sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O melhor amigo otário

Há dias, um amigo meu referiu-se a alguém usando a expressão “o meu melhor amigo otário”. Quando questionado, explicou: “Dos meus amigos otários, ele é o melhor”. Faz sentido.

Desafiado por esse meu amigo, decidi elencar alguns tipos de melhores amigos.

O melhor amigo mentiroso
É um gajo porreiro e a sua mentira não se dá por maldade, mas por uma lógica de entretenimento. Ele inventa para melhorar as suas histórias. É um “entertainer” e vai sempre exagerar. Porque sabe que gostamos de o ouvir. Porque sabe que, se não o fizer, a sua vida não vai parecer tão interessante.

O melhor amigo rigoroso
Corrige a gramática, corrige as datas e as horas, corrige os nomes dos filmes. É muito culto, mas extremamente aborrecido, porque vai ao pormenor do pormenor. Ninguém sabe explicar por que gosta dele, mas a verdade é que, por vezes, ele dá jeito. Sobretudo, quando não temos uma calculadora à mão.

O melhor amigo chato
Não se cala e tem tendência a repetir a mesma história. Neste caso, há duas hipóteses: ou a história tem sempre piada e até vale a pena ouvir, ou as pessoas vão ouvi-la por não quererem dizer “Já contaste essa merda!”.

O melhor amigo teimoso
Se lhe falas de futebol, dá asneira. Se lhe falas de política, dá asneira. Se lhe falas de trabalho, dá asneira. Se respirares, dá asneira. Dá asneira pelo simples facto de que este amigo costuma dividir a Humanidade em dois grupos: as pessoas que estão erradas e ele. Nenhum grupo sobrevive bem com dois amigos deste tipo, uma vez que eles são capazes de desencadear uma guerra civil.

O melhor amigo fixe
Toda a gente gosta dele, porque a festa persegue-o até aos lugares mais recônditos do planeta. Chega atrasado e ninguém repara. Não trouxe dinheiro e alguém lhe paga o jantar. Não quer sair e vão buscá-lo a casa. Se o Mundo fosse composto apenas por pessoas como ele, era sempre Sábado. Mas ainda viveríamos nas grutas e desconheceríamos a roda.

O melhor amigo engatatão
Convives com ele em intervalos, porque ele tem o tempo todo ocupado, entre miúdas giras e festas. Parece que está permanentemente em missão, mas quando o encontras, tem sempre boas histórias para contar.

O melhor amigo responsável
Trabalha muito, é casado e tem filhos. Já ninguém consegue conversar com ele. Na verdade, já ninguém gosta dele. Mas temos pena da vida dura que ele leva e, nas duas vezes por ano em que o encontramos, tratamo-lo bem.

Estes são apenas alguns dos tipos de amigos. Muitos mais haveria a elencar. Isto é, também, um tipo de amigo: o que só diz metade das coisas, completando a frase com “E outras merdas”.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A cassete do fim do Mundo

Não passava de uma suposição mas, agora, a história está confirmada: a CNN tem uma cassete com um vídeo para ser transmitido quando o Mundo acabar. Ted Turner, fundador da cadeia televisiva, já tinha afirmado que a CNN emitiria até ao fim dos dias.

 O vídeo em questão mostra a banda do exército dos Estados Unidos a tocar o tema que terá sido tocado a bordo do Titanic, enquanto este afundava.

Acho interessante esta ideia. Primeiro porque, caso o Mundo esteja para acabar, a primeira coisa que nos vai passar pela cabeça é correr para a televisão, para assistirmos à emissão da CNN. Isso depois de saber quem saiu da Casa dos Segredos, como é evidente.

Segundo porque há sempre aquele viciado em televisão que vai ficar em frente ao aparelho até não poder mais. Mesmo depois do conteúdo da cassete ser emitido, ele vai ficar no sofá, em transe. E quando a casa começar a ruir, com o fim do Mundo, ele vai dizer “Merda, agora que ia começar um episódio do ‘Walking Dead’…”.

Sugiro à CNN a criação de várias mensagens, a sobrepor a este vídeo, para possíveis momentos históricos da nossa civilização.

Um ataque militar em larga escala, protagonizado pela Coreia do Norte
“Senhores telespectadores, fechem as janelas. Vai ser uma espécie de queda de granizo. Uma saraivada das antigas.”

O Sporting ganha o campeonato
“Senhores telespectadores, é mesmo verdade. Até agora, o Universo não entrou em colapso. Mas nada está garantido.”

