quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tocar à campainha e fugir

Tocar a uma campainha e fugir é das actividades mais divertidas da vida. Já não faço isso, o que não deixa de me revoltar. Só porque ficamos adultos, qual era o mal de, de vez em quando, podermos tocar a uma campainha e desatar numa corrida desenfreada, como se estivéssemos a fugir de um zombie, de um pitbull ou do Chuck Norris?

(Neste último caso, desiste: o Chuck Norris não corre atrás de ninguém, roda o Mundo como se fosse uma passadeira do ginásio até apanhar a pessoa.)

Claro que houve brincadeiras mais formadoras de cidadãos exemplares. Jogos de futebol ou sessões de “chapada à antiga” formaram a nossa personalidade e aumentaram a nossa agilidade, mental e física. Mas, quando não havia mais opções, tocar à campainha era a solução. Esta actividade era como aquele documentário sobre preguiças, que ninguém quer ver, mas que se torna opção quando nenhum outro canal está a dar algo interessante. (Um documentário sobre preguiças mostra as várias formas de dormir deste animal.)

Tocar à campainha e fugir era uma forma de passar o tempo. Era isso ou estar quieto. Até uma certa idade da nossa vida, estar quieto é estar doente. Depois, para alguns, estar quieto torna-se uma filosofia de vida. (Mas essas pessoas não gostavam de tocar às campainhas.)

Tocar à campainha e fugir é como o “Ocean’s Eleven”, mas sem o glamour de Las Vegas. Há um planeamento.

- Em que campainha tocamos? Na da velhinha do 2.º Esquerdo?

- Não, essa senhora é fixe, devolve a bola quando vai para a varanda dela.

- No gajo do 4.º andar?

- O meu pai diz que esse gajo é cinto negro de Karaté e Judo.

Depois disto, há uma segunda opção a tomar: o momento de tocar. Isto porque, caso um dos amigos não se aperceba do golpe, vai ficar parado em frente à porta do prédio e vai ser ele o “culpado”.

Depois, a melhor parte: a fuga. A adrenalina. A alegria de se ter incomodado alguém. Um joelho esfolado: havia uma casca de banana no chão e um dos nossos amigos não reparou. Nós, que só pisámos cocó de cão, nem nos sentimos tão mal por isso. O joelho esfolado é pior do que cocó de cão. Menos no cheiro.

Vem a isto a propósito dos russos, que andam com aviões e submarinos a tocar às campainhas de vários países e a fugir. Dizem que os russos são maus, mas afinal até parecem divertidos. Só estão a cometer um erro: meter-se com Portugal.

Nós somos o gajo do 4.º andar. Cuidado.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Se fores educado, até podes explodir o planeta

Hoje, seguia eu no carro, numa faixa com prioridade, quando um condutor aproveitou o facto de eu circular a baixa velocidade para entrar na faixa sem a minha permissão, não sem antes me agradecer, com toda a amabilidade.

Inicialmente pensei “Olha que lata que este indivíduo tem, utilizando uma norma da boa educação como atenuante para o desrespeito de uma norma de trânsito”.

(Na verdade, não pensei isto tudo, pensei só “Estúpido, palerma!”.)

Mas, depois de uma análise mais cuidada, pensei “Olha que isto de utilizar uma norma da boa educação como atenuante para o desrespeito de uma norma de trânsito até tem algum potencial”.

(Na verdade, não pensei isto tudo, pensei só “Este gajo até é esperto”.)

Dei por mim a pensar que agradecer ou pedir desculpa são gestos com mais poder do que imaginamos. Acho que, se houver educação, podes fazer tudo o que te apetece. Até explodir o planeta.

Sair do café sem pagar
O prevaricador dirige-se ao balcão e diz “Obrigado por este serviço inestimável, prestado, não só a mim, como à sociedade. Espaços como estes tornam muito mais agradável a vida nesta cidade”. Depois, foge do local, sem pagar.

Depois de um acidente de viação
Um condutor culpado por um acidente dirige-se ao outro condutor e diz “Amigo, dê-me um abraço e aceite as minhas desculpas, uma vez que fui incauto e prejudiquei alguém cuja envergadura moral e a verticalidade acima de qualquer suspeita ilibam de qualquer responsabilidade no sucedido”. Feito isto, o condutor culpado foge do local.

