Vivemos numa era em que
existe uma “doença” capaz de irritar mais do que um mosquito a passar uma
tangente a uma orelha, uma comichão surgida em público, num sítio impróprio do corpo, ou
até o Manuel Luís Goucha e a Cristina Ferreira a falarem ao mesmo tempo: falo
desse flagelo que é o excesso de tecnologia.
Nos nossos dias, precisamos de ter tudo ligado em rede.
Pronto, tudo, tudo, não. Basta o portátil, o telemóvel, o tablet, a tv, o frigorífico,
a máquina de lavar roupa, a torradeira e o secador.
E o ar condicionado.
E o esquentador.
Os objectos estão todos ligados em rede, sabem tudo da nossa
vida e comunicam nas nossas costas. São uma espécie de vizinha coscuvilheira do 5.º andar.
E nem se pode dizer que a Internet esteja em todo o lado. Não
está, por exemplo, na casa do Sr. Fernando. Mas isso foi por causa do mau
tempo, que estragou uma ligação qualquer. Neste momento, o Sr. Fernando está
aos berros com um operador da linha de apoio ao cliente.
Na nossa vida, todos os objectos têm processadores. Ou seja,
tudo obedece a uma rotina. Por outras palavras, os nossos objectos parecem um
casamento, a partir do terceiro ano.
Não, não gostava que a televisão fosse a preto-e-branco.
Excepto quando aparecem pessoas híper-maquilhadas, capazes de provocar um
ataque epiléptico a quem olha para elas. Não, não digo que o “full hd” não devia
existir. Bom, se calhar, quando aparece aquela actriz muito gira que não
envelheceu muito bem, ou aquelas pessoas que fizeram tantas plásticas que
derretem ao sol, viveríamos bem com metade dos pixéis. Não, não gostava que o
cinema e a televisão fossem mudos. Excepto nos canais generalistas, ao Domingo
à tarde.
Do que eu me queixo é das dificuldades provocadas pelo
excesso de tecnologia. Pensemos nas consolas. No tempo do Spectrum, um gajo
ligava o jogo, quando andava na primeira classe, e, com sorte, começava a jogar
quando seu primeiro filho entrava para a escola. Depois, as consolas evoluíram um
bocadinho e, em cinco minutos, estávamos a jogar.
Depois, evoluíram ainda mais e começaram a ligar-se à net. Ora,
da mesma maneira que a Internet nos retira produtividade, porque vamos ao
Facebook e ao Youtube, as consolas também ficaram menos eficientes, porque
perdem imenso tempo na net: ligamos a consola e ela actualiza o software, a nossa conta, os dados do jogo, a previsão do tempo para os próximos dez
dias, as farmácias de serviço, a programação da televisão, os dados da bolsa de Tóquio e, entretanto, passaram vinte minutos, é
hora de ir buscar o filho à escola e nem uma partida de FIFA jogámos. Ou seja:
as consolas já padecem de excesso de tecnologia.
Outro sinal dos tempos que eu adoro: a conectividade dos
aparelhos. Antigamente, as televisões tinham botões para mudar de canal. Era
uma chatice, porque era preciso remover o rabo do sofá e proceder à troca de
canal. Depois, alguém inventou o “pau de canal”: uma espécie de “pau de
selfie”, mas sem selfie, que podia ser um toco de vassoura e que era usado para
mudar de canal, carregando nos botões da televisão, a partir do sofá. Até que,
um dia, foi inventada essa maravilha da preguiça que é o telecomando.
O Mundo podia ter parado aí. Mas o ser humano não é de se
deixar ficar e resolveu subir a parada: hoje, já é possível controlar tudo a
partir do telemóvel. Até mudar de canal. É tudo muito bonito, mas basta surgir um
problema de compatibilidade e, em vez de mudar de canal, estamos a desligar a
máquina de lavar louça, a ligar o forno ou a mudar a frequência do pacemaker do
vizinho.
Uma pessoa que não consiga mudar de canal com o telemóvel entra,
imediatamente, em desespero. Vai ficar sempre com a sensação de que lhe falta
qualquer coisa, como um carro sem auto-rádio, um computador sem Internet ou,
muito pior, sexo sem preliminares. Ver televisão, nos dias de hoje, sem poder mudar de canal
com o telemóvel é como tentar comer esparguete à bolonhesa com uma pinça. Bem, não exageremos: uma pessoa que não consiga mudar de
canal com o telemóvel pode ter uma vida normal. Desde que não veja televisão e
que procure tratamento médico adequado.
Outro sinal desse flagelo que é o excesso de tecnologia: os
carros. Antigamente, mas muito antigamente, andávamos a pé. Depois, passámos a andar
a cavalo. Mais tarde, inventaram o carro e revolucionaram a vida dos seres
humanos. Tudo muito bem, até que a electrónica invadiu os carros e fez deles
meninos mimados, daqueles que reclamam sempre da comida ou que não jogam à bola
porque se podem magoar.
O motor do carro pode estar capaz de transportar uma família
de gorilas, juntamente com a respectiva bagagem (são gorilas citadinos, logo,
portadores de pertences pessoais, como roupa, perfumes e diversos produtos de higiene
e beleza) mas, se houver um circuitozinho qualquer que tenha um problema, o
carro pára e faz uma birra. Fica ali a amuar e acender luzes no painel. Ninguém o tira
dali. Quando se repara o que estava mal, ele volta a andar, como se nada
tivesse acontecido.
No fundo, os carros de hoje são namoradas/os chatas/os: por
causa de um fusível queimado, já não querem sair.
Há tecnologia a mais nas nossas vidas. Vou publicar esta
afirmação no Facebook e espero que façam “Like”. E, já agora, vou publicar este texto, antes que fique sem
net. Aí está outra coisa. Para os seres humanos, a net é como o oxigénio: não a
vemos, mas não aguentamos muito tempo sem ela.