Os gajos do CSI não conseguem resolver um crime
“Senhores telespectadores, era a brincar. No próximo episódio, eles resolvem dois, para compensar.”

A Rússia torna-se um país de bem
“Senhores telespectadores, vai haver uma retaliação forte, por parte dos Estados Unidos. Só pode haver um bom da fita e nós não partilhamos esse papel com ninguém.”

Um asteróide em rota de colisão com a Terra
“Onde está o Bruce Willis, quando é preciso?”

Descoberta de vida extraterrestre
“Agora que já sabemos, quando é que abrem a Área 51 aos turistas?”

Uma invasão alienígena
“Onde está o Chuck Norris, quando é preciso?”

O fim deste blogue
“Finalmente.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Três portugueses quase notáveis

A revista Forbes escolheu as trinta personalidades com menos de trinta anos que mais se destacaram, em diversas áreas, ao longo de 2014. Três destas personalidades são portuguesas: o futebolista Cristiano Ronaldo, o artista plástico Alexandre Farto, conhecido como “Vhils”, e a investigadora Maria Pereira.

O Texto Incompleto conhece outros três portugueses que se inserem na categoria “Pessoas que se poderiam ter destacado, não fosse o facto de não se terem destacado”.

Manuel Regueza, 29 anos, heptacampeão de sueca da vila de Guelhofeses
Um jovem prodígio da sueca, é um hábil contador de cartas desde os seis anos. Diz que se orgulha de nunca ter sido apanhado numa renúncia. Já disputou alguns torneios fora de Guelhofeses, mas nunca os venceu, por se ter envolvido em cenas de pancadaria antes da final. Os seus passatempos são ver o Benfica, comer tripa enfarinhada e fazer campeonatos de “arremesso de bigornas”. Este ano, mudou de parceiro na sueca e prepara-se para defender o título. Já afirmou que está ganho, de qualquer maneira: ou ganha mesmo ou acaba à chapada com a equipa adversária.

Joaquina Fagundes, 29 anos, Presidente da Junta de Freguesia de Trapezes de Cima
Entrou na política aos 18 anos, quando, no liceu, foi eleita delegada de turma. Teve um talho. Agora, tem dois: abriu um novo em Trapezes de Baixo. Segundo conta, em tom de brincadeira, para Trapezes de Baixo só manda a carne de baixo. Foi eleita para a Junta de Freguesia com 98% dos votos. Captou o eleitorado, fundamentalmente, com os seus ideais, com a sua história de vida e com as propostas para a freguesia. Os burgessos que não compreenderam os seus discursos, votaram nela, na mesma: trata-se de uma mulher extraordinariamente bonita. Não gosta de futebol, porque, segundo afirma, “é um jogo muito suave”. Gosta de boxe e de artes marciais.

Alberto Podeira, 29 anos, dono da tasca “Casa do Marmelo”, na aldeia de Burgeses
Abriu a tasca com 20 anos. Em menos de cinco, já tinha, associados ao estabelecimento, uma fundação e um estaleiro cultural (o estaleiro era só ao fim-de-semana, durante a semana era uma oficina do Tone Chapeiro). Recebeu, no seu estabelecimento, as mais altas personalidades das aldeias limítrofes. Algumas delas foram expulsas, devido a comportamento inadequado. Não sem antes pagarem a despesa. Criou uma rede de tascas chamada “Pataniscas com poesia”, através da qual promove o intercâmbio cultural entre aldeias. Esse intercâmbio consiste em grandes jantaradas e torneios de sueca. “A poesia era para dar cagança, mas costumamos avançar essa parte”, explica. Manuel Regueza está proibido de entrar na tasca, por ser, segundo ele, “um javardo das cartas”. Como passatempo, restaura carros antigos. O seu preferido é um Fiat 600 que, depois de muito trabalho, passou de todo empenado para moderadamente empenado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Números primos afastados

Há 76 anos que os matemáticos se debruçavam sobre esta questão. Alguns, debruçaram-se de tal forma que caíram.

(Desculpem, não resisti. Vou recomeçar.)

Há 76 anos que os matemáticos se debruçavam sobre esta questão: qual a maior distância possível entre dois números primos?

Números primos são números apenas divisíveis por si próprios ou por 1. Ou são dois números em que um dos progenitores de um é irmão de um dos progenitores do outro.

(Desculpem, não resisti. Vou continuar.)

O primeiro matemático a debruçar-se sobre esta questão debruçou-se pouco, porque já não ia para novo e as costas já não deixavam.

