complexos, dividem este regresso em dois tipos: sem sacas de compras ou com sacas de compras. No primeiro caso, o gato aparece, roça-se nas pernas do dono, como se dissesse: “E quê? Tá tudo? Dormi a tarde toda. Arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir”. Quando o dono regressa a casa com sacas, a reacção é diferente. “E quê? Tá tudo? Eeeeeeh, sacas! O que me trouxeste? Deixa-me meter a cabeça em todas as sacas. Só para ver. Hum, nada de especial. Agora arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a dormir…”

Os gatos dividem os sons também em dois tipos. Sons insignificantes, como a voz do dono, o som de uma porta a abrir ou de uma explosão nuclear, não perturbam o sono. Os sons que verdadeiramente importam são os sons quase imperceptíveis. O papel que caiu ao chão e saltitou duas vezes, aquela mosca que voou até à janela e lá pousou ou a aranha a fazer uma teia, são motivos para o gato estar em alerta máximo.

A expressão máxima de satisfação do gato é o ronronar. Também neste aspecto, o gato é mais higiénico que o cão: o cão só sabe expressar satisfação tentando lamber as pessoas. O gato, por seu lado, produz um som propício à meditação. Devia haver uma estação de rádio que emitisse 24 horas por dia o ronronar de um gato. Muito do stress das sociedades modernas seria, assim, dissipado.

A delicadeza é outra das características deste felino doméstico. Se o teu gato resolver dormir um soninho no meio daquelas louças que estão na tua família desde o séc. XV e que davam para pagar a dívida externa de Portugal, deixa-o estar. Ele não vai deitar nada ao chão. Nem deves, em momento algum, fazer algum movimento brusco no sentido de tirar de lá o gato. Não que ele vá fugir e deitar tudo ao chão. É só porque não se deve assustar um animal.

Sendo tão diferentes, cães e gatos caminham para destinos opostos. Uma vez terminado o seu estudo sobre as espécies do planeta, os gatos irão embarcar de volta para o planeta de onde saíram. Os cães permanecerão, até ao fim dos tempos, à espera que os donos regressem a casa e peguem na trela.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pessoas que não sabem o que estão a fazer

Uma das coisas mais divertidas da vida é fazer bolas de sabão. Há algo de libertador, mas também de filosófico, no acto de fazer bolas de sabão. Mas isso não é o que me traz a este texto. Só achei importante partilhar esta opinião.

O que me traz a este texto é outra das coisas mais divertidas da vida, que é a seguinte: pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. O ser humano tem a capacidade de ser corajoso também para isso: saber que há coisas que não pode, não deve, não sabe fazer, mas fazê-las na mesma.

Por exemplo: pessoas a estacionar. Vais na estrada e segue um carro à tua frente. De repente, pára. Olhas para o lado e sabes que aquela carrinha BMW não cabe naquele lugar que, no máximo, dá para um Opel Corsa. “Não, ele não pode estacionar ali”, dizes para ti. Pisca para a direita, luz de marcha atrás. “Ele vai estacionar ali.”

Lentamente, com a confiança dos predestinados, o condutor da carrinha BMW começa a tentar estacionar. Tu já percebeste que o carro não cabe, o condutor que segue atrás de ti também, o senhor que está à porta do café também, o gato que está em cima do muro não percebeu, mas isso é porque está atento ao pássaro que pousou ali perto.

O condutor da carrinha BMW não entende por que razão está toda a gente a buzinar. Ele ainda não recorreu ao número de manobras suficientes para um perfeito estacionamento, não carregou no botão que permite encolher o carro, nem no botão que permite dobrar o eixo espácio-temporal. No fim, acaba por abandonar o local, mas só porque já está farto de ouvir carros a buzinar. No fundo, ele sabe que o carro cabia naquele lugar. À vontadinha.

A utilização de computadores é outra área rica em pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Alguém está no computador e aparece-lhe um aviso qualquer. Primeiro passo: fechar o aviso sem o ler. Segundo passo: abrir o painel de controlo. Depois, começar a escolher todas as opções, alterando, aqui e ali, alguns parâmetros. O computador, que sabe mais do que o utilizador, começa a avisar: “A seguinte mudança pode desactivar algumas funcionalidades do computador”, “A seguinte mudança pode provocar mau funcionamento do computador”, “A seguinte mudança pode provocar danos irreversíveis no computador”, “A seguinte mudança pode provocar uma explosão em alguma parte do planeta”. Não há medo: o utilizador vai continuar convicto de que está a resolver o problema. Certeza, só uma: quando levar o computador a arranjar, vai dizer ao técnico que não fez nada.

Também gosto de pessoas que, quando algum aparelho não funciona, abrem-no logo. O caminho é de sentido único: tirar peças, tirar peças, tirar peças. No fim, vão sobrar duas ou três. Ou dez. Mas as pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer nunca desistem. Pelo menos, enquanto houver mais uma peça para tirar.

Outra coisa gira: cartas das Finanças ou de algum organismo público. Alguém recebe uma carta, carregadinha de linguagem técnica. “Depois de analisado o pedido do cidadão X, portador do Cartão do Cidadão n.º Y e do Número de Identificação Fiscal n.º N , a repartição de finanças de Sobreixos de Baixo decidiu indeferir o pedido, por não se verificarem as condições necessárias ao procedimento solicitado. O cidadão em questão deve proceder à imediata regularização da situação. O não cumprimento desta ordem desencadeará o conjunto de penalizações previstas no artigo 27 do código-que-regula-a-situação-em análise.”

O tipo que recebe a carta não faz ideia do que está a acontecer. Não sabe se tem que pagar alguma coisa, se tem que escrever uma carta a alguém, se deve reclamar, fugir do país ou chamar os bombeiros. Mas, confiante, acha que não deve ser nada e usa a carta para acender o fogareiro e assar duas morcelas.

