Hoje em dia, ao entrarmos num ginásio, temos a sensação de
estarmos nos Jogos Olímpicos. A julgar pela qualidade da roupa, os desportistas
que encontramos no ginásio parecem ser de alta competição. Depois, olhamos para
o desempenho de muitos deles e sentimos que estamos numa aula de
hidroginástica. Sem água.
Mesmo assim, ainda se encontram desportistas clássicos. Por
desportista clássico, entenda-se um gajo com uma t-shirt extraordinariamente
desbotada, rasgada debaixo dos braços. Na frente, uma inscrição de respeito:
“II Encontro do Porco no Espeto de Burgeses”. Uma espécie de medalha em forma
de nome de um evento. Uma mancha de vinho, quase imperceptível, anuncia-se
junto da inscrição. É uma t-shirt de guerra.
Os calções ostentam o emblema do Atlético de Burgeses e o
número 9, o que deixa antever estarmos na presença de uma avançado temível.
Mesmo com uma ligeira barriga, é menino para marcar uns 20 golos por época. Isso
ou enfardar um cozido sem pedir ajuda a ninguém.
As sapatilhas são brancas, um clássico, tão gastas que a
única zona com algum relevo é a dos cordões.
O relógio é uma relíquia, do tempo em que dizer “100m water
resistant” era uma mais-valia (hoje, os relógios até respiram debaixo de água).
Do outro lado, temos o desportista moderno. A t-shirt é
invariavelmente justa e sem mangas. Adidas ou Nike, de preferência. Até os
gordos usam t-shirt justa. Um gordo de roupa desportiva é um gordo a caminho de
deixar de o ser, pelo que a barriga, ainda que se note bastante, parece que nem
se nota.
Os calções são de licra, tão justos que só há uma maneira de
os vestir: deixar os testículos no cacifo.
Na maior parte dos casos, as sapatilhas são fluorescentes.
Parecem ter resultado do cruzamento de uma laranja com um limão (arraçado de
lima).
O relógio está ligado às sapatilhas, que estão ligadas a uma
fita que é usada no tórax, para medir as pulsações, fita essa que está ligada
ao telemóvel, que está ligado a um satélite, que está ligado a outro satélite,
que está ligado ao telemóvel da amiga com quem o desportista moderno está a
falar, pelo Facebook Messenger. Ou seja: um gajo corre com outra pessoa, mas
sem ser a que está na passadeira do lado (até porque o gajo da passadeira do
lado tem uma t-shirt estranha, que fala de um encontro qualquer de porco no
espeto).
O desportista moderno consegue sempre cumprir o que planeou
fazer no ginásio. Depois, pousa o telemóvel e faz algum exercício físico.
O desportista clássico faz flexões e agachamentos. O
desportista moderno faz “push ups” e “squats”. Os nossos músculos sabem a
diferença entre uma flexão e um “push up”, entre um agachamento e um “squat”,
respondendo de maneira diferente. Por isso é que o treino dos desportistas
modernos rende mais.
No fim, o banho também é diferente. O desportista clássico
toma banho, veste-se e vai embora. O desportista moderno bebe uma mistela
qualquer, no fim do treino, que parece Nestum, mas com pouco Nestum, faz a
barba e a depilação, toma banho, põe creme, seca o cabelo, põe cera no cabelo,
tira a roupa que vai vestir de dentro de um plástico (tipo aqueles da
lavandaria), põe perfume e está pronto. Resultado: uma hora e quinze minutos de
treino, uma hora e quarenta e cinco minutos de banho.
Os desportistas clássicos estão em vias de extinção. De cada
vez que um espécime deste grupo compra uma t-shirt justa e sem mangas, a
espécie fica mais perto do fim. E os encontros de porco no espeto perdem um
adepto.