O segundo matemático era novo e achou que aquele tipo de cálculo era um pouco aborrecido. Precisava de um tipo de cálculo que tivesse gajas e sol. Passados sessenta anos, ainda está numa praia em Miami a contar grãos de areia. Não se sabe em que número vai, não porque a sua história tenha caído no esquecimento, mas porque o próprio já se perdeu na conta.

O terceiro matemático a enfrentar este problema desinteressou-se dos números primos. Passou a estudar primas: nomeadamente, uma prima de um amigo, que era bem jeitosa, e que ele conheceu num casamento.

Em Maio de 2013, Yitang Zhang provou que os números primos nunca podem ter, entre si, mais de 70 milhões de números. E que não podem comer feijão, porque incham, com os gases.

Com base nesta descoberta, os matemáticos Terence Tao, Kevin Ford e Sergei Konyagin tentaram descobrir a fórmula que calcula a distância máxima entre dois números primos.

Conseguiram e, agora, preparam-se para revelar a verdade ao Mundo. Mais do que saber qual o sentido da vida, se há vida extraterrestre ou quem vai ganhar o campeonato de futebol da Estónia, precisávamos de saber isto.

Tanto quando o Texto Incompleto apurou, quando estes três matemáticos perguntaram a Yitang Zhang como descobriu que dois números primos não podiam distar mais de 70 milhões de números, Zhang respondeu que tinha recorrido ao cálculo integral, à álgebra e à aritmética, à acupunctura e ao chá de loureiro.

Depois de tudo ter falhado, perguntou ao avô, que era mestre de Kung Fu. Como toda a gente sabe, os mestres de artes marciais sabem tudo.

Quando lhe perguntaram por que demorou tanto tempo a revelar, se bastava perguntar ao avô, ele respondeu: os mestres de artes marciais demoram muito tempo a dizer qualquer coisa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Resoluções de Fevereiro

No fim do ano, toda a gente faz resoluções para o ano seguinte. Se aquilo a que as pessoas se propõem, na mudança do ano, fosse tornado realidade, teríamos um Mundo melhor. Sobretudo porque, em poucos anos, as resoluções de Ano Novo desapareceriam. Seríamos todos perfeitos.

Eis as principais diferenças entre os meses de Janeiro e Fevereiro, sob o prisma das resoluções.

Exercício físico/dieta
Em Janeiro, há perspectivas de termos uma sociedade cheia de pessoas saudáveis e sensuais. Fernando Mendes seria o último gordo do planeta. Se todas as resoluções de exercício físico e dieta fossem respeitadas, a natalidade subiria 1000%: sairíamos à rua e a sensualidade envolver-nos-ia, como uma brisa marítima que nos convida a um mergulho. Faríamos sexo a cada cinco minutos, tal seria a quantidade de estímulos sexuais provocados pela beleza. Em Fevereiro, muitas pessoas já passaram mais tempo a comer porcarias do que a correr. Muitos correram apenas entre o carro e o restaurante, para não apanharem chuva, e outros já desistiram de perder peso, tentando, por isso, livrar-se da roupa de tamanho mais pequeno que compraram para quando aqueles quilos a mais se tivessem ido embora.

Acabar com alguns vícios
Todos querem deixar de fumar e beber menos. Em Fevereiro, apenas alguns ainda aguentam esta resolução, chegando mesmo a passar o Carnaval. Desses, alguns chegam ao Verão, mas poucos restam, no final da estação. Apenas dois aguentam até Dezembro. Depois, nos jantares de Natal e na passagem de ano, embebedam-se e fumam um cigarrinho, só para comemorar. Em Janeiro recomeçam do zero.

Gestão do stress
No início do ano, toda a gente pretende ser mais tolerante, reagir melhor às adversidades, procurar um estilo de vida que facilite o relaxamento. No fundo, ser parecido com o Dalai Lama. Em Fevereiro, já muitas pessoas se passaram da cabeça na fila para pagar no supermercado, andaram à chapada por causa de um penalty mal marcado, disseram mal dos vizinhos todos (menos da vizinha do quinto andar, que é mesmo jeitosa) e insultaram, pelo menos uma vez, alguém que tenha demorado mais a arrancar, depois de o semáforo ficar verde. No fundo, ficaram mais parecidas com o líder de uma claque de futebol.

Organização
Fazem-se listas de objectivos a atingir e planos de actividades. Em Fevereiro, algumas pessoas já não sabem onde puseram as listas. Nem as chaves de casa.