Povo que sabe de construção é outro clássico. Pessoas estudam engenharia durante alguns anos, aprofundam conhecimentos de Matemática, Física, materiais e outros temas. Recorrem aos mais recentes softwares de desenho de estruturas e testam as suas ideias ao pormenor. Tudo isto é completamente destroçado por um gajo que nunca estudou nada sobre o assunto, mas que, curiosamente, percebe imenso do assunto, e que assiste à obra, num café ali perto. “Isto, pra mim, tá mal. Aquilo vai cair. Os pilares não são suficientemente fortes. E o tabuleiro está torto. Em dois sítios.”

Os Ministros das Finanças são, regra geral, pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Mas são muito mais perigosas do que outras do mesmo grupo porque, ao contrário das pessoas que não sabem estacionar, das pessoas que não sabem mexer em computadores, das pessoas que não sabem reparar máquinas, das pessoas que não sabem o que está escrito nas cartas ou que não sabem nada de construção civil, os Ministros das Finanças têm uma extraordinária influência na vida dos outros.

E têm outra característica que os torna únicos: ninguém põe uma pessoa que não percebe de computadores a reparar computadores, ninguém põe um tipo que não percebe de construção a fazer um viaduto, mas todas as instituições financeiras querem alguém que tenha sido Ministro das Finanças. Mesmo que não fizesse a mínima ideia do que estava a fazer, durante o mandato.

Durante a produção deste texto, eu próprio não fazia a mínima ideia do que estava a acontecer. Mas não parei. Só para ser coerente com o que escrevi.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sofremos de excesso de tecnologia

Vivemos numa era em que existe uma “doença” capaz de irritar mais do que um mosquito a passar uma tangente a uma orelha, uma comichão surgida em público, num sítio impróprio do corpo, ou até o Manuel Luís Goucha e a Cristina Ferreira a falarem ao mesmo tempo: falo desse flagelo que é o excesso de tecnologia.

Nos nossos dias, precisamos de ter tudo ligado em rede. Pronto, tudo, tudo, não. Basta o portátil, o telemóvel, o tablet, a tv, o frigorífico, a máquina de lavar roupa, a torradeira e o secador.

E o ar condicionado.

E o esquentador.

Os objectos estão todos ligados em rede, sabem tudo da nossa vida e comunicam nas nossas costas. São uma espécie de vizinha coscuvilheira do 5.º andar.

E nem se pode dizer que a Internet esteja em todo o lado. Não está, por exemplo, na casa do Sr. Fernando. Mas isso foi por causa do mau tempo, que estragou uma ligação qualquer. Neste momento, o Sr. Fernando está aos berros com um operador da linha de apoio ao cliente.

Na nossa vida, todos os objectos têm processadores. Ou seja, tudo obedece a uma rotina. Por outras palavras, os nossos objectos parecem um casamento, a partir do terceiro ano.

Não, não gostava que a televisão fosse a preto-e-branco. Excepto quando aparecem pessoas híper-maquilhadas, capazes de provocar um ataque epiléptico a quem olha para elas. Não, não digo que o “full hd” não devia existir. Bom, se calhar, quando aparece aquela actriz muito gira que não envelheceu muito bem, ou aquelas pessoas que fizeram tantas plásticas que derretem ao sol, viveríamos bem com metade dos pixéis. Não, não gostava que o cinema e a televisão fossem mudos. Excepto nos canais generalistas, ao Domingo à tarde.

Do que eu me queixo é das dificuldades provocadas pelo excesso de tecnologia. Pensemos nas consolas. No tempo do Spectrum, um gajo ligava o jogo, quando andava na primeira classe, e, com sorte, começava a jogar quando seu primeiro filho entrava para a escola. Depois, as consolas evoluíram um bocadinho e, em cinco minutos, estávamos a jogar.

Depois, evoluíram ainda mais e começaram a ligar-se à net. Ora, da mesma maneira que a Internet nos retira produtividade, porque vamos ao Facebook e ao Youtube, as consolas também ficaram menos eficientes, porque perdem imenso tempo na net: ligamos a consola e ela actualiza o software, a nossa conta, os dados do jogo, a previsão do tempo para os próximos dez dias, as farmácias de serviço, a programação da televisão, os dados da bolsa de Tóquio e, entretanto, passaram vinte minutos, é hora de ir buscar o filho à escola e nem uma partida de FIFA jogámos. Ou seja: as consolas já padecem de excesso de tecnologia.

Outro sinal dos tempos que eu adoro: a conectividade dos aparelhos. Antigamente, as televisões tinham botões para mudar de canal. Era uma chatice, porque era preciso remover o rabo do sofá e proceder à troca de canal. Depois, alguém inventou o “pau de canal”: uma espécie de “pau de selfie”, mas sem selfie, que podia ser um toco de vassoura e que era usado para mudar de canal, carregando nos botões da televisão, a partir do sofá. Até que, um dia, foi inventada essa maravilha da preguiça que é o telecomando.

O Mundo podia ter parado aí. Mas o ser humano não é de se deixar ficar e resolveu subir a parada: hoje, já é possível controlar tudo a partir do telemóvel. Até mudar de canal. É tudo muito bonito, mas basta surgir um problema de compatibilidade e, em vez de mudar de canal, estamos a desligar a máquina de lavar louça, a ligar o forno ou a mudar a frequência do pacemaker do vizinho.

Uma pessoa que não consiga mudar de canal com o telemóvel entra, imediatamente, em desespero. Vai ficar sempre com a sensação de que lhe falta qualquer coisa, como um carro sem auto-rádio, um computador sem Internet ou, muito pior, sexo sem preliminares. Ver televisão, nos dias de hoje, sem poder mudar de canal com o telemóvel é como tentar comer esparguete à bolonhesa com uma pinça. Bem, não exageremos: uma pessoa que não consiga mudar de canal com o telemóvel pode ter uma vida normal. Desde que não veja televisão e que procure tratamento médico adequado.

