domingo, 1 de novembro de 2015

Ases do volante

Há quem conduza e quem faça competições na estrada. É bem diferente. Muito do que fazemos, a conduzir, define-nos, enquanto seres mais ou menos pensantes, mais ou menos aptos para sermos possuidores de título de condução. A carta de condução chama-se “carta” porque muitos parecem tê-la obtido por correspondência.

Ao fim de alguns quilómetros, já todos encontrámos algumas destas personagens do asfalto.

Velocidade Furiosa
Ultrapassam até numa garagem. Para estes condutores, a linha contínua é arte urbana, é um risco no chão, nada mais do que isso. Duas rodas chegam perfeitamente para curvar. E assim até se dá espectáculo. Para eles, passar no verde é para fracos, no amarelo é fixe, no vermelho é a loucura. A inversão de marcha faz-se com um pião. Arriscam a vida deles e dos outros por uma ultrapassagem. Por dois segundos de vantagem. Conduzem sempre pela esquerda. Mesmo quando não há faixa da esquerda. O problema deles é matemático: dois segundos de vantagem podem chegar para ganhar o Mundial de Fórmula 1, mas neste desporto não há carros em sentido contrário, na outra faixa. Em muitos casos, depois de nos ultrapassarem, encontramo-los parados no semáforo seguinte. Nunca olham para o lado. São inconscientes, mas conseguem perceber quando acabaram de ultrapassar a linha contínua da estupidez. Vivem como se fossem constantemente perseguidos por espiões inimigos. Nem que partilhem a estrada apenas com um velhinho num carro eléctrico (cuidado com os velhinhos nos carros eléctricos: não que eles conduzam depressa, mas às vezes não dão pisca).

GPS
Sabem sempre o melhor caminho. Não, não sabem. O truque, muitas vezes, está na argumentação, mais do que na sabedoria. “Este caminho é mais curto”; “Não é mais curto, mas tem menos trânsito”; “Não tem menos trânsito, mas não há semáforos”; “Por aqui, o piso gasta menos os pneus”; “Por aqui, é a descer, poupas gasolina”; “Por aqui é mais bonito”; “Por aqui, passamos naquela pastelaria que tem uns pastéis de nata muito bons”; “Por aqui, entras num portal para outra dimensão”; “Por aqui, vamos por aqui. É o único caminho em que essa condição se verifica”. Se um destes condutores fosse a Marte, acabariam por expulsá-lo da nave, por ele querer corrigir permanentemente a trajectória.

Coruja
Estes condutores são particularmente irritantes, porque conduzem muito lentamente, enquanto olham para todo o lado. Por vezes, a cabeça deles dá uma volta de 360º, tornando-os estranhamente parecidos com corujas.

Tartaruga
Só ultrapassam os 25 km/h em casos de emergência. Aí, perdem a cabeça e chegam a atingir uns impensáveis 50 km/h. A direcção, a suspensão e os pneus destes condutores praticamente não sofrem desgaste. Até a dentição é impecável. A não ser que abram o vidro e mandem umas bocas a um condutor “Velocidade Furiosa”. Aí perdem um retrovisor e dois dentes da frente.

Tartaruga Ninja
São iguais aos anteriores, excepto se alguém os ultrapassar, enquanto olha para eles com ar de gozo, ou se acelerar num semáforo, indiciando que vai arrancar com força. Aí, os condutores “Tartaruga Ninja” passam do estado “Tartaruga” ao “Velocidade Furiosa”, mais depressa do que passam dos 0 aos 100 km/h.

Houdini
Conseguem estacionar um jipe numa banheira. Em três manobras. Sem sensores e sem espelho de um dos lados.

Velho do Restelo
São o inverso dos “Houdini”. Podem ter um campo de futebol para estacionar, que acabam sempre por achar que não cabe. Costumam ser magros, uma vez que estacionam sempre muito longe e fazem, por isso, longas caminhadas.

Alexandre, o Grande
O Mundo é o parque de estacionamento deles. Nem que seja em terceira fila, há sempre lugar à porta.

Cristóvão Colombo
Nunca sabem o caminho, mas chegam sempre aonde querem. Nem que queiram ir à Índia e acabem na América. Estes condutores beneficiam do facto de a Terra ser redonda. Se fosse plana, acabariam por cair numa das extremidades. Se fossem tão bons a adivinhar números, como são a adivinhar caminhos, o Euromilhões teria os dias contados.

D. Sebastião
Demoram seis meses a memorizar o caminho para o trabalho. Alguns, na primeira vez em que saem da cidade, perdem-se. Para sempre.

O que é aquilo?
Nunca olham para os sinais de trânsito. Geralmente, passam a olhar quando um “Stop” corre mal.

Luzes, só no pinheiro
Pisca? LOL.

domingo, 11 de outubro de 2015

Comprar tecnologia: eles vs. elas

Depois do texto “Comprar roupa: eles vs. elas”, chega o momento de dissertar acerca da compra de tecnologia. O homem, quando compra tecnologia, tem em consideração uma série de factores que podem, no que diz respeito aos “gadgets”, fazer a diferença entre ser o Tone Morcela, que nem e-mail tem, e ser o James Bond (atenção, o Chico Morcela é diferente, porque já tem um iPhone 6s, o James Bond também não tem e-mail, mas é porque não existe).

Vamos supor que um homem quer comprar um computador. O primeiro modelo a captar a sua atenção tem um super-processador, tão rápido que é capaz de mandar um pedido de amizade no Facebook antes de um gajo saber que a miúda é gira. Tão rápido que calcula o custo de uma obra pública já a contar com a derrapagem. Tão rápido que, quando um gajo acaba de instalar o FIFA, o campeonato já vai na quinta jornada. Tão rápido que, quando um gajo instala um programa, lê os “Termos e Condições”, só para abrandar um pouco o processo. Portanto, já toda a gente percebeu que o processador é rápido.

O computador tem tal quantidade de memória RAM que consegue processar, em simultâneo, todos os dados da NASA, do MIT, do acelerador de partículas do CERN e (atenção, que este último parâmetro é o que diferencia um processador normal de um super-processador) da base de dados de filmes pornográficos do Chico Morcela.