Um assalto
O ladrão chega, abraça a vítima e diz “Muito, muito obrigado. Do coração. Mesmo”, rouba a carteira (neste caso, talvez a expressão “subtrai a carteira” se aplique melhor ao acto, uma vez que envolve educação) e foge do local.

Uma criança parte um vidro a jogar à bola
Antes do jogo, o pai de uma criança toca à campainha do vizinho e diz “Quero agradecer, em nome de toda a comunidade, o contributo que tem dado à nossa vida colectiva e o facto de deixar os nossos filhos jogarem à bola junto da sua janela. Antecipadamente, peço desculpa, caso o meu filho parta o seu vidro. Será um acto inadvertido e surgirá como resultado de ele ser um jogador dotado de um forte remate”.

(Este caso tem a particularidade de recorrer previamente ao agradecimento e ao pedido de desculpa.)

Um político vai aumentar os impostos
“Peço imensa desculpa, é com grande tristeza que anuncio que tenho que aumentar o IRS, o IVA e criar um imposto sobre a existência, que é um montante que os cidadãos têm que pagar pelo desgaste do planeta. Nem sabem o que me custa, sobretudo porque vocês são cidadãos exemplares que, nas próximas eleições, vão decidir o meu futuro.”

Pensando bem, não estou a ser muito original, uma vez que o último caso acontece com demasiada frequência.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Ferreira da Internet

O sr. Ferreira estava sempre actualizado, no campo da tecnologia. Tinha o telemóvel mais recente, com o cartão de memória com mais capacidade, embora apenas ocupasse 900 MB de um cartão de 128 GB.

“Posso precisar de armazenar umas coisas e preciso de espaço.”

Nessa mesma lógica, o sr. Ferreira tinha uma carrinha de nove lugares, para ele e para a esposa.

“Nunca se sabe se, um dia, teremos que evacuar o prédio, devido a um ataque dos russos.”

O sr. Ferreira tinha blogue, Facebook, Twitter e Instagram.

“O blogue é para partilhar com o Mundo as minhas teorias sobre a forma como os americanos nos manipulam e como vamos entrar numa nova Guerra Fria, mas menos fria, que há aí muita bomba para gastar. O Facebook é para encontrar amigos e ver umas gajas. O Instagram é só para ver umas gajas, que elas lá metem fotos em que estão mesmo boas. O Twitter é uma merda, porque não consigo escrever mais do que duas frases.”

A primeira publicação do sr. Ferreira no Twitter foi: “Eu gosto dos vinhos do Douro e os do Alentejo também são bons. Com os vinhos verdes já tenho mais cuidado, porque se beber muito fico de cag”.

Teve 89 partilhas. O primeiro sucesso do sr. Ferreira nas redes sociais.

Este aficionado da tecnologia tem uma máquina fotográfica profissional. Mas as melhores fotografias que tirou foram com o telemóvel.

“Ainda não me dediquei à máquina fotográfica. O material é bom mas exige paciência. Olhe, é como a minha mulher.”

O sr. Ferreira é um romântico.

Tem várias aplicações no telemóvel. "O meu telemóvel é uma espécie de canivete suíço: dá para tudo. Mas eu só uso o corta-unhas, porque foi o meu neto que instalou as aplicações e eu não ligo muito a isso. Excepto uma: ele instalou uma aplicação que faz o telefone tocar como um sino, sempre que abre a Bolsa de Tóquio. Ou seja, cá é de madrugada. Não sei como desligar aquilo."

Um dia, o sr. Ferreira estava no café, com o computador, o tablet e o telemóvel ligados à net. Segundo ele, a net estava a substituir a vida real, porque era mais divertida. Estava a ler as notícias, a consultar o e-mail e a sacar uns filmes (alguns dos quais eram pornográficos), quando uma mulher extraordinariamente bela passa do outro lado da rua. O sr. Ferreira, por momentos, esquece o que estava a fazer. O Martins entra no café e faz uma pergunta.

- Oh Ferreira, qual é a pass da net?

- Que se f*#& a net. Olha para ali.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O robô mais humano

O Poppy é um robô humanóide, feito numa impressora 3D.

(Se eu tivesse uma impressora 3D, fazia uma nave espacial. Ou um “transformer”. Não que eu quisesse um carro para combater vilões, era mais porque um “transformer” é mais fácil de estacionar. Se não houver lugares na rua, ele pode subir para o topo de um prédio e ficar lá à minha espera.)