Criar hábitos culturais
Em Janeiro, fazem-se listas de livros a ler, filmes e concertos a assistir, museus e outros locais a visitar. Em Fevereiro, já muitos desesperam pela próxima edição da Casa dos Segredos.

Aparentemente, só pensamos em mudar de vida perto do fim do ano. Se, um dia, tivessem eliminado o mês de Janeiro, ainda estávamos à espera que alguém inventasse a roda.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Queimar notas faz calor

Luoyang é uma cidade chinesa onde é utilizado um método pouco convencional de obtenção de energia: icineração de notas que já estão fora de circulação. Uma investigação do Texto Incompleto permitiu descobrir que houve um longo processo, durante o qual foram testadas várias formas de produzir energia, até ser descoberta esta técnica.

Primeira fase: muitos habitantes a correr em cima de passadeiras
Esta fase até começou bem. Dava para alimentar a cidade e vender alguma energia à cidade vizinha. Depois, acabou o Verão e o pessoal começou a desleixar-se, a não querer saber se tinha mais um bocado de barriga, e começou a ficar com preguiça. Em pouco tempo, apenas duas pessoas corriam nas passadeiras. E só para provar que, mantendo aquele movimento infinitamente, uma atrás da outra, nunca iriam colidir.

Segunda fase: todos os habitantes davam um salto, às 10h30 e às 18h30
Nunca chegou a correr bem: o pessoal tinha os relógios dessincronizados. O que acabou por provocar vários terramotos, tanto em Luoyang como nas cidades vizinhas. Gerou energia, mas gerou mais estragos.

Terceira fase: tudo a dançar kizomba, às 10h30 e às 18h30
Esta técnica foi a que mais produziu calor, mas teve que ser abandonada, porque produziu, sobretudo, muitos bebés. Este pessoal asiático, pouco habituado à sensualidade das danças africanas, reproduziu-se desenfreadamente. Os responsáveis políticos da cidade fizeram as contas: mais energia, mas mais povo para aquecer, se calhar, não compensava.

Quarta fase: toda a gente fazia um churrasco ao mesmo tempo
Esta técnica até teve algum ganho energético, mas foi desastrosa para a saúde pública. Os autocarros e as carruagens do metro tiveram que ser aumentadas, porque todas as pessoas ficaram gordas. Gastava-se imensa gasolina nos transportes. Tiveram que esperar pelo Verão, para que toda a gente voltasse às passadeiras.

Um dia, um líder local, multimilionário, vinha bêbado pela rua e começou a queimar notas, virado para um bar, para mostrar que era muito rico. Estava uma noite de Inverno e algumas pessoas aproximaram-se da fogueira, por causa do calor.

- E se usássemos notas para produzir calor? – Perguntou um gajo.

- Ei, pois é, queimávamos notas velhas. – Respondeu uma mulher.

- Eu estava a pensar em usar as notas para comprar aquecedores, mas tiveste uma boa ideia. – Respondeu o gajo.

Hoje, o método é um sucesso. Mas ainda há duas pessoas nas passadeiras, a tentarem provar que não vão colidir, mesmo que corram para sempre.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quero todos os legos do planeta

As mulheres querem ser mães porque a Natureza as programou para tal. Querem passar pela extraordinária experiência de ter, dentro do seu corpo, uma nova vida a desenvolver-se. Querem ter o bebé no colo, querem aquela cumplicidade inquebrável entre mãe e filho. Querem ser mães, ponto.

Um gajo quer ter filhos para ter uma boa desculpa para voltar a comprar brinquedos. 

Ontem estive numa loja de brinquedos, para comprar a prenda de um sobrinho e, tal como tinha decidido, procurei brinquedos da Lego.

No momento em que entrei na respectiva secção, a minha vida mudou. Apeteceu-me comprar todos os legos, ir para uma ilha deserta e passar o resto da vida a construir naves e carros de Lego.

Claro que esta ideia é estúpida: se fosse para uma ilha deserta, deixaria de poder voltar a comprar Lego.

Fiquei a pensar que o Mundo seria um lugar mais agradável se todas as pessoas brincassem com Lego. Primeiro, porque todos teríamos com quem construir cidades e castelos. Depois, porque as pessoas teriam menos stress.

Imaginem o Presidente dos Estados Unidos, no meio de uma reunião de crise, a dizer: “Meus senhores, sei que temos mísseis apontados a Washington, Nova Iorque e Los Angeles, mas já combinei com o Presidente da Rússia e não vai haver lançamento durante o dia de hoje, porque vamos fazer uma competição de construção em Lego”.