A placa gráfica é tão avançada que, uma vez, um gajo levou realmente um balázio a jogar GTA. (Na verdade, o balázio foi dado por uns gajos manhosos a quem ele devia dinheiro e que lhe entraram em casa. Mas a placa gráfica é boa, na mesma.)

Enfim, é um computador de sonho. Mas custa 4999,99 euros. O homem passa para algo mais em conta. 799,99 euros, um computador que dá para jogar FIFA, sem ficar lento.

Mas “oitocentos paus” por um computador é um bocado puxado. Então, o homem desenvolve um sentido de sobrevivência que orgulharia os nossos antepassados, um sentido prático que faz dele um soldado em situação de sobrevivência. “Ora bem, qual é, para mim, a verdadeira finalidade de um computador? Trabalho? Não. Jogos? Não. Bem, na verdade, eu quero um computador que dê para ir ao Facebook e para ver pornografia.”

- Amigo, aquele de 299,99 euros tá óptimo!

No caso das senhoras, o cenário muda de figura. Imaginemos que uma mulher vai comprar um computador. Apresentam-lhe o computador com um super-processador, uma memória RAM que faz inveja àquele nosso amigo que sabe o nome de todos os filmes produzidos desde 1972, mais a placa gráfica dos balázios. Ela gosta da ideia, mas acha um absurdo dar tanto dinheiro por um computador.

Continua a procura e encontra um computador que tem um processador tão lento que, se quisermos instalar o FIFA 16, temos que o comprar quando sair o 15. Um processador tão lento que encrava na calculadora. Um computador que tem tão pouco espaço de armazenamento que, se os outros computadores falassem, chamar-lhe-iam “disquete”. Um computador... azul turquesa.

Está escolhido. Não vai jogar FIFA nem GTA, calculadora tem no telemóvel, espaço tem no disco externo. Custa 299,99 euros, dá para ir ao Facebook e para ver séries. E é lindo de morrer. Quando deixar de o usar, poderá usá-lo como objecto decorativo.

A mulher finaliza a compra antes do homem. Porque o homem, entretanto, foi fazer um crédito. Vai levar o de 799,99 euros. Nem é pelo FIFA, é porque pode dar jeito para o trabalho. Mas parece que o FIFA, este ano, está espectacular.

domingo, 4 de outubro de 2015

Diz-me como guardas a roupa, dir-te-ei quem és

Podemos dividir a Humanidade em dois grupos: o das pessoas organizadas e o das pessoas desorganizadas. Mas isso é demasiado óbvio. Porque é nos extremos que se encontra, muitas vezes, a piada disto tudo, vou dividir a Humanidade em pessoas que são tão organizadas que protegem o Universo (vamos chamar-lhes “Grupo A”) e pessoas que são, pura e simplesmente, agentes do caos (vamos chamar-lhes “Grupo y = x^2 + sin x + 27”). Aqui ficam algumas das diferenças entre estes dois grupos.

Roupa
Grupo A
Organizam a roupa por estação (a Primavera e o Outono também contam), tecidos e cores. O roupeiro destas pessoas parece o arco-íris. Sim, porque as pessoas do Grupo A organizam de acordo com o espectro de luz: violeta, azul, ciano, verde, amarelo, laranja, vermelho. Espera: há roupas de cor violeta?

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Detestam que lhes mexam no monte da roupa usada, porque isso vai alterar as camadas e deixa de ser possível saber há quantos dias foi usada determinada peça. O estado e o cheiro da peça podem não ser suficientes para saber se a peça deve ser novamente usada.

Roupa (2): Calçado
Grupo A
O calçado é arrumado sempre com o exemplar esquerdo do lado esquerdo (não refiro o direito porque, se o esquerdo está do lado esquerdo, subentende-se que o direito está do lado direito).

Grupo y = x^2 + sin x + 27
É uma sorte encontrar dois exemplares juntos que pertençam ao mesmo par.

Refeições
Grupo A
Mesmo sozinhos, põem a mesa para comer. Detestam comer no meio da bagunça.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Detestam limpar as migalhas que ficaram na cama. Pior, só mesmo a mancha de ketchup que ficou no sofá. Bem, virando a almofada ao contrário a mancha desaparece, pelo que, as migalhas são piores.

Carro
Grupo A
Conservam um registo das inspecções do carro.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
A inspecção faz-se no dia-a-dia: o carro anda? Então está impecável.

Viagens
Grupo A
Quando viajam de avião, a mala nunca excede o peso permitido.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Fazem as contas incluindo a multa por excesso de peso da mala. Nada a fazer: apareceram cinco quilos de coisas essenciais, à última da hora.

Datas
Grupo A
Começam a preparar o aniversário da namorada/o um mês antes.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Sabem que a namorada/o fazem anos no primeiro semestre do ano. “Espera, não será no segundo?”.

Pagamentos
Grupo A
Guardam, numa capa, as facturas, organizadas por serviço e data.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Sabem que pagaram a luz porque a companhia ainda não a cortou.

Estante
Grupo A
Guardam os livros por ordem alfabética do último nome do autor. Dentro de cada grupo, organizam por ordem alfabética da primeira letra do título (excluindo os determinantes artigos definidos “o”, “a”, “os” “as”).

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Guardam os livros preferidos na casa-de-banho. Para serem lidos, entenda-se. Alguns poderão terminar dentro do cesto da roupa suja. Há quem tenha um exemplar do “Guerra e Paz”, de Tolstoi, na cozinha, a fazer de tábua para cortar (foi usado uma vez com esse intuito e esquecido para sempre num armário).

Limpeza
Grupo A
Todas as semanas, limpam a casa.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Todas as semanas, descobrem, no meio do entulho, um objecto que não se lembravam que tinham.

Pontualidade
Grupo A
Dividem-se em dois grupos: grupo AA, que defende que pontualidade é chegar exactamente à hora marcada, e o grupo AB, que defende que se deve chegar uns minutos antes, para evitar imprevistos.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
"Nós combinamos alguma coisa?"

Universo, em geral
Grupo A
Impedem que o Universo colapse, por falta de organização.