O Poppy funciona com código de programação aberto, ou seja, qualquer pessoa o pode programar, de acordo com a utilização que pretende dar ao robô. Isto faz-me pensar que, se o robô se adaptar ao seu dono, podem surgir situações interessantes.

Imaginem que o Poppy é comprado pelo sr. Joaquim, um indivíduo com um índice moderado a forte de saloiice. O nome do robô seria imediatamente alterado para “Bobby”.

O Bobby deixaria de ser um especialista em cálculo integral, aritmética, álgebra e geometria, e passaria a saber contar cartas na sueca, o onze do Benfica ou a conduzir uma Zundapp.

O Bobby passaria a resolver as questões à chapada. Não precisaria de aceder à net, a não ser para ver uns vídeos de boxe no Youtube.

Uma das vantagens deste robô, segundo a equipa que o construiu, é a possibilidade de o utilizador o reconfigurar. Como é evidente, o sr. Joaquim iria remover algumas partes do processador do Bobby e iria trocá-las por mais hidráulicos nos braços (para o robô ser bom à porrada) e por um “escape com duas bufadeiras” (para que o robô se “peidasse como um homem”).

O Poppy pode interagir com outros aparelhos. Para o sr. Joaquim, o Bobby deverá apenas conseguir interagir com o assador, para se tornar um especialista em fêveras, “barriguinhas” e sardinhas.

O Bobby será mais humano do que qualquer outro robô. Não por ser do Benfica, por saber assar sardinhas ou por se peidar. Será mais humano porque, caso não o fosse, o sr. Joaquim mandá-lo-ia para a sucata. Ou trocá-lo-ia por uma Zundapp melhor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E se existissem pessoas "premium"?

Uma das palavras mais em voga, nos dias de hoje, é “premium”. Na televisão, há canais “premium”. Há serviços “premium” por todo o lado. Há cartões “premium”. Há gins “premium”, águas “premium”. Até já me falaram em Coca-cola “premium”.

Esta realidade sugeriu-me que o conceito poderia ser aplicado, com sucesso, às pessoas. 

Pessoas “premium”.

Imaginem que tinham um amigo que, embora fosse boa pessoa, era muito chato. Vocês ligavam para uma linha de apoio qualquer (existem aos montes) e pediam uma substituição do amigo. Como é óbvio, este serviço implicaria um custo, uma vez que estariam a fazer um “upgrade”: passar de um amigo normal, aborrecido, para um “premium”, que seria quase tão espectacular como o Chuck Norris.

Esse amigo, para além de não ser chato, perceberia imenso de mulheres, futebol, carros e videojogos (afinal, os assuntos que realmente importam). Saberia os números de telefone das miúdas giras, apresentá-las-ia, sem se intrometer, depois, no desenrolar da nossa interacção com elas. Seria do nosso clube (e isto é muito importante). Seria, verdadeiramente, “premium”.

Mas o conceito não termina aqui. Íamos a uma repartição pública e éramos atendidos por uma funcionária antipática e pouco competente. Ligaríamos para a linha de apoio e pediríamos um “upgrade”. Passaríamos a ser atendidos por uma funcionária muito bonita (não que isto seja determinante, é apenas um extra…), simpática e muito rápida no desempenho das tarefas. Teria, também, wi-fi incorporado, para podermos ir à net enquanto ela tratava da papelada. Seria uma espécie de “Robocop” da função pública.

Mas com mamas.

Grandes.

No fundo, o conceito “premium” divide as coisas entre as categorias “espectacular” e “é o que se pode arranjar, se não gostas, desenrasca-te, quem dá o que tem, a mais não é obrigado, embora isto não seja o que eu tenho, porque podes escolher 'premium' e pagar como deve ser”. As companhias de aviação já descobriram isto há muito tempo. O conceito ganha, agora, força noutras  áreas.

Mesmo no mundo dos blogues: o leitor pode sempre procurar um “premium”, em vez de estar aqui a ler isto. É o que eu faço.

Agora que penso nisso, se o meu blogue não é “premium”, então os meus leitores são-no, uma vez que insistem em voltar aqui.

