Quando compra roupa, o
homem tenta ser uma espécie de assassino silencioso: o objectivo é cumprir a
missão no mínimo tempo possível e sem ninguém notar. No fundo, o homem tenta ser
como um daqueles assessores que os ministérios vão buscar às juventudes
partidárias: ninguém os viu, mas estiveram lá e gastaram dinheiro.
Caso demore
demasiado tempo, o homem pode perder-se para sempre, debaixo das peças de roupa
que vão sendo amontoadas. Ou ver a sua masculinidade questionada pelos amigos.
“Tanto tempo para comprar duas camisas.”
(A masculinidade
pode também ser questionada devido ao estilo de camisas escolhidas e não ao
tempo que o homem demorou a escolhê-las.)
Pega numa peça,
noutra e noutra. Vai ao vestiário, olha para o espelho e vê como estão os
músculos. Ou a barriga. Faz uma ou duas danças parvas e lembra-se que tem roupa
para experimentar. Não experimenta todas as peças ao mesmo tempo porque não dá.
“Esta não, fica
muito larga. Esta não, fica muito justa. Esta fica altamente, mas é um pouco
abichanada. Quer dizer, o Manuel tem uma e fica-lhe bem. Mas toda a roupa dele
é abichanada, por isso é que lhe fica bem.”
A maioria dos homens
não sabe qual o tamanho que veste. Mentira: sabe que fica, algures, entre o 1 e
o 500. Mas, para ser rigoroso, precisa de perguntar à namorada, à mãe ou à irmã.
A mãe vai dizer um tamanho
menor, porque acha sempre que o filho está magro.
A tomada de decisão
com amigos por perto não é vantajosa. Para decidir em poucos minutos, o homem
não precisa de ajuda. Para além disso, o amigo vai gozar com todas as peças que
um gajo escolher, e sugerirá mais algumas que fiquem claramente mal, só pela
diversão. Isto vai aumentar consideravelmente o tempo das compras. Claro que há
um limite: o amigo é um homem, pelo que quererá, também, sair da loja em tempo
útil.
Se não houver nada de
especial, o homem vai encontrar uma consolação: vai poder andar mais uns tempos
com aquela roupa que está velha, mas perfeitamente adaptada ao nosso corpo.
Por vezes, as
compras são interrompidas por situações verdadeiramente prioritárias. Um amigo
telefona.
– Onde estás?
– Vim comprar roupa.
– Queres vir ver o jogo ao tasco do Toni?
– Sou gajo.
– Despacha-te, só falta meia hora.
Nestas situações, em que algo verdadeiramente prioritário se
coloca no caminho de um homem, existe um momento de clarividência.
“Aquelas camisas não estão assim tão velhas. Aquelas calças
não estão assim tão gastas. Aguentam bem mais uma semana.”
Esta situação pode obrigar a roupa a aguentar mais uma
semana. Ou mais dois meses.
A mulher, quando compra,
pensa em várias questões, todas elas realmente importantes para que a roupa lhe
confira mais estilo. Gosta da cor. A cor é perfeita, é um daqueles azuis turquesa,
ou azul marinho, ou azul bebé, ou azul céu, ou azul guarda-sol (daqueles
guarda-sóis azuis), ou azul ameixa (uma ameixa que tenha aprodrecido e
acumulado bolor azul), ou azul céu em dia de chuva (é um azul mais
acinzentado), ou azul carro da Marta (tens que conhecer o carro), ou azul. Só
azul. Tipo, azul simples.
Adiante. Gosta da
cor, mas não gosta do formato. “As calças não me assentam bem. Têm um formato
estranho, démodé, pareço a tia Fernanda, naquela fotografia tirada em 1972,
numas férias no Algarve. É um formato que não destaca as formas. Tem bom
recorte, mas não é sensual.”
(Se a mulher for "hipster", parecer a tia Fernanda pode ser uma vantagem.)
Vamos supor que a
mulher gosta do formato. Não gosta do tecido. “É um tecido sem brilho, sem
vida, sem chama. É um tecido que alguém esqueceu num armazém e que, sem ninguém
perceber porquê, acabou numas calças. Não gosto do toque.”
Vamos supor que a
mulher gosta do tecido. Não gosta daqueles bolsos. “Parecem feitos à pressa.
Parece que eram uma bolsa para telemóvel e, de repente, alguém a coseu numas
calças. Os bolsos não são assim.”
Vamos supor que a
mulher gosta dos bolsos. Não gosta daquele botão. “Parece uma moeda de dois
euros. E as moedas ficam no bolso das moedas, não a segurar as minhas calças”.
Vamos supor que a
mulher gosta de tudo: lembra-se que já viu alguém com umas parecidas. “A Isabel
tem umas parecidas. A mim ficam-me muito melhor, porque ela está um bocado gorda.
Mesmo assim não vou comprar. Vai parecer que eu copiei.”
Vamos supor que a
mulher gosta de tudo e não se lembra de alguém que tenha umas parecidas. Mas,
pelo caminho, experimentou umas que têm uma cor comum, um formato básico, um
tecido igual aos outros, bolsos standard e um botão que parece um botão foleiro,
e acaba por escolher essas. A amiga que a acompanhou nas compras não entende a
escolha.
– Tanta coisa e vais
levar estas?
– Vou. Fazem-me um
rabo espectacular.