Há namoros intensos e namoros aborrecidos. Há namoros
sentidos e namoros ocasionais. Enquanto houver seres humanos, haverá novos
tipos de namoros, uns mais comuns, outros mais originais. Seria impossível
elencar todos os tipos de relações amorosas, mas vou deixar aqui alguns dos mais
comuns.
Partilham tudo, menos a escova de dentes. OK, subamos a
parada: partilham a escova de dentes. E as gengivites. Partilham todas as
viagens, todos os passeios, todos os pores-do-sol, todas as diarreias. Quando
um fica doente, o outro toma a medicação. Não resulta e acaba por ter que
ser o que está doente a tomá-la. Mas é romântico. São o complemento perfeito,
um para o outro. Ao fim de algum tempo, um inspira e o outro expira. Respiram a
meias, no fundo. O que é bom, porque se poupa no oxigénio. No médio/longo prazo,
deixam de existir para outros seres humanos. São o monstro de Loch Ness dos
namoros: volta e meia, aparecem, mas estão quase sempre “debaixo de água”. Uns
dizem que eles existem, outros não acreditam.
Faixa de Gaza
Discutem por causa dos ciúmes. Discutem por causa do tampo
da sanita. Discutem por causa dos cortinados. Discutem por causa da Coreia do
Norte e da Coreia do Sul. Discutem por causa do sentido da vida. Discutem por
causa da toalha molhada em cima da cama. Discutem por causa do calçado
desarrumado. Por causa da comida. Por causa do restaurante. Do filme que vão
ver. Do filme que viram. Discutem por não se lembrarem de nenhum motivo para
discutir. “Nunca te lembras de um motivo!”, “Ainda ontem fui eu que comecei a
discutir”, “É isso, atira coisas à cara, adoro quando fazes isso…”. Discutem
sobre tudo e sobre nada, mas estão destinados a viver um com o outro.
Ioió
Namoram com toda a intensidade. Chateiam-se e desejam a
morte um do outro. Reencontram-se e recomeçam a namorar. Não vivem um sem o
outro. Chateiam-se e dizem “Nunca mais”. Reencontram-se e começam “uma cena sem
compromisso” (no fundo, namoram, mas como da outra vez não resultou, resolvem
dar-lhe um nome diferente). Chateiam-se e prometem que vão casar com a primeira
pessoa que aparecer na rua. A primeira pessoa não corresponde, a segunda também
não. Recomeçam a namorar, até se chatearem de novo. No fundo, eles só gostam do
sexo de reconciliação, mas ainda não se aperceberam.
Salto em Altura
Estes namoros são uma competição, para ver quem é mais
lamechas. Um oferece flores. O outro planta um jardim. Um cria uma escultura.
O outro faz um museu com tudo o que eles partilharam. Um escreve um poema. O
outro escreve, também, e divulga-o em papéis, atirados por um avião. Um corta
um braço, por amor. O outro pega nesse braço e coça as costas do primeiro.
Basicamente, eles estão juntos pela competição. O amor é secundário.
As palavras que nunca te direi
Não há demonstrações de carinho, em público. Nem em lado
nenhum. Estão juntos por falta de opções. Espera: mas são namorados? Esperemos
que eles se pronunciem sobre o tema. São como pessoas presas num elevador: não
sabem por que motivo o elevador parou, não queriam que ele tivesse parado, mas
acabam por conviver.
Eclipse
Um deles é alegre, divertido/a, extrovertido/a. Tem sempre
uma piada, faz sempre qualquer coisa parva. Excepto na presença da namorada/o.
Nessa situação, transforma-se numa estátua, tão desinteressante que nem as
pombas a procuram. Se conheces alguém assim, despede-te: essa pessoa só voltará a existir se a relação acabar.
24 Hour Party People A
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos
jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Nos cinco dias que sobram, por
mês, para a namorada/o, também vale tudo.
24 Hour Party People B
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos
jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Só não vale com a namorada/o.
Agentes Secretos
Namoram sem ninguém saber. Em alguns casos, sem os próprios
saberem.