Grupo y = x^2 + sin x + 27
Vão provocar a nossa extinção.

domingo, 27 de setembro de 2015

Alguns tipos de relações amorosas

Há namoros intensos e namoros aborrecidos. Há namoros sentidos e namoros ocasionais. Enquanto houver seres humanos, haverá novos tipos de namoros, uns mais comuns, outros mais originais. Seria impossível elencar todos os tipos de relações amorosas, mas vou deixar aqui alguns dos mais comuns.

Romeu e Julieta
Partilham tudo, menos a escova de dentes. OK, subamos a parada: partilham a escova de dentes. E as gengivites. Partilham todas as viagens, todos os passeios, todos os pores-do-sol, todas as diarreias. Quando um fica doente, o outro toma a medicação. Não resulta e acaba por ter que ser o que está doente a tomá-la. Mas é romântico. São o complemento perfeito, um para o outro. Ao fim de algum tempo, um inspira e o outro expira. Respiram a meias, no fundo. O que é bom, porque se poupa no oxigénio. No médio/longo prazo, deixam de existir para outros seres humanos. São o monstro de Loch Ness dos namoros: volta e meia, aparecem, mas estão quase sempre “debaixo de água”. Uns dizem que eles existem, outros não acreditam.

Faixa de Gaza
Discutem por causa dos ciúmes. Discutem por causa do tampo da sanita. Discutem por causa dos cortinados. Discutem por causa da Coreia do Norte e da Coreia do Sul. Discutem por causa do sentido da vida. Discutem por causa da toalha molhada em cima da cama. Discutem por causa do calçado desarrumado. Por causa da comida. Por causa do restaurante. Do filme que vão ver. Do filme que viram. Discutem por não se lembrarem de nenhum motivo para discutir. “Nunca te lembras de um motivo!”, “Ainda ontem fui eu que comecei a discutir”, “É isso, atira coisas à cara, adoro quando fazes isso…”. Discutem sobre tudo e sobre nada, mas estão destinados a viver um com o outro.

Ioió
Namoram com toda a intensidade. Chateiam-se e desejam a morte um do outro. Reencontram-se e recomeçam a namorar. Não vivem um sem o outro. Chateiam-se e dizem “Nunca mais”. Reencontram-se e começam “uma cena sem compromisso” (no fundo, namoram, mas como da outra vez não resultou, resolvem dar-lhe um nome diferente). Chateiam-se e prometem que vão casar com a primeira pessoa que aparecer na rua. A primeira pessoa não corresponde, a segunda também não. Recomeçam a namorar, até se chatearem de novo. No fundo, eles só gostam do sexo de reconciliação, mas ainda não se aperceberam.

Salto em Altura
Estes namoros são uma competição, para ver quem é mais lamechas. Um oferece flores. O outro planta um jardim. Um cria uma escultura. O outro faz um museu com tudo o que eles partilharam. Um escreve um poema. O outro escreve, também, e divulga-o em papéis, atirados por um avião. Um corta um braço, por amor. O outro pega nesse braço e coça as costas do primeiro. Basicamente, eles estão juntos pela competição. O amor é secundário.

As palavras que nunca te direi
Não há demonstrações de carinho, em público. Nem em lado nenhum. Estão juntos por falta de opções. Espera: mas são namorados? Esperemos que eles se pronunciem sobre o tema. São como pessoas presas num elevador: não sabem por que motivo o elevador parou, não queriam que ele tivesse parado, mas acabam por conviver.

Eclipse
Um deles é alegre, divertido/a, extrovertido/a. Tem sempre uma piada, faz sempre qualquer coisa parva. Excepto na presença da namorada/o. Nessa situação, transforma-se numa estátua, tão desinteressante que nem as pombas a procuram. Se conheces alguém assim, despede-te: essa pessoa só voltará a existir se a relação acabar.

24 Hour Party People A
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Nos cinco dias que sobram, por mês, para a namorada/o, também vale tudo.

24 Hour Party People B
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Só não vale com a namorada/o.

Agentes Secretos
Namoram sem ninguém saber. Em alguns casos, sem os próprios saberem.

domingo, 20 de setembro de 2015

Fases de um dia de sono

Às vezes, esticamos um bocadinho a corda e cortamos nas horas de sono. Enquanto o fazemos, divertimo-nos. O problema é o dia seguinte. Vamos sofrer, dizer mal de nós mesmos e prometer que, nesse dia, nos vamos deitar cedo. Mesmo sabendo que é mentira. Eis as fases por que passamos, num dia com sono.

Fase Che Guevara
Acordamos com muito sono e o primeiro sentimento que temos é uma espécie de fúria revolucionária. “Logo, vou deitar-me às nove da noite. Nunca mais me deito tarde.” Nesta fase, queremos mudar os hábitos, ser mais saudáveis, mais sensatos, valorizar mais o descanso. No fundo, queremos ser pessoas melhores: ajudar mais os outros, ser mais compreensivos, cuidar melhor da saúde, atravessar na passadeira, separar o lixo, não coçar os genitais em público. É mentira: com a camada de sono que temos, queremos, não só, que os outros se lixem, como também que não falem connosco. Queremos apenas dormir mais horas e sentimo-nos capazes de fazer uma revolução: deitar cedo.

Fase Pedro e o Lobo
Ocorre a meio da manhã, quando o nosso corpo se adaptou ao estado de sono, também com ajuda da cafeína, e começamos a acreditar que não estamos cansados. Sentimos que foi falso alarme. “Pessoal, calma, podem regressar às vossas casas, não há lobo nenhum, foi impressão minha.” Sentimo-nos fortes, capazes de resistir ao sono; ao vizinho chato do 5º andar, que nos pediu que respirássemos mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; ao gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; ao gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; ao chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ao perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. 

Fase Urso
Antes do almoço, o sono que sentimos, mesmo sem o sabermos, mistura-se com a fome. Os nossos níveis de agressividade tornam-se semelhantes aos de um urso. Apetece-nos atacar qualquer ser vivo que apareça nas nossas imediações. A simples existência de outros seres humanos irrita-nos. Para além disso, temos o apetite do urso: carne, peixe, bagos, um alce em decomposição ou um salmão que vai a subir o rio (estes, mais difíceis de encontrar, mas nunca se sabe), qualquer coisa serve, desde que a fome passe. Nesta fase, até um vegetariano come arroz de pato (depois de ter matado e esfolado o pato). Algumas pessoas também coçam as costas, roçando-as nas árvores, como os ursos, mas isso não tem nada a ver com o sono e a fome: é porque não chegam às costas com o braço.