O Mundo teria menos problemas.

Um Primeiro-Ministro revelaria que duas grandes obras tinham sido canceladas, por falta de verbas, mas acrescentaria: “Nem tudo está perdido, acabámos de comprar vinte mil baldes de Lego, pelo que haverá sempre algo para construir”.

O Mundo teria menos problemas.

O presidente de uma empresa gigante, depois de um dia de queda na bolsa, reunia com a administração e dizia: “Pessoal, temos um assunto muito importante para discutir. Preciso de tomar uma decisão crítica. Não sei se construo, em Lego, o carro do Batman ou uma nave do Star Wars. E não saio desta sala enquanto não houver uma decisão”.

O Mundo teria menos problemas.

Talvez o Mundo tivesse um problema, se o Lego sempre tivesse existido: Leonardo Da Vinci, Galileu, Einstein ou Salvador Dalí não teriam tido tempo para revolucionar a Ciência e a Arte.

Mas teriam feito umas casas bem fixes. Ou naves, no caso de Da Vinci. Ou coisas, no caso de Dalí.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um dia na vida de um cão

O silêncio de um sono profundo. O barulho horrível de um despertador. O Bobby acorda e olha para a cama do dono. Começa um dia, na vida de um cão.

“Não percebo esta gente. Têm aquilo a tocar de manhã, que seca, podiam pôr durante a tarde. Pensando bem, de tarde eu durmo, também ia incomodar. À noite é chato, porque eles tentam dormir. Mas aquilo é uma boa porcaria. Apetecia-me roer aquele despertador. Se não tivesse apanhado um choque, ao roer o fio das luzes do pinheiro de Natal, quando era pequeno, roía-o já. E também já não tenho os dentes de um cão com dois anos. Naquele tempo é que era: roía as pernas das mesas e das cadeiras. Agora, até a comida de cão tem que ser passada. Faz-me lembrar o Farrusco, ali da esquina, que já usa placa. Noutro dia, ficou com os dentes espetados numa bola de borracha. Os gatos brincaram com os dentes dele toda a tarde.”

O dono sai da cama e vai para o banho.

“Os humanos são misteriosos. Inventaram os carros, as naves espaciais, a internet e o telemóvel, mas acordam com uma caixa barulhenta e vão para a banheira, logo a seguir. Nunca percebi para que serve tomar banho. Levar com água no focinho. Os tubarões cheiram a peixe e são os reis do mar. Os ursos não tomam banho e deitam árvores abaixo só com um peido. O leão não toma banho e come zebras. Os humanos tomam banho e têm gripes. Sou só eu a ver as evidências?”

O dono toma o pequeno-almoço.

“Vá lá, dá-me um bocado de pão. Eu sei que faz mal, mas tu também fumas e isso é pior do que pão. Deixa-me os sofás a cheirar a tabaco, ainda por cima. Já não durmo naquele sofá há quase um ano. Se não tivesse ficado mal disposto, quando comi uma almofada, em pequeno, roía o sofá. Vá lá, dá-me um bocado de pão.”

O carteiro toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au… Não sei quem é este gajo, até parece ser útil, porque traz umas cartas e tal. Mas um desconhecido à porta activa-me aqui uma zona do cérebro que me faz ladrar. Olha ali uma bucha de pão, vou só ali… (A campainha toca) Au, au, au, au, au, au… Ladrar a um desconhecido é tipo espirrar muitas vezes: é irritante mas viciante.”

O Bobby vai à rua.

“Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua! Fazer xixi em todos os sítios possíveis. Até em cima de um gato. Assim, o território fica todo marcadinho. E o gato fica a cheirar mal. Ei, olha um gato. Se não tivesse ficado com espinhos na garganta, em pequeno, depois de ter comido um ouriço, comia aquele gato. Não vou olhar para ele, nem ladrar-lhe, para ele ficar… Au, au, au, au, au, au… É mais forte do que eu.”

O dono sai de casa.

“Sou o dono desta casa. Eu é que mando. Posso fazer o que quiser. Posso rebolar no sofá. Roer um chinelo. Posso fazer uma visita ao despertador. Ah, eu é que mando…”

O Bobby dorme toda a tarde. O dono chega.

“Ei, dormi a tarde toda, não aproveitei nada… Espera… Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua!”

