sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Pessoas que precisam de tudo

Existem pessoas a quem tudo dava jeito. Não percebeste? Então não escrevo mais.

Escrevo, escrevo.

Não conheces alguém que, seja qual for o artigo de que lhe fales, te responde: “Olha, por acaso, dava-me jeito um/a”? Eis algumas situações possíveis, com estas pessoas.

Compras um casaco
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Vem aí o frio e a chuva e o meu casaco está velho.”

Compras uma rebarbadora
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer umas obras lá em casa e precisava mesmo de uma rebarbadora.”

Compras um computador
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer uns documentos para o trabalho e o meu computador já está muito lento.”

Compras um porco
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de fazer alguma charcutaria e sem porco é mais complicado. Precisava mesmo de um.”

Compras um Ferrari
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Tenho que fazer muitos quilómetros no meu trabalho e com um super-desportivo fazia-os mais depressa.”

Compras uma nave espacial
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de visitar outros lugares do Sistema Solar, para desanuviar, e precisava mesmo de uma nave.”

Compras o Benfica
“Olha, por acaso, dava-me jeito. Ando a precisar de alguma coisa para me distrair ao fim-de-semana e ter um clube de futebol vinha mesmo a calhar.”

O truque, com estas pessoas, é omitir as compras e perguntar se falta alguma coisa.

- Não, pá, felizmente, tenho tudo do que preciso. É uma sorte.

- Tens a certeza?

- A sério. Pronto, se calhar, precisava de quem me perguntasse se preciso de alguma coisa, para perceber como sou feliz. E como preciso de uma rebarbadora.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pessoas que sabem o que é bom

Existe uma classe de seres humanos pela qual nutro especial admiração: as pessoas que sabem o que é bom. Toda a gente tem um amigo (ou vários, no caso dos mais azarados) que sabe como é que as coisas são boas e, embora aprecie uma determinada coisa, dá sempre  um ou dois conselhos para melhoria da mesma. Vou dar alguns exemplos.

Um jantar de arroz “Pica no Chão”
Toda a gente está a apreciar a comida e muitos até repetem. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, não vou dizer que não, mas o arroz ‘Pica no Chão’ é bom um bocadinho de nada mais soltinho, com duas gotas de limão”. De súbito, o arroz passa a ser mais fraquinho. O amigo que sabe o que é bom estragou o jantar a toda a gente. O arroz passa a parecer cocó.

Uma noite numa esplanada
Toda a gente concorda que o tempo está agradável. O amigo que sabe o que é bom diz: “Está-se bem aqui, mas isto era mesmo bom só com um bocadinho mais de vento, não era preciso muito, só um bocadinho”. De repente, toda a gente fica com calor. Uma das pessoas é imediatamente picada por um mosquito. A noite na esplanada torna-se uma sauna ao ar livre.

Um gajo compra uma nova televisão e convida os amigos para jogar FIFA
Toda a gente está maravilhada com a possibilidade de jogar FIFA num ecrã daquele tamanho. Dá para ver os pormenores todos do jogo e tirar partido da capacidade da Playstation 4. O amigo que sabe o que é bom diz: “Isto está bom, mas para ser mesmo bom, a televisão tinha que estar um bocadinho mais afastada do sofá, só um bocadinho. E acho que a televisão precisa de um ajuste de cor. Quase nada, mas precisa”. De repente, um dos jogadores de FIFA sofre um golo estúpido. É gozado e passa-se da cabeça. Começa tudo a discutir. Uma noite de FIFA passa a ser uma sessão de trabalho forçado.

Um grupo de amigos visita o Louvre
Toda a gente está satisfeita com a visita. Uns gostam mais de uns quadros, outros gostam mais de outros. O amigo que sabe o que é bom diz: “Não digo que os quadros não sejam bons, mas estão mal iluminados. Precisavam de um bocadinho mais de luz, quase nada, mas precisavam”. De repente, os quadros parecem os desenhos que fazíamos nos cadernos dos amigos, no tempo da escola.