Isso é um privilégio. Sobretudo, porque não paguei nada por leitores deste calibre. Pode ser uma promoção dos primeiros seis meses. Daquelas que servem para um gajo, depois, não querer outra coisa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Livro de Reclamações

Noutro dia, ouvi um director da Imprensa Nacional Casa da Moeda a dizer que um dos livros com mais procura, entre os produzidos naquela instituição, era o “Livro de Reclamações”.

Uma vez que possuo uma das mentes mais prodigiosas da minha geração, ou apenas porque sou parvo, dei comigo a pensar numa possibilidade que tornaria o “Livro de Reclamações” num objecto literário: e se houvesse alguém para escrever as nossas reclamações numa linguagem mais artística? E se fosse em verso? Eis um exemplo.

“Parei ali naquela tasca,
quis um panado e um copinho.
Mas a casa era tão rasca,
não tinha nem um petisquinho.

Mantive a paciência,
pedi um café e um bagaço.
Mas, sem mostrar grande ciência,
O dono fez de mim palhaço.

O café serviu-mo a sós,
enquanto mexia numa panela.
O bagaço, cá entre nós,
acho que veio com cuspidela.

Pedi o “Livro de Reclamações”,
“Isto é uma vergonha!”.
Ele expulsou-me aos encontrões,
“Vai-te embora, tens peçonha!”.

Foi por esta aventura
que deixei de ir a tascas.
Só vou a sítios com frescura,
das maçãs só como as cascas.

Passei a ser mais refinado,
não perdi a esperança.
Escolho sítios com cuidado,
subi o nível de cagança.

Escrevi esta reclamação,
num poema estruturado.
Mas não esqueço o que queria:
um copinho e um panado.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O homem que inventa nomes de vinhos

Gostava de saber quem é que escolhe o nome para os vinhos. Aliás, eu tenho uma teoria sobre isso: Existe um homem, fechado num quarto, para o qual atiram comida, água e cigarros, que inventa nomes de vinhos.

E de jogadores de futebol brasileiros. De que outro contexto poderiam surgir nomes como Givanildo, Rivaldo ou Ednardo?

 O homem que inventa nomes de vinhos tem as paredes do quarto cheias de folhas escritas com palavras. Depois, faz combinações, com maior ou menor grau de aleatoriedade.

- Precisava de um nome para um vinho.

- Herdade do Bochecho.

- Muito bom.

Imaginem alguém que tinha um avô muito forte e queria homenageá-lo com o nome de um vinho.

- O seu avô era alto?

- Era.

- Lugar do Penedo.

Um indivíduo com um grau de estupidez demasiado elevado procura o homem que inventa nomes de vinhos.

- Quero a imortalidade, através deste vinho.

- Tenho o nome ideial: Quinta do Cepo.

- Cepo? Porquê cepo?

- Porque os cepos podem ser a base de alguma coisa. Como o senhor é a base deste vinho.

- Gostei.

- É por isso ou por “cepo” poder designar estúpido.

- Prefiro a primeira.

Se mantivermos esta lógica, como explicar os nomes dos vinhos Quinta da Cesta e Herdade do Rego?

Claro: eu ia acabar por exceder os limites e entrar na javardice semântica. Só podia. E fi-lo porque, enquanto escrevo, bebo um ou dois copos de “Lugar das Seiras”. Não sabem o que são seiras? São cestas. Sabem o que são cestas?

Agora a sério, vamos parar com esta palhaçada. Não dou dois parágrafos e estou a dizer que o homem que inventa nomes nomes de vinhos gosta de um Alto da Picha, maduro tinto. Ou de um Carreiro do Riacho. Branco. Fresquinho.

Também há outra hipótese: os vinho adquirem nomes dos lugares onde são produzidos. E, nesse caso, há um homem que inventa nomes de lugares.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pessoas que contam histórias confusas

Adoro pessoas que se perdem nas histórias que contam. Se preferirem um termo com mais cagança, gosto de pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas.

(Esta segunda designação não só me permite revelar um vocabulário mais rico, como conserva a dignidade deste tipo de pessoas. Há quem lhes chame, apenas, “pessoas chatas”.)