Antes de sair, o dono vai ao quarto e vê o despertador no chão. Chama pelo Bobby.

“Ei, merda, vou fazer de conta que estou a dormir… Ele é capaz de nem reparar em mim, aqui no tapete da entrada.”

 Alguém toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au…”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A revolta do mexilhão

Noticiava o Público online, no dia 4, que “Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhão sustentável”. Li o título três vezes, para despistar qualquer engano meu. Era mesmo aquilo.

No dia seguinte, a mesma fonte citava Passos Coelho, que dissera que “apesar da crise, quem se lixou não foi o mexilhão”.

Peguei no telefone e fiz todos os esforços para chegar a um contacto: o Texto Incompleto conseguiu uma entrevista exclusiva com o representante dos mexilhões portugueses.

- É verdade que quem se lixou não foi o mexilhão?

- Não é bem assim. Não está fácil ser mexilhão em Portugal. Um gajo paga os impostos, põe os filhos a estudar e acaba no prato de um turista inglês. Não está fácil.

- Mas, tanto quanto sei, o mexilhão é sustentável em Portugal.

- È o mexilhão grande. O que tem dinheiro. São mexilhões que nascem em casca de ouro. Têm tudo feito para serem bem sucedidos. Metem-se nos partidos e arranjam tachos bons. Nós só arranjamos tachos de restaurantes visitados por turistas ingleses.

- E não houve melhoria, nos últimos anos?

 - Tal como acontece com as pessoas, na nossa sociedade há um sentimento de que só os foleiros se safam. E sabe porquê? Porque os turistas ingleses não comem mexilhões foleiros.

- Qual é o modelo de sociedade que defende?

- A do mexilhão inglês.

- Por causa do serviço de saúde? Do sistema de educação? Da carga tributária?

- Não, porque os ingleses não comem mexilhões da terra deles e vêm comer os mexilhões portugueses.

- Mas só me vai falar dos turistas ingleses? Isto é uma entrevista séria.

- Tem razão, peço desculpa. É importante falar de outras coisas como, por exemplo, o mexilhão que acaba no prato de um turista alemão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O meu carregador do iPhone

Uma das características mais comuns, entre os utilizadores do iPhone, é a dependência do carregador. Um utilizador deste tipo de telefone precisa tanto do carregador como o próprio telefone. Tal fica a dever-se a dois factos: a bateria do iPhone dura 17 minutos e um carregador compatível é mais raro do que uma trufa.

Aliás, se é verdade que existem porcos treinados para encontrar trufas na floresta, não é menos verdade que já haja quem os treine para encontrarem um carregador.

Conheço um bar onde os clientes se digladiam por uma ficha, por um carregador, por mais cinco pontos percentuais de bateria. Pergunto-me como teriam sido alguns momentos da História, se o Iphone existisse.

Construção do Muro de Berlim
“Vamos dividir a Alemanha em duas, que isto está cheio de má vizinhança.” O muro é construído, famílias são separadas. De repente, uma figura de proa do Governo repara que deixou o seu carregador do outro lado. Muro abaixo e, em minutos, uma só Alemanha, famílias reunidas, bateria a carregar.

Ida à Lua
Milhões de dólares investidos no programa espacial, vaivém lançado com sucesso. Neil Armstrong pega no iPhone e nota que não tem bateria. Pede um carregador a Buzz Aldrin e fica a saber que este também não tem nenhum. Missão abortada, trajectória invertida e vaivém de regresso. Ao enfrentar os jornalistas, Armstrong justifica-se: “A Lua pode esperar, estou com 3% de bateria”.

Crise do petróleo de 1973
A Organização dos Países Produtores de Petróleo supervaloriza o “ouro negro”. A economia mundial pode colapsar. Porém, durante uma cimeira que se previa inconclusiva, um governante de um daqueles países está prestes a ficar sem bateria no iPhone. Pede a um assessor para lhe trazer um carregador. “Não temos carregadores.” O pânico instala-se e, rapidamente, há um acordo para baixar o preço, de uma vez, porque os telefones estão com uma média de 8% de bateria e é preciso ir carregá-los. A economia mundial tem uma segunda oportunidade.

Golo de Maradona à Inglaterra, no Mundial de 1986
No Estádio Azteca, na Cidade do México, um argentino filma o jogo com o seu iPhone. Diego Maradona recebe a bola no meio-campo, faz uma rotação e arranca, deixando dois adversários para trás. Até à grande área, deixa mais dois, enfrenta o guarda-redes e tira-o do caminho. O iPhone desliga-se, sem bateria, e o golo não é filmado. Depois desse dia, o adepto argentino entra numa espiral descendente, pela dependência do carregador. Nunca mais consegue sair de casa, com medo de ficar sem bateria.

