domingo, 30 de agosto de 2015

Comprar roupa: eles vs. elas

Quando compra roupa, o homem tenta ser uma espécie de assassino silencioso: o objectivo é cumprir a missão no mínimo tempo possível e sem ninguém notar. No fundo, o homem tenta ser como um daqueles assessores que os ministérios vão buscar às juventudes partidárias: ninguém os viu, mas estiveram lá e gastaram dinheiro.

Caso demore demasiado tempo, o homem pode perder-se para sempre, debaixo das peças de roupa que vão sendo amontoadas. Ou ver a sua masculinidade questionada pelos amigos. “Tanto tempo para comprar duas camisas.”

(A masculinidade pode também ser questionada devido ao estilo de camisas escolhidas e não ao tempo que o homem demorou a escolhê-las.)

Pega numa peça, noutra e noutra. Vai ao vestiário, olha para o espelho e vê como estão os músculos. Ou a barriga. Faz uma ou duas danças parvas e lembra-se que tem roupa para experimentar. Não experimenta todas as peças ao mesmo tempo porque não dá.

“Esta não, fica muito larga. Esta não, fica muito justa. Esta fica altamente, mas é um pouco abichanada. Quer dizer, o Manuel tem uma e fica-lhe bem. Mas toda a roupa dele é abichanada, por isso é que lhe fica bem.”

A maioria dos homens não sabe qual o tamanho que veste. Mentira: sabe que fica, algures, entre o 1 e o 500. Mas, para ser rigoroso, precisa de perguntar à namorada, à mãe ou à irmã.

A mãe vai dizer um tamanho menor, porque acha sempre que o filho está magro.

A tomada de decisão com amigos por perto não é vantajosa. Para decidir em poucos minutos, o homem não precisa de ajuda. Para além disso, o amigo vai gozar com todas as peças que um gajo escolher, e sugerirá mais algumas que fiquem claramente mal, só pela diversão. Isto vai aumentar consideravelmente o tempo das compras. Claro que há um limite: o amigo é um homem, pelo que quererá, também, sair da loja em tempo útil.

Se não houver nada de especial, o homem vai encontrar uma consolação: vai poder andar mais uns tempos com aquela roupa que está velha, mas perfeitamente adaptada ao nosso corpo.

Por vezes, as compras são interrompidas por situações verdadeiramente prioritárias. Um amigo telefona.

– Onde estás?

– Vim comprar roupa.

– Queres vir ver o jogo ao tasco do Toni?

– Sou gajo.

– Despacha-te, só falta meia hora.

Nestas situações, em que algo verdadeiramente prioritário se coloca no caminho de um homem, existe um momento de clarividência.

“Aquelas camisas não estão assim tão velhas. Aquelas calças não estão assim tão gastas. Aguentam bem mais uma semana.”

Esta situação pode obrigar a roupa a aguentar mais uma semana. Ou mais dois meses.

A mulher, quando compra, pensa em várias questões, todas elas realmente importantes para que a roupa lhe confira mais estilo. Gosta da cor. A cor é perfeita, é um daqueles azuis turquesa, ou azul marinho, ou azul bebé, ou azul céu, ou azul guarda-sol (daqueles guarda-sóis azuis), ou azul ameixa (uma ameixa que tenha aprodrecido e acumulado bolor azul), ou azul céu em dia de chuva (é um azul mais acinzentado), ou azul carro da Marta (tens que conhecer o carro), ou azul. Só azul. Tipo, azul simples.

Adiante. Gosta da cor, mas não gosta do formato. “As calças não me assentam bem. Têm um formato estranho, démodé, pareço a tia Fernanda, naquela fotografia tirada em 1972, numas férias no Algarve. É um formato que não destaca as formas. Tem bom recorte, mas não é sensual.”

(Se a mulher for "hipster", parecer a tia Fernanda pode ser uma vantagem.)

Vamos supor que a mulher gosta do formato. Não gosta do tecido. “É um tecido sem brilho, sem vida, sem chama. É um tecido que alguém esqueceu num armazém e que, sem ninguém perceber porquê, acabou numas calças. Não gosto do toque.”

Vamos supor que a mulher gosta do tecido. Não gosta daqueles bolsos. “Parecem feitos à pressa. Parece que eram uma bolsa para telemóvel e, de repente, alguém a coseu numas calças. Os bolsos não são assim.”

Vamos supor que a mulher gosta dos bolsos. Não gosta daquele botão. “Parece uma moeda de dois euros. E as moedas ficam no bolso das moedas, não a segurar as minhas calças”.

Vamos supor que a mulher gosta de tudo: lembra-se que já viu alguém com umas parecidas. “A Isabel tem umas parecidas. A mim ficam-me muito melhor, porque ela está um bocado gorda. Mesmo assim não vou comprar. Vai parecer que eu copiei.”