Fase Lesma
Depois do almoço, cada célula do corpo está em agonia. Não nos mexemos, arrastamo-nos. Há pessoas que, tendo que descer escadas, atiram-se. O que são alguns hematomas e uma possível fracturinha, comparados com o terror de descer umas escadas? Quando a questão é subir escadas, há quem faça a fractura antes, só para não subir. Há quem aproveite uma viagem de elevador ou de escadas rolantes para um retemperador sono de seis segundos. 

Fase Kamikaze
No pico do sono, queremos morrer, o sofrimento é tanto que, se nos dessem um avião, para o atirarmos contra qualquer coisa, nós equacionaríamos a possibilidade. Nem era pela destruição, mas pela possibilidade de acabar com aquele sono.

Fase Obama
“Yes, We Can”, falta uma hora para acabar o trabalho. Sentes, não só, que o teu longo dia está quase a acabar, como também que o Mundo vai ser, depois da saída, um lugar melhor, cheio de esperança, liberdade, igualdade e fraternidade. Depois, recebes uma tarefa difícil para fazer e sentes que o Mundo é uma merda e que ser um extremista não é assim tão errado.

Fase Olímpica
Sais do trabalho. Ouves uma música épica, corres em câmara lenta, à volta do edifício do teu local de trabalho, tal e qual os maratonistas, que dão a volta à pista, depois de terminarem a prova. És indestrutível. És uma máquina. Já nada te pode incomodar. Assim que acaba o trabalho, estás em equilíbrio com a Natureza e não vais chatear-te com mais nada. Excepto com o vizinho chato do 5º andar, que te pediu que respirasses mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; com o gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; com o gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; com o chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ou com o perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. Já agora, também com o facto de te teres esquecido da carteira no trabalho e teres que voltar para trás.

Fase Coyote
Tens o plano delineado há doze horas e não tencionas deixar escapar o “Beep-Beep”, que é como quem diz, queres deitar-te a horas. Como sempre, o “Beep-Beep”vai escapar, ou seja, algo vai correr mal e o teu plano vai ter um resultado desastroso. Por algum motivo, não te vais deitar cedo.

Fase Que se lixe
Vais dormir poucas horas outra vez. Tens vergonha só de pensar no assunto.

domingo, 13 de setembro de 2015

Terminar relações: algumas desculpas originais

Todos nós já recorremos a desculpas para acabar uma relação. E esse hábito é tão comum que acabamos por recorrer àquelas que toda a gente usa. Clássicos como “O problema não és tu, sou eu”, “Preciso de tempo”, “Preciso de espaço”, “Preciso de me encontrar”, “És a pessoa certa na altura errada” ou “Não estou pronto/a para assumir um compromisso” são muito úteis, quando queremos comunicar uma decisão drástica, minimizando os estragos.

Acho que isto é pouco original. Se é para ficarmos na memória de alguém, que seja por sermos disruptivos na hora de nos justificarmos. Em mais um momento de verdadeiro serviço público, proporcionado por este blogue (ou, apenas, através de mais uma parvoíce que decidi partilhar), deixo algumas sugestões de desculpas para terminar relações.

“Este ano, Júpiter vai alinhar com Saturno, o que afecta a minha energia. Vou ficar insuportável. Gosto tanto de ti que tenho que te proteger deste problema.”
Óptimo para usar com pessoas que se informam pouco acerca do movimento dos planetas mas que, ao mesmo tempo, acreditam na Astrologia.

“És a minha terceira relação desde que houve um acidente na central nuclear de Fukushima [podem escolher outro desastre qualquer]. Sou obsessivo-compulsivo e gosto de números pares. O 3 é impar. Temos de terminar já, sob o risco de causarmos um desastre nuclear global.”
Recomendado para usar com pessoas obsessivo-compulsivas, porque vão entender-te na perfeição: elas sabem como o Universo depende do que nós fazemos.

“Não estás verdadeiramente comprometida com a defesa do lince ibérico.”
Resulta na perfeição com pessoas que não gostam muito de animais.

“Não tens opinião formada acerca dos mercados de dívida pública.”
Ideal para usar com qualquer pessoa, porque ninguém tem opinião sobre este assunto, nem mesmo as pessoas que trabalham nestes mercados.

“Nunca quiseste saber onde fica a Macedónia, o que é uma falta de respeito para com as minhas origens, porque um bisavô meu esteve lá.”
Parecida com a anterior: dá para usar com toda a gente, porque ninguém sabe onde fica a Macedónia.

“Vou alistar-me no exército. Quero dedicar-me só ao meu país.”
Esta mentira durará pouco tempo, porque poderás ser encontrado regularmente nos mesmos locais que frequentavas. Nesse caso, tens que dar a entender que estás numa missão ultra-secreta. Mas sem o dizeres directamente. Senão, a missão torna-se menos secreta e a tua desculpa menos credível.

“Tenho material radioactivo no braço, em resultado de uma cirurgia mal feita. Ao fim de alguns meses em contacto comigo, podes ter problemas.”
Convém usar com uma pessoa não perceba nada de radioactividade, mas que seja capaz de intuir que é uma coisa perigosa.

“Falo a dormir. Falo muito. Digo ‘Os Lusíadas’ de uma ponta a outra.”
Esta desculpa tem uma grande desvantagem: só pode ser usada com alguém com quem ainda não tenhas dormido. Mas nem tudo é mau: vais parecer muito culto/a.

“Nasceste em Fevereiro. Não posso confiar em alguém que nasceu num mês que nem trinta dias tem”.
Não sei se resulta, mas dá para quando estiveres sem ideias.

Se tiveres alguma intenção, ainda que reduzida, de não excluir um futuro envolvimento com a pessoa com quem vais acabar a relação, não uses nenhuma desculpa deste género: poderá afectar a tua credibilidade.

Agora vou terminar o texto. O problema não é o leitor, sou eu. Preciso do meu espaço.

domingo, 6 de setembro de 2015

E se o multibanco falasse?