Um gajo tem um caso com a Charlize Theron

Todos os amigos o felicitam pela proeza. O amigo que sabe o que é bom diz: “Ela é gira, não digo que não, mas podia ter um bocado mais de mamas. Só um bocadinho”. De repente, a Charlize parece feia. Parece um “Pica no Chão” sem limão. Parece cocó.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O telemóvel que sabia tudo

Quando recebeu o telemóvel, o “Roleta” ficou desconfiado.

(O “Roleta” tinha esse nome devido a uma frase sua que ficara famosa, na aldeia de Bordalheira de Cima: “A vida é como a roleta, às vezes sai vermelho, às vezes sai o 17”.)

- As chamadas são caras? – Perguntou.

- Não vais telefonar, “Roleta”, isto é só um teste – Respondeu o Manel.

- Um teste? É difícil?

- Não. Só tens que fazer o que o telemóvel te diz.

- Foda-se! Já não chega a minha mulher pra me dar cabo da cabeça?

O Manel especialista em tecnologia, Aikido e charcutaria, criara um telemóvel que, através de um sistema de inteligência artificial, iria ajudar as pessoas em vários capítulos da sua vida. O aparelho interagia permanentemente com o utilizador.

Assim que ligou o telemóvel, o “Roleta” passou a ser uma cobaia. Entrou o primeiro cliente na tasca e, em vez de o “Roleta” lhe perguntar “O que era?”, olhou para o ecrã do telemóvel e disse “Boa tarde, em que posso ajudar?”.

Toda a gente ficou impressionada. Quase toda a gente: o Chico tinha adormecido, ao fim da terceira malga de vinho.

À hora do almoço, o “Roleta” olhou para o telemóvel e começou a comentar o telejornal. A situação na Síria, a sonda que pousou num cometa, as medidas do Governo japonês para o crescimento da economia, o onze do Benfica.

(O onze do Benfica ele já sabia, não havia telemóveis que soubessem mais do que ele.)

Durante a tarde, leu Dostoyevsky, na versão em Russo, e ouviu Schubert. Contemplou a Natureza. Escreveu um poema sobre o “ocaso da luz sobre a planície”.

Peidou-se, não sem antes se certificar de que não havia ninguém por perto.

(O telemóvel tornava-o mais culto, mas não menos humano.)

À noite, continuou a receber os clientes da tasca com educação. No intervalo do futebol, disse um poema de Carlos Drummond de Andrade. Durante a segunda parte, e para espanto de toda a gente, levantou-se e saiu do lugar. O Benfica estava empatado, 0-0.

- Aonde vais, “Roleta”?

O telemóvel ia sugerir três formas de dizer a verdade, de forma extremamente educada. Mas a bateria acabou antes disso. O “Roleta” olhou para o aparelho, desligado, olhou para os clientes, que aguardavam, entrou em pânico e não soube o que dizer.

Até que teve uma ideia.

- Oh pá, tenho mesmo que ir cagar.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O sítio para onde vão as sondas

Há dias, uma sonda espacial pousou num cometa, pela primeira vez, na História. Não foi uma “aterragem”, foi uma “acometagem”. Se a sonda pousasse num jardim, seria uma “ajardinagem”. Se caísse em cima de um sacana, seria uma “assacanagem”.

Pronto, era isto que queria escrever. Não era nada.

Nunca me explicaram para onde vão as sondas, depois de concluídas as suas missões. Vou avançar com uma explicação credível, influenciada pelo facto de estar bastante curioso para ver o filme “Interstellar” (só não o vi porque eu e uns amigos nos enganámos no horário da sessão, o que constituiu uma estupidez ou, na lógica do filme, uma ruptura no espaço-tempo que nos colocou noutra dimensão, que não a da sala de cinema).

As sondas vão para um planeta distante, inabitado. Mentira: é um planeta distante, agora habitado por sondas.

As mais velhas ficam com os lugares de chefia da tribo das sondas. Mandam em tudo e colocam as sondas amigas em lugares de relevo. Só não lhes chamam “tachos” porque um tacho é um objecto que, para uma sonda espacial, não faz sentido. Chamam-lhes “depósitos”.

