Um espaço de diversão nocturna,
geralmente, é quente. Tão quente que há sempre alguém a beber “refrigerantes”.
Tão quente que o copo é 98% gelo e 2% de líquido. Tão quente que aquela miúda
gira está quase despida. E a outra do lado, também. E aquela. E aquela.
Continuando. Nos espaços de
diversão nocturna, existem bengaleiros, onde podemos deixar o casaco. Mas isso
é para fraquinhos. O verdadeiro folião mantém o casaco e o cachecol durante
toda a noite. Isto acaba por fazer com que, no meio da pista, entre bêbados
eufóricos e casais que se vão formando, em dinâmicas de sedução pura, há um
roupeiro que se movimenta. Só nos apercebemos de que é uma pessoa pela mão que
segura o copo, porque não se vê mais nada.
Há várias hipóteses que podem
explicar o facto de alguém manter de casaco e cachecol, numa discoteca. A
primeira é o desconhecimento da existência de um bengaleiro. Esta hipótese
surge aliada a um reduzido poder de dedução: há pessoas em t-shirt, camisa, top
ou em sutiã, como aquela moça jeitosa cujo decote deixa ver o umbigo (embora eu
ainda não tenha reparado no umbigo), em pleno Inverno, o que pode constituir um
forte indício de que há um lugar para deixar os casacos.
Outra hipótese é a preguiça. O
que não faz sentido: passam-se horas de pé, de um lado para o outro, entre uma
multidão aos encontrões, mas ir pousar o casaco é cansativo.
O magnetismo também pode explicar
muita coisa: à quinta bebida, o balcão torna-se um íman poderosíssimo, que
atrai irresistivelmente a nossa barriga metálica.
Pode ainda ser uma questão de
gosto. Estava a brincar. É impossível
ser uma questão de gosto.
E assim se passa uma noite: um
copo, dois copos, três copos, uma porta de um roupeiro, não, é um braço, uma
troca de olhares, um sorriso, uma piada, uma dança parva, uma porta de um
roupeiro, não, é um braço outra vez.
Às tantas, o roupeiro estabelece
interacção com uma mulher. A coisa promete. Um pouco de conversa e há fortes
probabilidades de haver sexo ocasional.