E se o Batman tivesse um iPhone?

O Homem-Morcego vai na Batnave até ao centro de Gotham City, aterra no topo de um arranha-céus, desce na batcorda até à rua, entra no batmóvel, persegue um grupo de bandidos até um armazém, entra sem ninguém dar por ele e neutraliza todos os criminosos. Todos, menos um, porque no momento decisivo, pega no iPhone, para chamar a polícia, nota que está sem bateria, procura o batcarregador, mas não o tem consigo. Volta rapidamente ao carro, procura o carregador de ligar no isqueiro, mas nem esse traz. Volta para casa e, por uma noite, o crime vence em Gotham.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

E se os heróis fossem passear?

Durante este fim-de-semana, decorreu em Matosinhos a Comic Con, uma conferência dedicada à banda desenhada, aos filmes, séries e videojogos. Nos Estados Unidos, existe uma grande tradição de aparecerem fãs vestidos a rigor, imitando as suas personagens favoritas.

E se as personagens fossem à Comic Com?

Batman
O Cavaleiro Negro chega no seu Batmóvel. Um fã olha para o carro, uma peça de artilharia com quase mil cavalos de potência e diz “Grande coisa... Em 2005, um gajo trouxe um carro melhor. Mesmo aquele fato… Nunca passaria por Batman, este banana”. O Batman percorre os vários stands da feira e ninguém lhe presta atenção. Um miúdo chega junto dele e diz: “O Batman é mais alto. Aposto que te dava uma tareia”.

Super-Homem
O último filho de Krypton chega a voar. Um fã, vestido de Homem-Aranha, comenta com um amigo que “aquele voar é um planar foleiro”. “Aquilo foi inventado há uns anos, parece que o truque é os fios serem fininhos e transparentes”, acrescenta. Um carro despista-se, embate numa torre de iluminação e esta cai em cima do Homem de Aço, estilhaçando-se. “Boa, uma torre de esferovite. Faz-se muito no cinema”, comenta o fã.

Hulk
Bruce Banner vai à Comic Con. Ninguém dá pelo cientista que, quando se enerva, se transforma num monstro verde. Visita vários stands, tira fotografias com alguns bonecos que encontra na feira, vai comer um cachorro quente a uma barraca, faz um telefonema, compra alguns livros de banda desenhada e vai embora. A três quilómetros da Comic Con, um gajo bate no carro dele e ainda o insulta. No dia seguinte, nas notícias, é dito que Hulk voltou a aparecer, deixando um rasto de destruição à sua passagem.

Darth Vader
O lendário vilão de “Star Wars” chega e faz-se silêncio. Ouve-se aquela respiração característica. Toda a gente sente a presença da Força. Ninguém se mexe. Darth Vader move alguns objectos, com o poder da mente, da Força e de um gajo que decidiu arrastar um vaso, por estar no meio do caminho. De repente, toca o telemóvel do vilão. Era o mecânico. “Pode vir buscar a sua Estrela da Morte. Era um problema nos injectores, está como nova, pronta para explodir com os planetas. São 150 mil euros”. A Força começa a sofrer perturbações...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

E se as coisas mudassem de lugar?

E se, um dia, acordássemos e os pombos dissessem poemas de Fernando Pessoa, em vez de fazerem cocó nas estátuas? E se eles dissessem poemas, enquanto faziam cocó nas estátuas? Com ou sem cocó, ganhava a poesia e a cultura, em geral. E isso também é bonito.

Bom, isto não vem ao caso, porque o cenário que gostaria de elaborar tem a ver com linguagem, sim, mas não com aves. E se, um dia, os escritores trocassem de discurso com os treinadores de futebol? Teríamos um dia divertido.

Treinador a falar como um escritor
A equipa tem que sentir alguma coisa, tem que sofrer, tem que se superar. Temos que transmitir uma mensagem, com o nosso futebol. Temos que representar o nosso tempo, o nosso viver, a nossa alma, enquanto povo. Temos que afirmar uma certa contemporaneidade, no nosso jogo. Temos que questionar o sentido do próprio jogo, quebrando barreiras, avançando, criando. Jogar, hoje, é questionar. O jogo caminha para uma ausência de jogo. O vazio é o único destino.

