Todos nós já recorremos a desculpas para acabar uma relação.
E esse hábito é tão comum que acabamos por recorrer àquelas que toda a gente usa.
Clássicos como “O problema não és tu, sou eu”, “Preciso de tempo”, “Preciso de
espaço”, “Preciso de me encontrar”, “És a pessoa certa na altura errada” ou
“Não estou pronto/a para assumir um compromisso” são muito úteis, quando
queremos comunicar uma decisão drástica, minimizando os estragos.
Acho que isto é pouco original. Se é para ficarmos na
memória de alguém, que seja por sermos disruptivos na hora de nos justificarmos.
Em mais um momento de verdadeiro serviço público, proporcionado por este blogue
(ou, apenas, através de mais uma parvoíce que decidi partilhar), deixo algumas
sugestões de desculpas para terminar relações.
“Este ano, Júpiter vai alinhar com Saturno, o que afecta a
minha energia. Vou ficar insuportável. Gosto tanto de ti que tenho que te
proteger deste problema.”
Óptimo para usar com pessoas que se informam pouco acerca do
movimento dos planetas mas que, ao mesmo tempo, acreditam na Astrologia.
“És a minha terceira relação desde que houve um acidente na
central nuclear de Fukushima [podem escolher outro desastre qualquer]. Sou
obsessivo-compulsivo e gosto de números pares. O 3 é impar. Temos de terminar
já, sob o risco de causarmos um desastre nuclear global.”
Recomendado para usar com pessoas obsessivo-compulsivas,
porque vão entender-te na perfeição: elas sabem como o Universo depende do que
nós fazemos.
“Não estás verdadeiramente comprometida com a defesa do
lince ibérico.”
Resulta na perfeição com pessoas que não gostam muito de
animais.
“Não tens opinião formada acerca dos mercados de dívida
pública.”
Ideal para usar com qualquer pessoa, porque ninguém tem
opinião sobre este assunto, nem mesmo as pessoas que trabalham nestes mercados.
“Nunca quiseste saber onde fica a Macedónia, o que é uma
falta de respeito para com as minhas origens, porque um bisavô meu esteve lá.”
Parecida com a anterior: dá para usar com toda a gente,
porque ninguém sabe onde fica a Macedónia.
“Vou alistar-me no exército. Quero dedicar-me só ao meu
país.”
Esta mentira durará pouco tempo, porque poderás ser
encontrado regularmente nos mesmos locais que frequentavas. Nesse caso, tens
que dar a entender que estás numa missão ultra-secreta. Mas sem o dizeres
directamente. Senão, a missão torna-se menos secreta e a tua desculpa menos
credível.
“Tenho material radioactivo no braço, em resultado de uma
cirurgia mal feita. Ao fim de alguns meses em contacto comigo, podes ter
problemas.”
Convém usar com uma pessoa não perceba nada de
radioactividade, mas que seja capaz de intuir que é uma coisa perigosa.
“Falo a dormir. Falo muito. Digo ‘Os Lusíadas’ de uma ponta
a outra.”
Esta desculpa tem uma grande desvantagem: só pode ser usada
com alguém com quem ainda não tenhas dormido. Mas nem tudo é mau: vais parecer muito
culto/a.
“Nasceste em Fevereiro. Não posso confiar em alguém que
nasceu num mês que nem trinta dias tem”.
Não sei se resulta, mas dá para quando estiveres sem ideias.
Se tiveres alguma intenção, ainda que reduzida, de não excluir
um futuro envolvimento com a pessoa com quem vais acabar a relação, não uses
nenhuma desculpa deste género: poderá afectar a tua credibilidade.
Agora vou terminar o texto. O problema não é o leitor, sou
eu. Preciso do meu espaço.