Vamos supor que a mulher gosta de tudo e não se lembra de alguém que tenha umas parecidas. Mas, pelo caminho, experimentou umas que têm uma cor comum, um formato básico, um tecido igual aos outros, bolsos standard e um botão que parece um botão foleiro, e acaba por escolher essas. A amiga que a acompanhou nas compras não entende a escolha.

– Tanta coisa e vais levar estas?

– Vou. Fazem-me um rabo espectacular.

domingo, 23 de agosto de 2015

Pessoas que levam tudo para a praia

Para muitos portugueses, a ida à praia é como emigrar, tal a quantidade de bagagem que eles transportam. Mas é uma emigração com regresso no mesmo dia. E com nova emigração, no dia seguinte. É tipo aqueles namoros que estão sempre a acabar e a recomeçar. Mas sem o sexo de reconciliação.

O português leva tudo para a praia. Leva o cão, porque o Adamastor também tem direito a passear um bocado. E a urinar em sítios diferentes. Até naquele saco plástico que a senhora do lado deixou, inadvertidamente, fora do lugar. E o Adamastor também tem direito a tentar copular com a cadela que aqueles senhores do guarda-sol amarelo trouxeram à praia. O facto de Adamastor ser um pequeno Bulldog Francês e a cadela ser uma imponente exemplar da raça Labrador poderá dificultar a vida ao macho. Mas nunca é de mais tentar. Como se costuma dizer, “o ‘não’ é garantido”.

O português leva, também, vários guarda-sóis, porque chega à praia às dez da manhã e vai embora às oito da noite, e convém proteger-se nas horas de maior calor. A ele, à esposa, aos filhos, ao Adamastor, à comida e aos outros guarda-sóis. Sim, porque ele leva vários, que se vão revezando, para não aquecerem muito. “O sol até aos guarda-sóis faz mal. Desgasta a cor. Depois, ficam feios, parecem velhos”, diz o português. Esta é a frase mais sábia que este português dirá nos dias de sol. Nos dias de chuva dirá “a chuvinha também faz falta”.

O português leva pára-vento para a praia. Mentira, leva um sistema de pára-ventos, desenhados pelo filho do vizinho, que está a estudar engenharia, sistema esse que optimiza o rendimento e que permite criar uma espécie de castelo junto ao mar. É bom para proteger do vento, mas também de uma potencial invasão de caranguejos que decidam tentar conquistar o planeta. Esse sistema de pára-ventos permite, e isto não é menos importante, que o português coce os testículos à vontade. É verdade: embora muitos, até na mesma praia, não entendam essa estranha necessidade, há quem queira alguma privacidade para coçar a genitália.

Essencial, também, é o jornal desportivo, para ver quem é que o Benfica vai contratar.

Leva tachos com comida, porque “comer sandes é para meninos”. Reclama sempre da comida, mas come dois pratos.

Leva rádio, para adormecer ao fim do almoço, ao som do Julio Iglesias. E para não ouvir o puto da família do lado aos berros com o irmão, enquanto este o tapa com areia e a mãe berra com toda a gente: com os filhos, porque só fazem asneiras, com o pai, porque ainda não fez nada desde que abriu o jornal para saber quem vinha para o Benfica.

Mas o português também tenciona sair do seu castelo de pára-ventos, pelo menos uma vez. Leva raquetes, porque é um desportista. As raquetes nunca vão sair do saco. Mentira, vão dar jeito para coçar as costas.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O melhor bar do Mundo

Abriu, em Lisboa, o “Red Frog”, um bar que, segundo dizem, poderá tornar-se um dos melhores bares do Mundo. Tendo em conta as suas características, este espaço não difere muito de uma tasca que existe em Rebordelos de Fora, a “Barata Vermelha”.

O bar funciona à porta fechada, numa cave
A tasca funciona num anexo, situado no quintal do Venâncio (o proprietário). Entra-se pelas traseiras da casa, passa-se pelo galinheiro e se, no bar, tem que se tocar à campainha, para entrar, na tasca é preciso ser mesmo da casa, caso contrário, o Adamastor, um imponente cão da raça Serra da Estrela, é menino de atacar o cliente.

O bar tem um espaço secreto, a que se acede empurrando uma das paredes do fundo
A tasca não tem parede, na parte de trás, porque dá directamente para a oficina onde o Venâncio faz consertos de electrodomésticos diversos.

O bar vai estar em “soft opening” até Setembro, depois abirá em definitivo
A tasca está em “soft opening” há quinze anos, porque nunca teve licença de funcionamento, embora alguns agentes da autoridade petisquem qualquer coisa por lá. O conceito de “soft opening” também se aplica pelo facto de a “Barata Vermelha” não ter horário de funcionamento. Basta o Benfica não ganhar um jogo que o Venâncio já não abre a porta a ninguém.