O multibanco fez trinta anos, esta semana, e as televisões deram grande destaque. Eu faço trinta e um, brevemente. Quero ver se as televisões se vão lembrar. Tudo bem, eu não permito levantar dinheiro em qualquer lugar. Mas se um amigo me pedir vinte euros emprestados, nem é preciso código. E sou bom rapaz, o que já deveria ser digno de nota.

Talvez seja altura de repensarmos o multibanco. O boneco não deve ser mudado, em circunstância alguma: a máquina sem aquele boneco não será a mesma coisa. Será como a “Prova Oral” sem o Fernando Alvim, o “Preço Certo” sem o Fernando Mendes, ou a TVI sem os casacos do Goucha e os berros da Cristina Ferreira.

Bom, fiquemos apenas pelos exemplos da “Prova Oral” e do “Preço Certo”.

Uma das grandes inovações que poderiam (e deveriam) ser implementadas seria a capacidade da máquina nos tentar demover de levantarmos dinheiro quando tivéssemos pouco. Assim que tentássemos realizar a operação, ela perguntaria “Tem a certeza?”. Caso respondêssemos afirmativamente, a máquina continuaria a fazer perguntas e só quando respondêssemos a todas é que poderíamos levantar dinheiro. “Tem mesmo a certeza?”, “Quem foi o inventor do multibanco?”, “Em que ano foi inventada a lâmpada?”, “Quem foi o primeiro Presidente da República da Estónia?”, “Qual é a capital da Macedónia?”, “89+53=?”, “Qual a raiz quadrada de 289?”.

Para além desta capacidade, a máquina poderia ter uma outra, exclusiva do fim-de-semana: se uma pessoa levantasse dinheiro, a máquina diria, no fim: “Agora gasta-o mal gasto…”. Se voltássemos àquela máquina, no mesmo fim-de-semana, a máquina diria: “Andas numa rica vida, andas…”.

Outra grande alteração estaria relacionada com as filas. Quando estivesse muita gente, a máquina contaria anedotas, serviria amendoins e cerveja, de forma a tornar a espera mais agradável. Claro que estes factores iriam distrair a pessoa que estivesse a usar a máquina, tornando a utilização mais demorada, mas ninguém se importaria com isso, uma vez que o importante seria o convívio. O povo já iria ao multibanco só para beber um fino e ouvir duas anedotas. Ao fim de vários finos, as anedotas teriam muito mais piada e o pessoal já levantaria dinheiro para as outras pessoas. Como dizem os bêbados: “Somos amigos ou não somos?”. A economia girava.

Quando alguém estivesse mais do que cinco minutos na máquina, seria activada uma bazuca de notas, que as dispararia como se fossem confetes. Importante: o dinheiro disparado seria, obviamente, da pessoa que estivesse a monopolizar a máquina.

Para as pessoas que até são rápidas na máquina, mas depois ficam a conferir o talão durante vários minutos, impedindo que outra pessoa utilize a máquina, existiria um chuveiro. Com água fria. Esta funcionalidade iria fazer com que, no Verão, os homens recomendassem às miúdas giras que conferissem detalhadamente o talão, várias vezes, antes de abandonarem a máquina. “Nunca se sabe se houve um erro informático, menina. Convém conferir bem. Já agora, pode conferir virada para aquele lado?” Tudo isto em nome do civismo, como é óbvio. Nós não somos esses ordinários que vocês pensam, meninas. Claro que somos.

Nos pagamentos ao Estado, teríamos oportunidade de jogar, na própria máquina, um jogo de boxe, no qual enfrentaríamos o actual ou anteriores primeiros-ministros. O jogo teria uma particularidade: o nosso adversário teria as mãos atadas. Pelo menos, ali, poderíamos derrotar o Estado.

Quando a máquina comesse o cartão, arrotaria. Esta função não teria utilidade nenhuma. Só piada.

Quando alguém tentasse levantar dinheiro sem o ter, ocorreria o seguinte diálogo: “Deves pensar que eu ando a dormir. Vamos fazer um jogo. Eu dou-te o dinheiro, mesmo sem teres saldo, mas tens que adivinhar em que número estou a pensar”.

Quando alguém se esquecesse de retirar o cartão, o dinheiro ou o talão, em vez dos avisos enfadonhos do costume, teríamos avisos como: “Deixa ficar isto aqui, deixa, que o próximo utilizador vai mesmo avisar que te esqueceste”. Quando a máquina estivesse mal disposta, acrescentaria, no fim do aviso: “Estúpido/a!”.

Todas estas funções tornariam mais eficiente e agradável a utilização das máquinas multibanco. Mais estúpida, também.

domingo, 30 de agosto de 2015

Comprar roupa: eles vs. elas

Quando compra roupa, o homem tenta ser uma espécie de assassino silencioso: o objectivo é cumprir a missão no mínimo tempo possível e sem ninguém notar. No fundo, o homem tenta ser como um daqueles assessores que os ministérios vão buscar às juventudes partidárias: ninguém os viu, mas estiveram lá e gastaram dinheiro.

Caso demore demasiado tempo, o homem pode perder-se para sempre, debaixo das peças de roupa que vão sendo amontoadas. Ou ver a sua masculinidade questionada pelos amigos. “Tanto tempo para comprar duas camisas.”

(A masculinidade pode também ser questionada devido ao estilo de camisas escolhidas e não ao tempo que o homem demorou a escolhê-las.)

Pega numa peça, noutra e noutra. Vai ao vestiário, olha para o espelho e vê como estão os músculos. Ou a barriga. Faz uma ou duas danças parvas e lembra-se que tem roupa para experimentar. Não experimenta todas as peças ao mesmo tempo porque não dá.

“Esta não, fica muito larga. Esta não, fica muito justa. Esta fica altamente, mas é um pouco abichanada. Quer dizer, o Manuel tem uma e fica-lhe bem. Mas toda a roupa dele é abichanada, por isso é que lhe fica bem.”

A maioria dos homens não sabe qual o tamanho que veste. Mentira: sabe que fica, algures, entre o 1 e o 500. Mas, para ser rigoroso, precisa de perguntar à namorada, à mãe ou à irmã.