Outro sinal desse flagelo que é o excesso de tecnologia: os carros. Antigamente, mas muito antigamente, andávamos a pé. Depois, passámos a andar a cavalo. Mais tarde, inventaram o carro e revolucionaram a vida dos seres humanos. Tudo muito bem, até que a electrónica invadiu os carros e fez deles meninos mimados, daqueles que reclamam sempre da comida ou que não jogam à bola porque se podem magoar.

O motor do carro pode estar capaz de transportar uma família de gorilas, juntamente com a respectiva bagagem (são gorilas citadinos, logo, portadores de pertences pessoais, como roupa, perfumes e diversos produtos de higiene e beleza) mas, se houver um circuitozinho qualquer que tenha um problema, o carro pára e faz uma birra. Fica ali a amuar e acender luzes no painel. Ninguém o tira dali. Quando se repara o que estava mal, ele volta a andar, como se nada tivesse acontecido.

No fundo, os carros de hoje são namoradas/os chatas/os: por causa de um fusível queimado, já não querem sair.

Há tecnologia a mais nas nossas vidas. Vou publicar esta afirmação no Facebook e espero que façam “Like”. E, já agora, vou publicar este texto, antes que fique sem net. Aí está outra coisa. Para os seres humanos, a net é como o oxigénio: não a vemos, mas não aguentamos muito tempo sem ela.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Diz-me como comes, dir-te-ei quem és

Uma das modas mais recentes é dizer que o futuro da Humanidade vai jogar-se no confronto entre as pessoas que são X e as que são Y, ou no tema T. Até podia ser influência dos filmes, mas não é, claramente, uma vez que, pelos filmes, sabemos que o futuro da Humanidade está em Chuck Norris.

No entanto, de forma a cativar os leitores para um texto que não tem interesse absolutamente nenhum, vou afirmar, destemido, como se fosse um gajo a explicar a um brutamontes do ginásio que, a estacionar, lhe meteu uma porta do carro toda dentro, que o futuro da Humanidade se joga na forma de comer das pessoas.

No que diz respeito à forma de comer, podemos dividir os seres humanos em diversos grupos. Comecemos pelo critério da quantidade.

Buracos negros
Absorvem a matéria toda. As pessoas que enfardam têm pouco tempo livre. Ou porque estão a enfardar, ou porque estão a proceder à evacuação do que enfardam (vulgo, fazer cocó). Só há um momento em que estas pessoas não estão a pensar em comer: o último da sua existência. Isto porque, no penúltimo, ainda pensam “Havia bolo de chocolate…”. Estas pessoas são parecidas com um aspirador, mas há uma pequena diferença: no aspirador, não entra tudo. Quando vão jantar fora, só nas entradas garantem nutrientes que dariam para manter uma pequena tribo, durante uma semana. Depois, ao longo da refeição, vão dilatando, até parecerem uma cobra a digerir um animal de grande porte. Se fosse possível que a pessoa que enfarda e a cobra falassem sobre o inchaço, a cobra diria “Estou inchada porque estou a digerir um porco”, enquanto que a pessoa que enfarda responderia “Eu ainda nem jantei”.

Respiradores
Há pessoas que não se lembram do que comeram ao almoço. Os respiradores não se lembram da última vez que comeram. Conseguem extrair nutrientes do ar, pelo que lhes basta respirar para se alimentarem. Às vezes, estas pessoas apanham uma corrente de ar e ficam enfartadas. Quando eram pequenas e lhes diziam “Se não comes, vem aí o papão”, elas respondiam “Pode ser que ele queira comer esta sopa horrível”. Aquelas a quem diziam “Come, senão vem aí o polícia”, dizem sempre o mesmo, quando param numa “operação stop”: “Senhor agente, não bebi álcool, mas confesso que também não comi a sopa”. Estas pessoas passam quatro minutos à mesa, numa refeição: 15 segundos a comer, o resto do tempo a desarrumar o prato.

Passemos ao critério da rapidez.

Carros de corrida
Estas pessoas são um enorme desperdício de dentes, visto que não mastigam a comida. São tão rápidas a comer que, se comessem peixe acabado de apanhar, como os ursos, o peixe chegava vivo ao estômago. Na Fórmula 1, as equipas mudam 4 pneus em meia dúzia de segundos. As pessoas que comem depressa comem 8 rissóis em 3 pneus e meio.

Necrófagos
Estas pessoas davam bom uso à metade da dentição que as pessoas que comem depressa
podiam dispensar. Demoram tanto a comer que, quando atravessam o Atlântico de avião, pedem a refeição logo depois da partida, para terem tempo de comer tudo. Há quem demore tanto que começa a refeição com amigos e acaba com as moscas que começaram a sobrevoar a comida, entretanto em processo de decomposição. Algumas demoram tanto que, no Ano Novo, metem no micro-ondas a comida que está no prato desde o Natal. Outras há que, quando acabam de comer a fruta, esta já está fora da época. Acho que já perceberam a ideia.

Existe, também, o critério da diversidade.

Camiões do lixo
Comem tudo. Os ossos do frango, as espinhas do peixe, as orelhas do porco, a língua da vaca, as cascas dos tremoços. O estômago destas pessoas tem paredes de lixa, o que permite que a digestão de uma bigorna seja igual à digestão de molotof. O único problema destas pessoas é digerir material radioactivo: faz um pouco de azia. Estas pessoas conseguem comer tantas variedades de comida que estão quase tão bem adaptadas ao meio como as baratas. Quase: para as baratas, a radioactividade é tipo molho agridoce. Os “camiões do lixo” só não digerem materiais de outros planetas porque não têm acesso a eles.