“O UY75FJL ainda há pouco chegou e já foi para chefe de departamento. Foi um amigo que lhe arranjou. Que rico depósito… Só queria um para mim.”

Têm rodas com algum desgaste e já não fazem grandes distâncias. Já não estão para se chatear. Apanhar uma pedra do chão, para recolher dados, é algo agora mais difícil: as costas das sondas velhas não as deixam abaixar-se com facilidade.

As sondas mais jovens estão cheias de energia, mas não sabem nada da vida de sonda. “São sondas novas, não pensam”, dizem as mais velhas. “Só querem festivais.” Um festival de sondas é uma planície cheia de sondas que ingeriram óleos adulterados. Ficam tontas, andam à roda, abraçam-se e dizem “Oh mano, somos amigos ou não somos?”. Algumas, em vez de apanharem pedras do chão, atiram-nas às outras. Depois, acabam todas à chapada. Mentira: à “pinçada” e à "pazada", que as sondas têm pinças e pás.

Enquanto que os seres humanos querem subir na vida, as sondas querem descer: uma sonda bem sucedia aterra, ou aluna, ou acometa. Descer é bom, na vida de uma sonda.

A sonda mais velha de todas, a primeira a ir ao espaço, lidera a tribo das sondas e difunde a sua mensagem há dezenas de anos.

“Um dia, vamos apanhar um humano, colocar-lhe um propulsor no rabo e vamos mandá-lo para o espaço. Só para ver se ele gosta.”

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um extraterrestre que fala Islandês

Um grupo de extraterrestres andou a estudar alguns países do nosso planeta. Depois disso, houve uma reunião, para partilhar a informação recolhida. O extraterrestre responsável pela Islândia tinha coisas interessantes para dizer.

- Os gajos têm palavras tão grandes que só têm uma obra literária. Foi escrita por 16 autores e demorou umas boas centenas de anos a ser terminada. Quase acabei o prefácio, durante os 10 anos em que lá estive. Mais: o dicionário de Islândês tem 135 volumes. Todos os anos, dezenas de estudantes universitários desistem da licenciatura em Islandês, para procurar outra coisa mais fácil. A maior parte vai para Física Quântica.

- As palavras são assim tão grandes?

- São. A maior é “vaðlaheiðarvegavinnuverkfærageymsluskúraútidyralyklakippuhringur” e quer dizer algo como “o porta-chaves da chave do cadeado da corrente da porta da oficina dos trabalhadores do planalto de Vaðlaheiði”. São 64 letras. Já houve pessoas que se engasgaram, a dizer esta palavra.

- Por ser grande?

- Não, porque a disseram enquanto comiam. Mas isso também pode acontecer com outras palavras, como "bola" ou "volatilidade"...

- O que é "volatilidade"?

- Acho que tem a ver com "volas".

- Adiante. Que outras palavras aprendeste?

- “Ferjunganderfoggesrutifionderganter” quer dizer “gato”. “Gorlendinternorbenfallen” quer dizer “sopa”. Lá, um gajo combina ir ao cinema com uma miúda e tem que se encontrar com ela seis horas antes.

- Para conversar um bocado? Para namorar?

- Não, para dizer “Olá”.

- Como é que fizeste para aprender Islandês?

- Usei uma sonda cerebral. Mas tive um problema.

- Qual?

- Usei numa miúda gira com quem andava a sair e que, por acaso, era professora de Islandês. Mas, para além de aprender Islandês, aprendi a combinar roupa, passei a adorar montras com sapatos, redecorei a minha casa e descobri todos os graus das cores. Só de azul, descobri 82 tipos.

- O que diz a tua t-shirt? “Extergosrenglakendoruntiverparenwartuldorenfolgurterren”?