Escritor a falar como um treinador
Trabalhei bem durante a pesquisa, previ várias situações e tentei evitá-las. Entrei bem na escrita e dominei a narrativa, durante toda a primeira parte do livro. Podia ter chegado ao intervalo com mais páginas de avanço, relativamente ao planeado. Mas, na segunda parte, acusei algum cansaço e não pude contrariar a tendência da história. No fim, defendi com o que pude. Acho que o resultado acaba por ser positivo, tendo em conta as condicionantes.

E se, um dia, os políticos trocassem de discurso com os mecânicos? Seria igualmente divertido.

Mecânico a falar como um político
O teu carro tem um futuro. O teu carro merece um futuro. Fez quilómetros e quilómetros, esteve contigo em momentos importantes. É por isso que lhe quero dar uma segunda vida, um renascer, uma nova válvula de injecção e uma correia de distribuição. O teu carro tem a força para dar a volta por cima e é com isso que vamos encontrar soluções. Vou trabalhar no sentido do progresso. Só preciso que me pagues. Esse é o único voto de que preciso. É aquele que vou honrar.

Político a falar como um mecânico
Oh pá, a economia tá fodida. Esgaçaste isto de uma maneira que eu, em trinta anos de política, nunca tinha visto. Não sei o que andaste a fazer para rebentar com esta merda toda. Aviso-te já que vai ser uma trabalheira resolver isto. E vai ficar caro. Se calhar, nem vale a pena recuperar o país, mais vale comprar um novo. Digo-te isto como amigo. E mais: só vou poder pegar neste país lá para o fim da próxima semana, ando cheio de trabalho. Olha para isto: recessão, 2,5%, défice 9%. Como é que querias que isto aguentasse? Esgaçaste a economia. Nunca vi um país tão fodido. Mas vamos ver o que se arranja. Eu ligo-te, para a semana.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quando percebes que és um ignorante

Uma das maiores provas de que percebemos ou não de um determinado assunto é a linguagem. Existem palavras (ou “vocábulos”, que eu também posso tentar transmitir uma imagem de proficuidade na gestão dos recursos linguísticos que tenho à disposição) que são usadas preferencialmente pelas pessoas que percebem de um determinado assunto.

À excepção do Pacheco Pereira, que até pode dizer “bidé”, sem que isso belisque a sua imagem, ou do Chuck Norris, que pode não dizer nada, sem prejuízo da sua espectacularidade. (Aliás, se colocares em causa a sua espectacularidade, ele continua sem dizer nada e dá-te um pontapé.)

Voltando aos vocábulos, aqui ficam algumas situações em que percebes que és um ignorante. Vais arranjar o computador. Entras na loja de reparações e dizes “o meu computador avariou”. O técnico diz “deixe ficar a máquina”. Foste rebaixado. És o palerma na loja.

Também pode acontecer num espaço de venda de produtos electrónicos. Perguntas “quando chega o computador que eu encomendei?” e ouves “o equipamento chega Quinta-feira”. Percebes que os computadores, quando são para vender, são “equipamentos”, quando avariam, são “máquinas”. És palerma na mesma.

Falas com um militar acerca de um filme. Dizes que “o gajo ficou sem balas”. Ouves “balas, não, munições”. Foste rebaixado. Se o teu país for invadido, não tens utilidade. És lixo.

Vais a um bar de gin. Perguntas ao “barman” quantas marcas de gin tem e ouves “temos 150 referências de gin”. Bebe água. Não percebes nada, não vais apreciar. Vai para casa cedo.

Também podes falar com um enólogo e dizer “o vinho daquele ano não foi tão bom”. Ouves “aquela colheita foi problemática”. Volta ao bar de gin e pede uma água.

Paras numa “operação stop”. Ouves o polícia dizer “encoste a viatura”. Cuidado, estás numa viatura, é mau sinal. (Se não souberes o que é uma viatura, então podes estar bêbado. Arranca e esconde-te em qualquer lado.)

Estás a ver futebol e, em vez de contra-ataques, há uma equipa que faz “transições ofensivas”. Percebes que deixaste de saber o que quer que fosse, acerca do teu desporto preferido. Mudas de canal e está a dar um filme em que o Chuck Norris enfrenta um tiroteio e diz “vou entrar naquela viatura, porque estou a ficar sem munições”. O teu mundo começa a perder o sentido. Dizes “isto é uma merda!”. Alguém diz: “De facto, a vida tem bastantes excrementos”.

Rebaixado. Outra vez.