Uma das modas mais recentes é dizer que o futuro da
Humanidade vai jogar-se no confronto entre as pessoas que são X e as que são Y,
ou no tema T. Até podia ser influência dos filmes, mas não é, claramente, uma
vez que, pelos filmes, sabemos que o futuro da Humanidade está em Chuck Norris.
No entanto, de forma a cativar os leitores para um texto que
não tem interesse absolutamente nenhum, vou afirmar, destemido, como se fosse
um gajo a explicar a um brutamontes do ginásio que, a estacionar, lhe meteu uma
porta do carro toda dentro, que o futuro da Humanidade se joga na forma de
comer das pessoas.
No que diz respeito à forma de comer, podemos dividir os
seres humanos em diversos grupos. Comecemos pelo critério da quantidade.
Buracos negros
Absorvem a matéria toda. As pessoas que enfardam têm pouco
tempo livre. Ou porque estão a enfardar, ou porque estão a proceder à evacuação
do que enfardam (vulgo, fazer cocó). Só há um momento em que estas pessoas não
estão a pensar em comer: o último da sua existência. Isto porque, no penúltimo,
ainda pensam “Havia bolo de chocolate…”. Estas pessoas são parecidas com um
aspirador, mas há uma pequena diferença: no aspirador, não entra tudo. Quando
vão jantar fora, só nas entradas garantem nutrientes que dariam para manter uma
pequena tribo, durante uma semana. Depois, ao longo da refeição, vão dilatando,
até parecerem uma cobra a digerir um animal de grande porte. Se fosse possível
que a pessoa que enfarda e a cobra falassem sobre o inchaço, a cobra diria “Estou
inchada porque estou a digerir um porco”, enquanto que a pessoa que enfarda
responderia “Eu ainda nem jantei”.
Respiradores
Há pessoas que não se lembram do que comeram ao almoço. Os
respiradores não se lembram da última vez que comeram. Conseguem extrair nutrientes
do ar, pelo que lhes basta respirar para se alimentarem. Às vezes, estas
pessoas apanham uma corrente de ar e ficam enfartadas. Quando eram pequenas e
lhes diziam “Se não comes, vem aí o papão”, elas respondiam “Pode ser que ele
queira comer esta sopa horrível”. Aquelas a quem diziam “Come, senão vem aí o
polícia”, dizem sempre o mesmo, quando param numa “operação stop”: “Senhor
agente, não bebi álcool, mas confesso que também não comi a sopa”. Estas
pessoas passam quatro minutos à mesa, numa refeição: 15 segundos a comer, o
resto do tempo a desarrumar o prato.
Passemos ao critério da rapidez.
Carros de corrida
Estas pessoas são um enorme desperdício de dentes, visto que
não mastigam a comida. São tão rápidas a comer que, se comessem peixe acabado
de apanhar, como os ursos, o peixe chegava vivo ao estômago. Na Fórmula 1, as
equipas mudam 4 pneus em meia dúzia de segundos. As pessoas que comem depressa
comem 8 rissóis em 3 pneus e meio.
Necrófagos
Estas pessoas davam bom uso à metade da dentição que as
pessoas que comem depressa
podiam dispensar. Demoram tanto a comer que, quando
atravessam o Atlântico de avião, pedem a refeição logo depois da partida, para
terem tempo de comer tudo. Há quem demore tanto que começa a refeição com
amigos e acaba com as moscas que começaram a sobrevoar a comida, entretanto em
processo de decomposição. Algumas demoram tanto que, no Ano Novo, metem no
micro-ondas a comida que está no prato desde o Natal. Outras há que, quando
acabam de comer a fruta, esta já está fora da época. Acho que já perceberam a
ideia.
Existe, também, o critério da diversidade.
Camiões do lixo
Comem tudo. Os ossos do frango, as espinhas do peixe, as
orelhas do porco, a língua da vaca, as cascas dos tremoços. O estômago destas
pessoas tem paredes de lixa, o que permite que a digestão de uma bigorna seja
igual à digestão de molotof. O único problema destas pessoas é digerir material
radioactivo: faz um pouco de azia. Estas pessoas conseguem comer tantas
variedades de comida que estão quase tão bem adaptadas ao meio como as baratas.
Quase: para as baratas, a radioactividade é tipo molho agridoce. Os “camiões do
lixo” só não digerem materiais de outros planetas porque não têm acesso a eles.
Caçadores de tesouros
Não gostam de carne vermelha, não gostam de carne branca,
não gostam de carne verde. Bom, carne verde pressupõe alguma decomposição, pelo
que, até se compreende. Não gostam de peixe. Não gostam de respirar. Na maioria
dos casos, a sua comida preferida é oriunda de um local recôndito do planeta.
Tão recôndito que estas pessoas acabam por morrer sem descobrirem que gostam
daquilo. Mas nem é assim tão difícil escolher um sítio para levar estas pessoas
a jantar: a não ser que vás ao tal local recôndito, elas não vão querer comer.
Se não fazes parte de nenhum destes grupos, fazes parte do
grupo “Pessoas que comem de uma forma que se situa dentro dos padrões de
comportamento mais típicos, no que diz respeito, não só, à quantidade de comida
ingerida, como também à rapidez da ingestão e à variedade da alimentação”.