Às vezes, escrevemos textos sem nenhum tipo de conteúdo
relevante e que são meros exercícios para passar o tempo. Isto só não acontece
a Miguel Sousa Tavares, que até quando envia uma SMS a avisar alguém de que vai
chegar atrasado exprime pensamentos relevantíssimos para a nossa vida em
sociedade. Mas o Universo só admite uma vaga para Miguel Sousa Tavares. E está
preenchida.
Outras vezes, escrevemos textos que nos irão definir, para o
resto da nossa existência. Este é um desses textos. Numa primeira análise,
poderá parecer um texto irrelevante. Numa segunda, também, mas a verdade é que este
texto é mesmo importante. Para que não digam que as homenagens só são feitas
depois do seu alvo ter desaparecido, vou fazer uma sentida e mais do que
merecida homenagem, enquanto eles ainda estão cá.
Falo dos panados.
O panado é uma instituição como há poucas, na nossa
sociedade. Este petisco tem implicações sociais, matemáticas, filosóficas e até
místicas na nossa existência. Serve este texto para explicitar algumas dessas
implicações.
Comecemos pela parte matemática: não que seja impossível,
mas é altamente improvável que alguém coma só um panado. Primeiro, porque sabe
sempre bem comer mais um panado. Segundo, porque sabe sempre bem comer mais
dois panados. E por aí fora. A maioria de nós está condenada a ter, com os
panados, a mesma relação que a banca portuguesa tem com os processos de recapitalização
com dinheiro público: “só mais um, amanhã ganho juízo”.
Já a questão filosófica dos panados remete-nos para o
paradoxo de Zenão. Segundo este filósofo grego da Antiguidade, o que se move
alcança sempre o seu ponto médio, antes de atingir o ponto final. Mas também
atinge sempre um outro ponto médio, antes de atingir o ponto médio referido
anteriormente. E assim sucessivamente. Zenão queria, com isto, dizer que o que
se move nunca chegará ao ponto final, porque o espaço que tem para percorrer
pode, sempre, ser dividido por dois. No fundo, o infinitamente pequeno parece
ser infinitamente grande.
O mesmo acontece com os panados: podes sempre dividir um
panado em dois. Ou em vários. Um panado é infinitos panados. Pelo que, comer
infinitos panados é infinitamente mais fácil do que comer um só panado. E ainda
que tenhas enfardado seis panados, o sétimo pode ser facilmente dividido em
dois. Ou em infinitos. O importante a reter é isto: cabe sempre mais um panado
no estômago.
Outro aspecto que, no meu entender, importa relevar dos
panados é a semelhança que o ciclo de existência de um panado tem com o ciclo de
vida do ser humano. Quando é acabado de fritar, o panado está cheio de força,
como um ser humano na sua juventude. Mas o excesso de panados quentes pode
provocar enjoo. No fundo, como aturar, em demasia, seres humanos jovens.
O verdadeiro encanto do panado surge algumas horas depois da
fritura. O mesmo acontece com os seres humanos: depois dos 30 anos, o ser
humano é uma espécie de panado da refeição anterior, já sem a mesma vitalidade,
mas com um paladar muito mais apurado. E menos enjoativo. Com a tirania do
passar do tempo, o panado vai-se degradando. Os seres humanos também.
Há mesmo quem acredite, e este é o lado mais místico do
panado, que existe uma espécie de “Fada dos Panados”, que aparece durante a
noite e melhora os panados. Esta entidade é uma espécie de Fada dos Dentinhos,
mas muito mais útil. Se os Maias tivessem panados, certamente fariam enormes
festas, com sacrifícios humanos e tudo, em honra da Fada dos Panados.
Não há uma boa festa sem panados. Um lanche comemorativo de
qualquer coisa, um piquenique, uma excursão à praia, promovida pela Junta de
Freguesia, ou uma ida à Final da Taça de Portugal, sem panados, são como um
concerto da Adele sem sexo, drogas e rock’n’roll. Calma: enquanto escrevo,
dizem-me que os concertos da Adele não têm sexo, drogas e rock’n’roll. Então, o
que é que o pessoal vai lá fazer?
Voltando à vertente social do panado, afirmo que a Assembleia-Geral
das Nações Unidas até é fixe, mas contraponho que onde acho que existiria uma
verdadeira sintonia entre seres humanos de diversas proveniências seria numa
mesa gigante, em que os representantes de diversos países colocassem os seus
tupperwares e partilhassem os panados. O panado induz o sentimento de festa e
de concórdia. Um tupperware cheio de panados do dia anterior poderia ter
resolvido vários conflitos históricos. E alguns menos históricos, como daquela
vez em que o Sr. Horácio andou à chapada com o Sr. Alípio por causa de um muro
e uns terrenos.
No fundo, o panado une os seres humanos. Com esta imagem bonita,
terna, “colesterólica”, remato esta homenagem ao panado. Com um lamento apenas:
ao contrário do que acontece com os panados, este texto nunca melhorará com o
tempo.