Caçadores de tesouros
Não gostam de carne vermelha, não gostam de carne branca, não gostam de carne verde. Bom, carne verde pressupõe alguma decomposição, pelo que, até se compreende. Não gostam de peixe. Não gostam de respirar. Na maioria dos casos, a sua comida preferida é oriunda de um local recôndito do planeta. Tão recôndito que estas pessoas acabam por morrer sem descobrirem que gostam daquilo. Mas nem é assim tão difícil escolher um sítio para levar estas pessoas a jantar: a não ser que vás ao tal local recôndito, elas não vão querer comer.


Se não fazes parte de nenhum destes grupos, fazes parte do grupo “Pessoas que comem de uma forma que se situa dentro dos padrões de comportamento mais típicos, no que diz respeito, não só, à quantidade de comida ingerida, como também à rapidez da ingestão e à variedade da alimentação”.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Os spoilers deviam morrer no fim do filme

Só se fala de Star Wars, portanto, vou falar de Star Wars. Não vou nada, precipitei-me um pouco. Até porque ainda não vi o episódio VII. Vou falar daquilo que já chegou até mim, vindo directamente do episódio VII: spoilers.

Vivemos na era dos spoilers. Um gajo vê um filme e tem mil maneiras de estragar a experiência dos que ainda não o viram. Há quem o faça directamente. Vê o filme, carrega a arma e desata a disparar. “O assassino é o não-sei-quantos”, “O não-sei-quantos morre”, “Vai haver outro filme, porque o fim não é conclusivo”, “A não-sei-quantos está grávida e o puto é meu”. Bom, este último spoiler talvez seja um pouquinho mais específico. Mas também acontece muito. Acontece às vezes, vá.

Há todo um conjunto de estratégias que permitem a uma pessoa defender-se dos spoilers em série. Há quem se desligue do mundo, abandonando as redes sociais. Nem sempre resulta: depois, vai-se ao café, alguém vai à net e o spoiler aparece.

Há quem se feche em casa. Depois, um amigo liga e diz “Nem sabes o que me disseram: a não-sei-quantos está grávida e o puto é teu”.

Bom, continuamos na especificidade. Vamos passar a uma coisa mais genérica. Um amigo liga e diz “Nem sabes o que me disseram: vai acontecer isto assim, assim”. Se a pessoa disser, literalmente, "isto assim, assim", o spoiler é inofensivo. O problema é que ninguém se lembra disto, na hora de proceder ao spoiler.

Só há uma forma eficaz de evitar um spoiler em série: construir uma trincheira e atirar-lhe objectos, quando ele se aproximar. De preferência, pontiagudos, para que possam feri-lo de morte. Mas sejam rápidos, porque se ele fica a estrebuchar, ainda vai dizer mais dois ou três spoilers. Inclusivamente, sobre ele mesmo: “Estou prestes a morrer!”.

Também existe o “spoiler ninja”. Ele vai contar o filme todo, mas aos poucos e de forma subliminar. Há uma forma de identificar este perigo para a sociedade: começa todas as frases sobre “Vou só contar-te isto”. Quando ouvirem esta expressão, recorram ao truque da trincheira. Isto, claro, se não tiverem ficado encantados com a história do “Vou só contar-te isto” e já saibam o filme todo, sem terem pedido.

Para além destes, existe o anti-spoiler. Não te diz nada: se gostou, se vale a pena, se foi sozinho, se comeu pipocas, se foi na Sexta, no Sábado ou a 12 de Março de 1987. Não diz nada. Tu falas com ele e ele fica tipo pedra. Alguns chegam a ficar em estado catatónico. Até veres o filme.

Depois, há os dependentes químicos dos spoilers. São aqueles que pedem que lhes contem um bocadinho, mas depois querem saber tudo. Na hora, sabe-lhes pela vida. Depois, sentem um peso na consciência, por terem sido fracos, perante a curiosidade.

Eu sou o colecionador de spoilers. Se vir um texto com “Spoiler Alert”, vou ler tudo. Mas não me sinto mal, por isso. Eu sou tão aborrecido, que os spoilers não diminuem a minha vontade de ver um filme.

Curiosamente, acho todos os filmes previsíveis. Ou sou muito inteligente, e o cinema ainda não chegou ao meu nível, ou adiro em demasia ao spoiler. Podem dizer-me qual a hipótese correcta. Eu curto spoilers.

domingo, 22 de novembro de 2015

Segura a cortina, por favor

Há dias, nos vestiários de uma loja de roupa, deparei-me com uma situação que tem tanto de comum, como de caricata: muitas vezes, enquanto uma pessoa experimenta roupa, há outra, do lado de fora do vestiário, que segura a cortina, com os braços bem esticados, de forma a tapar todos os ângulos e tornar impossível ver para dentro daquele espaço.

Acho adequado que alguém faça isto: se levarmos muita roupa para experimentar, podemos sempre usar os braços da pessoa que segura a cortina como cabide.

A pessoa que segura a cortina é sujeita a um tremendo esforço. Sobretudo, quando tem de inventar, em poucos segundos, uma forma subtil de dizer à pessoa que experimenta roupa que aquelas calças são horríveis.

Uma coisa é certa: naquele dia, ninguém olhou para dentro do vestiário. Estava tudo a olhar para o rabo da mulher que segurava na cortina.

Há um vasto conjunto de contextos em que daria imenso jeito uma pessoa que segurasse a cortina, para que ninguém visse nada para o outro lado. Não, não estou a falar de sexo em público.

É óbvio que estou.

Mas não só.

Jantar romântico
O esparregado está óptimo, mas ficaste com um pedaço colado a um dente. Nesse momento, tens um dente verde. A pessoa que te acompanha demora alguns segundos a decidir se te avisa. Acaba por fazê-lo, constrangida. Queres remover o pedaço de esparregado do dente, mas tudo o que fizeres vai ser pouco elegante.