Gosto de dizer a alguém algo como “Estive em Alvalade a ver o meu Sporting” e ter uma resposta como:

“Engraçado, estive com um primo, há tempos, num jantar de aniversário, de uma amiga minha que é investigadora numa universidade e que está a desenvolver um tipo novo de plásticos. Ela até está para casar com um gajo que é dono daquela empresa que lançou, há pouco tempo, aqueles piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Por acaso o gajo é porreiro, jogo à bola com ele às quintas-feiras, ele dá um bocado de lenha, mas joga bem. Noutro dia, por acaso, até ia levar duas solhas de outro gajo que joga comigo, aquele Armando, o barbudo, que anda no ginásio, o gajo parece um armário, se lhe desse uma chapada bem dada, estendia-o no chão. Mas os nossos jogos nunca tiveram problemas. Bom, tiveram uma vez, quando nós estávamos a ganhar 8-1 e um gajo da nossa equipa começou a dar toques, quando estava na baliza. As coisas iam dar para o torto. Mas esse meu primo também é do Sporting”.

Há algo mais mágico do que pessoas que contam histórias com demasiadas ramificações narrativas? Que jeito deve dar esta capacidade.

Num restaurante caro

- Ora aqui está a conta.

- Muito bem, 487 euros. Sabe, uma vez, em Florença, paguei quase isto por uma tosta mista e um sumo de laranja. Estava com a minha esposa, na altura, namorada, e até comentei “Já viste como esta conta é um tudo-nada exagerada, face ao que eu consumi?”. Eu até disse ao empregado que eles estavam a ser um bocado gatunos, disse-lhe em italiano, falava mais ou menos, na altura, porque tinha um tio que tinha uma padaria-pastelaria-churrasqueira-marisqueira em Milão e eu ia visitá-lo, no Verão.

Perante esta avalanche de informação, o empregado arranja uma desculpa para abandonar a mesa por alguns instantes. O suficiente para fugir sem pagar.

Numa “operação stop”.

- O senhor condutor passou aquela linha contínua.

- Por acaso, senhor agente, foi o meu primo que pintou aquela linha contínua e ele coloca em causa a própria continuidade da linha. Ele é pintor pós-moderno e gosta de questionar coisas como essa, ou como o sentido da vida. Ele começou como escultor, mas uma vez esculpiu um objecto um pouco fálico, em cima do carro do vizinho, e quase levou nas trombas. Para não ter mais chatices, dedicou-se à Literatura. Mas não gostava de escrever. Tenho um amigo que escreve bem, mas não tem muito tempo, porque está sempre em viagem. É vendedor de uma empresa de piaçabas eléctricos rotativos, com wi-fi. Já o meu primo acabou na pintura. Ainda pintou duas ou três gajas boas, mas depois dedicou-se às linhas-quase-contínuas. Como aquela.

O polícia dá sinal ao colega, que liga a sirene do carro-patrulha.


- Peço desculpa, mas vou ter que sair. É uma emergência.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Música no telemóvel

Há dias, a propósito de um texto que escrevi sobre pessoas que falam alto ao telemóvel quando têm alguém por perto, alertaram-me para outra realidade interessante: as pessoas cujo toque do telemóvel é uma música.

Primeiro ponto: toca sempre alto. Muito alto. Toca tão alto que já houve pessoas descobertas no meio de florestas densas pelo toque do telefone. Já houve pescadores que se orientaram no mar pelo som de telemóveis a tocar.

Segundo ponto: as músicas revelam sempre um elevado gosto musical. Quando um telefone toca, nestas condições, há três tipos de reacções, por parte de quem se encontra perto: “quem é que tem isto como toque do telemóvel?” ; “como é que eu entrei numa discoteca e não percebi?”; “em que planeta estou?” (toca tão alto que pode afectar a percepção espacial).

Estes toques de telemóvel conseguem mudar os cenários envolventes. Imaginem o comboio, às oito da manhã, num dia de chuva. Toda a gente com sono. Começa a tocar “Bo Tem Mel”. Os passageiros levantam-se, formam pares. Tudo a dançar.

Uma repartição pública cheia de gente. Uma fila interminável. Rostos de aborrecimento profundo. Começa a tocar “Apita o Comboio”. A fila interminável fica maior, pois a esta juntam-se os funcionários da repartição. Começa a festa.

Estádio de futebol. Jogo com resultado de 0-0. Nenhum remate à baliza, em quase 45 minutos. Começa a tocar “Depois de Ti Mais Nada”, de Tony Carreira. Os adeptos de uma e outra equipa levantam-se e cantam abraçados. Forma-se a tradicional “Hola” mexicana.