O bar terá uma carta com trinta cocktails de autor
A tasca tem uma ementa variável, de acordo com a vontade da esposa do Venâncio. Às vezes, há panados, outras vezes, pataniscas. O vinho varia consoante o que o pai do Venâncio lhe traz de outras aldeias. É tudo de autor: os panados, as pataniscas, os vinhos e as manchas de vinho nas toalhas aos quadrados. A instalação eléctrica também é de autor, já o que Venâncio fez uma “puxada” de um poste de iluminação dali perto.

No bar, a rede de telemóvel é muito limitada
Na tasca, há bastante rede, mas ninguém usa os telemóveis. O Facebook tem poucos utilizadores, em Rebordelos de Fora. O Venâncio tem e-mail há menos de um mês. E criou um para se registar num site de pornografia. Pensou que tinha que se registar, para ver os filmes.

O bar poderá vir a ter “bartenders” nacionais e internacionais como convidados
A tasca teve, uma vez, um convidado, o Manuel dos Presuntos, que foi lá ensinar a cortar presunto. Nesse dia, o Porto ganhou ao Benfica e, como o Manuel é portista, foi corrido à chapada pelo Venâncio.

No bar, os clientes recebem um copo de água aromatizada com gelo, à entrada, para limparem o palato
À entrada da tasca, os clientes são brindados com o cheiro do galinheiro, para que não se importem com o cheiro a fritos.

O bar terá o nome de “Red Frog”, por causa de uma espécie de sapos vermelhos que um dos proprietários conheceu no Panamá
A tasca chama-se “Barata Vermelha” porque, segundo o Venâncio, até as baratas são do Benfica. O “Red Frog” tem sapos vermelhos de louça. A tasca tem baratas. Verdadeiras.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Nunca digas "Sem falta"

Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não te quero pressionar”, ignorando que, ao fazê-lo, já está a pressionar. Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não me quero intrometer”, ignorando que, o que quer que diga a seguir será uma intromissão.

Acontece algo parecido quando alguém promete algo recorrendo à expressão “Sem falta”: está meio caminho andado para que a promessa não se cumpra.

Um dia, um homem foi ao mecânico e este disse-lhe: “Na Sexta-feira, sem falta, o carro está pronto”. Entretanto, o homem envelheceu, aquele modelo de carro desapareceu de circulação, o homem teve filhos e netos, a indústria automóvel sofreu uma revolução e, certo dia, um dos netos foi buscar o antigo carro do avô. Estava pronto e valia uma fortuna, porque se tinha tornado um clássico.

Uma vez, um homem pediu a um pintor para dar um jeito na parede da sala de estar. O pintor disse: “Para a semana, sem falta, passo lá”. Entretanto, o homem mudou de casa, a casa apodreceu, abandonada, e no seu lugar nasceu um prédio. O neto do pintor acabou por lá ir e ficou furioso. “É sempre a mesma coisa, mandam-me pintar uma casa, chego aqui, encontro um prédio. Vou precisar de um camião para trazer os baldes de tinta todos!”

Certo dia, um homem levou o computador a uma loja de informática, para uma reparação. O técnico disse: “Na Quarta-feira, sem falta, a máquina está pronta”. Depois disso, surgiram os computadores portáteis, os smartphones e os tablets. Surgiram ainda novas superfícies tácteis, a holografia e a tecnologia controlada pela mente. Até que o homem voltou à loja de informática e reparou que esta já não existia. No seu lugar, surgira um spa mental: um espaço onde as pessoas relaxavam, através do recurso a uns capacetes que induziam pensamentos agradáveis. Mas, à porta desse spa, estava o antigo computador do homem. Reparado e com um papel colado, onde estava a conta.

Quando fundou a Apple, Steve Jobs convidou um designer para criar uma linha de computadores. O designer respondeu: “Até ao fim desta semana, sem falta, apresento-te alguma coisa”. Entretanto, passaram quase quarenta anos, a Apple tornou-se numa das marcas mais valiosas do Mundo e o designer dirigiu-se às instalações da empresa, para apresentar a sua ideia. “Antes de mostrar o meu projecto, quero deixar bem claro que acho que vocês fizeram tudo mal. Tudo, tudo mal. Os vossos produtos são muito foleiros. Podiam ter esperado notícias minhas. Tiveram pressa, lixaram-se.”

Ao longo dos anos, várias personalidades recorreram à expressão “Sem falta”, com os mesmos resultados.

D. Sebastião: “Vou ali ao norte de África e volto daqui a seis meses, sem falta”.

Fidel Castro: “Vou só implementar o socialismo e, daqui a dez anos, sem falta, abandono o poder”.