Jantar de família
Está tudo a correr bem, a conversa flui normalmente, o ambiente é amigável. Sentes que podes esticar um bocadinho a corda e dizes uma piada arrojada. Ninguém se ri. O pai da tua namorada está a pensar em seis maneiras de te torturar. Só vais sair dali vivo porque trouxeste a sobremesa. Chamas a pessoa que segura a cortina. O pai da tua namorada pergunta: “Mas quem é esta pessoa, a segurar uma cortina, no meio da nossa sala?”. Dizes que veio trocar os cortinados. Agora é a mãe da tua namorada quem está a pensar em torturar-te. Pensa apenas numa maneira. Mas vai colocá-la em prática.

Bar
Esta para as mulheres. Entras num bar, maravilhosa e confiante. O vestido que usas acompanha cada contorno do teu corpo. Sorris para um conhecido, mas sabes que estás a mostrar a toda a gente como o teu sorriso é bonito. Sabes que todos os homens estão a olhar para ti. Todas as mulheres também, mas é para te encontrar um defeito. O salto fica preso em qualquer sítio, desequilibras-te, cais. Não te magoas, mas dás espectáculo. Passaste da Marylin Monroe para o Pateta, em trinta segundos. Há risos. Precisas de sair dali rapidamente.

Reunião de trabalho
Estás a fazer uma apresentação. Está a ser um sucesso. A meio, há um vídeo. Mas alguém sabotou a tua apresentação. O vídeo que é mostrado foi gravado num bar de karaoke, no qual cantaste, bêbado, o tema “Taras e Manias”. Perdes o dia. Mas ganhas uma alcunha: “Marco Paulo”.

Encontro imediato
Vês, ao longe, aquele teu conhecido que é chato, que te vai perguntar pela “vidinha”, que te vai contar duas ou três coisas que são aborrecidas, tristes ou ambas. Com sorte, ainda te vai contar (outra vez) aquela anedota espectacular em que um gajo entra num bar. Não tens a tua caçadeira por perto. É, pois, um trabalho para a pessoa que segura a cortina.

Aula
Estás numa aula, num momento em que toda a gente está a falar. De repente, é como se o Universo conspirasse contra ti e todas as pessoas se calam ao mesmo tempo. Quando o fazem, ouve-se perfeitamente tu a dizeres “mamas”. Há um segundo de silêncio e vários de riso. Precisas de te esconder.

Gases
Soltas um gás intestinal num elevador. Por acaso, o teu vizinho entra dois andares depois. Cheira mal. Só podes ter sido tu. Chamas uma pessoa que segura a cortina. Ela entra no elevador, atira a cortina para cima de ti e foge. Não aguenta o cheiro.

Safari
Sais do jipe, para tirar algumas fotografias. Ficas rodeado/a de leões. Chamas a pessoa que segura a cortina. Percebes que é estúpido: primeiro, vai a pessoa, depois vais tu.

Loja de roupa
Entras num vestiário de uma loja de roupa. A cortina não fecha totalmente. Espera, esta utilização já foi inventada.

Achas que este texto foi uma perda de tempo. Chamas uma pessoa que segura a cortina. Ela tapa o ecrã, mas espreita para o texto. Chega à parte do elevador e percebe que tem que mudar de profissão.

domingo, 15 de novembro de 2015

Este texto não engorda

Os últimos tempos têm sido duros, para quem gosta de comer. Há cada vez mais alimentos conhecidos como prejudiciais para a saúde. E, como sempre, os que sabem melhor parecem ser os que fazem pior.

O nosso fumeiro foi associado a malefícios para a saúde. Isto entristece-me particularmente, porque o fumeiro é uma criação com um nível de brilhantismo que rivaliza com o da criação da roda. Até a supera, porque uma roda não tem qualquer utilidade na confecção de um bom cozido à portuguesa. Num bom cozido, a única roda que interessa é o prato.

Quem inventou o fumeiro desenvolveu uma forma notável de conservar a carne. Só não conseguiu garantir que essa técnica resultasse com os seres humanos. O que é uma pena, se pensarmos que a Sara Sampaio, um dia, vai ser velhota.

É tão perigoso comer uma alheira como fumar um cigarro. Pior para a saúde, só mesmo nadar ensanguentado numa área repleta de tubarões (isto porque as alheiras não mordem).

Uma vez, um senhor comeu uma alheira e morreu logo a seguir. Mas ninguém o mandou meter-se com a mulher do vizinho, que quando descobriu, lhe deu um balázio.

Eu sempre desconfiei do fumeiro. Mas isso é porque não consigo confiar num alimento que é impossível comer pouco. Ninguém come só uma rodela de chouriço.

Mas também acho que há algum exagero quando o pessoal diz que não consegue resistir ao fumeiro. Eu resisto bem. Para quem tiver um jantar que envolva enchidos, é fácil resistir: basta tomar um sedativo. Dorme-se doze horas e, entretanto, o pessoal comeu tudo.

O açúcar, pelos vistos, faz muito pior do que imaginávamos. Cria dependência e tudo. O açúcar, no fundo, é um pó branco que faz mal e causa dependência. Por outras palavras, os gajos que inventaram a cocaína não foram assim tão originais.

Vou falar de universos paralelos. Não porque esse tema se relacione com o anterior, mas porque sinto que este blogue deve caminhar no sentido de um melhor serviço público. Nesse sentido ou no de acabar, ainda não sei bem.

Mas voltando aos universos paralelos: há quem defenda que existam. E eu espero que existam. Porque quero acreditar que, algures noutra dimensão, exista um universo onde alguns dos seguintes raciocínios sejam válidos.

Comer hidratos de carbono em excesso previne a obesidade
Enfardar arroz, massa, pão e outras fontes de hidratos de carbono permite acumular tanta energia que o corpo, para ter algo com que se entreter, queima gordura mesmo quando está em repouso.