A mãe vai dizer um tamanho menor, porque acha sempre que o filho está magro.

A tomada de decisão com amigos por perto não é vantajosa. Para decidir em poucos minutos, o homem não precisa de ajuda. Para além disso, o amigo vai gozar com todas as peças que um gajo escolher, e sugerirá mais algumas que fiquem claramente mal, só pela diversão. Isto vai aumentar consideravelmente o tempo das compras. Claro que há um limite: o amigo é um homem, pelo que quererá, também, sair da loja em tempo útil.

Se não houver nada de especial, o homem vai encontrar uma consolação: vai poder andar mais uns tempos com aquela roupa que está velha, mas perfeitamente adaptada ao nosso corpo.

Por vezes, as compras são interrompidas por situações verdadeiramente prioritárias. Um amigo telefona.

– Onde estás?

– Vim comprar roupa.

– Queres vir ver o jogo ao tasco do Toni?

– Sou gajo.

– Despacha-te, só falta meia hora.

Nestas situações, em que algo verdadeiramente prioritário se coloca no caminho de um homem, existe um momento de clarividência.

“Aquelas camisas não estão assim tão velhas. Aquelas calças não estão assim tão gastas. Aguentam bem mais uma semana.”

Esta situação pode obrigar a roupa a aguentar mais uma semana. Ou mais dois meses.

A mulher, quando compra, pensa em várias questões, todas elas realmente importantes para que a roupa lhe confira mais estilo. Gosta da cor. A cor é perfeita, é um daqueles azuis turquesa, ou azul marinho, ou azul bebé, ou azul céu, ou azul guarda-sol (daqueles guarda-sóis azuis), ou azul ameixa (uma ameixa que tenha aprodrecido e acumulado bolor azul), ou azul céu em dia de chuva (é um azul mais acinzentado), ou azul carro da Marta (tens que conhecer o carro), ou azul. Só azul. Tipo, azul simples.

Adiante. Gosta da cor, mas não gosta do formato. “As calças não me assentam bem. Têm um formato estranho, démodé, pareço a tia Fernanda, naquela fotografia tirada em 1972, numas férias no Algarve. É um formato que não destaca as formas. Tem bom recorte, mas não é sensual.”

(Se a mulher for "hipster", parecer a tia Fernanda pode ser uma vantagem.)

Vamos supor que a mulher gosta do formato. Não gosta do tecido. “É um tecido sem brilho, sem vida, sem chama. É um tecido que alguém esqueceu num armazém e que, sem ninguém perceber porquê, acabou numas calças. Não gosto do toque.”

Vamos supor que a mulher gosta do tecido. Não gosta daqueles bolsos. “Parecem feitos à pressa. Parece que eram uma bolsa para telemóvel e, de repente, alguém a coseu numas calças. Os bolsos não são assim.”

Vamos supor que a mulher gosta dos bolsos. Não gosta daquele botão. “Parece uma moeda de dois euros. E as moedas ficam no bolso das moedas, não a segurar as minhas calças”.

Vamos supor que a mulher gosta de tudo: lembra-se que já viu alguém com umas parecidas. “A Isabel tem umas parecidas. A mim ficam-me muito melhor, porque ela está um bocado gorda. Mesmo assim não vou comprar. Vai parecer que eu copiei.”

Vamos supor que a mulher gosta de tudo e não se lembra de alguém que tenha umas parecidas. Mas, pelo caminho, experimentou umas que têm uma cor comum, um formato básico, um tecido igual aos outros, bolsos standard e um botão que parece um botão foleiro, e acaba por escolher essas. A amiga que a acompanhou nas compras não entende a escolha.

– Tanta coisa e vais levar estas?

– Vou. Fazem-me um rabo espectacular.

domingo, 23 de agosto de 2015

Pessoas que levam tudo para a praia

Para muitos portugueses, a ida à praia é como emigrar, tal a quantidade de bagagem que eles transportam. Mas é uma emigração com regresso no mesmo dia. E com nova emigração, no dia seguinte. É tipo aqueles namoros que estão sempre a acabar e a recomeçar. Mas sem o sexo de reconciliação.

O português leva tudo para a praia. Leva o cão, porque o Adamastor também tem direito a passear um bocado. E a urinar em sítios diferentes. Até naquele saco plástico que a senhora do lado deixou, inadvertidamente, fora do lugar. E o Adamastor também tem direito a tentar copular com a cadela que aqueles senhores do guarda-sol amarelo trouxeram à praia. O facto de Adamastor ser um pequeno Bulldog Francês e a cadela ser uma imponente exemplar da raça Labrador poderá dificultar a vida ao macho. Mas nunca é de mais tentar. Como se costuma dizer, “o ‘não’ é garantido”.

O português leva, também, vários guarda-sóis, porque chega à praia às dez da manhã e vai embora às oito da noite, e convém proteger-se nas horas de maior calor. A ele, à esposa, aos filhos, ao Adamastor, à comida e aos outros guarda-sóis. Sim, porque ele leva vários, que se vão revezando, para não aquecerem muito. “O sol até aos guarda-sóis faz mal. Desgasta a cor. Depois, ficam feios, parecem velhos”, diz o português. Esta é a frase mais sábia que este português dirá nos dias de sol. Nos dias de chuva dirá “a chuvinha também faz falta”.

O português leva pára-vento para a praia. Mentira, leva um sistema de pára-ventos, desenhados pelo filho do vizinho, que está a estudar engenharia, sistema esse que optimiza o rendimento e que permite criar uma espécie de castelo junto ao mar. É bom para proteger do vento, mas também de uma potencial invasão de caranguejos que decidam tentar conquistar o planeta. Esse sistema de pára-ventos permite, e isto não é menos importante, que o português coce os testículos à vontade. É verdade: embora muitos, até na mesma praia, não entendam essa estranha necessidade, há quem queira alguma privacidade para coçar a genitália.

Essencial, também, é o jornal desportivo, para ver quem é que o Benfica vai contratar.

Leva tachos com comida, porque “comer sandes é para meninos”. Reclama sempre da comida, mas come dois pratos.

