Na tasca do “Roleta”, toda a
gente queria duas coisas: um telescópio, para uma profícua observação do
espaço, e um transmissor FM, para partilhar o conhecimento sobre Astronomia que
iria ser adquirido. O Manel, especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria,
procurou na net quais os componentes necessários para construir um transmissor.
- Olha que é difícil e caro. Mais
vale comprar um já feito. – Disse.
- Pedimos ao Venâncio. Ele uma
vez arranjou-me a máquina do café. Nunca mais saiu café fraco. – Disse o
“Roleta”.
- Isto é um transmissor, não uma máquina
de café.
- A máquina de café transmite
café. Se fores ver, é parecido.
O telescópio veio primeiro. O
“Mingos” tinha um sobrinho que tinha ficado em terceiro lugar num concurso de
Astronomia, o que lhe valeu, como prémio, um globo terrestre. Mas, acrescentou
o “Mingos”, “como era um puto esperto, gamou o prémio do primeiro classificado,
que era um telescópio todo espectacular”.
Nas primeiras observações,
conseguiram concluir qual o lado que ficava apontado para o céu. Feita esta
primeira extraordinária descoberta, observaram a Cintura de Orion, Vénus ou a
miúda gira que morava no 5.º esquerdo. Fizeram, também, alguns desenhos, como
forma de registar as observações.
Havia apenas uma condição
essencial: os desenhos tinham que ser feitos nos primeiros minutos, porque
depois de toda a gente espreitar pelo telescópio, geravam-se discussões sobre
como devia ser desenhada uma constelação, qual era o corpo celeste mais próximo
ou quem deveria ser o ponta-de-lança do Benfica, no jogo seguinte.
As sessões passaram de duas horas
de observação e meia hora de discussão, para dez minutos de observação, hora e
meia de discussão e meia hora de cerveja e amendoins.
Depois da chegada do telescópio e
de alguma pesquisa, encomendaram um transmissor FM, via Internet. Coube ao
Manel colocá-lo a funcionar. Tentou de uma maneira, de outra, e ainda da
primeira, outra vez, e aquilo não dava. Pediram ajuda ao Venâncio, mas ele só
conseguiu pôr o transmissor a fazer menos barulho, proeza que conseguia
habitualmente com máquinas de café. O sobrinho do “Mingos” deu uma ajuda e o
transmissor começou a ser usado correctamente.
Emitiram desenfreadamente.
Debates, música (discos pedidos pelo “Roleta”, que dizia “Se não pões essa
música, vou ao quadro eléctrico e mando tudo abaixo nesta tasca”) e, de vez em
quando, entrevistas, todas elas ao Presidente da Junta, para ver se ele financiava
uma rádio local.
(O projecto nunca chegou a
acontecer, também porque o “Roleta” não disponibilizou a tasca para estúdio.
Segundo o próprio, o cheiro a fritos iria afastar os convidados.)
Até que se fartaram. Voltaram a
beber cerveja e a discutir coisas mais importantes. Hoje, o telescópio é um
cabide e o transmissor serve de apoio ao expositor onde são colocados os
panados e as pataniscas.