Para muitos
portugueses, a ida à praia é como emigrar, tal a quantidade de bagagem que eles
transportam. Mas é uma emigração com regresso no mesmo dia. E com nova
emigração, no dia seguinte. É tipo aqueles namoros que estão sempre a acabar e
a recomeçar. Mas sem o sexo de
reconciliação.
O português leva
tudo para a praia. Leva o cão, porque o Adamastor também tem direito a passear
um bocado. E a urinar em sítios diferentes. Até naquele saco plástico que a
senhora do lado deixou, inadvertidamente, fora do lugar. E o Adamastor também
tem direito a tentar copular com a cadela que aqueles senhores do guarda-sol
amarelo trouxeram à praia. O facto de Adamastor ser um pequeno Bulldog Francês
e a cadela ser uma imponente exemplar da raça Labrador poderá dificultar a vida
ao macho. Mas nunca é de mais tentar. Como se costuma dizer, “o ‘não’ é
garantido”.
O português leva,
também, vários guarda-sóis, porque chega à praia às dez da manhã e vai embora
às oito da noite, e convém proteger-se nas horas de maior calor. A ele, à
esposa, aos filhos, ao Adamastor, à comida e aos outros guarda-sóis. Sim,
porque ele leva vários, que se vão revezando, para não aquecerem muito. “O sol até
aos guarda-sóis faz mal. Desgasta a cor. Depois, ficam feios, parecem velhos”,
diz o português. Esta é a frase mais
sábia que este português dirá nos dias de sol. Nos dias de chuva dirá “a
chuvinha também faz falta”.
O português leva
pára-vento para a praia. Mentira, leva um sistema de pára-ventos, desenhados
pelo filho do vizinho, que está a estudar engenharia, sistema esse que optimiza
o rendimento e que permite criar uma espécie de castelo junto ao mar. É bom
para proteger do vento, mas também de uma potencial invasão de caranguejos que
decidam tentar conquistar o planeta. Esse sistema de pára-ventos permite, e
isto não é menos importante, que o português coce os testículos à vontade. É verdade: embora
muitos, até na mesma praia, não entendam essa estranha necessidade, há quem
queira alguma privacidade para coçar a genitália.
Essencial, também, é
o jornal desportivo, para ver quem é que o Benfica vai contratar.
Leva tachos com
comida, porque “comer sandes é para meninos”. Reclama sempre da comida, mas
come dois pratos.
Leva rádio, para
adormecer ao fim do almoço, ao som do Julio Iglesias. E para não ouvir o puto
da família do lado aos berros com o irmão, enquanto este o tapa com areia e a
mãe berra com toda a gente: com os filhos, porque só fazem asneiras, com o pai,
porque ainda não fez nada desde que abriu o jornal para saber quem vinha para o
Benfica.
Mas o português
também tenciona sair do seu castelo de pára-ventos, pelo menos uma vez. Leva raquetes,
porque é um desportista. As raquetes nunca
vão sair do saco. Mentira, vão dar
jeito para coçar as costas.