Leva rádio, para adormecer ao fim do almoço, ao som do Julio Iglesias. E para não ouvir o puto da família do lado aos berros com o irmão, enquanto este o tapa com areia e a mãe berra com toda a gente: com os filhos, porque só fazem asneiras, com o pai, porque ainda não fez nada desde que abriu o jornal para saber quem vinha para o Benfica.

Mas o português também tenciona sair do seu castelo de pára-ventos, pelo menos uma vez. Leva raquetes, porque é um desportista. As raquetes nunca vão sair do saco. Mentira, vão dar jeito para coçar as costas.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O melhor bar do Mundo

Abriu, em Lisboa, o “Red Frog”, um bar que, segundo dizem, poderá tornar-se um dos melhores bares do Mundo. Tendo em conta as suas características, este espaço não difere muito de uma tasca que existe em Rebordelos de Fora, a “Barata Vermelha”.

O bar funciona à porta fechada, numa cave
A tasca funciona num anexo, situado no quintal do Venâncio (o proprietário). Entra-se pelas traseiras da casa, passa-se pelo galinheiro e se, no bar, tem que se tocar à campainha, para entrar, na tasca é preciso ser mesmo da casa, caso contrário, o Adamastor, um imponente cão da raça Serra da Estrela, é menino de atacar o cliente.

O bar tem um espaço secreto, a que se acede empurrando uma das paredes do fundo
A tasca não tem parede, na parte de trás, porque dá directamente para a oficina onde o Venâncio faz consertos de electrodomésticos diversos.

O bar vai estar em “soft opening” até Setembro, depois abirá em definitivo
A tasca está em “soft opening” há quinze anos, porque nunca teve licença de funcionamento, embora alguns agentes da autoridade petisquem qualquer coisa por lá. O conceito de “soft opening” também se aplica pelo facto de a “Barata Vermelha” não ter horário de funcionamento. Basta o Benfica não ganhar um jogo que o Venâncio já não abre a porta a ninguém.

O bar terá uma carta com trinta cocktails de autor
A tasca tem uma ementa variável, de acordo com a vontade da esposa do Venâncio. Às vezes, há panados, outras vezes, pataniscas. O vinho varia consoante o que o pai do Venâncio lhe traz de outras aldeias. É tudo de autor: os panados, as pataniscas, os vinhos e as manchas de vinho nas toalhas aos quadrados. A instalação eléctrica também é de autor, já o que Venâncio fez uma “puxada” de um poste de iluminação dali perto.

No bar, a rede de telemóvel é muito limitada
Na tasca, há bastante rede, mas ninguém usa os telemóveis. O Facebook tem poucos utilizadores, em Rebordelos de Fora. O Venâncio tem e-mail há menos de um mês. E criou um para se registar num site de pornografia. Pensou que tinha que se registar, para ver os filmes.

O bar poderá vir a ter “bartenders” nacionais e internacionais como convidados
A tasca teve, uma vez, um convidado, o Manuel dos Presuntos, que foi lá ensinar a cortar presunto. Nesse dia, o Porto ganhou ao Benfica e, como o Manuel é portista, foi corrido à chapada pelo Venâncio.

No bar, os clientes recebem um copo de água aromatizada com gelo, à entrada, para limparem o palato
À entrada da tasca, os clientes são brindados com o cheiro do galinheiro, para que não se importem com o cheiro a fritos.

O bar terá o nome de “Red Frog”, por causa de uma espécie de sapos vermelhos que um dos proprietários conheceu no Panamá
A tasca chama-se “Barata Vermelha” porque, segundo o Venâncio, até as baratas são do Benfica. O “Red Frog” tem sapos vermelhos de louça. A tasca tem baratas. Verdadeiras.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Nunca digas "Sem falta"

Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não te quero pressionar”, ignorando que, ao fazê-lo, já está a pressionar. Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não me quero intrometer”, ignorando que, o que quer que diga a seguir será uma intromissão.

Acontece algo parecido quando alguém promete algo recorrendo à expressão “Sem falta”: está meio caminho andado para que a promessa não se cumpra.

Um dia, um homem foi ao mecânico e este disse-lhe: “Na Sexta-feira, sem falta, o carro está pronto”. Entretanto, o homem envelheceu, aquele modelo de carro desapareceu de circulação, o homem teve filhos e netos, a indústria automóvel sofreu uma revolução e, certo dia, um dos netos foi buscar o antigo carro do avô. Estava pronto e valia uma fortuna, porque se tinha tornado um clássico.

Uma vez, um homem pediu a um pintor para dar um jeito na parede da sala de estar. O pintor disse: “Para a semana, sem falta, passo lá”. Entretanto, o homem mudou de casa, a casa apodreceu, abandonada, e no seu lugar nasceu um prédio. O neto do pintor acabou por lá ir e ficou furioso. “É sempre a mesma coisa, mandam-me pintar uma casa, chego aqui, encontro um prédio. Vou precisar de um camião para trazer os baldes de tinta todos!”

Certo dia, um homem levou o computador a uma loja de informática, para uma reparação. O técnico disse: “Na Quarta-feira, sem falta, a máquina está pronta”. Depois disso, surgiram os computadores portáteis, os smartphones e os tablets. Surgiram ainda novas superfícies tácteis, a holografia e a tecnologia controlada pela mente. Até que o homem voltou à loja de informática e reparou que esta já não existia. No seu lugar, surgira um spa mental: um espaço onde as pessoas relaxavam, através do recurso a uns capacetes que induziam pensamentos agradáveis. Mas, à porta desse spa, estava o antigo computador do homem. Reparado e com um papel colado, onde estava a conta.

Quando fundou a Apple, Steve Jobs convidou um designer para criar uma linha de computadores. O designer respondeu: “Até ao fim desta semana, sem falta, apresento-te alguma coisa”. Entretanto, passaram quase quarenta anos, a Apple tornou-se numa das marcas mais valiosas do Mundo e o designer dirigiu-se às instalações da empresa, para apresentar a sua ideia. “Antes de mostrar o meu projecto, quero deixar bem claro que acho que vocês fizeram tudo mal. Tudo, tudo mal. Os vossos produtos são muito foleiros. Podiam ter esperado notícias minhas. Tiveram pressa, lixaram-se.”