Vários os presidentes americanos: “Na próxima década, sem falta, vamos deixar de invadir países por causa do petróleo e dos interesses políticos”.

Vocalista de uma qualquer banda de heavy metal: “Para o ano, sem falta, tomo banho”.

Vários primeiros-ministros portugueses: “Na próxima legislatura, sem falta, atingiremos o caminho do sucesso”.

Armando Rebordeira, Presidente da Junta de Freguesia de Burgeses: “Para o ano, sem falta, deixo de beber álcool. E pavimento as ruas todas”.

Não quero pressionar mas, no próximo parágrafo, sem falta, acabo este texto.

Só mais um.

Outro.

Agora sim.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Pessoas que sabem tudo no trabalho

Todas as empresas têm um funcionário que sabe tudo sobre tudo, sem ninguém saber como. É uma espécie de James Bond, mas sem ser cool. E sem os carros. E os “gadgets”. E as Bond Girls. E isso tudo.

Esse funcionário sabe tudo porque alguém lhe dá a informação e, no fim, lhe diz: “Não contes a ninguém. Para já, ninguém pode saber”. Partilhar uma informação relevante com alguém e pedir segredo tem a mesma eficácia que um alpinista tentar escalar o Everest usando luvas de boxe e patins, com um gorila abraçado a ele. Pronto, sem o gorila, que larga muito pêlo, mas com uma mochila cheia de chumbo, às costas.

OK, deixemos o alpinista em paz: tem a mesma eficácia que pedir ao Jorge Jesus para dizer a primeira estrofe dos Lusíadas sem se enganar.

E assim se espalha um segredo, em qualquer empresa, até que toda a gente o saiba, sem que ninguém fale disso. Surgindo o primeiro comentário, já toda a gente fala abertamente sobre o “segredo”. É como nos casamentos, quando está tudo à espera que alguém pegue no primeiro rissol.

No fim, tenta-se saber quem foi que espalhou o segredo. Assim, de repente, essa empresa torna-se numa comissão parlamentar sobre o BES: “não sei”, “não me lembro”, “nunca falei no assunto”, “ninguém me disse”, “não deveria ter sido dito, ao abrigo do artigo 32 do código das sociedades comerciais”. Se calhar, esta última expressão é mais rara. E eu nem sei qual é o artigo 32 do código das sociedades comerciais.

É impossível surpreender a pessoa que sabe sempre tudo.

- O Armando do armazém vai ser despedido.

- Eu sei.

- A Manuela tá grávida.

- Eu sei.

- O António vai ser promovido.

- Eu sei.

- Um asteróide vai colidir com a Terra. O impacto será em pleno Oceano Pacífico e vai dizimar 89% da vida no planeta.

- Eu sei.

- Vai haver um terramoto, daqui a dez minutos.

- Eu sei.

- O chefe vai reformar-se.

- Eu sei, o Armando do armazém disse-me, quando eu lhe disse que ele ia ser despedido.

- Disseste ao Armando do armazém que ele ia ser despedido???

- Ei, merda!

As pessoas que sabem sempre tudo podiam ter tido um papel importante na História. Segunda Guerra Mundial: “Já sabes o que a Alemanha vai fazer? Vai invadir a Polónia. Isto vai acabar mal”. Queda do Muro de Berlim: “Acho que vão deitar o muro abaixo. O Sr. Ulrich diz que o muro atravessa a propriedade dele e que acabou a brincadeira. É por isso ou por coisas lá da política”. Descoberta de vida inteligente extra-terrestre: “Eu já sabia. O Armando do armazém é extra-terrestre”.

domingo, 19 de abril de 2015

Ao Domingo, desliga a televisão

O melhor tema para um texto a publicar numa noite de Domingo é a televisão ao Domingo à noite. É como no Natal dar o “Sozinho em Casa”. Mas o “Sozinho em Casa” tem larga vantagem, porque não tem pessoas que cantam mal, nem a Cristina Ferreira aos berros.

A Cristina Ferreira é atraente, mas como adora falar aos berros, pode tornar-se repelente. Imaginem que querem ler um livro e têm duas hipóteses: uma rua onde está um gajo a furar o chão com um martelo pneumático ou uma sala com uma televisão onde está a Cristina Ferreira aos berros.

O martelo pneumático nem é assim tão mau.

A televisão ao Domingo à noite é dedicada aos talentos. As pessoas vão a concursos mostrar que sabem cantar, dançar, fazer o pino, fazer truques de ilusionismo, cozinhar ou ter uma opinião fundamentada sobre tudo.

Esperem, este último é o Marcelo Rebelo de Sousa.

