Há quem conduza e quem faça
competições na estrada. É bem diferente. Muito do que fazemos, a conduzir,
define-nos, enquanto seres mais ou menos pensantes, mais ou menos aptos para
sermos possuidores de título de condução. A carta de condução chama-se “carta”
porque muitos parecem tê-la obtido por correspondência.
Ao fim de alguns
quilómetros, já todos encontrámos algumas destas personagens do asfalto.
Velocidade Furiosa
Ultrapassam até numa garagem. Para estes condutores, a linha
contínua é arte urbana, é um risco no chão, nada mais do que isso. Duas rodas
chegam perfeitamente para curvar. E assim até se dá espectáculo. Para eles,
passar no verde é para fracos, no amarelo é fixe, no vermelho é a loucura. A
inversão de marcha faz-se com um pião. Arriscam a vida deles e dos outros por
uma ultrapassagem. Por dois segundos de vantagem. Conduzem sempre pela
esquerda. Mesmo quando não há faixa da esquerda. O problema deles é matemático:
dois segundos de vantagem podem chegar para ganhar o Mundial de Fórmula 1, mas
neste desporto não há carros em sentido contrário, na outra faixa. Em muitos
casos, depois de nos ultrapassarem, encontramo-los parados no semáforo seguinte.
Nunca olham para o lado. São inconscientes, mas conseguem perceber quando
acabaram de ultrapassar a linha contínua da estupidez. Vivem como se fossem
constantemente perseguidos por espiões inimigos. Nem que partilhem a estrada
apenas com um velhinho num carro eléctrico (cuidado com os velhinhos nos carros
eléctricos: não que eles conduzam depressa, mas às vezes não dão pisca).
GPS
Sabem sempre o melhor caminho. Não, não sabem. O truque,
muitas vezes, está na argumentação, mais do que na sabedoria. “Este caminho é
mais curto”; “Não é mais curto, mas tem menos trânsito”; “Não tem menos
trânsito, mas não há semáforos”; “Por aqui, o piso gasta menos os pneus”; “Por
aqui, é a descer, poupas gasolina”; “Por aqui é mais bonito”; “Por aqui,
passamos naquela pastelaria que tem uns pastéis de nata muito bons”; “Por aqui,
entras num portal para outra dimensão”; “Por aqui, vamos por aqui. É o único
caminho em que essa condição se verifica”. Se um destes condutores fosse a
Marte, acabariam por expulsá-lo da nave, por ele querer corrigir
permanentemente a trajectória.
Coruja
Estes condutores são particularmente irritantes, porque
conduzem muito lentamente, enquanto olham para todo o lado. Por vezes, a cabeça
deles dá uma volta de 360º, tornando-os estranhamente parecidos com corujas.
Tartaruga
Só ultrapassam os 25 km/h em casos de emergência. Aí,
perdem a cabeça e chegam a atingir uns impensáveis 50 km/h. A direcção, a
suspensão e os pneus destes condutores praticamente não sofrem desgaste. Até a
dentição é impecável. A não ser que abram o vidro e mandem umas bocas a um
condutor “Velocidade Furiosa”. Aí perdem um retrovisor e dois dentes da frente.
Tartaruga Ninja
São iguais aos anteriores, excepto se alguém os ultrapassar,
enquanto olha para eles com ar de gozo, ou se acelerar num semáforo,
indiciando que vai arrancar com força. Aí, os condutores “Tartaruga Ninja” passam
do estado “Tartaruga” ao “Velocidade Furiosa”, mais depressa do que passam dos 0
aos 100 km/h.
Houdini
Conseguem estacionar um jipe numa banheira. Em três
manobras. Sem sensores e sem espelho de um dos lados.
Velho do Restelo
São o inverso dos “Houdini”. Podem ter um campo de futebol
para estacionar, que acabam sempre por achar que não cabe. Costumam ser magros,
uma vez que estacionam sempre muito longe e fazem, por isso, longas caminhadas.
Alexandre, o Grande
O Mundo é o parque de estacionamento deles. Nem que seja em
terceira fila, há sempre lugar à porta.
Cristóvão Colombo
Nunca sabem o caminho, mas chegam sempre aonde querem. Nem
que queiram ir à Índia e acabem na América. Estes condutores beneficiam do
facto de a Terra ser redonda. Se fosse plana, acabariam por cair numa das extremidades. Se fossem tão bons a adivinhar números, como são a
adivinhar caminhos, o Euromilhões teria os dias contados.
D. Sebastião
Demoram seis meses a memorizar o caminho para o trabalho. Alguns, na primeira vez em que saem da cidade, perdem-se. Para sempre.
O que é aquilo?
Nunca olham para os sinais de trânsito. Geralmente, passam a
olhar quando um “Stop” corre mal.
Luzes, só no pinheiro
Pisca? LOL.