Apesar de estar em desuso, ir ao
cinema tem uma mística especial. É o grande ecrã, o escuro da sala, o som
envolvente que nos transporta para o universo do filme, é a miúda gira que está
ao nosso lado e a quem cedemos gentilmente o apoio de braço da nossa cadeira
(tentando ficar com uma reputação ao nível da do George Clooney) ou a cabeça
enorme do espectador que ficou à nossa frente, que nos tapa parte da imagem.
Pensando bem, é só o grande ecrã,
o escuro da sala, o som envolvente e a miúda gira que está ao nosso lado e a
quem cedemos o apoio de braço.
No cinema há personagens no ecrã
e personagens diante dele. Foi destas, que podem calhar ao nosso lado, que
decidi falar.
Espectador que ri de forma
estranha
Vais ver uma comédia e há um gajo
que tem um riso que fica entre o som da hiena e o do porco, passando pelo da
baleia e pelo do Chewbacca. A sessão duplica de piada: quando o filme está num
momento calmo, ainda há alguém a rir desbragadamente do riso deste espectador.
Espectador que comenta em directo
É uma espécie de IMDb, mas
falante. Vai dizendo a filmografia dos actores principais, o problema de luz
numa determinada cena ou as inconsistências narrativas do filme. Algo como:
“Como é evidente, o Chuck Norris nunca daria cabo de oito gajos em trinta
segundos. Ele fá-lo-ia em dezassete segundos”. É como se o cinema tivesse a
opção “comentários do realizador”, mas sem ser do realizador. Era mais “comentários
de um gajo inoportuno”.
Casal que não vê o filme (tipo A)
Estão duas horas a namorar. Usam
o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos
corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos,
fumam um cigarro no fim e recomeçam, incomodando todos os espectadores daquela
sala e das salas contíguas.
Casal que não vê o filme (tipo B)
Estão duas horas a namorar. Usam
o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos
corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos
orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, sem que ninguém se aperceba.
Espectador que se incomoda com
tudo
Para ele, o cinema é uma
meditação transcendental. Nada o pode perturbar: a respiração do senhor sentado
no lugar 32 da fila D, o perfume da senhora sentada no lugar 17 da fila M, o
batimento cardíaco do senhor sentado no lugar 8 da fila I. O espectador deste tipo chega
a ficar incomodado com a sua actividade cerebral.
Puto que pergunta se aquele é o
“Toy Story”, durante uma hora
Ao fim de uma hora, o pai diz-lhe
que já vai começar e o puto passa uma hora a perguntar “Falta muito?”.
Falaria de outras personagens,
mas o filme, entretanto, acabou.