O silêncio de um sono profundo. O barulho horrível de um
despertador. O Bobby acorda e olha para a cama
do dono. Começa um dia, na vida de um cão.
“Não percebo esta gente. Têm aquilo
a tocar de manhã, que seca, podiam pôr durante a tarde. Pensando bem, de tarde
eu durmo, também ia incomodar. À noite é chato, porque eles tentam dormir. Mas
aquilo é uma boa porcaria. Apetecia-me roer aquele despertador. Se não tivesse
apanhado um choque, ao roer o fio das luzes do pinheiro de Natal, quando era
pequeno, roía-o já. E também já não tenho os dentes de um cão com dois anos. Naquele
tempo é que era: roía as pernas das mesas e das cadeiras. Agora, até a comida
de cão tem que ser passada. Faz-me lembrar o Farrusco, ali da esquina, que já
usa placa. Noutro dia, ficou com os dentes espetados numa bola de borracha. Os gatos
brincaram com os dentes dele toda a tarde.”
O dono sai da cama e vai para o
banho.
“Os humanos são misteriosos.
Inventaram os carros, as naves espaciais, a internet e o telemóvel, mas acordam
com uma caixa barulhenta e vão para a banheira, logo a seguir. Nunca percebi
para que serve tomar banho. Levar com água no focinho. Os tubarões cheiram a
peixe e são os reis do mar. Os ursos não tomam banho e deitam árvores abaixo só
com um peido. O leão não toma banho e come zebras. Os humanos tomam banho e têm
gripes. Sou só eu a ver as evidências?”
O dono toma o pequeno-almoço.
“Vá lá, dá-me um bocado de pão. Eu
sei que faz mal, mas tu também fumas e isso é pior do que pão. Deixa-me os
sofás a cheirar a tabaco, ainda por cima. Já não durmo naquele sofá há quase um
ano. Se não tivesse ficado mal disposto, quando comi uma almofada, em pequeno,
roía o sofá. Vá lá, dá-me um bocado de pão.”
O carteiro toca à campainha.
“Au, au, au, au, au, au… Não sei
quem é este gajo, até parece ser útil, porque traz umas cartas e tal. Mas um
desconhecido à porta activa-me aqui uma zona do cérebro que me faz ladrar. Olha
ali uma bucha de pão, vou só ali… (A campainha toca) Au, au, au, au, au, au…
Ladrar a um desconhecido é tipo espirrar muitas vezes: é irritante mas
viciante.”
O Bobby vai à rua.
“Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua! Fazer xixi em todos os sítios
possíveis. Até em cima de um gato. Assim, o território fica todo marcadinho. E
o gato fica a cheirar mal. Ei, olha um gato. Se não tivesse ficado com espinhos
na garganta, em pequeno, depois de ter comido um ouriço, comia aquele gato. Não
vou olhar para ele, nem ladrar-lhe, para ele ficar… Au, au, au, au, au, au… É
mais forte do que eu.”
O dono sai de casa.
“Sou o dono desta casa. Eu é que
mando. Posso fazer o que quiser. Posso rebolar no sofá. Roer um chinelo. Posso
fazer uma visita ao despertador. Ah, eu é que mando…”
O Bobby dorme toda a tarde. O dono
chega.
“Ei, dormi a tarde toda, não
aproveitei nada… Espera… Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua!”
Antes de sair, o dono vai ao quarto e vê o
despertador no chão. Chama pelo Bobby.
“Ei, merda, vou fazer de conta
que estou a dormir… Ele é capaz de nem reparar em mim, aqui no tapete da
entrada.”
Alguém toca à campainha.
“Au, au, au, au, au, au…”