Às vezes, as pessoas perguntam se somos “dog persons” ou “cat
persons”, que é o mesmo que perguntar se preferimos cães ou gatos. A verdade é
que, podendo gostar dos dois, tendemos sempre mais para um dos lados. O
Scooby-Doo e o Garfield são muito diferentes.
A Pantera Côr-de-Rosa, por seu lado, é diferente de tudo,
não só, por causa da cor pouco usual, mas também por se parecer com um cão. Mas
sobre a Pantera Côr-de-Rosa dissertarei em tempo oportuno.
Os cães são muito emocionais. A vida deles é um carrossel
que, calculo eu, será extremamente cansativo. Os cães vivem tudo no limite. E sem
recorrerem a aditivos. Com excepção do Piruças, do sr. Horácio, que, uma vez,
lhe apanhou o saco do café e roeu aqueles grãos todos. Passou três dias atrás
da cauda.
O cão vive no limite. Sais de casa para ir comprar pão,
regressas cinco minutos depois. O cão faz-te tanta festa como se tivesses
passado dois anos na guerra. Passas um fim-de-semana fora. Regressas e o cão
faz-te tanta festa como se tivesses sido dado como morto, na guerra.
Os cães falam, mas com os olhos. Experimenta comer com um
cão a olhar para ti. Ele faz olhos de quem diz: “Não, fica aí, com a tua comidinha.
Que te saiba bem. Nem me dás um bocadinho. Era só um bocadinho. Achas que te ia
fazer falta? Achas que me ia fazer mal? Era só um bocad…”. Dás-lhe um
bocadinho. O cão está tão desejoso de provar o que estás a comer que até te
morde os dedos, quando lhe dás um pedaço. Com a gula, ele quase nem mastiga
o que lhe deste. Tu pensas que o cão ficou contente. Estás enganado. Ele vai recomeçar
o processo, para que lhe dês mais. Alguns, se forem ignorados, usam a bomba
atómica da pedinchice: começam a babar-se. Ininterruptamente.
Os cães adoram partilhar o sofá com os donos. Começam por
saltar para o sofá, depois, dão quinze
voltas, até o sofá ficar com uma covinha na qual o corpo deles assente
perfeitamente. Finalmente, deitam-se com um olhar meigo, como quem diz “Eu vou
ficar neste cantinho, sem te incomodar”. Passado dez minutos, não tens sítio
para estar. O cão foi-se encostando, encostando, até te roubar todo o espaço. Para
além deste problema, tens outro: tenta pegar num cão, ou simplesmente
desviá-lo, enquanto ele dorme. Parece um penedo. Das duas, uma: ou o corpo do
cão tem um sistema qualquer de peso morto que multiplica o seu peso real por
246, ou tem ventosas, como os polvos. Uma vez que ele tenha colonizado o teu
espaço no sofá, resta-te ir para a cama.
O momento alto é a ida à rua. Se, por azar, pegares na trela
sem ser com o intuito de levar o cão à rua, mas ele estiver a ver, vais ter que
o levar. Isto porque o cão vai começar a saltar e a correr, histérico, vai
deixar tapetes e sofás fora do sítio, vai correr à tua volta como se fosses uma
presa e ele um predador, vai rebolar e só não vai cantar o hino porque nem sabe
nem cantar, nem sabe o hino. Qualquer cão reage de forma histérica à trela. Tirando o
Piruças, do sr. Horácio, que uma vez roeu um frasco de comprimidos para dormir
e acabou por comer alguns. Esteve três dias sem ligar à trela. Depois, acordou.
Os gatos, por seu lado, serão sempre algo selvagens. Podes mimar
o teu gato, dar-lhe comida a horas e respeitar o espaço deles. Arranjas um
pássaro e ele vai matar o teu pássaro. Pode ficar dias ou semanas a admirar a
gaiola. Um dia, vai matá-lo. E nem é para comer. É porque a existência de
outros seres vivos irrita o gato. Seja um pássaro, uma mosca ou o Piruças, do
sr. Horácio, que quando vê um gato desata a correr atrás dele.
Os gatos, como é sabido (embora ainda não demonstrado pela
Ciência), conseguem dobrar o eixo espácio-temporal, bem como contornar as ondas
da gravidade. E todas estas capacidades servem para um fim. Caçar? Não. Viajar
no tempo? Não. Levitar? Não. Todas estas capacidades servem para que o gato
caiba dentro de uma caixa de sapatos. Um gato até pode viver numa herdade, mas,
no fim do dia, ele vai querer dormir naquela caixa na qual não cabe deste que
tinha seis meses. Na ausência de uma boa caixinha, serve uma gaveta. Ou um
saco.
Ao contrário do que se diz, os gatos também festejam o
regresso do dono a casa. Mas, como são muito complexos, dividem este regresso
em dois tipos: sem sacas de compras ou com sacas de compras. No primeiro caso,
o gato aparece, roça-se nas pernas do dono, como se dissesse: “E quê? Tá tudo?
Dormi a tarde toda. Arranja aí qualquer coisa para comer, antes que eu volte a
dormir”. Quando o dono regressa a casa com sacas, a reacção é diferente. “E
quê? Tá tudo? Eeeeeeh, sacas! O que me trouxeste? Deixa-me meter a cabeça em
todas as sacas. Só para ver. Hum, nada de especial. Agora arranja aí qualquer
coisa para comer, antes que eu volte a dormir…”
Os gatos dividem os sons também em dois tipos. Sons insignificantes,
como a voz do dono, o som de uma porta a abrir ou de uma explosão nuclear, não perturbam
o sono. Os sons que verdadeiramente importam são os sons quase imperceptíveis. O
papel que caiu ao chão e saltitou duas vezes, aquela mosca que voou até à
janela e lá pousou ou a aranha a fazer uma teia, são motivos para o gato estar
em alerta máximo.
A expressão máxima de satisfação do gato é o ronronar. Também neste aspecto, o gato é mais higiénico que o cão: o cão só sabe expressar satisfação
tentando lamber as pessoas. O gato, por seu lado, produz um som propício à
meditação. Devia haver uma estação de rádio que emitisse 24 horas por dia o
ronronar de um gato. Muito do stress das sociedades modernas seria, assim,
dissipado.
A delicadeza é outra das características deste felino
doméstico. Se o teu gato resolver dormir um soninho no meio daquelas louças que
estão na tua família desde o séc. XV e que davam para pagar a dívida externa de
Portugal, deixa-o estar. Ele não vai deitar nada ao chão. Nem deves, em momento
algum, fazer algum movimento brusco no sentido de tirar de lá o gato. Não que
ele vá fugir e deitar tudo ao chão. É só porque não se deve assustar um animal.
Sendo tão diferentes, cães e gatos caminham para destinos opostos.
Uma vez terminado o seu estudo sobre as espécies do planeta, os gatos irão
embarcar de volta para o planeta de onde saíram. Os cães permanecerão, até ao
fim dos tempos, à espera que os donos regressem a casa e peguem na trela.