Um grupo de cientistas japoneses desenvolveu uma técnica que
permite tornar praticamente transparentes ratos mortos, para que se possa
estudar melhor a relação entre os tecidos.
E se a técnica fosse aplicada a um rato vivo? Como seria o
dia-a-dia de um rato transparente? Eis a história do Zero.
“Bom dia. Estou numa cama confortável, a menos de meio metro
daquele gatinho. Que dorme profundamente e que, quando acordar, vai permanecer
muito tranquilo, porque não me consegue ver.
Apetece-me esganá-lo. Mas só estou transparente, não tenho
super-força. Vou só correr um bocadinho à volta dele. É melhor não. Ele ainda
me acerta com uma pata, sem querer, e depois não consigo fugir. Ainda me dói
uma pata, daquela vez que fiquei preso num cano mal arranjado. Dói-me a perna
por causa de um canalizador. Não é justo!
Vou até à cozinha… Hmmm, o que temos aqui? Pão, bolachas… Queria
algo com mais substância. Ei! Olha ali um prato com feijoada. Que rico! Vou
comer com moderação. O meu primo Horácio não pode comer feijão. Incha até ficar
como um gato gordo. Depois não passa nos buracos. Um rato que não passa nos
buracos é como um computador sem teclado.
Viram como eu percebo de tecnologia? Ser um rato de
laboratório tem estas vantagens. Percebo bastante de Astrofísica, Informática e
Gastronomia.
Eu sei, eu sei, gastronomia não tem nada a ver com um
laboratório, mas um dos cientistas que lá trabalham está a fazer um curso de
cozinha.”
O Zero come tudo o que consegue. Depois, vai até ao jardim,
onde apanha um pouco de sol. Conta quatro gatos, durante o descanso. Vê um ou
outro rato a passar. Chama por eles, só para ver a reacção. Os ratos ficam algo
inquietos, ao ouvirem o som de um rato sem verem rato nenhum.
Depois, decide fazer a recolha de alguns alimentos, não vá o
efeito da transparência passar e não voltar a ter uma oportunidade para roubar
comida.
“O meu primo Horácio, uma vez, ficou mais rápido, depois de
comer umas pastilhas que encontrou numa mesa de cabeceira. O burro, em vez de
aproveitar, foi dormir. Quando acordou, tinha passado o efeito. O que eu fazia,
com super-velocidade. Corria depressa, só para dar um exemplo.”
A recolha foi feita e o Zero voltou ao jardim. Adormeceu. O feijão
fez efeito e ele soltou um ou dois gases. Um gato ouviu o barulho e foi ver de
onde vinha. Quando Zero acordou, tinha dois gatos junto de si. Fez uma pequena
dança, comemorando o facto de estar transparente. Os gatos seguiram-no com o
olhar.
Percebeu que não estava transparente. Correu, mas não
suficientemente depressa. Estava cheio, do feijão. Horácio assistiu ao triste
fim do seu primo.
Sabem quais foram as últimas palavras do Zero? Nenhuma, os
ratos não falam.