E se, um dia, acordássemos e os pombos dissessem poemas de
Fernando Pessoa, em vez de fazerem cocó nas estátuas? E se eles dissessem
poemas, enquanto faziam cocó nas estátuas? Com ou sem cocó, ganhava a poesia e a cultura, em geral. E isso também é bonito.
Bom, isto não vem ao caso, porque o cenário que gostaria de
elaborar tem a ver com linguagem, sim, mas não com aves. E se, um dia, os
escritores trocassem de discurso com os treinadores de futebol? Teríamos um dia
divertido.
Treinador a falar como um escritor
A equipa tem que sentir alguma coisa, tem que sofrer, tem
que se superar. Temos que transmitir uma mensagem, com o nosso futebol. Temos
que representar o nosso tempo, o nosso viver, a nossa alma, enquanto povo.
Temos que afirmar uma certa contemporaneidade, no nosso jogo. Temos que
questionar o sentido do próprio jogo, quebrando barreiras, avançando, criando.
Jogar, hoje, é questionar. O jogo caminha para uma ausência de jogo. O vazio é
o único destino.
Escritor a falar como um treinador
Trabalhei bem durante a pesquisa, previ várias situações e
tentei evitá-las. Entrei bem na escrita e dominei a narrativa, durante toda a
primeira parte do livro. Podia ter chegado ao intervalo com mais páginas de
avanço, relativamente ao planeado. Mas, na segunda parte, acusei algum cansaço
e não pude contrariar a tendência da história. No fim, defendi com o que
pude. Acho que o resultado acaba por ser positivo, tendo em conta as
condicionantes.
E se, um dia, os políticos trocassem de discurso com os
mecânicos? Seria igualmente divertido.
Mecânico a falar como um político
O teu carro tem um futuro. O teu carro merece um futuro. Fez
quilómetros e quilómetros, esteve contigo em momentos importantes. É por isso
que lhe quero dar uma segunda vida, um renascer, uma nova válvula de injecção e uma correia de distribuição.
O teu carro tem a força para dar a volta por cima e é com isso que vamos
encontrar soluções. Vou trabalhar no sentido do progresso. Só preciso que me pagues. Esse é o único voto de que
preciso. É aquele que vou honrar.
Político a falar como um mecânico
Oh pá, a economia tá fodida. Esgaçaste isto de uma maneira
que eu, em trinta anos de política, nunca tinha visto. Não sei o que andaste a fazer para rebentar com esta merda toda. Aviso-te já que vai ser
uma trabalheira resolver isto. E vai ficar caro. Se calhar, nem vale a pena
recuperar o país, mais vale comprar um novo. Digo-te isto como amigo. E mais:
só vou poder pegar neste país lá para o fim da próxima semana, ando cheio de
trabalho. Olha para isto: recessão, 2,5%, défice 9%. Como é que querias que
isto aguentasse? Esgaçaste a economia. Nunca vi um país tão fodido. Mas vamos
ver o que se arranja. Eu ligo-te, para a semana.