- “Extraterrestre”. Comprei numa conferência de aficionados de OVNIS. Ganhei esta t-shirt e uma caneca. A caneca não trouxe. Não combinava com os armários da nossa nave.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Um tigre em Paris

Ontem, a notícia explodiu como uma bomba (mas uma bomba de Carnaval, não uma bomba daquelas que estragam tudo): andava um tigre à solta em Paris. A proveniência do animal era desconhecida.

Um habitante local afirmou ao “Texto Incompleto” que o animal tinha um sotaque que indiciava uma proveniência alemã.

“O tigre era alemão, de certeza. Até porque roubou um frasco de salsichas, numa barraca de cachorros”, afirmou o morador, que pediu o anonimato, embora o “Texto Incompleto” saiba que se chama Pierre Eiffel (não tem relação familiar com o senhor que desenhou a torre).

O tigre foi avistado, inicialmente, num parque de estacionamento. Embora a polícia não tenha conseguido apurar qual era o carro do animal, suspeitava-se que seria um Mercedes ou um BMW, porque um tigre alemão só conduziria um carro topo de gama fabricado no mesmo país.

Depois de termos comprado cinco quilos de carne, procurámos o tigre em Paris, encontramo-lo e ele aceitou explicar-nos o que fazia na capital francesa.

“Vim em passeio, mas um pouco em negócios, também. Não sou alemão, sou austríaco, mas para os incultos dos franceses, é a mesma coisa. Até com o Hitler, que era um gajo conhecido, fizeram confusão, quanto mais com um simples tigre”, afirmou o felino de grande porte.

O motivo de estar num parque de estacionamento também foi esclarecido, com algum humor. “Não trouxe carro, apenas procurava um sítio escondido para fazer necessidades. Um tigre na rua já causa espanto, a fazer cocó ainda mais.”

Sobre Portugal, o tigre austríaco tem pouco a dizer. “Nunca visitei o vosso país. Mas já vi fotos na net do cabrito e do cozido à portuguesa e tenho que experimentar. Nada se compara a uma zebra acabada de caçar, mas isso não quer dizer que a vossa comida não seja boa”.


A entrevista foi, subitamente interrompida, porque o tigre tinha um encontro com um elefante, em Lyon, e tinha que se dirigir, rapidamente, para a estação de caminho-de-ferro.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Comprar amor com iPhones

Um homem gastou 64 mil euros, mais coisa, menos coisa, em 99  iPhone 6, para oferecer à namorada, como pedido de casamento. Ela recusou o pedido.

Este texto poderia ficar por aqui. Duas linhas seriam suficientes para garantir a total hilariedade do tema. Tudo o que eu escrever, daqui por diante, vai estragar o momento. Mesmo assim, vou fazê-lo.

O “sortudo” é informático. E isso diz muita coisa. “Quero pedir a minha namorada em casamento. O que faço? Dou-lhe um anel? Organizo um jantar romântico e faço-lhe uma surpresa? Levo-a a passar o fim-de-semana a um sítio bonito? Naaa, vou escrever-lhe um programa de computador em C++ ou em Java a dizer-lhe como gosto dela. Uma espécie de jogo em que ela tem que percorrer várias fases, todas divertidas, até chegar ao pedido. Hmmm… isso dá muito trabalho. Vou juntar dinheiro equivalente a 17 salários e vou oferecer-lhe 99 iPhones”.

Ela disse “Não” e toda a gente ficou a pensar “Que insensível!”. Calma, é preciso conhecer as razões dela. O “Texto Incompleto” conseguiu uma entrevista exclusiva com a mulher.

- Por que motivo recusou o pedido?

- Ele sabe que eu detesto telefones brancos. Não podia ter falhado nisso.

- Mas recusou só pela cor?

- Sim, porque assim o pedido não foi perfeito. Para além disso, gosto do meu iPhone 5 e não sei se quero um 6. Ainda não estou segura da fiabilidade do aparelho.

- O facto de ele ter investido o equivalente a de 17 meses de salário neste pedido não contou?

- Tenho uma amiga cujo namorado nem um salário gastou, mas ofereceu-lhe um bonsai em forma de coração. Isso sim, é amor. Para além disso, deu-lhe um anel, um pouco piroso, mas valeu pelo gesto.