Existem, paralelamente, os programas sobre a jornada de futebol do fim-de-semana. Eu só equacionaria ver televisão ao Domingo à noite se os protagonistas trocassem de lugar. Vou dar alguns exemplos.

A meio de um programa de futebol, um dos comentadores tinha que comentar um fora-de-jogo a cantar diante de um júri.

Durante um concurso de culinária, um chef tinha que confeccionar um bolo com a forma da Torre Eiffel, enquanto dançava kizomba com a Rita Pereira.

Num concurso para cantores, um ilusionista fazia desaparecer o Fernando Mendes, dentro de uma caixa, enquanto cantava o tema “Goodbye, My Love, Goodbye”, de Demis Roussos.

Um cantor tentava fazer um número de contorcionismo que consistia em entrar na caixa onde estava escondido o Fernando Mendes, mas sem tirar o Fernando Mendes lá de dentro. (Podia tentar levar o bolo em forma de Torre Eiffel, para o caso de o Fernando Mendes estar com um “ratinho”.)

Isto sim, seria televisão de qualidade, ao Domingo à noite. Todos os programas seriam apresentados por um androide em forma de Cristina Ferreira. Perguntam vocês: mas os androides seriam todos a Cristina Ferreira por ela ser gira?

Não, sê-lo-iam porque os androides permitem regular o volume de som.

quarta-feira, 25 de março de 2015

E se a vida fosse por pontos?

Foi lançado, recentemente, um videojogo de tiros. OK, estou a ser um estúpido: deve dizer-se “First Person Shooter”.

Um jogo de tiros, portanto.

Nesse jogo, um dos rankings mais importantes é o de “skill”: acções bem sucedidas dão-nos skill, acções mal sucedidas fazem-nos perder skill.

Se Chuck Norris jogasse este jogo, atingiria skill infinita dez minutos depois de colocar o DVD na consola (isto porque cinco minutos são sempre necessários para a instalação do jogo).

Em conversa com dois aficionados deste título (digo “título” para não repetir “jogo”, que termina o parágrafo anterior, mas também para mostrar aos “gamers” que eu não sou um “rookie”), ocorreu-me esta ideia: e se a vida também consistisse em ganhar e perder skill?

Acordas cedo, depois de te teres deitado tarde – Perdes skill.
Tens uma mensagem daquela miúda gira que conheceste anteontem – Ganhas skill.
Tens um furo a caminho do trabalho – Perdes skill.
Resolves o problema em menos de dez minutos – Não ganhas skill, mas ligam-te da equipa de Fórmula 1 da Ferrari.
Chegas atrasado ao trabalho – Perdes skill.
Está toda a gente à espera que chegues para resolver um problema e tu resolves – Ganhas skill, ligas para a Ferrari e dizes que vais para a Apple.
Tens um Samsung – Perdes skill e o contrato com a Apple.
Ligam-te do banco: compraste papel comercial do BES e estás falido. – Perdes skill.

- Mas que merda é essa do papel comercial? – Perguntas.

- Pedimos desculpa, foi engano. – Respondem-te.

Recuperas a skill.

Chegas ao trabalho depois do almoço. O sono corrói-te o cérebro. – Perdes skill e também perdeste a chave do carro, mas só vais reparar ao fim da tarde.
Cometes uma série de erros, nas tuas tarefas, mas ninguém nota. – A skill mantém-se.
Ao fim da tarde, não sabes da chave do carro. – Perdes skill.
Vais a pé para casa. – Ganhas resistência. Skill, nem por isso, porque a tua obrigação é fazer algum exercício, seu preguiçoso.
Encontras a miúda que te mandou a mensagem, de manhã. Ela fica radiante. Tu não a reconheces. – Perdes skill.
Inventas uma desculpa, algo como “Estava a brincar contigo”. Ela acredita. – Recuperas a skill. Ela perde a skill toda que tinha.
Convida-la para jantar. Ela aceita. – Ganhas skill.

Revoltas-te com o narrador deste texto.

- Vais parar com essa merda??? A vida não é só skill. Existe a saúde, a amizade, o amor. Pára de quantificar tudo como se a vida fosse um jogo!

O narrador põe a mão na consciência e pára com a conversa da skill.

Vais jantar com a miúda gira e tentas impressioná-la.

- Sabias que, no “Battlefield 4”, tenho novecentos e tal de skill?

quarta-feira, 18 de março de 2015

Até sempre, Internet Explorer

Nota prévia: este texto foi escrito em 2032 e retrata um episódio triste para todos os internautas que gostavam de uma vida tranquila.

A notícia caiu como uma bomba, a 18 de Março de 2015: o Internet Explorer ia acabar. Houve quem chorasse. O Internet Explorer não, porque ainda estava a processar uma notícia de 15 de Março.

