Quando recebeu o telemóvel, o
“Roleta” ficou desconfiado.
(O “Roleta” tinha esse nome
devido a uma frase sua que ficara famosa, na aldeia de Bordalheira de Cima: “A
vida é como a roleta, às vezes sai vermelho, às vezes sai o 17”.)
- As chamadas são caras? –
Perguntou.
- Não vais telefonar, “Roleta”,
isto é só um teste – Respondeu o Manel.
- Um teste? É difícil?
- Não. Só tens que
fazer o que o telemóvel te diz.
- Foda-se! Já não chega a minha
mulher pra me dar cabo da cabeça?
O Manel especialista em
tecnologia, Aikido e charcutaria, criara um telemóvel que, através de um
sistema de inteligência artificial, iria ajudar as pessoas em vários capítulos
da sua vida. O aparelho interagia permanentemente com o utilizador.
Assim que ligou o telemóvel, o
“Roleta” passou a ser uma cobaia. Entrou o primeiro cliente na tasca e, em vez
de o “Roleta” lhe perguntar “O que era?”, olhou para o ecrã do telemóvel e
disse “Boa tarde, em que posso ajudar?”.
Toda a gente ficou impressionada.
Quase toda a gente: o Chico tinha adormecido, ao fim da terceira malga de
vinho.
À hora do almoço, o “Roleta” olhou para o telemóvel e começou a comentar o telejornal. A situação na Síria, a sonda que pousou num cometa, as
medidas do Governo japonês para o crescimento da economia, o onze do Benfica.
(O onze do Benfica ele já sabia,
não havia telemóveis que soubessem mais do que ele.)
Durante a tarde, leu Dostoyevsky,
na versão em Russo, e ouviu Schubert. Contemplou a Natureza. Escreveu um poema
sobre o “ocaso da luz sobre a planície”.
Peidou-se, não sem antes se
certificar de que não havia ninguém por perto.
(O telemóvel tornava-o mais
culto, mas não menos humano.)
À noite, continuou a receber os
clientes da tasca com educação. No intervalo do futebol, disse um poema de
Carlos Drummond de Andrade. Durante a segunda parte, e para espanto de toda a
gente, levantou-se e saiu do lugar. O Benfica estava empatado, 0-0.
- Aonde vais, “Roleta”?
O telemóvel ia sugerir três
formas de dizer a verdade, de forma extremamente educada. Mas a bateria acabou
antes disso. O “Roleta” olhou para o aparelho, desligado, olhou para os
clientes, que aguardavam, entrou em pânico e não soube o que dizer.
Até que teve uma ideia.