- O seu namorado perdeu a hipótese de casar consigo?

- Não. Se ele me escrever um programa de computador em C++ ou em Java a dizer-me como gosta de mim, talvez tenha uma hipótese.

- Um programa de computador?

- Sim. Uma espécie de jogo em que eu tenha que percorrer várias fases, todas divertidas, até chegar ao pedido. Isso sim, é ser criativo, é fazer algo para mim. E não comprar-me com iPhones.

- Só para terminar: sabe o que vai ele fazer aos iPhones?

- Sei. Devolvê-los na loja e oferecer-me um Samsung. Disse-lhe que estou curiosa para experimentar o sistema Android.

- Mas isso não é comprá-la com um Samsung?

- Não, porque eu não pedi. Só sugeri.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quando desligam o microfone

Sempre que uma entrevista televisiva acaba, entrevistador e entrevistado trocam algumas palavras, enquanto a imagem ainda nos mostra o estúdio, antes de passar à publicidade ou ao programa seguinte. Sempre me perguntei de que raio eles falavam, todos sorridentes. Pensei em algumas hipóteses.

Entrevista ao Primeiro-Ministro
São anunciados cortes na despesa do Estado e um aumento de impostos. No fim da entrevista, o Primeiro-Ministro dirige-se ao jornalista. “Sabe, ontem experimentei uma receita de frango bastante boa. É um bocado gourmet, porque fiquei com fome e tive que comer uma sande de presunto, no fim, mas tem a sua piada.”

Aqui, podia ser ao contrário. O Primeiro-Ministro anunciava, em primeira mão, a receita de frango. Depois, no fim da entrevista, dizia ao jornalista o seguinte: “Sabe, vou aumentar os impostos. Largo”.

Entrevista a um treinador de futebol
Um treinador que foi despedido fala sobre os problemas existentes num grande clube. Um verdadeiro escândalo, com problemas entre os jogadores e directores que desestabilizam a equipa. No fim diz: “Mas, lixado, lixado, é o nosso Primeiro-Ministro, que vai aumentar os impostos. Isso e uma dor que tenho numa perna que não me deixa em paz”.

Entrevista a um empresário
Vai comprar dez empresas, mais Júpiter e Saturno. No fim, diz: “Não conhece ninguém que queira comprar um T3 no centro de Lisboa? É bastante jeitoso. Só estou a vender porque o dinheiro dava-me jeito”.

Entrevista ao dono de um banco
São reveladas várias falcatruas que quase levaram o banco à falência. No fim, o dono do banco diz: “É como aquele penalty no jogo do Benfica. Um escândalo!”.

Um ditador
Declara guerra a um país vizinho. Usará armas nucleares, químicas, biológicas, bem como o Son Guku. No fim, diz que está com pressa, porque vai jogar FIFA’15 online, contra o Presidente do país vizinho.

Outra forte hipótese é a que me sugere que as entrevistas estão combinadas e, no fim, entrevistador e entrevistado conversam sobre o decurso da mesma.

- Acho que correu bem. – Afirma o entrevistado.

- Podia ter sido mais claro. É que o Son Goku toda a gente conhece. Mas que raio são armas químicas? – Pergunta o entrevistador.

Seja como for, ninguém me tira da ideia: a parte boa de uma entrevista nunca chega ao público.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O Windows é um brincalhão

Noutro dia, aceitei uma sugestão do meu computador: actualizei o Windows, para a versão 8.1. O processo foi simples, mas mostrou um detalhe que achei curioso: a dada altura, apareceu a mensagem “A instalar mais algumas aplicações”. Ou seja, o Windows estava a dizer que eram só mais umas tralhas, sem importância. Estava quase.

Assim sendo, sugiro à Microsoft que, na versão 9 do Windows, a actualização passe pelos seguintes processos:

“A preparar instalação”
O utilizador decide arrumar umas coisas, para ajudar a passar o tempo.