Ao longo dos anos, várias personalidades recorreram à expressão “Sem falta”, com os mesmos resultados.

D. Sebastião: “Vou ali ao norte de África e volto daqui a seis meses, sem falta”.

Fidel Castro: “Vou só implementar o socialismo e, daqui a dez anos, sem falta, abandono o poder”.

Vários os presidentes americanos: “Na próxima década, sem falta, vamos deixar de invadir países por causa do petróleo e dos interesses políticos”.

Vocalista de uma qualquer banda de heavy metal: “Para o ano, sem falta, tomo banho”.

Vários primeiros-ministros portugueses: “Na próxima legislatura, sem falta, atingiremos o caminho do sucesso”.

Armando Rebordeira, Presidente da Junta de Freguesia de Burgeses: “Para o ano, sem falta, deixo de beber álcool. E pavimento as ruas todas”.

Não quero pressionar mas, no próximo parágrafo, sem falta, acabo este texto.

Só mais um.

Outro.

Agora sim.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Pessoas que sabem tudo no trabalho

Todas as empresas têm um funcionário que sabe tudo sobre tudo, sem ninguém saber como. É uma espécie de James Bond, mas sem ser cool. E sem os carros. E os “gadgets”. E as Bond Girls. E isso tudo.

Esse funcionário sabe tudo porque alguém lhe dá a informação e, no fim, lhe diz: “Não contes a ninguém. Para já, ninguém pode saber”. Partilhar uma informação relevante com alguém e pedir segredo tem a mesma eficácia que um alpinista tentar escalar o Everest usando luvas de boxe e patins, com um gorila abraçado a ele. Pronto, sem o gorila, que larga muito pêlo, mas com uma mochila cheia de chumbo, às costas.

OK, deixemos o alpinista em paz: tem a mesma eficácia que pedir ao Jorge Jesus para dizer a primeira estrofe dos Lusíadas sem se enganar.

E assim se espalha um segredo, em qualquer empresa, até que toda a gente o saiba, sem que ninguém fale disso. Surgindo o primeiro comentário, já toda a gente fala abertamente sobre o “segredo”. É como nos casamentos, quando está tudo à espera que alguém pegue no primeiro rissol.

No fim, tenta-se saber quem foi que espalhou o segredo. Assim, de repente, essa empresa torna-se numa comissão parlamentar sobre o BES: “não sei”, “não me lembro”, “nunca falei no assunto”, “ninguém me disse”, “não deveria ter sido dito, ao abrigo do artigo 32 do código das sociedades comerciais”. Se calhar, esta última expressão é mais rara. E eu nem sei qual é o artigo 32 do código das sociedades comerciais.

É impossível surpreender a pessoa que sabe sempre tudo.

- O Armando do armazém vai ser despedido.

- Eu sei.

- A Manuela tá grávida.

- Eu sei.

- O António vai ser promovido.

- Eu sei.

- Um asteróide vai colidir com a Terra. O impacto será em pleno Oceano Pacífico e vai dizimar 89% da vida no planeta.

- Eu sei.

- Vai haver um terramoto, daqui a dez minutos.

- Eu sei.

- O chefe vai reformar-se.

- Eu sei, o Armando do armazém disse-me, quando eu lhe disse que ele ia ser despedido.

- Disseste ao Armando do armazém que ele ia ser despedido???

- Ei, merda!

As pessoas que sabem sempre tudo podiam ter tido um papel importante na História. Segunda Guerra Mundial: “Já sabes o que a Alemanha vai fazer? Vai invadir a Polónia. Isto vai acabar mal”. Queda do Muro de Berlim: “Acho que vão deitar o muro abaixo. O Sr. Ulrich diz que o muro atravessa a propriedade dele e que acabou a brincadeira. É por isso ou por coisas lá da política”. Descoberta de vida inteligente extra-terrestre: “Eu já sabia. O Armando do armazém é extra-terrestre”.

domingo, 19 de abril de 2015

Ao Domingo, desliga a televisão

O melhor tema para um texto a publicar numa noite de Domingo é a televisão ao Domingo à noite. É como no Natal dar o “Sozinho em Casa”. Mas o “Sozinho em Casa” tem larga vantagem, porque não tem pessoas que cantam mal, nem a Cristina Ferreira aos berros.

A Cristina Ferreira é atraente, mas como adora falar aos berros, pode tornar-se repelente. Imaginem que querem ler um livro e têm duas hipóteses: uma rua onde está um gajo a furar o chão com um martelo pneumático ou uma sala com uma televisão onde está a Cristina Ferreira aos berros.

O martelo pneumático nem é assim tão mau.

A televisão ao Domingo à noite é dedicada aos talentos. As pessoas vão a concursos mostrar que sabem cantar, dançar, fazer o pino, fazer truques de ilusionismo, cozinhar ou ter uma opinião fundamentada sobre tudo.

Esperem, este último é o Marcelo Rebelo de Sousa.

Existem, paralelamente, os programas sobre a jornada de futebol do fim-de-semana. Eu só equacionaria ver televisão ao Domingo à noite se os protagonistas trocassem de lugar. Vou dar alguns exemplos.

A meio de um programa de futebol, um dos comentadores tinha que comentar um fora-de-jogo a cantar diante de um júri.

Durante um concurso de culinária, um chef tinha que confeccionar um bolo com a forma da Torre Eiffel, enquanto dançava kizomba com a Rita Pereira.

Num concurso para cantores, um ilusionista fazia desaparecer o Fernando Mendes, dentro de uma caixa, enquanto cantava o tema “Goodbye, My Love, Goodbye”, de Demis Roussos.

Um cantor tentava fazer um número de contorcionismo que consistia em entrar na caixa onde estava escondido o Fernando Mendes, mas sem tirar o Fernando Mendes lá de dentro. (Podia tentar levar o bolo em forma de Torre Eiffel, para o caso de o Fernando Mendes estar com um “ratinho”.)

Isto sim, seria televisão de qualidade, ao Domingo à noite. Todos os programas seriam apresentados por um androide em forma de Cristina Ferreira. Perguntam vocês: mas os androides seriam todos a Cristina Ferreira por ela ser gira?

Não, sê-lo-iam porque os androides permitem regular o volume de som.