A Microsoft, que ainda não tinha acabado, estava preocupada e chegou mesmo a parar com a produção de telemóveis que ninguém queria, tablets que pouca gente queria e surfaces que ninguém podia pagar. Como não sabiam o que fazer (algo frequente, por aquelas bandas), para salvar o Explorer, voltaram ao trabalho. Produziram ainda mais telemóveis que ninguém queria, mais tablets que pouca gente queria e surfaces que ninguém podia pagar.

Contra todas, repito, todas as previsões, ninguém comprou os telemóveis, os tablets e os surfaces. A Microsoft decidiu trabalhar naquilo que melhor sabia: dejectos. Bill Gates desenvolveu uma técnica que permitia criar água potável a partir de fazes. A Microsoft ficou na merda, mas ganhou muito dinheiro com isso.

Voltando ao Explorer, ele passou alguns dias a embebedar-se, para esquecer. Como era muito lento, demorou quase duas semanas. Depois, procurou trabalho, mas o único trabalho que tivera era o de browser.

Já ninguém queria browsers, em 2015. É mentira: ninguém queria jornalistas ou professores, mas toda a gente queria um bom browser.

O Explorer desapareceu, sem deixar rasto. Aqui ficam algumas homenagens.

Passos Coelho
“Foi ainda no Explorer que preenchi os meus primeiros formulários do IRS, corria o ano de 2010.”

António Costa
“Ainda é cedo para falar sobre este assunto. Em Junho, direi o que penso.”

Alexis Tsipras
“Os históricos do poder estão todos a morrer. Depois do Explorer, será a Alemanha.”

Dalai Lama
“O Explorer procurou o caminho da paz e morreu, por isso, em paz. Sem saber nada do que se estava a passar.”

Jorge Jesus
“Foi um jogador que, em termos do que é a velocidade do jogo, era lento. Mas tinha muita qualidade, em termos técnico-tácticos. O seu posicionamento era muito importante para nós. Mesmo quando parecia que estava desposicionado, estava posicionado.”

Marcelo Rebelo de Sousa
“Era um notável caído no esquecimento. Ou seja: ideal para se candidatar à Presidência da República.”

Quentin Tarantino
“Vou fazer um filme sobre o fim do Explorer. Mas com muito sangue, porque o Mundo é violento.”

Jorge Jesus (em off)
“Onde joga o Internet Explorer?”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Avisos coloridos

Uma das coisas de que eu mais gosto, na Protecção Civil, é o facto de eles nos protegerem dos perigos.

Outra das coisas de que eu mais gosto é o sistema de cores, para os avisos. Já pensaram como seria se houvesse, na Protecção Civil, um designer para determinar as cores dos avisos?

- Aviso amarelo? Mas amarelo quê?

- Amarelo.

- Pois, já percebi, mas pode ser amarelo sol, amarelo girassol, amarelo girafa, amarelo manga, amarelo canário.

- Não tens amarelo perigo?

E se, por outro lado, houvesse avisos coloridos da Protecção Civil, mas para várias situações da vida, em vez de apenas nas condições meteorológicas?

Um gajo ia jantar com amigos. Um restaurante pacato, comida caseira, uma garrafa de bom vinho, para acompanhar. A dado momento, alguém sugere pedir uma segunda garrafa. Aparece um senhor da Protecção Civil, a emitir um alerta amarelo, para o perigo de aquela garrafa poder potenciar algum descontrolo. O amigo mais fixe da mesa diz que não há motivo para preocupar. “É só mais uma, está tudo controlado.”

O jantar continua e a segunda garrafa pede mesmo, mesmo, uma terceira. Aparece o senhor da Protecção Civil, a emitir um alerta amarelo, para o perigo de aquela garrafa poder aumentar os riscos já potenciados pela segunda. O amigo mais fixe da mesa diz “Não há problema, eu levo o carro!”.

O jantar termina com oito garrafas vazias em cima da mesa. Doze minutos para os amigos fazerem a conta. Ninguém consegue saber quanto dá a cada um. Um dos amigos decide fazer a conta sozinho. Aparece o senhor da Protecção Civil, bêbado. “Alerta amarelo! A conta vai ser mal feita.”

A conta sai errada. Pagam quase tanto de gorjeta como pela comida. Saem do restaurante e dirigem-se ao carro. O senhor da Protecção Civil tem uma sugestão. “Alerta amarelo: conheço um bar onde há umas gajas mesmo boas.”

Vão ao bar e continuam a beber. A cada copo, o senhor da Protecção Civil emite um alerta de cor diferente. Segundo o próprio, para “dar mais animação aos avisos”.

Um dos amigos desentende-se com um indivíduo que está no bar. O senhor da Protecção Civil avisa: “Alerta amarelo: vais levar um sopapo desse gajo, se continuas a falar assim”.

