Foi lançado, recentemente, um videojogo de tiros. OK, estou
a ser um estúpido: deve dizer-se “First Person Shooter”.
Um jogo de tiros, portanto.
Nesse jogo, um dos rankings mais importantes é o de “skill”:
acções bem sucedidas dão-nos skill, acções mal sucedidas fazem-nos perder
skill.
Se Chuck Norris jogasse este jogo, atingiria skill infinita dez
minutos depois de colocar o DVD na consola (isto porque cinco minutos são
sempre necessários para a instalação do jogo).
Em conversa com dois aficionados deste título (digo “título”
para não repetir “jogo”, que termina o parágrafo anterior, mas também para mostrar
aos “gamers” que eu não sou um “rookie”), ocorreu-me esta ideia: e se a vida
também consistisse em ganhar e perder skill?
Acordas cedo, depois de te teres deitado tarde – Perdes skill.
Tens uma mensagem daquela miúda gira que conheceste
anteontem – Ganhas skill.
Tens um furo a caminho do trabalho – Perdes skill.
Resolves o problema em menos de dez minutos – Não ganhas
skill, mas ligam-te da equipa de Fórmula 1 da Ferrari.
Chegas atrasado ao trabalho – Perdes skill.
Está toda a gente à espera que chegues para resolver um
problema e tu resolves – Ganhas skill, ligas para a Ferrari e dizes que vais
para a Apple.
Tens um Samsung – Perdes skill e o contrato com a Apple.
Ligam-te do banco: compraste papel comercial do BES e estás
falido. – Perdes skill.
- Mas que merda é essa do papel comercial? – Perguntas.
- Pedimos desculpa, foi engano. – Respondem-te.
Recuperas a skill.
Chegas ao trabalho depois do almoço. O sono corrói-te o
cérebro. – Perdes skill e também perdeste a chave do carro, mas só vais reparar
ao fim da tarde.
Cometes uma série de erros, nas tuas tarefas, mas ninguém nota. – A skill
mantém-se.
Ao fim da tarde, não sabes da chave do carro. – Perdes skill.
Vais a pé para casa. – Ganhas resistência. Skill, nem por
isso, porque a tua obrigação é fazer algum exercício, seu preguiçoso.
Encontras a miúda que te mandou a mensagem, de manhã. Ela fica
radiante. Tu não a reconheces. – Perdes skill.
Inventas uma desculpa, algo como “Estava a brincar contigo”.
Ela acredita. – Recuperas a skill. Ela perde a skill toda que tinha.
Convida-la para jantar. Ela aceita. – Ganhas skill.
Revoltas-te com o narrador deste texto.
- Vais parar com essa merda??? A vida não é só skill. Existe
a saúde, a amizade, o amor. Pára de quantificar tudo como se a vida fosse um
jogo!
O narrador põe a mão na consciência e pára com a conversa da
skill.
Vais jantar com a miúda gira e tentas impressioná-la.
- Sabias que, no “Battlefield 4”, tenho novecentos e tal de
skill?