Uma das coisas mais divertidas da vida é fazer bolas de
sabão. Há algo de libertador, mas também de filosófico, no acto de fazer bolas
de sabão. Mas isso não é o que me traz a este texto. Só achei importante partilhar
esta opinião.
O que me traz a este texto é outra das coisas mais
divertidas da vida, que é a seguinte: pessoas que não fazem a mínima ideia do
que estão a fazer. O ser humano tem a capacidade de ser corajoso também para
isso: saber que há coisas que não pode, não deve, não sabe fazer, mas fazê-las na
mesma.
Por exemplo: pessoas a estacionar. Vais na
estrada e segue um carro à tua frente. De repente, pára. Olhas para o lado e
sabes que aquela carrinha BMW não cabe naquele lugar que, no máximo, dá para um
Opel Corsa. “Não, ele não pode estacionar ali”, dizes para ti. Pisca para a
direita, luz de marcha atrás. “Ele vai estacionar ali.”
Lentamente, com a confiança dos
predestinados, o condutor da carrinha BMW começa a tentar estacionar. Tu já
percebeste que o carro não cabe, o condutor que segue atrás de ti também, o
senhor que está à porta do café também, o gato que está em cima do muro não
percebeu, mas isso é porque está atento ao pássaro que pousou ali perto.
O condutor da carrinha BMW não entende por
que razão está toda a gente a buzinar. Ele ainda não recorreu ao número de
manobras suficientes para um perfeito estacionamento, não carregou no botão que permite encolher o carro, nem no botão que permite dobrar o eixo
espácio-temporal. No fim, acaba por abandonar o local, mas só porque já está
farto de ouvir carros a buzinar. No fundo, ele sabe que o carro cabia naquele
lugar. À vontadinha.
A utilização de computadores é outra área
rica em pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Alguém está
no computador e aparece-lhe um aviso qualquer. Primeiro passo: fechar o aviso
sem o ler. Segundo passo: abrir o painel de controlo. Depois, começar a escolher todas
as opções, alterando, aqui e ali, alguns parâmetros. O computador, que sabe mais
do que o utilizador, começa a avisar: “A seguinte mudança pode desactivar
algumas funcionalidades do computador”, “A seguinte mudança pode provocar mau
funcionamento do computador”, “A seguinte mudança pode provocar danos
irreversíveis no computador”, “A seguinte mudança pode provocar uma explosão em
alguma parte do planeta”. Não há medo: o utilizador vai continuar convicto de
que está a resolver o problema. Certeza, só uma: quando levar o computador a
arranjar, vai dizer ao técnico que não fez nada.
Também gosto de pessoas que, quando algum
aparelho não funciona, abrem-no logo. O caminho é de sentido único: tirar
peças, tirar peças, tirar peças. No fim, vão sobrar duas ou três. Ou dez. Mas
as pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer nunca desistem. Pelo menos, enquanto houver mais uma peça para tirar.
Outra coisa gira: cartas das Finanças ou
de algum organismo público. Alguém recebe uma carta, carregadinha de linguagem
técnica. “Depois de analisado o pedido do cidadão X, portador do Cartão do
Cidadão n.º Y e do Número de Identificação Fiscal n.º N , a repartição de
finanças de Sobreixos de Baixo decidiu indeferir o pedido, por não se
verificarem as condições necessárias ao procedimento solicitado. O cidadão em
questão deve proceder à imediata regularização da situação. O não cumprimento
desta ordem desencadeará o conjunto de penalizações previstas no artigo 27 do
código-que-regula-a-situação-em análise.”
O tipo que recebe a carta não faz ideia do
que está a acontecer. Não sabe se tem que pagar alguma coisa, se tem que escrever uma
carta a alguém, se deve reclamar, fugir do país ou chamar os bombeiros. Mas,
confiante, acha que não deve ser nada e usa a carta para acender o fogareiro e
assar duas morcelas.
Povo que sabe de construção é outro
clássico. Pessoas estudam engenharia durante alguns anos, aprofundam
conhecimentos de Matemática, Física, materiais e outros temas. Recorrem aos
mais recentes softwares de desenho de estruturas e testam as suas ideias ao
pormenor. Tudo isto é completamente destroçado por um gajo que nunca estudou
nada sobre o assunto, mas que, curiosamente, percebe imenso do assunto, e que assiste
à obra, num café ali perto. “Isto, pra mim, tá mal. Aquilo vai cair. Os pilares
não são suficientemente fortes. E o tabuleiro está torto. Em dois sítios.”
Os Ministros das Finanças são, regra
geral, pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Mas são muito
mais perigosas do que outras do mesmo grupo porque, ao contrário das pessoas
que não sabem estacionar, das pessoas que não sabem mexer em computadores, das
pessoas que não sabem reparar máquinas, das pessoas que não sabem o que está
escrito nas cartas ou que não sabem nada de construção civil, os Ministros das
Finanças têm uma extraordinária influência na vida dos outros.
E têm outra característica que os torna
únicos: ninguém põe uma pessoa que não percebe de computadores a reparar
computadores, ninguém põe um tipo que não percebe de construção a fazer um
viaduto, mas todas as instituições financeiras querem alguém que tenha sido
Ministro das Finanças. Mesmo que não fizesse a mínima ideia do que estava a
fazer, durante o mandato.
Durante a produção deste texto, eu próprio
não fazia a mínima ideia do que estava a acontecer. Mas não parei. Só para ser
coerente com o que escrevi.