Noticiava o Público online, no
dia 4, que “Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhão sustentável”.
Li o título três vezes, para despistar qualquer engano meu. Era mesmo aquilo.
No dia seguinte, a mesma fonte
citava Passos Coelho, que dissera que “apesar da crise, quem se lixou não foi o
mexilhão”.
Peguei no telefone e fiz todos os
esforços para chegar a um contacto: o Texto Incompleto conseguiu uma entrevista exclusiva com o representante dos mexilhões portugueses.
- É verdade que quem se lixou não
foi o mexilhão?
- Não é bem assim. Não está fácil
ser mexilhão em Portugal. Um gajo paga os impostos, põe os filhos a estudar e
acaba no prato de um turista inglês. Não está fácil.
- Mas, tanto quanto sei, o
mexilhão é sustentável em Portugal.
- È o mexilhão grande. O que tem
dinheiro. São mexilhões que nascem em casca de ouro. Têm tudo feito para serem
bem sucedidos. Metem-se nos partidos e arranjam tachos bons. Nós só arranjamos
tachos de restaurantes visitados por turistas ingleses.
- E não houve melhoria, nos
últimos anos?
- Tal como acontece com as pessoas, na nossa
sociedade há um sentimento de que só os foleiros se safam. E sabe porquê?
Porque os turistas ingleses não comem mexilhões foleiros.
- Qual é o modelo de sociedade
que defende?
- A do mexilhão inglês.
- Por causa do serviço de saúde?
Do sistema de educação? Da carga tributária?
- Não, porque os ingleses não
comem mexilhões da terra deles e vêm comer os mexilhões portugueses.
- Mas só me vai falar dos
turistas ingleses? Isto é uma entrevista séria.
- Tem razão, peço desculpa. É
importante falar de outras coisas como, por exemplo, o mexilhão que acaba no
prato de um turista alemão.