Um grupo de amigos na praia. Tudo a tostar, ninguém fala. De repente, toca um telemóvel, com a música da série "Marés Vivas". Começam todos a correr com muito estilo (e em câmara lenta, como é evidente), à procura de alguém para salvar.

Uma vez que só na praia daquela série havia tanta coisa a acontecer, eles voltam, poucos minutos depois, para as toalhas. Tudo a tostar, outra vez.

Gostava que os telemóveis tocassem mais baixo e com outras músicas. Imaginem uma tasca cheia, tudo a ver futebol. De forma quase imperceptível, toca um telemóvel. Enquanto se discute um cartão amarelo, um gajo lá atrás diz: “A 5.ª sinfonia de Beethoven está a tocar num telemóvel. De quem é?”.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Precisamos de contadores

Hoje, ninguém corre sem tecnologia colada ao corpo. O Rocky corria na rua, nada de acessórios. Hoje, o telemóvel diz quantos quilómetros fizemos, qual a velocidade média, quantas calorias queimámos, quantas miúdas giras encontrámos no caminho.

E se este conceito fosse transposto para outras áreas de actividade?

Trabalho
Contagem de tarefas executadas, tarefas por executar, horas-extra realizadas, miúdas giras na empresa

Sexo
Horas em cada posição, horas de preliminares, tempo médio de cada relação, relações não concretizadas devido a dores de cabeça, miúdas giras

Facebook
Horas perdidas, vídeos de gatos fofinhos, frase sobre a vida ou motivacionais, “likes” nas nossas publicações, miúdas giras

Futebol
Palavrões ditos durante os jogos, penalties roubados ao nosso clube, estatísticas, miúdas giras no estádio

Jantares
Brindes sem motivo aparente, miúdas giras (tudo o que interessa num jantar)

Noite
Copos, álcool no sangue, encontrões, números de telefone conseguidos, miúdas giras, miúdas giras, miúdas giras

Casamentos
Rissóis ingeridos, garrafas de vinho, momentos lamechas protagonizados pelos amigos dos noivos, convidados sem gravata devido ao álcool ingerido, convidadas giras


Pensando bem, só precisamos de um contador de miúdas giras.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Não chega pedir desculpa

O inventor dos “pop-up”, aquelas janelas irritantes que abrem sozinhas, quando navegamos na Internet, pediu desculpa pela invenção.

OK, amigo. Depois de milhões de janelas terem incomodado milhões de pessoas, ainda vais a tempo. É como um bêbado partir uma tasca de ponta a ponta e, no dia seguinte, ir lá dizer que se excedeu.

Pois é, não chega.

Foram janelas atrás de janelas. Janelas dentro de janelas. Na janela do quarto, na parede do quarto. O gato deitou-se na secretária e abriu uma janela no focinho. Foi lá com a pata e abriu uma janela na secretária. Fomos dormir e tínhamos uma janela na almofada.

O inventor dos “pop-up” tem que fazer muito mais, para compensar a Humanidade. Fiz uma pequena lista (tendo em conta a dimensão do erro) das acções que ele tem que realizar, de forma vitalícia, pelas pessoas lesadas.

Preencher o IRS

Esperar nas filas das repartições públicas
Esta compensação implicaria preencher papelada e fazer conversa da treta com aquela pessoa chata que está ao nosso lado.

Descascar os camarões
No caso das pessoas alérgicas a marisco, ele podia descascar amendoins.

Nas Universidades, ir às aulas das oito da manhã, ou às aulas de duas ou três horas, pelas pessoas lesadas
Inclui fazer apontamentos e resumir o essencial da aula. Não inclui estabelecer proximidade com alunas giras.

Atender as chamadas feitas às quatro da manhã por amigos bêbados
Inclui conversar um bocado.

Atender as nossas chamadas provenientes de linhas de telemarketing
Inclui ser educado com as pessoas e ouvir tudo o que elas tiverem para dizer.

Aturar os adeptos dos outros clubes, quando estes estiverem a provocar-nos
Se houver chapada, há que assumir a responsabilidade.

Fazer as malas e carregá-las, antes das férias

Emprestar o carro, quando surgir um imprevisto

Só não incluo fazer as endoscopias ou colonoscopias pelas pessoas lesadas, porque isso iria afectar a eficácia dos exames.