Comer batatas fritas reduz o risco de colesterol
As batatas contêm uma substância que, entrando na corrente sanguínea, limpa a gordura toda. Se sobrar tempo, ainda limpa o fígado. Esta substância está para as paredes das artérias, e para o organismo em geral, como os banqueiros estão para a banca: onde tocam, limpam tudo.

Comer papas de sarrabulho em excesso torna o nosso estômago mais eficiente
A digestão deste alimento rico em carnes diversas, pão, tripa enfarinhada e rojões é uma espécie de ginásio para o estômago, deixando-o mais resistente e mais eficaz na digestão. Comer papas uma vez por semana torna uma pessoa capaz de digerir granito.

Comer chocolate previne a diabetes
O organismo fica tão eufórico que o metabolismo acelera tanto como aquelas pessoas que esticam muito a primeira mudança, nos carros. Ou seja, o metabolismo queima o açúcar todo. Logo, mais chocolate no organismo, menos açúcar no sangue.

Beber álcool previne as doenças infecto-contagiosas
Alguma bactéria sobrevive a vinho maduro em excesso? Bom, pode sobreviver, mas a ressaca vai ser tão grande que ela vai pôr-se andar, para não vomitar só com o cheiro a vinho.

Tomar 16 cafés por dia previne uma série de doenças
A tensão arterial baixa, porque o estado de híper-cafeína induz-nos a um estado de pré-hipnose. Qualquer doença infecto-contagiosa também será eficazmente combatida, porque até as bactérias precisam de dormir. Ninguém dorme com 16 cafés.

Por enquanto, no nosso universo, caminhamos para o dia em que quem não comer apenas sopa de nabos será nabo.

Peço desculpa pelo fim abrupto deste texto, mas estou a ressacar por comer qualquer coisa.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desportistas: os clássicos e os modernos

Hoje em dia, ao entrarmos num ginásio, temos a sensação de estarmos nos Jogos Olímpicos. A julgar pela qualidade da roupa, os desportistas que encontramos no ginásio parecem ser de alta competição. Depois, olhamos para o desempenho de muitos deles e sentimos que estamos numa aula de hidroginástica. Sem água.

Mesmo assim, ainda se encontram desportistas clássicos. Por desportista clássico, entenda-se um gajo com uma t-shirt extraordinariamente desbotada, rasgada debaixo dos braços. Na frente, uma inscrição de respeito: “II Encontro do Porco no Espeto de Burgeses”. Uma espécie de medalha em forma de nome de um evento. Uma mancha de vinho, quase imperceptível, anuncia-se junto da inscrição. É uma t-shirt de guerra.

Os calções ostentam o emblema do Atlético de Burgeses e o número 9, o que deixa antever estarmos na presença de uma avançado temível. Mesmo com uma ligeira barriga, é menino para marcar uns 20 golos por época. Isso ou enfardar um cozido sem pedir ajuda a ninguém.

As sapatilhas são brancas, um clássico, tão gastas que a única zona com algum relevo é a dos cordões.

O relógio é uma relíquia, do tempo em que dizer “100m water resistant” era uma mais-valia (hoje, os relógios até respiram debaixo de água).

Do outro lado, temos o desportista moderno. A t-shirt é invariavelmente justa e sem mangas. Adidas ou Nike, de preferência. Até os gordos usam t-shirt justa. Um gordo de roupa desportiva é um gordo a caminho de deixar de o ser, pelo que a barriga, ainda que se note bastante, parece que nem se nota.

Os calções são de licra, tão justos que só há uma maneira de os vestir: deixar os testículos no cacifo.

Na maior parte dos casos, as sapatilhas são fluorescentes. Parecem ter resultado do cruzamento de uma laranja com um limão (arraçado de lima).

O relógio está ligado às sapatilhas, que estão ligadas a uma fita que é usada no tórax, para medir as pulsações, fita essa que está ligada ao telemóvel, que está ligado a um satélite, que está ligado a outro satélite, que está ligado ao telemóvel da amiga com quem o desportista moderno está a falar, pelo Facebook Messenger. Ou seja: um gajo corre com outra pessoa, mas sem ser a que está na passadeira do lado (até porque o gajo da passadeira do lado tem uma t-shirt estranha, que fala de um encontro qualquer de porco no espeto).

O desportista moderno consegue sempre cumprir o que planeou fazer no ginásio. Depois, pousa o telemóvel e faz algum exercício físico.

O desportista clássico faz flexões e agachamentos. O desportista moderno faz “push ups” e “squats”. Os nossos músculos sabem a diferença entre uma flexão e um “push up”, entre um agachamento e um “squat”, respondendo de maneira diferente. Por isso é que o treino dos desportistas modernos rende mais.

No fim, o banho também é diferente. O desportista clássico toma banho, veste-se e vai embora. O desportista moderno bebe uma mistela qualquer, no fim do treino, que parece Nestum, mas com pouco Nestum, faz a barba e a depilação, toma banho, põe creme, seca o cabelo, põe cera no cabelo, tira a roupa que vai vestir de dentro de um plástico (tipo aqueles da lavandaria), põe perfume e está pronto. Resultado: uma hora e quinze minutos de treino, uma hora e quarenta e cinco minutos de banho.

Os desportistas clássicos estão em vias de extinção. De cada vez que um espécime deste grupo compra uma t-shirt justa e sem mangas, a espécie fica mais perto do fim. E os encontros de porco no espeto perdem um adepto.

domingo, 1 de novembro de 2015

Ases do volante

Há quem conduza e quem faça competições na estrada. É bem diferente. Muito do que fazemos, a conduzir, define-nos, enquanto seres mais ou menos pensantes, mais ou menos aptos para sermos possuidores de título de condução. A carta de condução chama-se “carta” porque muitos parecem tê-la obtido por correspondência.

Ao fim de alguns quilómetros, já todos encontrámos algumas destas personagens do asfalto.