O amigo leva um sopapo. “Alerta vermelho: o nosso amigo desligou, por uns minutos. Vamos dar início aos procedimentos.” Acabam todos à chapada, ignorando os procedimentos.

No caminho de regresso, são interceptados por uma “Operação Stop”. O senhor da Protecção Civil sai do carro, a cambalear, e diz: “Alerta vermelho: estamos fodidos. Os senhores agentes da autoridade vão multar o condutor. Vamos todos para a esquadra”.

Moral da história: nunca saias com um gajo da Protecção Civil. O jantar estava controlado até ele fazer o primeiro aviso.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A melhor televisão de sempre

A Samsung vai lançar uma televisão com um novo sistema operativo e capaz de melhor conexão com os electrodomésticos. Já que a empresa sul-coreana está numa de melhorar as televisões, proponho algumas ideias.

(Nota: para não utilizar em demasia e palavra “utilizador”, vou trocá-la por “Francisco”.)

Imagem e som
Sempre que estiver a ver futebol (afinal, a mais nobre utilização possível de uma televisão), o Francisco deve poder desfocar aqueles jogadores toscos, que só fazem asneiras, de forma a não se enervar tanto. Também deve poder activar a função “Lá Lá Lá”, que troca os comentadores tendenciosos por um “lá lá lá” ininterrupto.

Programação
Um filme chega ao intervalo, o Francisco muda de canal e, para não se esquecer do que está a ver, a televisão avisá-lo-á quando o filme for retomado. Avisa-o também de que determinado filme, que está a dar em determinado canal, é muito melhor. Deverá, também, ser possível inserir o Chuck Norris em todos os filmes. A televisão poderá ter também uma função educativa, que consista em dar choques ao Francisco, quando ele estiver a ver conteúdos foleiros. Em pouco tempo, a televisão fará com que o Francisco passe de um burgesso a um gajo moderadamente refinado. Ou a um churrasco.

Aplicações
Deverá, também, existir a função “Avisos”, através da qual a televisão manterá o Francisco ligado ao Mundo, mesmo quando atento a um determinado programa. Fará avisos como “o cão tem que ir à rua”, “põe a comida a aquecer que está quase na hora de jantar”, “devias limpar o pó a esta casa, que está uma vergonha”, “quando saíres, agasalha-te, que está frio”, “são horas de tomar o antibiótico”, “amanhã tens que levar o carro à inspecção” ou “muda de canal, que a tua equipa não está a jogar nada e vai sofrer um golo nos próximos 15 minutos”.

Interacção com os electrodomésticos
A televisão controlará as janelas, o aquecedor, o fogão, o carro do Francisco, o telemóvel e, em momentos de maior distracção, o próprio cérebro do Francisco. Pagará as contas, responderá aos mails e atenderá as chamadas mais aborrecidas.

Em pouco tempo, o Francisco casará com a televisão e terá dois filhos: um micro-ondas e um auto-rádio.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Comer porcarias a sério

Bill Gates bebeu água destilada a partir de fezes. O objectivo desta acção foi promover uma nova tecnologia que produz água e electricidade a partir de dejectos humanos, tecnologia essa que será utilizada nos países mais pobres.

Esta é a parte que eu não percebo. Porque não utilizar isto nos países ricos? Nos restaurantes ricos, inclusivamente? É que nós já comemos porcaria várias vezes, sem o sabermos. Porque não comer porcaria sabendo que é porcaria?

Um restaurante gourmet. Um chefe de sala nascido em Portugal, mas com sotaque francês, para dar mais cagança. Vestido a rigor, vai encaminhando os clientes para as mesas, ajeitando as cadeiras e entregando as ementas como se fossem bumerangues.

De fundo, músicas bonitas que alguém tocava, no piano. Através de uma abertura na parede, via-se a cozinha, onde os artífices cozinhavam a sorrir e ao som da música.

Cá fora, um gajo assaltava uns carritos, mas como está frio, vamos para dentro outra vez.

Um senhor sujava a camisa com molho mostarda, mas logo aparecia um empregado com tira-nódoas, deixando a camisa quase igual (durante duas horas, porque depois o efeito iria passar e a camisa iria para o lixo).

Os pedidos começavam a surgir.

- Cocó com molho Gorgonzola.

- Excelente escolha.

- Como é o “Cocó Wellington”?

- Envolto em massa folhada, com pasta de cogumelos frescos e presunto de Parma.

- Vou querer cocó assado com açafrão, avelãs, mel e água de rosas.

No fim das refeições, os clientes, sempre exigentes, faziam os reparos.

- O cocó estava óptimo, mas as avelãs e a água de rosas não estavam no ponto.

- O cocó estava óptimo, mas a massa folhada não se faz assim.

