O multibanco fez trinta anos, esta semana, e as televisões
deram grande destaque. Eu faço trinta e um, brevemente. Quero ver se as
televisões se vão lembrar. Tudo bem, eu não permito levantar dinheiro em
qualquer lugar. Mas se um amigo me pedir vinte euros emprestados, nem é preciso
código. E sou bom rapaz, o que já deveria ser digno de nota.
Talvez seja altura de repensarmos o multibanco. O boneco não deve ser mudado, em circunstância alguma:
a máquina sem aquele boneco não será a mesma coisa. Será como a “Prova Oral”
sem o Fernando Alvim, o “Preço Certo” sem o Fernando Mendes, ou a TVI sem os casacos
do Goucha e os berros da Cristina Ferreira.
Bom, fiquemos apenas pelos exemplos da “Prova Oral” e do
“Preço Certo”.
Uma das grandes inovações que poderiam (e deveriam) ser
implementadas seria a capacidade da máquina nos tentar demover de levantarmos
dinheiro quando tivéssemos pouco. Assim que tentássemos realizar a operação,
ela perguntaria “Tem a certeza?”. Caso respondêssemos afirmativamente, a
máquina continuaria a fazer perguntas e só quando respondêssemos a todas é que
poderíamos levantar dinheiro. “Tem mesmo a certeza?”, “Quem foi o inventor do
multibanco?”, “Em que ano foi inventada a lâmpada?”, “Quem foi o primeiro
Presidente da República da Estónia?”, “Qual é a capital da Macedónia?”, “89+53=?”,
“Qual a raiz quadrada de 289?”.
Para além desta capacidade, a máquina poderia ter uma outra,
exclusiva do fim-de-semana: se uma pessoa levantasse dinheiro, a máquina diria,
no fim: “Agora gasta-o mal gasto…”. Se voltássemos àquela máquina, no mesmo
fim-de-semana, a máquina diria: “Andas numa rica vida, andas…”.
Outra grande alteração estaria relacionada com as filas.
Quando estivesse muita gente, a máquina contaria anedotas, serviria amendoins e
cerveja, de forma a tornar a espera mais agradável. Claro que estes factores
iriam distrair a pessoa que estivesse a usar a máquina, tornando a utilização
mais demorada, mas ninguém se importaria com isso, uma vez que o importante
seria o convívio. O povo já iria ao multibanco só para beber um fino e ouvir
duas anedotas. Ao fim de vários finos, as anedotas teriam muito mais piada e o
pessoal já levantaria dinheiro para as outras pessoas. Como dizem os bêbados:
“Somos amigos ou não somos?”. A economia girava.
Quando alguém estivesse mais do que cinco minutos na máquina,
seria activada uma bazuca de notas, que as dispararia como se fossem confetes.
Importante: o dinheiro disparado seria, obviamente, da pessoa que estivesse a
monopolizar a máquina.
Para as pessoas que até são rápidas na máquina, mas depois
ficam a conferir o talão durante vários minutos, impedindo que outra pessoa
utilize a máquina, existiria um chuveiro. Com água fria. Esta funcionalidade
iria fazer com que, no Verão, os homens recomendassem às miúdas giras que
conferissem detalhadamente o talão, várias vezes, antes de abandonarem a máquina.
“Nunca se sabe se houve um erro informático, menina. Convém conferir bem. Já
agora, pode conferir virada para aquele lado?” Tudo isto em nome do civismo,
como é óbvio. Nós não somos esses ordinários que vocês pensam, meninas. Claro que somos.
Nos pagamentos ao Estado, teríamos oportunidade de jogar, na
própria máquina, um jogo de boxe, no qual enfrentaríamos o actual ou anteriores
primeiros-ministros. O jogo teria uma particularidade: o nosso adversário teria
as mãos atadas. Pelo menos, ali, poderíamos derrotar o Estado.
Quando a máquina comesse o cartão, arrotaria. Esta função
não teria utilidade nenhuma. Só piada.
Quando alguém tentasse levantar dinheiro sem o ter, ocorreria
o seguinte diálogo: “Deves pensar que eu ando a dormir. Vamos fazer um jogo. Eu
dou-te o dinheiro, mesmo sem teres saldo, mas tens que adivinhar em que número
estou a pensar”.
Quando alguém se esquecesse de retirar o cartão, o dinheiro
ou o talão, em vez dos avisos enfadonhos do costume, teríamos avisos como:
“Deixa ficar isto aqui, deixa, que o próximo utilizador vai mesmo avisar que te
esqueceste”. Quando a máquina estivesse mal disposta, acrescentaria, no
fim do aviso: “Estúpido/a!”.
Todas estas funções tornariam mais eficiente e agradável a
utilização das máquinas multibanco. Mais estúpida, também.