Velocidade Furiosa
Ultrapassam até numa garagem. Para estes condutores, a linha contínua é arte urbana, é um risco no chão, nada mais do que isso. Duas rodas chegam perfeitamente para curvar. E assim até se dá espectáculo. Para eles, passar no verde é para fracos, no amarelo é fixe, no vermelho é a loucura. A inversão de marcha faz-se com um pião. Arriscam a vida deles e dos outros por uma ultrapassagem. Por dois segundos de vantagem. Conduzem sempre pela esquerda. Mesmo quando não há faixa da esquerda. O problema deles é matemático: dois segundos de vantagem podem chegar para ganhar o Mundial de Fórmula 1, mas neste desporto não há carros em sentido contrário, na outra faixa. Em muitos casos, depois de nos ultrapassarem, encontramo-los parados no semáforo seguinte. Nunca olham para o lado. São inconscientes, mas conseguem perceber quando acabaram de ultrapassar a linha contínua da estupidez. Vivem como se fossem constantemente perseguidos por espiões inimigos. Nem que partilhem a estrada apenas com um velhinho num carro eléctrico (cuidado com os velhinhos nos carros eléctricos: não que eles conduzam depressa, mas às vezes não dão pisca).

GPS
Sabem sempre o melhor caminho. Não, não sabem. O truque, muitas vezes, está na argumentação, mais do que na sabedoria. “Este caminho é mais curto”; “Não é mais curto, mas tem menos trânsito”; “Não tem menos trânsito, mas não há semáforos”; “Por aqui, o piso gasta menos os pneus”; “Por aqui, é a descer, poupas gasolina”; “Por aqui é mais bonito”; “Por aqui, passamos naquela pastelaria que tem uns pastéis de nata muito bons”; “Por aqui, entras num portal para outra dimensão”; “Por aqui, vamos por aqui. É o único caminho em que essa condição se verifica”. Se um destes condutores fosse a Marte, acabariam por expulsá-lo da nave, por ele querer corrigir permanentemente a trajectória.

Coruja
Estes condutores são particularmente irritantes, porque conduzem muito lentamente, enquanto olham para todo o lado. Por vezes, a cabeça deles dá uma volta de 360º, tornando-os estranhamente parecidos com corujas.

Tartaruga
Só ultrapassam os 25 km/h em casos de emergência. Aí, perdem a cabeça e chegam a atingir uns impensáveis 50 km/h. A direcção, a suspensão e os pneus destes condutores praticamente não sofrem desgaste. Até a dentição é impecável. A não ser que abram o vidro e mandem umas bocas a um condutor “Velocidade Furiosa”. Aí perdem um retrovisor e dois dentes da frente.

Tartaruga Ninja
São iguais aos anteriores, excepto se alguém os ultrapassar, enquanto olha para eles com ar de gozo, ou se acelerar num semáforo, indiciando que vai arrancar com força. Aí, os condutores “Tartaruga Ninja” passam do estado “Tartaruga” ao “Velocidade Furiosa”, mais depressa do que passam dos 0 aos 100 km/h.

Houdini
Conseguem estacionar um jipe numa banheira. Em três manobras. Sem sensores e sem espelho de um dos lados.

Velho do Restelo
São o inverso dos “Houdini”. Podem ter um campo de futebol para estacionar, que acabam sempre por achar que não cabe. Costumam ser magros, uma vez que estacionam sempre muito longe e fazem, por isso, longas caminhadas.

Alexandre, o Grande
O Mundo é o parque de estacionamento deles. Nem que seja em terceira fila, há sempre lugar à porta.

Cristóvão Colombo
Nunca sabem o caminho, mas chegam sempre aonde querem. Nem que queiram ir à Índia e acabem na América. Estes condutores beneficiam do facto de a Terra ser redonda. Se fosse plana, acabariam por cair numa das extremidades. Se fossem tão bons a adivinhar números, como são a adivinhar caminhos, o Euromilhões teria os dias contados.

D. Sebastião
Demoram seis meses a memorizar o caminho para o trabalho. Alguns, na primeira vez em que saem da cidade, perdem-se. Para sempre.

O que é aquilo?
Nunca olham para os sinais de trânsito. Geralmente, passam a olhar quando um “Stop” corre mal.

Luzes, só no pinheiro
Pisca? LOL.

domingo, 11 de outubro de 2015

Comprar tecnologia: eles vs. elas

Depois do texto “Comprar roupa: eles vs. elas”, chega o momento de dissertar acerca da compra de tecnologia. O homem, quando compra tecnologia, tem em consideração uma série de factores que podem, no que diz respeito aos “gadgets”, fazer a diferença entre ser o Tone Morcela, que nem e-mail tem, e ser o James Bond (atenção, o Chico Morcela é diferente, porque já tem um iPhone 6s, o James Bond também não tem e-mail, mas é porque não existe).

Vamos supor que um homem quer comprar um computador. O primeiro modelo a captar a sua atenção tem um super-processador, tão rápido que é capaz de mandar um pedido de amizade no Facebook antes de um gajo saber que a miúda é gira. Tão rápido que calcula o custo de uma obra pública já a contar com a derrapagem. Tão rápido que, quando um gajo acaba de instalar o FIFA, o campeonato já vai na quinta jornada. Tão rápido que, quando um gajo instala um programa, lê os “Termos e Condições”, só para abrandar um pouco o processo. Portanto, já toda a gente percebeu que o processador é rápido.

O computador tem tal quantidade de memória RAM que consegue processar, em simultâneo, todos os dados da NASA, do MIT, do acelerador de partículas do CERN e (atenção, que este último parâmetro é o que diferencia um processador normal de um super-processador) da base de dados de filmes pornográficos do Chico Morcela.

A placa gráfica é tão avançada que, uma vez, um gajo levou realmente um balázio a jogar GTA. (Na verdade, o balázio foi dado por uns gajos manhosos a quem ele devia dinheiro e que lhe entraram em casa. Mas a placa gráfica é boa, na mesma.)