- O cocó estava óptimo, mas isto não é molho Gorgonzola.

Nisto, Bill Gates entrava no restaurante e dizia:

- E uma garrafinha de água destilada a partir de fezes?

A resposta seria unânime.

- Aaaaargh, que nojo!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Macacos humanos

Um estudo concluiu que os macacos se reconhecem ao espelho. Isto abre um grande conjunto de possibilidades.

Imaginem um macaco em frente ao espelho, a pensar que o cabelo não está muito bem penteado. “Assim, pareço uma macaca. Ou pareço aquele macaco da árvore 32, que é um bocado maluco. E que não toma banho. E que é do Benfica.”

Um macaco em frente ao espelho, a pensar: “Estou um bocado gordo, vou ter que cortar nas bananas. Aquilo é bom, até tem potássio, mas é muito calórico. Pareço um gorila. Para além de que me trava o intestino. Já não cago há três dias”.

Duas macacas em frente ao espelho.

- Achas que o cabelo me fica melhor assim ou assim?

- Da outra maneira. A primeira. Sim, essa. A Chita fez uma permanente. Disse-lhe que ficava bem, mas ficou uma merda. Aquela macaca enerva-me. Tem a mania que é boa.

Um casal de macacos ao espelho.

- Já se nota a barriga. – Diz a macaca.

- Sim. É o nosso macaquinho. – Responde o macaco.

- Gostava que ele se chamasse Venâncio. Como o meu avô.

- Eu preferia Roberto, como aquele meu tio que batia nos gorilas. Quero que o nosso menino seja assim, valente.

Um dos investigadores que conduziram este estudo afirmou que “normalmente, os macacos não conseguem reconhecer-se ao espelho, presumivelmente devido à falta de capacidade de consciência de si próprios”, mas um dos macacos anteriormente mencionados já comentou.

“Por acaso, tenho um vizinho que sempre revelou uma falta de capacidade de consciência de si próprio. Pronto, o macaco era limitado, temos que aceitar. Mas nem por isso deixava de andar bem penteado, o que indiciava que passava algum tempo em frente ao espelho. Já a macaca dele andava muito arranjada. E tinha boa capacidade de consciência de si própria. Tinha era pouca auto-estima.”

O mesmo macaco acrescentou que espera pelo dia em que um estudo conclua que os macacos sabem tirar selfies, mas são fracos a fotografar paisagens.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pessoas que nunca tiram o casaco

Um espaço de diversão nocturna, geralmente, é quente. Tão quente que há sempre alguém a beber “refrigerantes”. Tão quente que o copo é 98% gelo e 2% de líquido. Tão quente que aquela miúda gira está quase despida. E a outra do lado, também. E aquela. E aquela.

Continuando. Nos espaços de diversão nocturna, existem bengaleiros, onde podemos deixar o casaco. Mas isso é para fraquinhos. O verdadeiro folião mantém o casaco e o cachecol durante toda a noite. Isto acaba por fazer com que, no meio da pista, entre bêbados eufóricos e casais que se vão formando, em dinâmicas de sedução pura, há um roupeiro que se movimenta. Só nos apercebemos de que é uma pessoa pela mão que segura o copo, porque não se vê mais nada.

Há várias hipóteses que podem explicar o facto de alguém manter de casaco e cachecol, numa discoteca. A primeira é o desconhecimento da existência de um bengaleiro. Esta hipótese surge aliada a um reduzido poder de dedução: há pessoas em t-shirt, camisa, top ou em sutiã, como aquela moça jeitosa cujo decote deixa ver o umbigo (embora eu ainda não tenha reparado no umbigo), em pleno Inverno, o que pode constituir um forte indício de que há um lugar para deixar os casacos.

Outra hipótese é a preguiça. O que não faz sentido: passam-se horas de pé, de um lado para o outro, entre uma multidão aos encontrões, mas ir pousar o casaco é cansativo.

O magnetismo também pode explicar muita coisa: à quinta bebida, o balcão torna-se um íman poderosíssimo, que atrai irresistivelmente a nossa barriga metálica.

Pode ainda ser uma questão de gosto. Estava a brincar. É impossível ser uma questão de gosto.

E assim se passa uma noite: um copo, dois copos, três copos, uma porta de um roupeiro, não, é um braço, uma troca de olhares, um sorriso, uma piada, uma dança parva, uma porta de um roupeiro, não, é um braço outra vez.

Às tantas, o roupeiro estabelece interacção com uma mulher. A coisa promete. Um pouco de conversa e há fortes probabilidades de haver sexo ocasional.

Na hora da verdade, surge uma pergunta: “Eu sei que vamos ter relações sexuais, mas preciso de tirar o casaco e o cachecol?”.