“A iniciar instalação”
O utilizador liga a televisão.

“A terminar a instalação”
O utilizador, como tem algum sentido de humor, nota que o computador avançou a parte “A instalar a instalação” (um utilizador mais javardo pode complementar esta parte com uma segunda, chamada “A instalar o instalanço da instalação”).

“A instalar mais algumas coisas”
O utilizador pergunta se o computador vai passar a tirar café.

“A instalar ainda mais algumas coisas”
O utilizador pega num martelo.

“A instalar mais algumas coisinhas. A sério, é rápido.”
O utilizador prepara-se para usar o martelo no computador, mas aparece a mensagem “Agora está mesmo quase”.

“Quase”
O utilizador espera.

“Quase”
Espera mais.

“Quase”
É agora: o utilizador vai partir o computador.

“Instalação concluída”
O utilizador rejubila. Vai à varanda e lança três foguetes. Convida os amigos para jantar. Embebeda-se. Finalmente, o seu computador tem Windows 9. O próprio computador transmite a seguinte mensagem “Vês? Não custou assim tanto”.

No fim do dia, o utilizador, já cansado, desliga o computador. Aparece a seguinte mensagem:

“A preparar a preparação do desligamento”…

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Pessoas que são pagas para ensinar a viver

Tenho grande admiração por uma área cujo nome diz muito sobre a sua espectacularidade: “coaching”. Se traduzirmos esta palavra, resulta algo como “treino” ou “instrução”.

A área do “coaching” que mais me fascina é o “coaching da vida, em geral” (esta designação, provavelmente, não existe, mas acho que assenta bem, pelo que a vou manter). São pessoas que nos ensinam a viver.

São pagas para dar conselhos sobre a vida. Algumas, bem pagas. São, por isso, pessoas que sabem como se vive. Pessoas que sabem controlar as emoções. Não se chateiam com o trabalho, não se chateiam no trânsito, não dizem “P*$% que pa#$&!”, quando se queimam numa panela ou quando pontapeiam, apenas com o dedo pequeno do pé, a esquina de um armário.

(Toda a gente sabe que um ser humano provido de vida diz todos os palavrões que consegue nestas duas situações. Existem, também, seres humanos que dizem todos os palavrões que conseguem em todas as situações, mas isso é outra história.)

As pessoas do “coaching” nunca se apaixonam pela pessoa errada. Sabem ser compreensivas. E atenciosas. E pacientes. E que nunca se chateiam quando alguém os desrespeita.

E sabem arranjar o carro e mudar um pneu, numa situação de emergência, mas isso é porque têm um tio que é mecânico.

São pessoas que sabem que a vida é feita de blá blá blá e que os seres humanos têm um comportamento que se define pelo gráfico da função x = (x^2+2x+sen98*cos78*√5784357498574398537)/2. (Caso não descubram o valor de x, vejam a solução na página 548.)

Estas pessoas são pagas para nos ensinar a viver. Direitinho. Sem tropeçarmos. Estas pessoas são como aqueles jogadores de videojogos que sabem os truques todos para não perder vidas e para passar aquele nível difícil.

As pessoas do “coaching”, quando comem um iogurte estragado, não ficam muito mal da barriga e dos intestinos. Porque sabem lidar com isso, com calma e com ponderação. Sabem encaixar os problemas e sair deles sem mazelas.

Ou então, borram-se todas, como nós. Mas sem deixar cheiro na casa-de-banho.

Se fechássemos todas as pessoas do Mundo que fazem “coaching”, numa casa, das duas, uma: ou descobriam o sentido da vida ou matavam-se, na ânsia de mostrar que sabiam o valor de x.

Se alguma tivesse comido um iogurte estragado, ninguém daria por isso.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Zero, o rato transparente

Um grupo de cientistas japoneses desenvolveu uma técnica que permite tornar praticamente transparentes ratos mortos, para que se possa estudar melhor a relação entre os tecidos.

E se a técnica fosse aplicada a um rato vivo? Como seria o dia-a-dia de um rato transparente? Eis a história do Zero.