Enfim, é um computador de sonho. Mas custa 4999,99 euros. O homem passa para algo mais em conta. 799,99 euros, um computador que dá para jogar FIFA, sem ficar lento.

Mas “oitocentos paus” por um computador é um bocado puxado. Então, o homem desenvolve um sentido de sobrevivência que orgulharia os nossos antepassados, um sentido prático que faz dele um soldado em situação de sobrevivência. “Ora bem, qual é, para mim, a verdadeira finalidade de um computador? Trabalho? Não. Jogos? Não. Bem, na verdade, eu quero um computador que dê para ir ao Facebook e para ver pornografia.”

- Amigo, aquele de 299,99 euros tá óptimo!

No caso das senhoras, o cenário muda de figura. Imaginemos que uma mulher vai comprar um computador. Apresentam-lhe o computador com um super-processador, uma memória RAM que faz inveja àquele nosso amigo que sabe o nome de todos os filmes produzidos desde 1972, mais a placa gráfica dos balázios. Ela gosta da ideia, mas acha um absurdo dar tanto dinheiro por um computador.

Continua a procura e encontra um computador que tem um processador tão lento que, se quisermos instalar o FIFA 16, temos que o comprar quando sair o 15. Um processador tão lento que encrava na calculadora. Um computador que tem tão pouco espaço de armazenamento que, se os outros computadores falassem, chamar-lhe-iam “disquete”. Um computador... azul turquesa.

Está escolhido. Não vai jogar FIFA nem GTA, calculadora tem no telemóvel, espaço tem no disco externo. Custa 299,99 euros, dá para ir ao Facebook e para ver séries. E é lindo de morrer. Quando deixar de o usar, poderá usá-lo como objecto decorativo.

A mulher finaliza a compra antes do homem. Porque o homem, entretanto, foi fazer um crédito. Vai levar o de 799,99 euros. Nem é pelo FIFA, é porque pode dar jeito para o trabalho. Mas parece que o FIFA, este ano, está espectacular.

domingo, 4 de outubro de 2015

Diz-me como guardas a roupa, dir-te-ei quem és

Podemos dividir a Humanidade em dois grupos: o das pessoas organizadas e o das pessoas desorganizadas. Mas isso é demasiado óbvio. Porque é nos extremos que se encontra, muitas vezes, a piada disto tudo, vou dividir a Humanidade em pessoas que são tão organizadas que protegem o Universo (vamos chamar-lhes “Grupo A”) e pessoas que são, pura e simplesmente, agentes do caos (vamos chamar-lhes “Grupo y = x^2 + sin x + 27”). Aqui ficam algumas das diferenças entre estes dois grupos.

Roupa
Grupo A
Organizam a roupa por estação (a Primavera e o Outono também contam), tecidos e cores. O roupeiro destas pessoas parece o arco-íris. Sim, porque as pessoas do Grupo A organizam de acordo com o espectro de luz: violeta, azul, ciano, verde, amarelo, laranja, vermelho. Espera: há roupas de cor violeta?

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Detestam que lhes mexam no monte da roupa usada, porque isso vai alterar as camadas e deixa de ser possível saber há quantos dias foi usada determinada peça. O estado e o cheiro da peça podem não ser suficientes para saber se a peça deve ser novamente usada.

Roupa (2): Calçado
Grupo A
O calçado é arrumado sempre com o exemplar esquerdo do lado esquerdo (não refiro o direito porque, se o esquerdo está do lado esquerdo, subentende-se que o direito está do lado direito).

Grupo y = x^2 + sin x + 27
É uma sorte encontrar dois exemplares juntos que pertençam ao mesmo par.

Refeições
Grupo A
Mesmo sozinhos, põem a mesa para comer. Detestam comer no meio da bagunça.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Detestam limpar as migalhas que ficaram na cama. Pior, só mesmo a mancha de ketchup que ficou no sofá. Bem, virando a almofada ao contrário a mancha desaparece, pelo que, as migalhas são piores.

Carro
Grupo A
Conservam um registo das inspecções do carro.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
A inspecção faz-se no dia-a-dia: o carro anda? Então está impecável.

Viagens
Grupo A
Quando viajam de avião, a mala nunca excede o peso permitido.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Fazem as contas incluindo a multa por excesso de peso da mala. Nada a fazer: apareceram cinco quilos de coisas essenciais, à última da hora.

Datas
Grupo A
Começam a preparar o aniversário da namorada/o um mês antes.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Sabem que a namorada/o fazem anos no primeiro semestre do ano. “Espera, não será no segundo?”.

Pagamentos
Grupo A
Guardam, numa capa, as facturas, organizadas por serviço e data.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Sabem que pagaram a luz porque a companhia ainda não a cortou.

Estante
Grupo A
Guardam os livros por ordem alfabética do último nome do autor. Dentro de cada grupo, organizam por ordem alfabética da primeira letra do título (excluindo os determinantes artigos definidos “o”, “a”, “os” “as”).

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Guardam os livros preferidos na casa-de-banho. Para serem lidos, entenda-se. Alguns poderão terminar dentro do cesto da roupa suja. Há quem tenha um exemplar do “Guerra e Paz”, de Tolstoi, na cozinha, a fazer de tábua para cortar (foi usado uma vez com esse intuito e esquecido para sempre num armário).

Limpeza
Grupo A
Todas as semanas, limpam a casa.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Todas as semanas, descobrem, no meio do entulho, um objecto que não se lembravam que tinham.

Pontualidade
Grupo A
Dividem-se em dois grupos: grupo AA, que defende que pontualidade é chegar exactamente à hora marcada, e o grupo AB, que defende que se deve chegar uns minutos antes, para evitar imprevistos.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
"Nós combinamos alguma coisa?"

Universo, em geral
Grupo A
Impedem que o Universo colapse, por falta de organização.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Vão provocar a nossa extinção.