Para finalizar, o mais importante:

Fechar as janelas de pop-up a toda a gente!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Pessoas que desarrumam tudo

E aquelas pessoas que desarrumam tudo nos centros comerciais? Mexe, remexem, se encostam, se enroscam…

Espera, isto é a letra de uma música do Marco Paulo.

Aquelas pessoas que mexem em tudo e não compram nada. Se pudessem, levavam uma retroescavadora e tiravam os carros todos do lugar, no parque de estacionamento. Depois de estacionar, encontravam um lugar melhor e lançavam novamente o caos, para estacionar naquele lugar. Iam à loja dos gelados e lambiam todos os sabores, antes de escolher. Deitavam todos os perfumes da perfumaria e conseguiam expulsar os outros clientes do centro comercial, dada a intensidade quase mortífera do cheiro que dali resultaria.

Sempre sem comprar.

Iam à loja de desporto e chutavam todas as bolas para o exterior da loja.

Confesso que adorava fazer isso!

Iam a uma livraria e começavam a ler os livros todos. Ao fim de três páginas, percebiam que tinham mesmo que ler tudo, se quisessem saber a história, e pousavam os livros. Fora do lugar.

E se este conceito fosse levado para fora dos centros comerciais?

Haveria pessoas que experimentariam todos os parceiros possíveis para ter uma relação.

Hmmm, já existem pessoas assim.

Haveria pessoas que sairiam à noite e beberiam tudo.

Hmmm, já existem.

Haveria pessoas que, a ouvir música, não deixariam nenhum tema acabar, por estarem sempre a mudar.

Hmmm, já existem.

Haveria pessoas que, se fossem para o Governo, tentariam todo o tipo de soluções, ao sabor da opinião pública.

Hmmm, já existem.

Haveria pessoas que, a treinar equipas de futebol, nunca saberiam quem escolher.

Hmmm, já existem.

Haveria pessoas que diriam tudo e o seu contrário.

Hmmm…

Estamos cercados por pessoas que desarrumam tudo. Escondam as retroescavadoras!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Arte pré-histórica

Um grupo de investigadores descobriu uma gravura feita por um Neandertal, que poderá constituir a prova de que esta espécie possuía capacidade de raciocínio e de expressão.

Aposto que vão convidar um especialista em Arte, de um museu qualquer, para interpretar a gravura. Ele vai dizer algo como:

“Esta gravura é a mais antiga demonstração das dúvidas, dos anseios e dos medos do ser humano, aqui representados por um antepassado da espécie. No meio da permanente e cruel luta pela sobrevivência, este ser aproveitou algum do seu precioso tempo de descanso para expressar um sentimento, uma vontade, um desígnio. São manifestações como esta, saídas dos contextos mais improváveis, que conferem à Arte uma superioridade perante todas as outras áreas da actividade humana. É isso ou outra coisa qualquer que eu agora quero ir almoçar, porque ainda tenho que ir a outra galeria e já estou atrasado”.

Tenho ideia de que o que aconteceu foi diferente. O Neandertal chegou à sua gruta, cansado de um dia de trabalho, deu um beijo à esposa, fez um ar cansado e começou a experimentar os instrumentos de caça.

Na parede.

Enquanto o fazia, pensava coisas como “este material só pode ser dos chineses, não aguenta nada” ou “com esta lança, posso dormir descansado, isto até fura a parede”. Estaria a testar o material e, ao mesmo tempo, a pensar que aqueles furos na parede podiam dar jeito para colocar uma estante ou pendurar um quadro ou um cachecol do Benfica.

Esperem, não havia livros. Não havia quadros. Não havia Benfica.

Mas, talvez houvesse mais do que isso. O Neandertal poderia pensar que era uma pena ele não ter jeito para artes. O primo dele até tinha feito uma exposição, numa gruta ali perto. Mas ele, nada. Gostaria de poder expressar-se através das gravuras. E de dizer algo como:

“A gravura é uma excelente demonstração das dúvidas, dos anseios e dos medos do Neandertal. No meio da permanente  e cruel luta pela sobrevivência, podemos aproveitar algum do nosso precioso tempo de descanso para expressar um sentimento, uma vontade, um desígnio. São manifestações como esta, saídas dos contextos mais improváveis, que conferem à Arte uma superioridade perante todas as outras áreas da actividade neandertalense. É isso ou já comia qualquer coisa”.

Mas, no fundo, aquilo foi só riscar pedra com lanças.