“Bom dia. Estou numa cama confortável, a menos de meio metro daquele gatinho. Que dorme profundamente e que, quando acordar, vai permanecer muito tranquilo, porque não me consegue ver.

Apetece-me esganá-lo. Mas só estou transparente, não tenho super-força. Vou só correr um bocadinho à volta dele. É melhor não. Ele ainda me acerta com uma pata, sem querer, e depois não consigo fugir. Ainda me dói uma pata, daquela vez que fiquei preso num cano mal arranjado. Dói-me a perna por causa de um canalizador. Não é justo!

Vou até à cozinha… Hmmm, o que temos aqui? Pão, bolachas… Queria algo com mais substância. Ei! Olha ali um prato com feijoada. Que rico! Vou comer com moderação. O meu primo Horácio não pode comer feijão. Incha até ficar como um gato gordo. Depois não passa nos buracos. Um rato que não passa nos buracos é como um computador sem teclado.

Viram como eu percebo de tecnologia? Ser um rato de laboratório tem estas vantagens. Percebo bastante de Astrofísica, Informática e Gastronomia.

Eu sei, eu sei, gastronomia não tem nada a ver com um laboratório, mas um dos cientistas que lá trabalham está a fazer um curso de cozinha.”

O Zero come tudo o que consegue. Depois, vai até ao jardim, onde apanha um pouco de sol. Conta quatro gatos, durante o descanso. Vê um ou outro rato a passar. Chama por eles, só para ver a reacção. Os ratos ficam algo inquietos, ao ouvirem o som de um rato sem verem rato nenhum.

Depois, decide fazer a recolha de alguns alimentos, não vá o efeito da transparência passar e não voltar a ter uma oportunidade para roubar comida.

“O meu primo Horácio, uma vez, ficou mais rápido, depois de comer umas pastilhas que encontrou numa mesa de cabeceira. O burro, em vez de aproveitar, foi dormir. Quando acordou, tinha passado o efeito. O que eu fazia, com super-velocidade. Corria depressa, só para dar um exemplo.”

A recolha foi feita e o Zero voltou ao jardim. Adormeceu. O feijão fez efeito e ele soltou um ou dois gases. Um gato ouviu o barulho e foi ver de onde vinha. Quando Zero acordou, tinha dois gatos junto de si. Fez uma pequena dança, comemorando o facto de estar transparente. Os gatos seguiram-no com o olhar.

Percebeu que não estava transparente. Correu, mas não suficientemente depressa. Estava cheio, do feijão. Horácio assistiu ao triste fim do seu primo.

Sabem quais foram as últimas palavras do Zero? Nenhuma, os ratos não falam.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pessoas que não podem ir ao espaço

A empresa britânica Virgin criou um programa de turismo espacial. Uma nave espacial desenvolvida para o referido programa despenhou-se, Sexta-feira, durante um voo de teste. Richard Branson, o proprietário da Virgin, mostrou-se “profundamente entristecido” com o acidente mas afirmou que o programa de turismo espacial é para manter. Vinte pessoas já desistiram da viagem, desde Sexta-Feira, e pediram o reembolso. Nenhum dos desistentes é português.

Isto é o que foi noticiado. Agora, vamos ao que o “Texto Incompleto” conseguiu apurar.

A esmagadora maioria dos portugueses que não desistiram deu uma explicação óbvia: “Viajamos nas estradas portuguesas diariamente, toda a gente sabe que isso é muito mais perigoso do que ir ao espaço numa nave desenvolvida por uma empresa sem qualquer experiência em viagens espaciais".

Quanto aos desistentes, consegui apurar os motivos de alguns. Nenhum deles relacionou o acidente de Sexta-feira com a desistência. Os entrevistados pediram para a identidade ser omitida, pelo que vou numerá-los.

Desistente 1
“Nesse dia, tenho dentista, e li na net que ir ao espaço com um molar careado pode aumentar as dores em 655%. Assim, não justifica ir ao espaço."

