Há dias, nos vestiários de uma loja de roupa, deparei-me com
uma situação que tem tanto de comum, como de caricata: muitas vezes, enquanto
uma pessoa experimenta roupa, há outra, do lado de fora do vestiário, que
segura a cortina, com os braços bem esticados, de forma a tapar todos os
ângulos e tornar impossível ver para dentro daquele espaço.
Acho adequado que alguém faça isto: se levarmos muita roupa
para experimentar, podemos sempre usar os braços da pessoa que segura a cortina
como cabide.
A pessoa que segura a cortina é sujeita a um tremendo
esforço. Sobretudo, quando tem de inventar, em poucos segundos, uma forma
subtil de dizer à pessoa que experimenta roupa que aquelas calças são
horríveis.
Uma coisa é certa: naquele dia, ninguém olhou para dentro do
vestiário. Estava tudo a olhar para o rabo da mulher que segurava na cortina.
Há um vasto conjunto de contextos em que daria imenso jeito
uma pessoa que segurasse a cortina, para que ninguém visse nada para o outro lado.
Não, não estou a falar de sexo em público.
É óbvio que estou.
Mas não só.
Jantar romântico
O esparregado está óptimo, mas ficaste com um pedaço colado
a um dente. Nesse momento, tens um dente verde. A pessoa que te acompanha demora
alguns segundos a decidir se te avisa. Acaba por fazê-lo, constrangida. Queres
remover o pedaço de esparregado do dente, mas tudo o que fizeres vai ser pouco
elegante.
Jantar de família
Está tudo a correr bem, a conversa flui normalmente, o
ambiente é amigável. Sentes que podes esticar um bocadinho a corda e dizes uma
piada arrojada. Ninguém se ri. O pai da tua namorada está a pensar em seis
maneiras de te torturar. Só vais sair dali vivo porque trouxeste a sobremesa.
Chamas a pessoa que segura a cortina. O pai da tua namorada pergunta: “Mas quem
é esta pessoa, a segurar uma cortina, no meio da nossa sala?”. Dizes que veio
trocar os cortinados. Agora é a mãe da tua namorada quem está a pensar em torturar-te.
Pensa apenas numa maneira. Mas vai colocá-la em prática.
Bar
Esta para as mulheres. Entras num bar, maravilhosa e confiante.
O vestido que usas acompanha cada contorno do teu corpo. Sorris para um
conhecido, mas sabes que estás a mostrar a toda a gente como o teu sorriso é
bonito. Sabes que todos os homens estão a olhar para ti. Todas as mulheres
também, mas é para te encontrar um defeito. O salto fica preso em qualquer
sítio, desequilibras-te, cais. Não te magoas, mas dás espectáculo. Passaste da
Marylin Monroe para o Pateta, em trinta segundos. Há risos. Precisas de sair
dali rapidamente.
Reunião de trabalho
Estás a fazer uma apresentação. Está a ser um sucesso. A
meio, há um vídeo. Mas alguém sabotou a tua apresentação. O vídeo que é
mostrado foi gravado num bar de karaoke, no qual cantaste, bêbado, o tema “Taras
e Manias”. Perdes o dia. Mas ganhas uma alcunha: “Marco Paulo”.
Encontro imediato
Vês, ao longe, aquele teu conhecido que é chato, que te vai
perguntar pela “vidinha”, que te vai contar duas ou três coisas que são
aborrecidas, tristes ou ambas. Com sorte, ainda te vai contar (outra vez)
aquela anedota espectacular em que um gajo entra num bar. Não tens a tua
caçadeira por perto. É, pois, um trabalho para a pessoa que segura a cortina.
Aula
Estás numa aula, num momento em que toda a gente está a
falar. De repente, é como se o Universo conspirasse contra ti e todas as
pessoas se calam ao mesmo tempo. Quando o fazem, ouve-se perfeitamente tu a
dizeres “mamas”. Há um segundo de silêncio e vários de riso. Precisas de te
esconder.
Gases
Soltas um gás intestinal num elevador. Por acaso, o teu
vizinho entra dois andares depois. Cheira mal. Só podes ter sido tu. Chamas uma
pessoa que segura a cortina. Ela entra no elevador, atira a cortina para cima
de ti e foge. Não aguenta o cheiro.
Safari
Sais do jipe, para tirar algumas fotografias. Ficas
rodeado/a de leões. Chamas a pessoa que segura a cortina. Percebes que é
estúpido: primeiro, vai a pessoa, depois vais tu.
Loja de roupa
Entras num vestiário de uma loja de roupa. A cortina não
fecha totalmente. Espera, esta utilização já foi inventada.
Achas que este texto foi uma perda de tempo. Chamas uma pessoa
que segura a cortina. Ela tapa o ecrã, mas espreita para o texto. Chega à parte
do elevador e percebe que tem que mudar de profissão.