Tocar a uma campainha e fugir é das actividades mais divertidas
da vida. Já não faço isso, o que não deixa de me revoltar. Só porque ficamos
adultos, qual era o mal de, de vez em quando, podermos tocar a uma campainha e
desatar numa corrida desenfreada, como se estivéssemos a fugir de um zombie, de
um pitbull ou do Chuck Norris?
(Neste último caso, desiste: o Chuck Norris não corre atrás
de ninguém, roda o Mundo como se fosse uma passadeira do ginásio até apanhar a
pessoa.)
Claro que houve brincadeiras mais formadoras de cidadãos
exemplares. Jogos de futebol ou sessões de “chapada à antiga” formaram a nossa
personalidade e aumentaram a nossa agilidade, mental e física. Mas, quando não
havia mais opções, tocar à campainha era a solução. Esta actividade era como
aquele documentário sobre preguiças, que ninguém quer ver, mas que se torna
opção quando nenhum outro canal está a dar algo interessante. (Um documentário sobre preguiças mostra as várias formas de
dormir deste animal.)
Tocar à campainha e fugir era uma forma de passar o tempo. Era
isso ou estar quieto. Até uma certa idade da nossa vida, estar quieto é estar
doente. Depois, para alguns, estar quieto torna-se uma filosofia de
vida. (Mas essas pessoas não gostavam de tocar às campainhas.)
Tocar à campainha e fugir é como o “Ocean’s Eleven”, mas sem
o glamour de Las Vegas. Há um planeamento.
- Em que campainha tocamos? Na da velhinha do 2.º Esquerdo?
- Não, essa senhora é fixe, devolve a bola quando vai para a
varanda dela.
- No gajo do 4.º andar?
- O meu pai diz que esse gajo é cinto negro de Karaté e Judo.
Depois disto, há uma segunda opção a tomar: o momento de
tocar. Isto porque, caso um dos amigos não se aperceba do golpe, vai ficar
parado em frente à porta do prédio e vai ser ele o “culpado”.
Depois, a melhor parte: a fuga. A adrenalina. A alegria de
se ter incomodado alguém. Um joelho esfolado: havia uma casca de banana no chão
e um dos nossos amigos não reparou. Nós, que só pisámos cocó de cão, nem nos
sentimos tão mal por isso. O joelho esfolado é pior do que cocó de cão. Menos no cheiro.
Vem a isto a propósito dos russos, que andam com aviões e
submarinos a tocar às campainhas de vários países e a fugir. Dizem que os
russos são maus, mas afinal até parecem divertidos. Só estão a cometer um erro:
meter-se com Portugal.