Desistente 2
“Tenho uma despedida de solteiro. O noivo nem é grande amigo, mas é sempre uma oportunidade de acabar num bordel e, quem sabe, não pagar.”

Desistente 3
“Olha ali um monstro!” (Olhei para trás e, quando voltei a olhar para a frente, o Desistente 3 tinha desaparecido.)

Desistente 4
“Vou entrar num torneio de Sueca e a final calha nesse dia. Como a minha equipa tem boas hipóteses de ganhar, vou ficar por cá. Ainda por cima, o prémio são dois presuntos.”

Desistente 5
“Houve um acidente numa nave, na Sexta? Nem sabia. Eu cancelei a viagem porque quero comprar o iPhone 6 e preciso de uns trocos.”

Desistente 6
“Tenho um churrasco, cá em casa, que coincide com um jogo do Benfica. Liguei para os gajos para saber se dava para ver o Benfica, na nave. Não dá, não vou.”

Desistente 7
“No meu horóscopo dizia ‘Evite viagens longas’.”

Desistente 8
“Descobri que o meu lugar era na asa. Não trocaram, agora também não quero.” Disse ao Desistente 8 que tinha havido mais desistências, pelo que, agora, talvez pudessem trocar de lugar. Obtive a seguinte resposta: “Olha ali um monstro!” (Olhei para trás e, quando voltei a olhar para a frente, o Desistente 8 tinha desaparecido.) 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tocar à campainha e fugir

Tocar a uma campainha e fugir é das actividades mais divertidas da vida. Já não faço isso, o que não deixa de me revoltar. Só porque ficamos adultos, qual era o mal de, de vez em quando, podermos tocar a uma campainha e desatar numa corrida desenfreada, como se estivéssemos a fugir de um zombie, de um pitbull ou do Chuck Norris?

(Neste último caso, desiste: o Chuck Norris não corre atrás de ninguém, roda o Mundo como se fosse uma passadeira do ginásio até apanhar a pessoa.)

Claro que houve brincadeiras mais formadoras de cidadãos exemplares. Jogos de futebol ou sessões de “chapada à antiga” formaram a nossa personalidade e aumentaram a nossa agilidade, mental e física. Mas, quando não havia mais opções, tocar à campainha era a solução. Esta actividade era como aquele documentário sobre preguiças, que ninguém quer ver, mas que se torna opção quando nenhum outro canal está a dar algo interessante. (Um documentário sobre preguiças mostra as várias formas de dormir deste animal.)

Tocar à campainha e fugir era uma forma de passar o tempo. Era isso ou estar quieto. Até uma certa idade da nossa vida, estar quieto é estar doente. Depois, para alguns, estar quieto torna-se uma filosofia de vida. (Mas essas pessoas não gostavam de tocar às campainhas.)

Tocar à campainha e fugir é como o “Ocean’s Eleven”, mas sem o glamour de Las Vegas. Há um planeamento.

- Em que campainha tocamos? Na da velhinha do 2.º Esquerdo?

- Não, essa senhora é fixe, devolve a bola quando vai para a varanda dela.

- No gajo do 4.º andar?

- O meu pai diz que esse gajo é cinto negro de Karaté e Judo.

Depois disto, há uma segunda opção a tomar: o momento de tocar. Isto porque, caso um dos amigos não se aperceba do golpe, vai ficar parado em frente à porta do prédio e vai ser ele o “culpado”.

Depois, a melhor parte: a fuga. A adrenalina. A alegria de se ter incomodado alguém. Um joelho esfolado: havia uma casca de banana no chão e um dos nossos amigos não reparou. Nós, que só pisámos cocó de cão, nem nos sentimos tão mal por isso. O joelho esfolado é pior do que cocó de cão. Menos no cheiro.

Vem a isto a propósito dos russos, que andam com aviões e submarinos a tocar às campainhas de vários países e a fugir. Dizem que os russos são maus, mas afinal até parecem divertidos. Só estão a cometer um erro: meter-se com Portugal.

Nós somos o gajo do 4.º andar. Cuidado.